
Ser filho único é foda!
Julho, 13 - 2009Você que veio aqui me ler deve estar se perguntando se o sentido da frase acima é positivo ou negativo; afinal, “foda” é a palavra de maior amplitude semântica da língua. Respondo: é pra ser ambíguo mesmo. Na minha vivência de filha única já experimentei todas as gradações entre o ”idílico” e o “terrível”. Então posso resumir assim: é foda!
Agora pouco, num momento “auto-ajuda”, eu pesquisava no google sobre filhos únicos e não encontrei nenhuma definição que me convencesse, achei tudo para pais e nada para filhos. Então resolvi dar aqui meu testemunho (aleluia, irmão!).
É claro que eu não escolhi ser filha única. Meus pais escolheram por mim. Aliás, me sinto filha única ao quadrado, porque além de única sou quase-temporã e fruto de 8 longos anos de tratamento contra infertilidade. Mais um pouquinho e talvez eu tivesse estreado na proveta.
Tenho certeza de que fui um bebê extramamente desejado (como todos os bebês deveriam ser), e essa é a glória e a desgraça que deu o tom na minha infância, na adolescência e, acredite se quiser, é uma coisa que me influencia até hoje.
Semana passada li no jornal a entrevista com um poeta, já idoso e órfão, ele dizia que ser filho único foi uma das coisas mais brutais que lhe aconteceu, porque “filho único não tem o direito de falhar”. Digo mais até: com o Cazuza aprendi que pega muito mal filho único morrer, porque a gente não tem estepe. E é desse modo que, destinados a sermos imortais e infalíveis, nós filhos únicos quase não sofremos pressão.
Vá lá. A sensação que tenho é que ser filho único não é bom nem ruim, mas certamente intenso. As vantagens e desvantagens se equilibram de um jeito meio desequilibrado. O filho único fica perdido nessa equação complicada entre a falta de irmãos e o excesso de pais – e em se tratando dos meus pais, essa é uma conta muito alta!
Existe um estereótipo aí no mundo-das-ideias-sem-dono que sugere que filhos únicos são crianças mimadas, egocêntricas, manipuladoras, chantagistas… É um preconceito que nunca me incomodou; se bem que tive um chefe (felizmente, ex-chefe) que certa vez usou isso pra me criticar: “Seu mal foi ser filha única!” – simpático, não?
Encontrei algumas pesquisas dizendo que filhos únicos não são aberrações da natureza (ufa, me sinto melhor agora), que são crianças igualmente sociáveis e tão competentes quanto crianças que tem irmãos. Há pesquisas (por exemplo, esta) que mostram ligeiras diferenças, como: filhos únicos teriam um amadurecimento psicológico precoce (em virtude da maior convivência com adultos), um vocabulário mais amplo (pelas mesmas razões), seriam mais responsáveis e preocupados com os deveres (cobrança, investimento de tempo e dinheiro em educação), seriam menos propensos a abuso de álcool e drogas (maior vigilância dos pais?), teriam uma iniciação sexual mais tardia (a mesma razão??), passariam mais tempos em atividades solitárias como navegar na internet (óbvio!), teriam uma auto estima mais elevada (nenhum irmão pra rir das espinhas) e – veja que interessante – teriam maiores chances de se identificar como homo ou bissexuais em comparação às pessoas da mesma idade que têm irmãos (alguém explica isso?). Depois de ler esses dados cheguei à conclusão que estatística é uma merda, ela me descreve!
Mas eu vim aqui dar meu testemunho, lembra, irmão?
Ia dizendo… Não sei porque aconteceu. Talvez porque meus pais sejam responsáveis o bastante pra ter feito as contas na ponta do lápis e chegar à conclusão de que não dava. Minha mãe diz que é porque não veio (eles não iriam enfrentar outros anos de tratamento). Eu, de criança, dizia que preferia não ter irmãos. E todos sabemos que não há nada de errado nisso.
