Archive for outubro \25\UTC 2008

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Um bom conselho (para escritores)

outubro, 25 - 2008

“Muitas pessoas vêem a arte como uma forma de controle. Eu a vejo principalmente como uma questão de auto-controle. É assim: em mim existe uma história que quer ser contada. Ela é o meu fim; eu sou o seu meio. Se eu puder me conter, deixar meu ego, minhas opiniões, minha bagunça mental fora do caminho e encontrar o foco da história, e acompanhar seus movimentos, a história se contará por si mesma.”

Ursula K. Le Guin

I’m trying to find this focus, it’s really hard.

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Na trilha dos UFOs

outubro, 25 - 2008

Sempre que as evidências sobre a aparição de OVNIS, relatos de abduções e de contatos imediatos vêm à tona através dos meios de comunicação, ficamos com aquela pulga alienígena atrás da orelha: será verdade?
A visita de seres do espaço parece uma hipótese fantástica demais para explicar alguns simples fenômenos luminosos no céu – assim dizem os céticos –, porém, com tamanha quantidade de evidências e documentos que têm se somado ao longo dos anos, ingênuo seria acreditar que nada de muito estranho esteja acontecendo.
O mais recente lançamento da Tarja Editorial, De Roswell a Varginha, vem especular sobre os acontecimentos mais surpreendentes da ufologia e as artimanhas dos governos e juntas militares para acobertar os fatos. Ninguém mais indicado para abordar a questão do que Renato A. Azevedo, que é colaborador de longa data da Revista UFO e tem contato com estudiosos da ufologia.
O livro traz uma mescla de ficção policial com documentário ufológico e lembra um pouco os episódios da série Arquivo X. O protagonista da saga, Roberto, é um ufólogo, uma espécie de Fox Mulder brasileiro, que é acionado por um misterioso norte-americano, Phill Reynolds, responsável pelo acobertamento das evidências do caso Roswell, para investigar pistas do caso Varginha. Nessa hora, também entra em cena uma investigadora da polícia federal – Lígia –, igualmente contactada por Reynolds, que faz um meio de campo entre os ufólogos e o governo brasileiro. O mais interessante no livro é que o leitor leigo não sabe dizer onde termina a realidade e começa a ficção. As evidências dos principais casos ufológicos – com destaque para Roswell, Varginha e a aparição no forte de Itaipu – são apresentadas consistentemente através da narrativa, costuradas com a linha fictícia de uma investigação policial. A missão de Roberto é entender os acontecimentos que sacudiram a cidadezinha mineira em janeiro de 96, descobrir a origem de um rapaz muito estranho internado num hospício da região naquela mesma data e perseguir o rastro da nave supostamente caída.
O livro ainda traz um adendo com um resumo do caso Varginha, que colocou o Brasil no mapa da ufologia mundial. Em 1996, o avistamento de objetos voadores em Minas Gerais, seguido da aparição de duas criaturas estranhas em um campo baldio em Varginha gerou uma intensa movimentação das forças armadas na cidade. Nos dias subseqüentes, uma operação militar cuidou do transporte da misteriosa carga até um hospital de Campinas. Para deixar o caso ainda mais suspeito, nesse mesmo período uma leva de oficiais norte-americanos e até pesquisadores da NASA veio ao Brasil, seguindo diretamente para Campinas. E como sempre, a resposta do governo e das forças armadas foi que não aconteceu absolutamente nada fora do comum, como se a mídia, as testemunhas e os próprios bombeiros e soldados envolvidos houvessem delirado tamanha operação de guerra.
De Roswell a Varginha é uma leitura rápida, muito movimentada e instigante, que não deixa desvanecer as interrogações de um passado recente, levando-nos a repetir a pergunta que nunca se calou…

Afinal, o que foi que aconteceu?

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Sob a luz do luar, alguém cantou…

outubro, 24 - 2008

Au clair de la lune

Au clair de la lune, mon ami Pierrot
Prête-moi ta plume, pour écrire un mot.
Ma chandelle est morte, je n’ai plus de feu.
Ouvre-moi ta porte, pour l’amour de Dieu.

Au clair de la lune, Pierrot répondit :
-Je n’ai pas de plume, je suis dans mon lit.
Va chez la voisine, je crois qu’elle y est
Car dans sa cuisine, on bat le briquet.

