Archive for 24 de outubro de 2008

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Sob a luz do luar, alguém cantou…

outubro, 24 - 2008

Au clair de la lune

Au clair de la lune, mon ami Pierrot
Prête-moi ta plume, pour écrire un mot.
Ma chandelle est morte, je n’ai plus de feu.
Ouvre-moi ta porte, pour l’amour de Dieu.

Au clair de la lune, Pierrot répondit :
-Je n’ai pas de plume, je suis dans mon lit.
Va chez la voisine, je crois qu’elle y est
Car dans sa cuisine, on bat le briquet.

Au clair de la lune, l’aimable lubin
Frappe chez la brune, elle répond soudain
-Qui frappe de la sorte ?, il dit à son tour
-Ouvrez votre porte pour le Dieu d’Amour

Au clair de la lune, on n’y voit qu’un peu
On chercha la plume, on chercha du feu
En cherchant d’la sorte je n’sais c’qu’on trouva
Mais je sais qu’la porte sur eux se ferma.

 

Sob a luz do luar

Sob a luz do luar, meu amigo Pierrot,
Empresta-me tua pena para uma carta escrever
Meu candeeiro se apagou, não tenho um lume sequer
Abre-me tua porta, pelo amor de Deus

Sob a luz do luar, Pierrot respondeu:
Eu não tenho uma pena, e já me deitei,
Bate na próxima porta, creio que eles estão,
Pois vejo que na cozinha uma luz se acendeu.

Sob a luz do luar, o amável Lubin
Bate na porta da morena, que de pronto lhe responde:
“Quem bate deste jeito?”, e ele diz em sua vez:
“Abre tua porta para o deus do amor!”

Sob a luz do luar pouco se pode ver.
Procuraram pela pena, procuraram pelo fogo,
E procurando deste modo, não sei se encontrou
Apenas sei que aquela porta atrás deles se fechou.

(tradução livre)

De todas as pessoas que cantaram esta canção folclórica francesa em 8 de Abril de 1860, uma delas estava em frente ao fonautógrafo de Monsieur Scott e acabou deixando para a posteridade a primeira gravação da voz humana, registrada sem que o inventor do aparelho sonhasse em um dia reproduzi-la.
O fonautógrafo, patenteado por Édouard-Léon Scott de Martinville, consistia em um cone aberto que convergia as ondas sonoras sobre uma membrana, cuja vibração movia uma agulha que riscava um rolo de papel esfumaçado acoplado a uma manivela. A única função do aparelho era obter a assinatura visual dos sons, o que poderia ajudar no estudo da acústica. Métodos de reprodução do registro sonoro ainda eram uma possibilidade remota para a tecnologia da época, isso até que Thomas Edison inventasse o fonógrafo (ou gramofone) em 1878.

Fonautógrafo

O fonautógrafo de Monsieur Scott, de 1857.

Neste ano, quase um século e meio depois, os áudio-historiadores do projeto First Sounds recuperaram o primeiro registro de voz e efetivamente “despertaram um morto”. A gravação foi digitalizada, corrigida e limpa do excesso de ruídos. De sua reprodução soou uma voz incompreensível, etérica, mas reconhecivelmente humana, cantando a quinta linha de Au Clair de la Lune. Quando a ouvi pela primeira vez, senti um arrepio lá no fundo da alma.  “Meu Deus, a gravação está péssima!!” – pensei – “Mas há algo mágico nela: há uma voz, há uma melodia, um tom vago, e nada mais”.

Ouça a gravação de Au Clair de la Lune (1860).

A gravação tem data, mas não há o registro de um nome. Não dá para saber se esse cantor anônimo é um homem ou uma mulher, o timbre não foi preservado, tampouco dá para entender a letra, as palavras se dissolveram numa nuvem de ruído.  Desse cadáver sonoro restaram apenas as notas, o canto fantasmagórico de uma pessoa que nunca vamos saber quem foi, e que provavelmente nunca desconfiou que o mundo inteiro a ouviria cantar, ainda que de relance e a uma distância inimaginável… 148 anos no futuro!

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