Ser filha única é indolor na maior parte do tempo. Não me dá desconto no cinema. Não é digno de assento cinza no metrô. Não é tema de feriado nem de parada na Av. Paulista. Aliás, ainda não cheguei a uma conclusão se deve ser motivo de orgulho pra alguma coisa. Tanto faz como fez. Fez?
Claro que faz diferença! As vantagens? A maior delas foi o investimento pesado em educação, que incluiu desde a melhor escola que dava pra pagar até a terapia das chineladas catalisadoras de lição de casa - “o quêêê? Filho único apanha?” Sim, também apanha, e geralmente de pessoas mais altas e mais fortes do que eles. - Mas foi um certo luxo. Não apanhar, digo, estudar. Faz sentido se pensar nessa vidinha de classe média, sempre equilibrada na lei máxima da economia e no milagre da multiplicação das contas pra pagar. Estudei a vida toda em colégio particular; fiz cursos intermináveis de inglês e espanhol; tive até o mimo de um cursinho que me permitiu atingir a tão sonhada universidade pública. Tudo o que deu pra minha família pagar. Mas antes que alguém me diga que isso foi muito fácil, replico: ralei pra caráleo! SEMPRE tive bolsas de estudos, conquistadas e mantidas por bom desempenho.
Como filha única tive muitas coisas, sim. Bonecas, carrinhos, videogame e bichos de estimação. Festinhas de aniversário literalmente obrigatórias. Fui uma menininha terrível, elétrica, bagunceira, com uma hiperatividade jamais diagnosticada. Meus pais trabalhavam fora, eu passava os dias na casa dos meus avós e eles eram ainda menos cerimoniosos quanto às chineladas pedagógicas. Fazendo-lhes toda justiça: os velhinhos não tinham tempo de me mimar.
As pessoas costumam citar mais uma vantagem: ser o único herdeiro. Parece bom, sobretudo quando seus pais conquistaram algo na vida. Mas tenho a impressão de que esse benefício é compensado pelo fato de ser também o único responsável pelos pais idosos. Você já cuidou de um idoso?
Pois é, acho que chegou o momento de falar nas desvantagens…
Quando minha mãe se aposentou passei a ficar integralmente na casa dos meus pais, então senti o peso dessa coisa de ser “única”, pois isso começava a significar que também seria “sozinha”. Eu estava crescendo, ficando mocinha, e meus pais são de uma espécie superprotetora sufocante que nunca me deixou sair das vistas ou além da porta do apartamento. Por uma razão que não sei explicar, tinha dificuldade de socialização na escola e não me dava bem com as crianças do prédio onde morava. Resultado: enclausurada, passei anos da minha vida numa solidão que ainda hoje me faz tremer quando páro pra pensar. Meus pais eram esforçados, mas bastante indialogáveis. Tem explicação: nessa época passaram pela maior crise financeira da vida deles, com uma empresa em falência, estavam a ponto de dar os rins para que eu não saísse da escola. Cortaram todos os gastos desnecessários. Eu não saía pra passear no shopping como as outras crianças. Não tinha amigos, só rudimentos de amizade e uma vaga vida social. Não ia pro cinema nem pra matinê. Não tinha dinheiro. Não tinha roupas novas, as velhas iam ficando apertadas. Nenhuma esperança de namorar. E o que é pior: não tinha ninguém pra conversar. Você entende melhor quanto pesa o ”ninguém pra conversar” quando ainda criança sabe que é gay e não pode contar pra ninguém porque não há sequer uma pessoa ao seu redor que não iria lhe deixar pior, a psicóloga é um luxo fora de alcance e sua mãe está em desespero dizendo que é ingratidão ser infeliz porque seus pais se sacrificaram para lhe dar tudo.
Ai! Agora pegou pesado. Mas foi. Foi pesado. E nem tão passageiro: durou dos 8 aos 16 anos, com uma infinidade de problemas e outras crises que não cabem listar aqui.