Au clair de la lune, l’aimable lubin
Frappe chez la brune, elle répond soudain
-Qui frappe de la sorte ?, il dit à son tour
-Ouvrez votre porte pour le Dieu d’Amour

Au clair de la lune, on n’y voit qu’un peu
On chercha la plume, on chercha du feu
En cherchant d’la sorte je n’sais c’qu’on trouva
Mais je sais qu’la porte sur eux se ferma.

 

Sob a luz do luar

Sob a luz do luar, meu amigo Pierrot,
Empresta-me tua pena para uma carta escrever
Meu candeeiro se apagou, não tenho um lume sequer
Abre-me tua porta, pelo amor de Deus

Sob a luz do luar, Pierrot respondeu:
Eu não tenho uma pena, e já me deitei,
Bate na próxima porta, creio que eles estão,
Pois vejo que na cozinha uma luz se acendeu.

Sob a luz do luar, o amável Lubin
Bate na porta da morena, que de pronto lhe responde:
“Quem bate deste jeito?”, e ele diz em sua vez:
“Abre tua porta para o deus do amor!”

Sob a luz do luar pouco se pode ver.
Procuraram pela pena, procuraram pelo fogo,
E procurando deste modo, não sei se encontrou
Apenas sei que aquela porta atrás deles se fechou.

(tradução livre)

De todas as pessoas que cantaram esta canção folclórica francesa em 8 de Abril de 1860, uma delas estava em frente ao fonautógrafo de Monsieur Scott e acabou deixando para a posteridade a primeira gravação da voz humana, registrada sem que o inventor do aparelho sonhasse em um dia reproduzi-la.
O fonautógrafo, patenteado por Édouard-Léon Scott de Martinville, consistia em um cone aberto que convergia as ondas sonoras sobre uma membrana, cuja vibração movia uma agulha que riscava um rolo de papel esfumaçado acoplado a uma manivela. A única função do aparelho era obter a assinatura visual dos sons, o que poderia ajudar no estudo da acústica. Métodos de reprodução do registro sonoro ainda eram uma possibilidade remota para a tecnologia da época, isso até que Thomas Edison inventasse o fonógrafo (ou gramofone) em 1878.

Fonautógrafo

O fonautógrafo de Monsieur Scott, de 1857.

Neste ano, quase um século e meio depois, os áudio-historiadores do projeto First Sounds recuperaram o primeiro registro de voz e efetivamente “despertaram um morto”. A gravação foi digitalizada, corrigida e limpa do excesso de ruídos. De sua reprodução soou uma voz incompreensível, etérica, mas reconhecivelmente humana, cantando a quinta linha de Au Clair de la Lune. Quando a ouvi pela primeira vez, senti um arrepio lá no fundo da alma.  “Meu Deus, a gravação está péssima!!” – pensei – “Mas há algo mágico nela: há uma voz, há uma melodia, um tom vago, e nada mais”.

Ouça a gravação de Au Clair de la Lune (1860).

A gravação tem data, mas não há o registro de um nome. Não dá para saber se esse cantor anônimo é um homem ou uma mulher, o timbre não foi preservado, tampouco dá para entender a letra, as palavras se dissolveram numa nuvem de ruído.  Desse cadáver sonoro restaram apenas as notas, o canto fantasmagórico de uma pessoa que nunca vamos saber quem foi, e que provavelmente nunca desconfiou que o mundo inteiro a ouviria cantar, ainda que de relance e a uma distância inimaginável… 148 anos no futuro!

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A Louca!

outubro, 22 - 2008

Entrei no quiz da carta de tarô. Olha só o resultado:

Você é o Louco
Idéias, pensamentos, espiritualidade, esforço para se elevar além do material.
O louco é uma carta de infinitas possibilidades. A bolsa e o cajado que carrega indicam que ele tem tudo o que precisa para ser e fazer tudo o que quiser, ele apenas precisa parar e desembrulhar. Está sempre a caminho de um novo recomeço. A carta também carrega uma pequena advertência: pare de fantasiar e devanear à luz do dia, olhe por onde anda ou pode levar um tombo e acabar fazendo papel de bobo.

What Tarot Card are You?
Take the Test to Find Out.

