Archive for maio \05\UTC 2008

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shhh… don’t break the silence.

maio, 5 - 2008

 

 

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Dize-me o que ouves e eu te direi como és

maio, 3 - 2008
A voz do Enigma
 
Talvez a melhor forma de entender o que escrevo é dar uma olhada – no caso, uma “ouvida” – na trilha sonora dos meus textos. Sempre há uma música perfeita para o momento, ou que cai como uma luva no assunto sobre o qual se quer escrever, o que ajuda muito no processo criativo. Muitos dos títulos e temáticas de meus textos, como Além do Invisível, Nascidos das Profundezas e o próprio “Silence Must Be Heard” do tópico abaixo, são influências desse cara genial, a quem devo a mais doce parcela da minha inspiração.
É verdade – e eu assumo – que tenho o irremediável costume de gostar de coisas que ninguém gosta. Mas não vou dizer que tenho bom gosto, não quero perder o charme de excêntrica.
    
A história começou numa era pré-mp3, quando eu tinha meus 13 ou 14 anos e atravessava a crise mais brava da minha vida. Lembro-me de uma manhã em que meu pai me levava para o colégio. Eu com sono, o rádio ligado. De repente, o ambiente foi invadido por um tilintar vítreo acompanhado de acordes misteriosos de algo que parecia flauta, um canto gregoriano entoando “hosaaaanaaaa…” enquanto a voz etérea e sensual de uma mulher suspirava: “Sade, dit moi, dit moi!” Eu emergi das profundezas do tédio, fiquei hipnotizada pela sonoridade daquilo. Que impacto! O radialista foi cruel e não disse o nome da música ou da banda antes que eu saísse do carro. Com a música na memória, procurei desesperadamente por uma referência, em vão. Demorou meses para que eu a ouvisse novamente e, enfim, conhecesse seu título: Sadeness. Essa fora a primeira vez que ouvi Enigma.
Não tive dúvidas, juntei as moedinhas da mesada e fui até a loja de discos comprar o primeiro álbum: MCMXC a.D. Eu mal sabia que acabava de adquirir um novo vício. Pus o CD para tocar e tocar e tocar e tocar e tocar e tocar… até que ele literalmente trincasse. O álbum conduzia a uma viagem musical por um universo medieval com ares de Nome da Rosa, com muitas mixagens de canto gregoriano, vozes sensuais murmurando em francês, luxúria, sabás, leituras do apocalipse, sublimação e epifania. Simplesmente inebriante!
   
Juntei outras mesadas e adquiri o restante dos CDs lançados na época. O advento da internet me deu poderes para correr atrás da informação. Fui desvendar o Enigma: não se tratava propriamente de uma banda, mas de um projeto musical do maestro romeno Michael Cretu, feito em parceria com alguns colaboradores, entre eles, as cantoras Sandra Cretu e Ruth Ann, e o músico Andru Donalds.
No projeto Enigma cada álbum trata-se de um trabalho conceitual, centrado em uma temática e circunscrito em um universo sonoro próprio – muito semelhante a um livro, com direito a prólogo e epílogo.  As faixas diluem-se umas nas outras, sem pausas; as temáticas não raramente levam a viagens por cenários de ficção científica e fantasia. A música é construída – “arquitetada” é uma palavra melhor – com mixagens das mais variadas e vertiginosas fontes: sintetizadores, guitarras, pianos, vocais invertidos, mantras em sânscrito, cânticos folclóricos látvios, indígenas, hindus, mistura de tendências clássicas, coral de vozes, batidas pop, rock e tecno… como resultado dessa salada romena, Michael Cretu fez pela música o que Clarice Lispector fez pela linguagem: extrapolou-a, transcendeu-a, alçou uma nova dimensão de expressividade e significado; e acima de tudo: Cretu conseguiu com o seu projeto criar um gênero musical inédito. Em lojas de discos, é comum tentativas de inserir Enigma na mesma prateleira do Pop/rock, às vezes da música New Age. Rótulos distantes, categorizações inadequadas. Atualmente, Cretu tem assumido a denominação de música transcedental, ou simplesmente “trance”.
    