O que eu queria dizer é: se você um dia tiver um filho único, cuidado para não isolá-lo a ponto da solidão entrar nos ossos. Porque depois que entra, não sai mais. Ajude ele a ter amigos. E se puder, seja amigo dele.
Eu só fui ter os meus quando apareceu a internet, me dando anônimos do outro lado da conexão com quem podia conversar. E a muito custo conseguia, pois meus guardiõs viviam desconfiados e enciumados dessa coisa duvidosa e perigosa que é a internet. No entanto, minha vida externa só começou por causa e a partir dela. Foi uma feliz coincidência, não quero imaginar o que seria se tivesse passado sem.
Às vezes acontece do filho único já ter crescido e ainda sofrer os excessos. Excesso de expectativas. Porque ele não está satisfeito em seguir a vida que os pais querem pra ele (assistiu Sociedade dos Poetas Mortos?). Tem pais que não se satisfazem em ter vidas próprias e ainda querem controlar toda a descendência.
Tem uma série que assisto diariamente. Outro dia aconteceu da garota, filha única, dizer:
- Meu sonho é ser escritora e deixar uma obra.
E a mãe, seriamente ofendida, responder:
- Você não pensa no futuro??? Não pensa em dar uma velhice digna pros seus pais??!! Tem que se preocupar em sustentar a casa, pagar as contas…
Detalhe: percebe-se na cena que a família não é pobre. A filha replica:
- Mas qual a relação entre ser escritora e não poder pagar as minhas contas? Uma coisa não anula a outra. Não pretendo arrumar filhos e posso muito bem me sustentar…
- Mas você não tem como saber se vai ter filhos ou não!
(pfffff!!!)
- MÃE! Além de ter nas costas os meus pais você ainda quer que eu arrume FILHOS?!!
Outras vezes entra o papo de sair de casa, porque a filha está aflita por aliviar as despesas dos pais o quanto antes, e nessa hora a mãe a ataca com a cena da ingratidão. Depois que a discussão termina cada uma se mete muito contrariada em seu canto e entram os créditos finais. Sempre tem um episódio novo no dia seguinte, com discussões semelhantes, razões diferentes, mas em alturas e tons variáveis. Todos os dias. Ad infinitum.
E assim fica claro que às vezes a satisfação dos pais e os sonhos do filho são mutuamente excludentes. Se você tiver um filho único, segure os seus anseios o quanto puder, por favor, não queira controlar a vida dele, não tente moldá-lo à imagem e semelhança dos seus desejos se isso significar atropelar os desejos mais caros dele.
Tá certo que todos os filhos são únicos. Mas a sina do filho único tem um quê de cruz (acho que é por causa de uma história que li na bíblia sobre um filho único que ficou bastante famoso). Enfim, ser filho único pode provocar sintomas estranhos, como desejar ser um pouco mais dispensável, ou passar a noite insone escrevendo pensamentos desencontrados, começar um texto irônico e terminar com clima de velório, ou fazer planos de se mudar para a Austrália, que é a menor distância que se quer ter dos problemas.
Acho que sair de casa já seria um bom começo.
E tem gente que ainda pensa que ser filho único é passaporte para o mimo. Experiência própria: não é!







Uaaaau, bem interessante sua confissão. Sempre tive curiosidade em saber como era ser filho único, o modo como era tratado, sem brigas com irmãos…Você consegue deixar bem claros os pontos positivos e negativos. Gostei do seu blog tbm, vou acompanhá-lo. Beijos!
Eu não sou filho único, mas muitos meus amigos são e posso lhe dizer que você sintetizou bem a realidade, mostrando os aspectos positivos e negativos.
Acho teu blog muito bom!!!!
Puxa, que coisa Oo
Não sabia que era um pouco duro levar vida de filha única… E realmente essa parte de “pedir netos” é EXASPERANTE! Tem aquela conversa de “quem vai cuidar de você quando ficar velha”, “quero ser vó”, “quero ser tia” e blablabla. Não sei porque que toda mulher que vem ao mundo tem obrigação de ter filhos. Já tem gente demais no mundo… e meu, isso é uma escolha particular!