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Ficção científica, o universo e tudo mais…

outubro, 5 - 2008

Normalmente, quando as pessoas que convivem comigo descobrem que sou escritora de ficção científica, a reação costuma ser de estranhamento. Não sei bem a razão, talvez porque nunca foi comprovada a existência de vida nerd loira, ou – o que é mais plausível – porque não entendem nada sobre ficção científica.

“Ficção científica? Historinhas de naves alienígenas? Que coisa mais infantil! Mais cafona, fora de moda…!”

Pois eu digo a você que ficção científica é tudo de bom. E é uma pena que as pessoas não conheçam, e por não conhecer, confundam-na com um produto adolescente, irreal, que só agrada a nerds e gente estranha. Isso faz com que a FC permanece intocada como uma ilha de desconhecimento cercada de ignorância por todos os lados. O preconceito contra o gênero foi construído em dois níveis bastante diferentes: o daquelas pessoas que não sabem nada sobre tudo – a população analfabeta funcional – e o daquelas outras que pensam que sabem demais – os acadêmicos e literatos –, detentoras da ignorância culta, míope e com armações de tartaruga.

Pode parecer idiota que alguém dê importância a essas pequenas querelas literárias, mas é em razão do preconceito que muitas editoras simplesmente excluíram o gênero de suas linhas de publicação e muitos escritores fogem do rótulo na tentativa de serem “levados a sério” pelas academias.

E por falar em academias… Atualmente, Doris Lessing é a única autora de FC (entre outros gêneros) a ser laureada com o prêmio Nobel de literatura. Não obstante, a série Shikasta – de ficção científica – é das menos citadas de sua produção literária. Como é praxe, os livros de um recém-ganhador do Nobel costumam ressuscitar nas prateleiras das livrarias. Foi isso que aconteceu com as obras de Lessing, que foram reeditadas e hoje podem ser encontradas com folga nas principais redes livreiras. Você só não vai encontrar Shikasta…

 

E o que é ficção científica, afinal?

É um gênero muito rico, que engloba vários subgêneros, comportando obras tão diferentes entre si que muita gente nem suspeita se tratar de FC. Costumam designa-la também como ficção especulativa, porque sua função é especular sobre realidades diferentes e explorar novos universos de possibilidades. É a ficção do: “como seria se…?”, e sobre essa pergunta, os autores constroem universos inteiros dentro de uma complexidade própria, abordando aspectos científicos, políticos, tecnológicos e culturais; partindo de premissas que nos conduzem a reflexões por horizontes além dos limites do convencional. E é aí que reside o grande valor da ficção científica: ela exercita a criatividade, a imaginação, o raciocínio, o poder de abstração e a flexibilidade de pensamento. São habilidades exploradas pela literatura como um todo, mas que florescem de forma especial quando a ficção extrapola as fronteiras do cotidiano.

A ficção científica pode ser fatiada em vários subgêneros, que não são absolutos. Muitas obras não podem ser classificadas dentro de uma vertente ou outra, por reunirem características de vários subgêneros. Farei um resumo das principais vanguardas da FC, mas entenda que as fronteiras que separam uma e outra são tênues, algumas fizeram sentido em momentos específicos da literatura, outras são divisões tão virtuais quanto as dos times de futebol.

 

Hard Science Fiction

Cena de 2001 – Uma Odisséia no Espaço

É um dos gêneros mais clássicos da FC, cujo principal representante é o escritor Arthur C. Clarke e sua famosa Odisséia 2001. O grande barato da FC hard é dar embasamento científico para as maravilhas tecnológicas inventadas pelo autor, valorizando a acurácia, a viabilidade técnica, os detalhes, a verossimilhança. Imagine uma nave em órbita, a milhares de quilômetros da Terra, e pense numa forma de fazer com que nela exista gravidade. Esse é um problema clássico para os diretores de Hollywood (tendo em vista que a gravidade zero pode gerar um buraco-negro no orçamento de um filme). No filme Armageddon, a solução foi instalar um “botão de gravidade” na parede da nave; já na Odisséia 2001, a solução de Arthur Clarke foi dar à estação orbital um eixo de rotação mantido por inércia, para que a força centrípeta sirva como gravidade simulada. Nesse quesito, a ficção hard passa muito perto da ciência aplicada, e, como próprio nome diz, é hard – dura, difícil – porque exige que o escritor tenha um bom conhecimento científico.