Michael Cretu
Michael Cretu, o alquimista da música
    
É bem provável que você, que está lendo este post, diga: “mas eu nunca ouvi Enigma!”
Sim, você já ouviu e ouviu bastante, mas não sabe.
É fato que noventa e muitos porcento das pessoas não conhecem o nome Enigma, mas todos já ouviram suas músicas ao longo da vida, despejadas a conta gotas através de muitas trilhas sonoras de reportagens, filmes e propagandas. Enigma jamais foi um título conhecido e nunca será popular, contudo, desde o início do projeto, em 1990, permanece com seu nicho de mercado garantido, mantendo a forte preferência como trilha sonora e um grupo de fãs pequeno, invisível, porém fiel.
     
Em 2000, munida da internet, eu comecei um extenso trabalho de pesquisa, passei a recolher informações de todos os sites existentes sobre o Enigma na época, no intuito de construir o site mais completo da internet. Cheguei a fazer o projeto HTML, a traduzir parte do material, mas nem preciso dizer que a idéia não vingou. Na verdade, arrumei outros hobbies um pouco menos ambiciosos; por exemplo: no ano seguinte eu coloquei no ar o primeiro site em português sobre o anime da Utena. Fiquei em dívida com o Enigma, agora me redimo através deste post.
    
A arte às vezes nos concede essas agradáveis surpresas, quando temos a oportunidade de encontrar obras com as quais nos identificamos de forma definitiva e apreciamos com o mesmo gosto em diferentes momentos da vida. Não costumo ouvir música todos os dias, mas certamente minha coleção de CDs do Enigma seria um dos dez items que eu levaria pra viver comigo para uma ilha deserta (óbvio que outro item seria um CD player com baterias solares).
      
Segundo meus critérios de qualidade, a discografia pode ser dividida em duas fases: a primeira tetralogia (de 1990 a 2000) traz álbuns riquíssimos, bastante criativos e de repertório variado, já os dois últimos discos (lançados entre 2003 e 2006) apresentam tentativas de reinvenção que não alcançaram o mesmo fôlego dos primeiros trabalhos e resultaram em “álbuns de uma música só”, mornos e monótonos, mas ainda capazes de causar algum impacto.
   
Enigma 1 – MCMXC a.D.
   
MCMXC a.D.
 
1990 em algarismos romanos. O álbum inaugural do projeto Enigma faz uma imersão sonora em um universo medieval de monastérios, bosques e sabás; com uma atmosfera religiosa e incrivelmente sensual, faz uma belíssima alusão ao antagonismo divino versus profano, conduzindo a um apelo final por redenção e recomeço. A música Sadeness garantiu o sucesso do disco e deu origem ao primeiro videoclipe. Destaque também para Mea Culpa (que foi posteriormente reeditada em uma versão muito superior: Mea Culpa Part II) e Rivers of Belief.
   
 Mea Culpa Part II – O clipe
   
Enigma 2 – The Cross of Changes
    
The Cross of Changes
               
É um disco pra se curtir do início ao fim, muitos fãs o consideram o melhor álbum do Enigma. The Cross of Changes faz menção aos erros da humanidade, aos dilemas da modernidade e aos males da civilização. Exibe um amplo espectro de tendências musicais, de cantos tribais a rock. Dele foi extraído o trecho que figura na trilha sonora de Matrix (The Eyes of Truthhttp://www.youtube.com/watch?v=De370w_Ako8&feature=related).
A faixa Return to Innocence é séria candidata à música mais conhecida do Enigma, pois tocou bastante no rádio e já foi muito usada em publicidade. É entoada no tenor adocicado de Andy Hard (codinome “Angel”), uma das vozes masculinas mais agradáveis que já ouvi. Existe uma remixagem trance extendida de Return to Innocence disponível na internet, com trechos tocados em cítara e uma palhinha a mais do cantor. Excelente!
Destacam-se ainda as músicas I Love You, I’ll Kill You (Enigma também é rock!), The Dream of The Dolphin, Age of Loneliness e – uma das minhas favoritas – Out From The Deep.
         
Return To Innocence – clássica!
  