Demora um pouco, mas mais cedo ou mais tarde os pais saberão que as decisões de vida cabem aos filhos, sejam eles únicos ou não.
Owww
Estranho como muita das coisas que diz eu vivi como filho sanduíche de 5 irmãos (4 irmãos e 1 irmã).
Solidão no meio da multidão também é dose!
Excelente texto, entre os seus melhores na minha humilde opinião! Parabéns e continue a nadar…
Olha pelo lado bom, Cris. Você nunca em toda sua vida teve ou terá que ouvir:
“Meu filho, suas irmãs são tão esforçadas, vão tão bem na faculdade. Porque você não está indo bem?”
Isso é ainda mais “agradável” de ouvir quando você tem uma irmã que acaba de fechar duas faculdades juntas com notas estupidamente altas e está indo para a Europa, com 80% de bolsa de mestrado em universidades na Polônia e na Áustria. E a mais nova está caminhando na mesma direção com resultados similares.
Apesar disso eu não posso reclamar muito. Afinal, eu me orgulho muito das minhas hermanas fodonas e só ouço comparações quando caio na besteira de buscar um pouquinho de incentivo verbal com meus pais para ver se me sinto estimulado a encarar a tese com mais força de vontade. E olha que considero meus pais um exemplo raro de pais altamente acessíveis e compreensíveis.
Lendo sua confissão, digo que algumas coisas não são exclusivas de filhos únicos, pois as vivi também. Talvez porque sempre fui o único filho em casa com alguma disposição para fazer as coisas que minha mãe pedia, além de ser o único filho homem e o mais velho.
E quanto a morar fora de casa… só procure não tomar uma distância muito grande da família. Eu moro a quase mil quilômetros da minha e tem hora que é absolutamente foda. No mau sentido mesmo.
Nem sempre paramos para pensar em como os pais, os irmãos, os amigos e outras pessoas que conhecemos ou não chegam a nos definir. No caso dos irmãos, há uma parte de nós fortemente definida pelo número de irmãos mais velhos, mais novos, seus sexos, suas distâncias no tempo e, é claro, sua ausência. Acho que são configurações múltiplas e incontornáveis. Mas, fazer o quê? Achei interessante você comentar isso logo após a leitura de um dos casos que mais explora isso na ficção fantástica, o Harry Potter.
Concordo com o Geraldo que devemos, de vez em quando, ver a família sempre que possível. Porque tem hora que precisamos mesmo da família e o que fazer quando estão longe pacas?
É por isso que curto ir quase todo fds para vê-los, estou aproveitando o tempo =)
Qualquer coisa que eu comentar será bobagem.
Mas eu queria poder ouvir isso mais do que tudo. Te ler faz eu querer te ouvir. E te ver.
Muito bom o seu texto, Cris.
Racionalizar assim o seu relacionamento com os seus pais ajudar a colocar a coisa toda em perspectiva e serve como um desabafo.
Não se aflija não, o tempo vai dar resposta para tuda…
Cris, também sou filho único, pra piorar durante anos ainda fui o “neto único”, em que as expectativas se elevaram ao cubo…
Minha esposa é a única mulher, caçula de 4 irmãos…. de certa forma ela também se sentia “filha única” no meio deles.
E, o que o Luís Eduardo falou, faz sentido; tenho vários primos e sempre houveram as inevitáveis comparações, parece que eles sempre faziam tudo certo e melhor que eu…. anos depois é que percebi a mecânica do comentário: só compare para criticar seu próprio filho / neto, para que a competição faça com que ele melhore, mais Darwiniano impossível.
Sim, agora que virei Pai percebo que é inevitável termos as nossas expectativas, só pra você saber minha família queria que eu seguisse a carreira militar
( eu, hein…..
Mas, por outro lado, seus Pais tem uma enorme vantagem competitiva sobre você: a experi~encia dos anos que já viveram, as coisas certas ou erradas que já fizeram e que, sinceramente, não vão querer que você cometa os mesmos erros.