Além da série Odisséia, outras obras interessantes são Encontro com Rama, A Cidade e as Estrelas e O Fim da Infância; todas essas do vovô Clarke.

 

Soft Science Fiction

Arte de capa de Um Estranho Numa Terra Estranha, de Robert Heinlein

Contrapondo à ficção hard, que tem foco nas ciências exatas e tecnologia, a ficção soft é centrada no ser humano e na sociedade. Refere-se, de modo geral, às obras de ficção científica com um pé nas ciências humanas, cujo intuito é, através de comparações, tecer críticas sobre os modelos sócio-culturais e político-hierárquicos de nossa realidade. A soft sci-fi floresceu nos anos 60/70, num momento histórico de grandes transformações sociais; época em que o movimento feminista estava nas ruas, nascia o movimento gay, triunfava a luta pela igualdade racial com a derrubada das leis racistas nos EUA, a América Latina sofria com o cabresto das ditaduras militares e o mundo vivia sob a tensão da Guerra Fria.

Os autores que mais se destacaram nesse gênero foram Robert Heinlein (com Um Estranho Numa Terra Estranha) e Ursula K. Le Guin (com A Mão Esquerda da Escuridão e Os Despossuídos).

Em A Mão Esquerda da Escuridão, Le Guin apresenta um planeta onde vive uma espécie humana muito singular pela característica de ser totalmente hermafrodita e andrógina. Não existem sexos nem papéis sexuais pré-estabelecidos, toda e qualquer pessoa pode ser pai e ser mãe. Na viagem através desse mundo, o leitor experimenta a vivência de uma realidade onde a dicotomia mais básica da nossa psique – o masculino/feminino – é rompida. Uma experiência literária e tanto!

 

Distopia

Grandiosidade é a marca registrada dos regimes autoritários

Um gênero inteiro dedicado a tratar de utopias que saíram pela culatra. Ficção ou nem tão ficção assim, as distopias exploram meios de opressão institucionalizada, cujos padrões se repetem interminavelmente na história da humanidade. É provável que estejam entre as obras mais conhecidas da ficção científica (raramente assumidas como FC): Admirável Mundo Novo (Aldous Huxley), 1984 (George Orwell), Farenheit 451 (Ray Bradbury), Laranja Mecânica (Anthony Burgess), O Caçador de Andróides (ou Blade Runner, Philip K. Dick) e The Handmaid’s Tale (Margaret Atwood). No cinema, bons exemplos são os filmes Gattaca, Filhos da Esperança, Aeon Flux, além das adaptações das obras já citadas. A receita da boa distopia é angustiar o leitor situando-o numa atmosfera opressiva, de regras intrincadas, leis injustas, estreita vigilância, desesperança e desilusão. Um dos meus livros preferidos nessa vertente é The Handmaid’s Tale, que remonta a um Estados Unidos alternativo dominado por uma ordem religiosa fundamentalista que instituiu uma estrutura social rígida baseada nos preceitos do Velho Testamento. Para tal, todas as mulheres perdem o status de cidadãs e são apropriadas pelo Estado, grande parte delas se tornam aias, na verdade, ventres-de-aluguel, e são mandadas para as casas dos coronéis do sistema para lhes dar filhos. O detalhe é que após uma guerra química os homens ficaram estéreis, e caso as aias não consigam conceber a curto-prazo, são enviadas para campos de extermínio. Injustamente, The Handmaid’s Tale é uma obra pouco conhecida no Brasil, (onde foi publicada como O Conto da Aia, em 2006, pela Rocco). Na minha opinião, é uma distopia tão potente quanto 1984.

