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Reflexões metodológicas na margarina e a razão do silêncio prolongado

junho, 3 - 2008

Era uma vez um artigo científico que foi submetido para uma revista X. Dois meses de coleta, dois meses de análise, um mês de escrita. Uma pesquisa rápida pede uma publicação rápida. Um trabalho legível, frio, claro, linear e impessoal como toda comunicação científica deve ser. Introdução, métodos, resultados, discussão, bibliografia; conteúdo completo, sucinto e auto-explicativo: redondo como uma pérola.

O artigo foi.

O artigo voltou.

Uma carta do revisor da revista X, igualmente clara, legível, linear e impessoal veio parar em minhas mãos, gentilmente descascando o meu trabalho: “Está certo, mas, por que não fazer assim? E por que não fazer assado?”.

“Assim”, “assado”, mas com quantos graus de liberdade? Que coeficiente de certeza? Qual a minha média de esperança? Eu não fazia a mais irrisória idéia do que ele queria me dizer.

No mundo da pesquisa – quem já se enfiou num laboratório bem sabe – isso é rotina. Recusa de artigo e parecer de revisor passam a ficar indolores com o tempo. Se a negativa for inevitável, você tem a possibilidade de afogar suas mágoas nos diagramas cartesianos e nos cálculos do qui-quadrado. Mas, se ainda há uma chance e se você insiste em publicar o seu artigo (do qual dependem sua bolsa, sua reputação, sua carreira e o olhar de inveja do pesquisador da bancada ao lado), você tem a opção de atender a todas as exigências do revisor ou atender a todas as exigências do revisor. Sem questionar.

Pois a ciência é algo democrático.

No final das contas, não era no meu primeiro artigo – e no primeiro embate com um revisor – que eu iria desanimar!

Não!!

Peguei as minhas anotações e empreendi uma jornada pelos famigerados manuais de estatística que encontrei no fundo da prateleira inferior no canto obscuro de uma biblioteca acadêmica (um único empréstimo nos últimos 18 anos, constava no registro!). Depois de passar o olho em algumas fórmulas, como:

 

Resolvi devolver os livros aos ácaros e me regozijar com o advento da tecnologia – viva o século XXI! Resgatei meus dados desenganados, rodei o software estatístico e voilá! Depois de duas semanas amaciando meus dados nos mais aprumados geradores de improbabilidade infinita para tentar descobrir sozinha, numa conjunção cósmico-matemática, numa aplicação aleatória de combinações numéricas, a verdade por trás da misteriosa análise estatística – que todos os manuais diziam ser muito prática e eficiente, mas ninguém numa universidade inteira sabia explicar – eu cheguei ao resultado:

 

Sei que é o resultado certo, pois prova o que eu estava querendo dizer no artigo de um modo simplificado (anti-acadêmico?) e o revisor quer que eu diga numa análise estrambólica with lasers: que o grupo 1 é parecido com o grupo 4, como o 2 é parecido com o 5 e o 3 é parecido com o 6.

 

A distância Euclideana entre o grupo 1 e o 4, e entre o 2 e o 5 é de 1,3; entre o 3 e o 6 é de 1,5; e entre os grupos 4 e 6, de 41,7.

 

E o que isso significa?

 

Eu não sei.

 

 

 

 

 

 

 

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6 comentários

  1. Basicamente significa que todos os grupos, por maiores que sejam as distâncias euclideanas, no final das contas, são todos iguais 😛


  2. Significaria que a forma como os resultados são apresentados seria mais impotante que o resultado em si mesmo…

    Bem vinda ao mundo da pesquisa academica, Cris… 😦

    Bjs


  3. a explicação pode ser super simples, mas quando se envolve estatística parece que tudo fica mais complicado! rs tive alguns trabalhos na faculdade que precisavam utilizar alguns testes estatísticos, mas como era para uma matéria de finanças, creio que o professor ficou mais impressionado pela utilização do que pelo resultado final. se você conhecer alguém de estatística talvez possa pedir ajuda, mas também há muitas páginas espalhadas pela internet que ajudam a entender os conceitos! 😉
    beijos!


  4. Talvez haja uma correlação não explicitada entre os três pares de aglomerados de dados. As coincidências numéricas sempre são boas pistas para se descobrir as pontes submersas. Com certeza existe aí uma causa comum que faz aproximar os três pares de agregados na mesma proporção (mesmo que a cautela acadêmica insista no mantra de que “correlação não é causa”,a sabedoria popular diz que onde há fumaça há fogo).

    Mas esse é o dilema de quem se expõe a esta forma de avaliação: ou se concorda com os ungidos do momento ou se move para outros pastos (o que pode valer igualmente para periódicos indexados, orientadores, universidades, grupos de trabalho, partidos, países, etc.). Sempre se pode engavetar a idéia provisoriamente sob o manto do silêncio e esperar uma áurea oportunidade para trazê-la a lume (mas que essa última geralmente vem pro cara que ousa dar a cara a tapa na frente dos outros, lá isso vem).

    Infelizmente a estrutura quase sempre não te concede estes luxos facilmente. Nunca me esqueço de pensar que esses dilemas são recorrentes pro resto da vida enquanto se concordar interiormente com os limites e as vantagens destas formas de se evoluir o conhecimento.

    Mas é bom ver que tuas entranhas reagiram bem ao desafio…


  5. Olá Cris,

    Vc está comparando o q com o q nesse dendograma? São caracteres comportamentais, padrões genéticos, ou meras visões telepáticas da sua cabeça (hehehe, tive que estrapolar aqui…). Se for sobre gens, isso significa x, se for análise de caracteres morfológicos significa x+y, e se for análise de fatores comportamentais pode significar (x+y+z)n…
    Enfim, tudo depende do ponto de vista!!

    :DD


  6. É nessas horas que eu agradeço não ter seguido exatas… E é nessas horas que me desespero ainda mais com artigos cientificos, exigidos até de reles estudantes como eu @_@



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