Exemplo meu: a Esther, com um ano e 7 meses, ainda insiste em andar ser olhar, em dar passos para trás…. vira e mexe ela cai e se machuca um pouco… mas será que essa menina não sabe ?? não escuta o que eu falo ??? Não, como qualquer ser humano ela tem o seu ritmo e preferências, o dia que se cansar de ter machucados irá parar de cair tanto…. ou seja, EU é que aprendi que, por mais que eu queira não dá pra queimar etapas e muito menos “transplantar” as minhas experiências de vida pra ela.
Será que isso faltou aos seus pais ?? Ou eles são melhores que eu (sem ironias), não perdendo a esperança até hoje ??
Veja que, quando ficamos adultos, olhamos a nossa própria infância como espectadores, não mais como protagonistas…. mas, na época, os protagonistas eram aqueles lá, com aquelas experiências e idéias, não as de hoje em dia (tanto você como seus pais).
Sim, minha infância teve momentos tristes que preferiria que fossem só pesadelos, mas tiveram momentos felizes que nunca vou esquecer.
Isso é a vida, bem-vinda !!!
Beijos do Tio Ivo
Oi, Cris!
Eu sou a irmã mais velha de um trio de irmãos.
Muito do que Você descreve também passei, pior ainda, por ser a única da família a ser “obcecada” por informação, arte, cultura, educação.
As “chineladas pedagógicas”, a solidão, a sensação de inadequação…Aff!
De certa forma, tornei-me “filha única”.
Tentei ser independente, morar sozinha, mas a depressão que se abateu sobre a matriarca, com minha decisão me fez voltar para casa. E olha que meus irmãos ainda não haviam casado…
Meu irmão resolveu que meu sobrinho mais velho precisava de um irmãozinho. Minha irmã, mãe recente, decidiu que minha sobrinha será filha única.
Vou imprimir seu relato e guardar para ela ler, quando o “tufão” da maternidade passar.
E como diz aquela música em relação a nossos pais:
“São crianças como Você.
O que Você vai ser quando Você crescer.”
Grata pelo seu relato, Menina.
Já não me sinto tão única e só.
Beijos mil!!!
Cristina, partilho totalmente a tua dor
Bravo!
(no sentido operístico de “foda”)
Alinhavando com outro post, suponho que J.L.Borges tenha experimentado o “filhismo único” enquanto conviveu com a mãe idosa. Ainda mais intenso, com a relativa dependência que a cegueira proporciona. Deixo aí um tema para suas divagações…
Amo seus textos. E, prepare a caneta para muitas dedicatórias.
Um abraço fraterno
(daqueles que somente um filho único sabe dar)
A vida de ninguém é fácil, concluí afinal!
Ser a mais velha de uns 30 primos não foi lá a maior das maravilhas, numa família bastante jovem e semi-analfabeta, recheada de metalúrgicos…rs.
Sou mãe de filha única e que continuará sendo única e acho que a vidinha dela é até mais normalzinha que a minha, ela tem amiguinhos, não sofre o tal bullying (nome bonito pra gozação) como eu (por ser nerd).
Filha mais velha, que gosta de rock, de literatura e de ficção científica, toma cerveja e fala palavrão e, ainda por cima, mãe solteira?
Socorro!
Beijão, Cris, e boa sorte na finalização da sua tese!
Filho/mãe/neto/avô: questão de ponto de vista! O°
Adorei o seu relato. Precisava muito ouvir a opinião de um filho único, pois não pretendo ter mais filhos. Tenho apenas um garotinho de 1 ano e 4 meses e já me sinto realizada.
A única coisa que me faz pensar em ter outro filho é o cansaço de ser cobrada pelos outros. É incrível! As pessoas se acham no direito de fazer o seu planejamento familiar. É tão difícil as pessoas aceitarem o fato de você querer ter só um filho.