 

Space Opera

Duna, de Frank Herbert, já está na sua terceira adaptação cinematográfica

A faceta mais pulp da FC. Aqui estão as guerras de naves que fazem barulho no espaço, as pistolas de raios-laser, os caçadores de recompensa e salvadores de mocinhas indefesas raptadas por monstros do espaço sideral. O space opera traz a marca das aventuras melodramáticas e românticas, do maniqueísmo – bem versus mal (sendo que o bem sempre vence no final) – gerador de heróis galantes invencíveis e vilões terríveis e feios. São exageros e clichês inumeráveis, mas que fizeram história no cinema e nos folhetins estilo Amazing Stories. Algumas obras que flertam (muito) com o space opera são Star Wars, Battlestar Galactica e Duna (de Frank Herbert). Em Duna, por exemplo, há uma atmosfera messiânica cercando a figura do herói, Paul Atreides, que move uma guerra contra seu arqui-inimigo, o maquiavélico Barão Harkonnen, para vingar a morte de seu pai e reconquistar o poder sobre seu feudo – o planeta Arrakis-Duna. Nada aqui é tão simples ou tão bobo como os clichês do space opera fazem parecer. Herbert teve o mérito de construir um cenário magnífico, com tramas políticas complexas e uma saga muito envolvente e bem narrada, que tornaram Duna o mais venerado épico da ficção científica.

 

Cyberpunk

 

A inconfundível estética cyberpunk

Vida desgraçada com alta tecnologia – essa é a premissa e a promessa do estilo cyberpunk. Tudo começou em 1984 com a publicação de Neuromancer, de William Gibson, um romance tão diferente de tudo que existia até então, que provocou um impacto imediato e profundo na ficção científica. Aqui, o hacker é o herói, o ciberespaço é o campo de batalha, o submundo das ruas é o cenário, o capitalismo selvagem é o pano de fundo, os implantes ciborgues, computadores e aparatos eletrônicos são o tempero.

O cyberpunk é dotado de um apelo estético poderosíssimo, reconhecível a quilômetros de distância. São comuns os cenários noturnos das megalópoles industriais, as roupas escuras de tecidos sintéticos, aparelhagem tecnológica, muitos implantes, sexo, drogas e rock’n’roll, o estilo de vida desconexo e anfetaminado, o palavreado de sarjeta, espiões, mercenários, samurais pós-modernos, figurões da máfia, inteligências artificiais, megacorporações, a coisificação generalizada, o desencantamento da realidade e o sempre presente mundo virtual. Foi com Neuromancer que nasceu a idéia do ciberespaço, uma profecia que se realizou anos mais tarde com o surgimento da internet. Já outro clássico cyber, Snowcrash (Nevasca), de Neal Stephenson, originou a idéia de realidade virtual compartilhada, o que hoje temos com o Second Life.

Se você está pensando em Matrix, acertou. A rede matrix, propriamente dita, surgiu em Neuromancer, que foi o ponto de partida para a trilogia cinematográfica Matrix, Matrix Reloaded e Matrix Revolutions.

O cyberpunk nasceu como a profecia de um “futuro terrível, porém provável”, ao menos, era o futuro para o qual o mundo parecia estar caminhando nos anos 80. Mas hoje em dia o futuro não é mais como era antigamente. A onda cyber nos atingiu, legou-nos a internet, os celulares e as noites delirantes em companhia dos computadores; e passou… tantas coisas mudaram, tantas ficaram como sempre são. É nesse instante que o filósofo olha para o hacker e pergunta: “e agora? o que vem depois?”, e o hacker responde: “Não vem. O cyber morreu. Viva o pós-cyber!”

 

Steampunk

Amostra de um futuro que jamais houve

Um dia William Gibson (o mesmo autor de Neuromancer) acordou com um bug nas idéias, se reuniu com Bruce Sterling e juntos eles decidiram desenterrar o projeto da máquina diferencial de Charles Babbage (que se tivesse funcionado teria se tornado o primeiro computador da história, isso em… 1822!), puseram-na para funcionar sob forças fictícias e criaram um desvio na história, situando a revolução da informática um século antes que ela realmente acontecesse. O resultado foi The Difference Engine, outro romance que chegou para abalar a FC com estilo.

Imagine você que maravilha o mundo computadorizado batendo cartões em máquinas a vapor, os céus tomados por zeppelins movidos por piloto automático e a Rainha Vitória atravessando os oceanos com os submarinos da Nautilus Rapinante Ltda. Sim, isso mais parece Júlio Verne recauchutado, com engrenagens de ouro e rococós barrocos. O steampunk – punk a vapor – é a tendência que veio explorar o progresso científico que o passado poderia ter vivido e que jamais aconteceu. A premissa sempre é fundamentada em um ponto crítico da história, gerando um desvio para uma revolução tecnológica bem-sucedida.

