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Silence must be heard

abril, 20 - 2008
Durante um tempo me perguntei se valeria a pena criar mais um blog. Tive muitos. Houve uma época em que o prazer que via neles estava muito mais relacionado ao webdesign do que ao conteúdo das postagens. Isso ainda valia para o meu último blog, “christie.zip.net”, que com suas flores e purpurinas rosas hoje descansa no limbo dos dados deletados. Sei que, um dia, este será o destino deste que você visita. Espero que não tão cedo. É verdade que me desfaço dos blogs como quem aposenta um jeans velho depois de finalmente admitir (com alguma relutância) que ele não serve mais. Sinto que a febre do webdesign e dos devaneios estéticos passou. O fundo cor-de-rosa e o campo florido já não diz muito a respeito da minha vida, tão mais sóbria e, ao mesmo tempo, tão confusa – e nebulosa.
Mas eu tinha um motivo para criar um novo blog: precisava divulgar meu livro em vias de publicação e meus trabalhos. Seria também uma vitrine de idéias, um contato com meus leitores e amigos, e… seriam essas razões suficientes?
Acho que não.
Precisava ter algo útil a dizer. Você pode imaginar que, para um escritor, falar, discutir, contar, discorrer longamente sobre qualquer coisa não é problema. Mas assim que coloquei um ponto final no meu primeiro livro, vi-me subitamente esvaziada de palavras. Eu não tinha mais o que dizer. E como é angustiante esse vácuo psicológico, essa urgência de dizer algo quando nada lhe ocorre! Como se todos os assuntos já tivessem sido esgotados e o que se pudesse falar a seu respeito já não tivesse um suspiro de utilidade.
E não é essa a verdade? Não é o que acontece hoje, no cotidiano?
Ligue a TV, abra uma revista, leia um jornal. A mídia atual, salvo uma modesta porcentagem de infomação relevante, consiste basicamente em preenchimento de silêncio. Daí temos que, quando o mundo não nos traz novidades, o telejornal precisa arrumar assunto para uma hora e meia de audiência, e a alternativa mais lógica (e que dá mais ibope) é ruminar infindavelmente a tragédia da vez até as raias da paranóia. É espantoso notar como a mídia consegue passar três semanas intensivas saturando a programação com o caso de uma criança jogada da janela de um prédio, mantendo os telespectadores entusiasmadamente indignados, sedentos por mais um fiapo de especulação, transformando o caso no assunto preferencial das discussões de meio de expediente e fila de padaria. Eu, você e qualquer pessoa com um quilo de massa cinzenta sabemos que crianças morrem todos os dias. Morrem mortes detestáveis, sejam atiradas da janela, nas filas dos hospitais, na sarjeta, de fome, de descaso ou de abandono. E inexplicavelmente, um caso do noticiário policial vira válvula de escape de um público entediado, insurgindo com tamanha revolta que é como se vingar a morte dessa única criança fosse expiar os males da civilização. Qual a razão do fenômeno? Por que uma tragédia se assoma sobre tantas outras? Mistérios dessa mórbida modalidade de entretenimento chamada TV.
Alivia-me saber que todo assunto, por esdrúxulo que seja, tem uma data de validade. Os assuntos brotam do acaso, sucedem-se interminavelmente no preencher do silêncio de fundo da humanidade. Alguns se repetem, como é o caso da contínua incerteza da meteorologia (“parece que vai chover”) e das fofocas recicláveis (“você não imagina o que aquele crápula fez com ela!!”); mas para a maior parte deles, a morte é certa e lhes cai bem.
O mesmo para o que quer que eu diga aqui.
 
Por que as palavras têm que ser ditas se irão, inevitavelmente, se calar?
Porque o silêncio gera angústia. É interessante notar que a ficção surgiu para preencher justamente essa lacuna, quando, na pré-história, a tribo se juntava em torno da fogueira para ouvir seus anciãos contarem casos fabulosos. A ficção, a partir do momento em que foi incorporada no mundo simbólico do homem, tornou-se necessária. Às vezes, uma boa história nos faz mais falta do que uma boa refeição. Contamos histórias para educar, para distrair, para se divertir, para chorar, e… pelo prazer de amar e sofrer no conforto de uma mentira.
É uma pena que, em um país de cultura tão exuberante, a arte de contar histórias encontre sua maior repercussão nas telenovelas do horário nobre. Não que nosso jornalismo também não seja uma forma de ficção, mas esse é papo para outros posts. A mídia sensacionalista com suas mesmas velhas notícias é um sintoma de que o povo brasileiro anda precisando de uma boa história para se distrair. Talvez a literatura esteja muito distante das coloridas emoções enlatadas televisivas, preenchendo o silêncio com sua trilha sonora chocante, sangue espirrando nas paredes e propagandas de xarope para a tosse. Talvez esteja distante demais para que a dívida do brasileiro com a leitura seja compensada com incentivos. Mas ainda há um espacinho para a arte de contar boas e prazerosas mentiras, e cá estou eu desempenhando meu papel de mentirosa. Não é meu intuito macular o silêncio (ou, no caso, o fundo branco deste template) com qualquer coisa, o blábláblá também me cansa. Farei um contrato contigo, leitor: continuarei sendo este bicho calado, prometo que não vou falar muito e o que eu disser será o que melhor tiver para lhe oferecer. O resto serão boas histórias a preencher este silêncio de fundo, que, de tão discreto, soa como um segredo entre eu e você.
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5 comentários

  1. Putz… fiquei sem palavras com esse seu post! Felizmente, há pessoas que sabem contar boas histórias e dar o devido valor ao silêncio, como você 🙂
    Será muito bom voltar a ler seus posts, sei que você contará boas histórias (espero que muitas) antes desse blog ter o mesmo destino do anterior! E a contagem regressiva do lançamento então? 😀
    Beijos!


  2. Hmmm, não esperava ser o primeiro a comentar, mas afinal eu tinha que registrar a passsagem pelo novo – e discretíssimo – espaço.

    Oh, tanta notícia boa, com o livro chegando… pena que o post de estréia tenha ficado contaminado com esse caso hediondo de complexo de Cronos à brasileira e com o toque de pessimismo franfkfurtiano sobre a mídia. Tomara que venham postagens mais alegres pela frente.

    Obridado pelo link e boa sorte em todos os teus projetos.

    Beijo, abraço e aperto de mão


  3. Olá Cris,

    Bom numa primeira impressão, parece que nessa sua introdução você botou pra fora tudo que ficou represado em você nesses meses todos sem postagem publica. Gostei desse espaço novo, elegante e minimalista como a imagem que você vem adotando recentemente.

    Ahá, mas aquela angustia “teen” dos seus primeiros escritos, da Cristina das “Visões” ainda está aí, a mesma doçura com um travo de amargura; pra mim não faz mal, eu gosto de chocolate amargo mesmo…

    Bom te ler mais uma vez,
    Bjs


  4. Sempre me aventuro a conhecer escritores e seus blogs, conhecer um pouquinho mais da intimidade alheia talvez, como qualquer leitor curioso. E por isso, começo pelo começo para não perder nadinha.

    Ahhh, o silêncio é o que gera a vontade de, as vezes, fazer barulho… Porque tem dias que é aquele “assobio de vento” que nos intriga e nos motiva a escrever algo, só para não continuar pensando em nada, ou pensando e não dividindo.

    Post deliciosamente pessoal e esclarecedor… Algumas mentiras para colorir a vida são necessárias e, por que não, indispensáveis?

    Pretendo lê-las por um bom tempo!
    beijos.


  5. Nossa gente, é estranho ler esse post dois anos depois. Eu nem lembrava dele!



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