De tanto ouvir sermões, adotei a tática de dizer que não estou evitando filhos, apenas não aconteceu. Parece covardia, mas é que cansa. Decidi ir levando a estória com a barriga e, como já tenho 34 anos, o tempo vai passar.
Não costumo me incomodar com a opinião alheia, mas é que, quando se fala em planejamento familiar, isso é terrível. Olha que o meu filho ainda nem tem 2 anos e as pessoas já estão perguntando pelo outro. Pode?
Aqui, na minha cidade, que é uma capital desenvolvida, adotou-se a máxima de que o certo e o bom é se ter um casalzinho, um menino e uma menina. Além disso, não se deve ter um distância muito grande entre as crianças. De preferência, uma com 1 e outra com 3 anos.
É um saco! Se a gente vai a um shopping ou festa familiar, lá vem a cobrança: “e quando é que vem o outro?”. Claro que a cobrança nunca vem sozinha. Sempre vem aqueles sermões chatos sobre se ter um filho só e coisa e tal.
Eu sou a segunda mais velha de uma família de 4 irmãos. Tenho uma irmã mais velha 2 anos e uma mais nova 1 ano. Meu irmão é o caçula e é 4 anos mais novo que eu. Ele teve tudo que nós não tivemos. Foi mimado e deu muito mais trabalho que a gente. E nem era filho único, viu?
Minha mãe engravidou da minha irmã mais nova quando eu tinha apenas 3 meses. Resultado: quase não usufrui da minha mãe. A minha tia foi quem mais me criou e, hoje, adulta, tenho muito mais afinidade com ela. A minha mãe morre de ciúmes, mas eu não tenho culpa.
Tenho um relacionamento super frio com a minha mãe. Se acontece algo comigo, ela é a última pessoa em quem eu penso em contar. Sinto muita falta do calor materno. Sempre senti.
Já tentei muitas aproximações, mas é difícil. Eu sou muito diferente da minha mãe. Infelizmente, ela não é uma pessoa muito flexível. Ou as coisas são do jeito dela ou não são.
As minha irmãs são bem mais parecidas com a minha mãe. Isso facilita muito o convívio entre elas, embora não seja um mar de rosas também.
Você fala de mãe controladora? A mãe de 4 filhos também pode ser controladora. A minha mãe, mesmo hoje, ainda quer decidir a religião dos filhos, o que você fazer com o seu dinheiro (ou melhor, o nosso), sobre a educação dos netos, etc e tal. Tanto faz se a mulher tem 1 ou 5 filhos, se ela é mandona, vai ser sempre mandona. A diferença é que vai mandar em mais ou menos pessoas.
Ter irmãos também tem seu lado negativo. Sofri muito, na adolescência, com as minhas irmãs. Elas eram mais vaidosas e me criticavam muito por não ser como elas. Você quer ficar complexada? Ponha duas irmãs criticando você diariamente e, pior, dormindo no mesmo quarto. Só fui gostar de mim depois de casada e ainda assim tenho muitas inseguranças.
Além das dificuldades financeiras, ter irmãos pode ser muito ruím. Os pais sempre têm os seus preferidos e adoram fazer comparações. Não tem coisa pior que saber que a sua mãe se reúne, com seus outros irmãos, para falar mal de você.
Pretendo criar meu filho sendo único, mas não estou fazendo expectativas. Quero que ele seja feliz ao modo dele. Como fui muito criticada e controlada, quero poder dar a ele o direito de fazer suas próprias escolhas, sem críticas e sem interferências.
Ieba, mais um post tipo terapia de grupo!