Nos quadrinhos, o gênero foi muito bem explorado por Alan Moore em A Liga Extraordinária (cuja adaptação cinematográfica deixa a desejar). E mais recentemente, o filme A Bússola de Ouro traz uma linda amostra dos devaneios estéticos do steampunk.

Na verdade, o punk a vapor é um gênero pouco ou nada funcional, mas com um apelo estético fortíssimo, retro-futurista e quase parnasiano. Em outras palavras: “essa engenhoca do vovô não serve pra nada, mas é tão bonitinha, tão legal, tão bacana…!!”

 

História Alternativa

 

 E se…?

E se os nazistas tivessem ganho a segunda guerra mundial? E se Napoleão vencesse a batalha contra a Rússia? Como seria se a colonização holandesa tivesse vingado no Brasil?

Perguntas desse tipo deram origem a um gênero inteiro dentro da ficção especulativa que se dedica a recontar a história, criando realidades alternativas que divergiram da nossa em um ponto crucial do passado.

A obra mais conhecida é O Homem do Castelo Alto, de Philip K. Dick, que responde exatamente à questão: e se o Eixo tivesse vencido a segunda guerra? O romance de Dick apresenta um mundo dominado por duas potências: Alemanha e Japão. Os personagens são pessoas comuns oprimidas pela estrutura social fundamentada nas ideologias racistas que se tornaram parte do zeitgeist dessa nova ordem mundial, onde os negros são escravos e os poucos judeus que ainda existem vivem na iminência do extermínio.

Também é digno de nota o livro Outros Brasis, de Gérson Lódi-Ribeiro, que traz insights de realidades alternativas brasileiras. Por exemplo, se o Quilombo dos Palmares tivesse resistido, teriam os quilombolas criado seu próprio Brasil Palmarino? E ainda, se o Paraguai tivesse ganho a Guerra do Paraguai, teria se tornado a potência sulamericana que de fato prometera ser? E não seria o Brasil somente um paisinho agrícola sob sua esfera de influência? Questões intrigantes, possibilidades infinitas.

 

New Weird

 

Concepção artística de Perdido Street Station

Novo estranho. Novo, muito novo mesmo, tem sido considerado por algumas pessoas o gênero da vez. E como toda avant-garde que se preze tem um manifesto de origem, cito o manifesto new weird, na definição de Jeff VanderMeer:

“New weird é um tipo de ficção urbana de segundo mundo, que subverte as idéias romantizadas de ‘lugar’ encontradas na fantasia tradicional, principalmente pela escolha de modelos complexos e realistas de mundo como ponto de partida para cenários que podem combinar elementos tanto de ficção científica como de fantasia.”

 

Em outras palavras, é uma ficção que acontece em um lugar que pode ser qualquer lugar, e faz uma miscelânea de influências mil, colocando no mesmo balaio elementos que não têm aparentemente nenhuma relação entre si. É um estilo que apela para o bizarro e o estranho, e também tem uma estética própria – muuuuiiito psicodélica! O gênero é tão novo que existe apenas um autor que é rotulado new weird por unanimidade: China Miéville, e sua obra considerada a última bolacha do pacote: Perdido Street Station.

Quem fez uma incursão no gênero foi Alan Moore, com a série de quadrinhos Promethea. Promethea é um arquétipo de heroína que se manifesta sob inspiração em algumas mulheres – e homens também – abrindo os portais de um universo semiótico de faz-de-conta, onde vivem os arquétipos. É uma história se passa em um lugar que poderia ser qualquer lugar no mundo, e bate no liquidificador elementos de ficção científica, policial, noir, fantasia, mitologia e o que mais a imaginação puder comportar…

 

Conclusão

Após um longo período de estiagem, as editoras brasileiras voltaram a se interessar pela ficção científica. Há iniciativas tímidas de reedição de clássicos e algumas publicações inéditas isoladas. É certo que nestes últimos dois anos se publicou mais FC no Brasil do que nas duas últimas décadas. Se você se interessar em conhecer mais, aqui vai uma dica: não procure a prateleira de “ficção científica” nas livrarias, pois as melhores obras do gênero não estão rotuladas como tal. Antes disso, procure pelo nome dos autores indicados, e considere eventualmente procurar livros em sebos.

Tenha em mente que muitas paixões despertaram quando o livro certo caiu nas mãos certas.