Enigma 3 – Le Roi Est Mort, Vive Le Roi!
         
Le Roi Est Mort, Vive Le Roi!
        
Uma boa definição é “Deus na máquina”. Le roi est mort, vive le roi tem a capa mais FC dos discos do Enigma, é também o que mais apela para a fantasia, aludindo à temática do tempo e a uma transcendência pós-tecnológica. Um disco de boa influência pop/rock, os cantos gregorianos voltam com força, dessa vez misturados com cânticos látvios, sânscritos e outras coisas indefiníveis.
Os pontos altos são Morphing Thru Time, Beyond The Invisible, TNT for The Brain e a lindíssima The Child In Us.
            
Beyond The Invisible – um clipe high fantasy
            
Enigma 4 – The Screen Behind The Mirror
                 
The Screen Behind The Mirror
            
Meu preferido. The Screen Behind the Mirror é um disco que fala de aparências e da civilização, tem uma tendência mais instrumental, de viagens lentas quebradas por tomadas agressivas. A sensualidade volta com força nas músicas Gravity of Love e na instrumental The Screen Behind The Mirror. A faixa Push The Limits é boa e tem ganhado muitas versões remasterizadas e mais interessantes que a original, com direito a um dos melhores videoclipes já feitos do Enigma. Destaque também para Modern Crusaders, que remete muito à ficção científica; Camera Obscura, uma música agressiva mixada formidavelmente com trechos de Carmina Burana; e Silence Must Be Heard, na voz de Sandra Cretu.
             
Push The Limits (ATB version) – O melhor remix já feito de uma música do Enigma.
            
Enigma 5 – Voyageur
                    
Voyageur
                    
Voyageur é um disco fraquinho em comparação aos anteriores. Nota-se uma intenção clara de reinventar a música; Cretu abre mão das tendências melódicas dos primeiros discos e apela para uma sonoridade mais crua e gutural. Curiosamente, algumas faixas chegam a ser dançantes. Em geral, o álbum faz referência ao lado “bicho” do ser humano, sua espontaneidade e instintos básicos. Há uma música que considero muito boa: Voyageur. Legalzinha também é a Boum-Boum.
             
Libere seu lado esquisitão. Vien chez moi, vien chez moi, Voyageur!
                  
Enigma 6 – A Posteriori
                           
A Posteriori 
                                     
Astronômico e alquímico, os títulos das músicas homenageiam os astros e o espaço sideral. Lançado em 2006, o último disco (até o momento, pois logo vem um Enigma 7 por aí) traz um trabalho de capa muito bonito, e infelizmente necessário para ajudar nas vendas, pois parece que a criatividade de Cretu estagnou desde o Voyageur. Não é um disco ruim, longe disso, mas parece que o Enigma entra numa fase morna e tediosa, com poucas variações e longos períodos de monotonia. Novamente, há uma tentativa de reinvenção do gênero, mas não há fôlego para cumprir a promessa. É provavelmente o disco mais sombrio do Enigma, do início ao fim tocado numa toada melodiosa, uma “dança cósmica”. Há uma reedição interessante do canto gregoriano, muito presente nos primeiros discos, aqui reformulado com uma sonoridade nova. Destaque para Eppur Si Muove e – a faixa que vale o disco inteiro: – Goodbye Milky Way, à qual devo a inspiração do meu conto Viagem Além do Absoluto, que fala sobre a perpetuação da vida para além da morte dos astros.
                  
Goodbye Milky Way – Versão extra-oficial
          
LSD: Love, Sensuality, and Devotion
                
Love, Sensuality, and Devotion
                   
As 4 palavras acima são a mais perfeita caracterização da musicalidade do Enigma: psicodélico, apaixonante e transcedental. Esse é o nome do Enigma Greatest Hits, que traz um apanhado das melhores (e não só das melhores) músicas dos primeiros 4 álbuns. É um disco que não tive interesse em comprar porque seria um repeteco, mas, pra quem não conhece Enigma ou está a fim de uma experiência musical diferente, é uma ótima pedida.
              
Feita a doutrinação, despeço-me.
            
Procedamus in pace
In nomine Christi, Amen