Não esquenta, flor. Ser filho com irmãos também é foda – no bom e no mau sentido. Se com irmãos você tem com quem dividir as coisas, também TEM que dividir as coisas… Se com irmãos você tem diluição das expectativas e pressões dos pais, também tem diluição da atenção e da paciência que eles poderiam ter te dado. Se tem alguém com quem brincar, também tem com quem BRIGAR. Se não é a esperança da vida dos seus pais, também tem que ralar pra se livrar das comparações (“Por que você não faz como sua irmã?”). Ter irmãos não necessariamente te dá amigos com quem passear no shopping, mas talvez te obrigue a assistir aos seus irmãos saindo com os amigos deles para o shopping enquanto você fica em casa torcendo pra sua mãe não pagar o mico de obrigá-los a te levar com eles em programas nos quais eles não estão a fim de carregar o pirralho da casa. Ah, e isso só pra falar em caçulas… Primogênitos sofrem pressão parecida com a dos únicos, são o repositório de toda a esperança dos pais, não podem dar vergonha pra família nem mau exemplo para os mais novos. Tudo que o primogênito faz é pioneiro ou escandaloso. E o irmão do meio sofre do complexo de “invisible child”: acha que o primogênito recebe muita atenção por ser o primeiro, o caçula por ser o último e ele, espremido lá no meio, não ganha nada. O que não necessariamente é verdade… Ah, e caçula, além de apanhar dos pais, apanha do irmão mais velho e, se bobear, do irmão do meio também. Rs! Fora que boa escolaridade para mais de um filho só está ao alcance do “povo da alta”.
Apesar disso eu nunca quis ser filha única nem desejei ter nascido em outra ordem. Acho ótimo ter irmãs, especialmente se você tem muito em comum com elas, em termos de gostos e ideais. Mesmo se lembrar que meu primeiro sutiã foi um negócio que já tinha sido usado por minha irmã do meio e, antes dela, pela mais velha, e, antes dela, provavelmente por alguma prima.
Ou seja, nãdesabafo é bom, mas todo mundo tem suas queixas e vantagens. Quando não é pela falta de irmãos, é pela presença deles. Se não é por pais zelosos, é por pais relapsos. No final das contas, as pessoas menos complexadas que conheço são aquelas que têm famílias tão numerosas (tipo 6 irmãos em pleno século XXI) que não têm tempo para se lamentar, porque estão ocupadas sendo parte da cola que mantém a família unida e batalhando pra sustentar a casa em conjunto.
Acredito que a tendência para o futuro é que as famílias conscientes tenham filhos únicos, mas os criem diferentemente do que fizeram na nossa geração: com contato maior com outras crianças, especialmente nas escolinhas, e com mais atividades para preencher os dias, estimular a criatividade e a socialização. Pais mais ocupados, crianças mais soltinhas.
“Mais um post tipo terapia de grupo” é ótimo!!! Mas Mila, você é uma visionária.
Engraçado porque nas últimas semanas eu estava em batalha pelas consequências de ser filho único.
Tudo o que você escreveu, já passei, ainda passo e sei que não vai acabar. Seja por excesso de coisas, cansaço etc., tem vezes em que damos um berro pra ver se os pais se tocam.
O que existe de único é ser filho. O que existe de único é ser pai e ser mãe. Por isso os filhos esmagados entre os irmãos também se acham. Isso que não vou nem entrar nas questões edípicas tão óbvias aos meus receptores somáticos ou não.
Eu preciso ir, ao mesmo tempo em que não posso ir. Querem que eu vá ao mesmo tempo em que me fazem ficar. Eu tenho que casar – não com qualquer um, mesmo que eu não fizesse isso – E tenho que ter filhos. O que eu quero pra mim, ninguém nunca perguntou, porque também é o de menos. Meu agravante é que me tornei filha única, então tenho as pressões em dobro, talvez em triplo.
Então se vocês encontrarem divagações do tipo nas minhas obras, já sabem a fonte.
E como esta história é universal, atemporal e claro, interminável, o resumo é isso mesmo: SER FILHO ÚNICO É FODAAAAAAAAAAAAAA!!!!!
Eu me identifiquei totalmente com você.Sou filha única e temporã ( minha mãe me teve com 38 anos) e desde os 14 anos, quando meu pai faleceu, a família começou a buzinar no meu ouvido que eu tinha a missão de cuidar da minha mãe pelo resto da minha vida.Éramos pobres, mãe dona de casa, e eu tive que começar a trabalhar com 15, trabalhar e estudar, mas sem liberdade, tipo : você tem que pensar numa carreira que te dê um emprego estável.Você tem que cuidar da sua mãe…e quando sua mãe ficar velha, como vai ser…Hoje tenho 42 anos e ela 80, vivi a minha vida inteira com ela, sou professora da rede pública, amo minha mãe, mas…A semana passada ela sumiu de casa por problemas de memória e tive que ir a hospitais, delegacias…foi uma loucura…Justo agora quando finalmente uma editora se interessou pelo meu livro…pois é, eu também quero ser escritora, bem agora tenho que me virar em duas porque o portão tem que ficar trancado para ela não sair (uma viatura de polícia a trouxe na semana passada) e ao mesmo tempo, levá-la para passear, fazer compras, se distrair…e a minha vida, como fica ? Tudo bem, só que além disso, ela se queixa, como se eu fosse uma carrasca…
Bom, muito bom…
sou filho único por acidente (perdi um irmão tragicamente) e da pra imaginar as consequências. Tenho um filho, que também é único…
as vezes é chato ser único (e não estou somente falando de ser filho)…mas me orgulho disso as vezes também…
bjo baby
Você praticamente disse tudo o que eu acho. Sou filha única, agraciada pela “educação natural” que todo mundo elogia desde quando eu ainda usava fraldas, “vocabulário amplo e correto” e, com toda a certeza, esse desejo de “eu.NÃO.posso.falhar”.
Se você permitir, posso colar esse texto no meu blog? Coloco seu link e tudo o mais. Ele simplesmente encaixa com tudo o que eu sempre quis falar mas nunca consegui escrever completamente.
Eu tenho 4 irmãos… 2 do primeiro casamento do meu pai e 2 do casamento de meu pai e minha mãe.
Quando criança, meu desenho sempre foi de ser filha única… tinha meus momentos egoístas e queria tudo só prá mim.
Durante um período da minha vida, eu queria ser uma segunda mãe dos meus irmãos mais novos. Meus pais eram muito liberais e muita coisa acabava passando sem que eles percebessem ou tomassem alguma atitude.
Sim.. eu me achava responsável pelos meus irmãos também.
Sempre fui a mais estudiosa. Meu irmão parou de estudar no penúltimo ano do colégio. Minha irmã não quis fazer faculdade depois q terminou os estudos… e eu me vi na situação de ser a esperança da família. Passei em todos os vestibulares que quis, comecei 4 faculdades, larguei 3 por conta da de(pressão), mas parece q agora (quem sabe um dia) vou me formar. Afinal, já tô há 5 anos na fau rss… os quais foram enfrentados aos trancos e barrancos por causa da depressão.
Prá mim, ser a mais velha, pareceu-me sempre a obrigação de ser um exemplo para meus irmãos. Olha que coisa… agora, minha irmã mais nova, que não queria fazer faculdade rs.. vai se formar antes de mim.
Mesmo assim… não quero ter um filho único. Ainda prefiro ter mais de um filho. Sempre gostei da casa cheia e bagunçada rs
Bjos
Mais um momento excelente. Te ler entre minhas fórmulas matemáticas é uma aventura realmente fantástica. Bjo
Adorei o texto!! E também todos os comentários. Nos faz pensar que não há regras, filhos únicos não estão fadados a ser felizes ou infelizes, há várias coisas em jogo ! ufa.. fiquei aliviada.. rss..
Minha cara, tenho apenas um filho e ainda não me decidi se ele será único, pois ele só tem 1 ano e 1 mês. Teu texto é bom, mas queria te perguntar se o ilustre personagem bíblico a quem te referes ao final do texto é Jesus Cristo. Se a resposta for afirmativa, ele só é considerado filho único para o Catolicismo, pois para os protestantes, Maria teve outros filhos com José. Salvo engano, Jesus teve 05 irmãos (entre homens e mulheres – a ciência diz que o nome das meninas era Ana e Lídia).
Saudações.