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A Dança das Tribos

novembro, 20 - 2008

tribo

Na pré-história, o caçador que saísse para caçar e voltasse para uma tribo que não fosse a sua, corria um sério risco de se tornar a janta. Muito cedo havia que se aprender uma regra muito básica de sobrevivência: os outros são o perigo, os nossos são o abrigo. Saber diferenciar entre os mesmos e os outros era definitivamente uma questão de vida e morte.
“Não fale com estranhos”. “Não vá muito longe de casa”. “Não aceite nada que um desconhecido lhe oferecer”. – Quantos desses conselhos ouvimos de nossos pais durante a infância? Eles nos alertam sobre o perigo que são os outros.
Hoje os tempos mudaram, mas o ser humano continua sendo o predador – e tecnicamente o único – de outro ser humano.
A evolução nos legou um sistema de reconhecimento que nos alerta contra os potenciais predadores de nossa própria espécie. Um alarme soa quando a criatura que está à nossa frente é diferente daquelas com as quais costumamos conviver: ela é de outra cor, ou se veste de um modo diferente, ou tem trejeitos estranhos, ou fala com sotaque… Por regra, facilmente você identifica um outro no meio de vários mesmos, ainda que as diferenças sejam sutis. O outro incomoda. O cérebro demora a tolerar sua presença e continua sinalizando: atenção, perigo!
A verdade é que você nunca sabe o que o outro pode lhe fazer. E por mais que esteja consciente de que não há nenhum risco, perdura uma sensação visceral, involuntária, talvez até insconsciente de que aquele é um outro.
Mas aí o tempo passa, o outro se torna o seu vizinho, vocês convivem no dia-a-dia, se conhecem, se acostumam… e o alarme se atenua ou simplesmente deixa de tocar. Depois de um tempo de convívio, o outro se torna um mesmo, alguém perfeitamente familiar.

Só na última década os cientistas conseguiram olhar para dentro de um cérebro humano em funcionamento e entender o que faz com que os outros sejam “outros” e os mesmos sejam “mesmos”. Os pivôs são duas pequenas estruturas em forma de amêndoa que se localizam na base do cérebro – as amígdalas. São elas que produzem a sensação de medo e funcionam a qualquer sinal de perigo, inclusive aos que não percebemos conscientemente. Viu-se que as amígdalas se ativam mais intensamente quando uma pessoa observa o rosto de um grupo étnico diferente do seu, e isso não tem nada a ver com o seu posicionamento – se ela é racista ou não – é uma reação automática que acontece a despeito do esforço consciente para inibi-la.
Isso quer dizer que a natureza nos torna automaticamente racistas?
Não exatamente. O racismo parece ser um artefato comportamental de um sistema muito antigo de avaliação social – que deve ter tido uma importância evolutiva no passado, mas que causa problemas hoje em dia. Pensando assim, as mesmas ideologias que deram origem a monstros como o holocausto nazista e o apartheid nasceram de um instinto natural pela preservação da tribo, só que exacerbado de forma patológica e num momento histórico totalmente inadequado. Daí concluímos que o ser humano civilizado é mais vítima de seus instintos do que pode imaginar, responde a eles inconscientemente e muitas vezes usa toda a sua razão e inteligência para tentar justificá-los.

amigdalas

As amígdalas estão representadas como essas coisinhas vermelhas na base do cérebro

Observando a amígdala por ressonância magnética funcional, Elizabeth Phelps e sua equipe descobriu que norte-americanos brancos eram mais responsivos a faces de negros do que negros a faces de brancos. Isso provavelmente acontece porque os negros norte-americanos estão inseridos dentro de uma sociedade e uma cultura majoritariamente comandada por brancos, de modo que estão muito mais familiarizados com os brancos do que os mesmos brancos para com eles.

É interessante notar como a dinâmica das raças no Brasil se desenvolveu e como isso levou o racismo tupiniquim a se diferenciar do norte-americano. A história dos EUA construiu uma verdadeira barreira entre as raças que perdura até os dias de hoje, apesar da relativa igualdade de direitos conquistada. Esse modelo do “não se misture com eles” tem se mostrado o mais eficiente modo de reforçar o preconceito e a discriminação em qualquer cultura do mundo. Já no Brasil, desde os tempos coloniais os negros estavam inseridos dentro da vida dos brancos – eram os criados da casa senhorial, eram as negrinhas da senzala com quem os senhores se deitavam e os filhos bastardos que tinham com elas, eram praticamente toda a força de trabalho braçal das fazendas. Apesar do Brasil ter abolido a escravidão tardiamente e de todas as injustiças que se perpetuaram desde então, aqui negros e brancos partilharam uma relação de proximidade muito grande. Por esse motivo, no Brasil a barreira da pobreza se tornou muito mais sólida do que a das raças – aqui não temos guetos raciais, e sim favelas que nivelam a todos pela miséria.

babies

Importar modelos de compensação de países segregacionistas é um dos maiores erros que o Brasil pode cometer para tentar retificar a história, justamente porque daria importância a uma característica que aprendemos a ignorar (ao menos, melhor do que muitos outros países): a cor da pele.
Há certas coisas que os olhos podem ver mas o coração não deveria sentir.

De acordo com o que a psicologia social já sabe, a única forma em tornar os outros nossos mesmos é o convívio próximo: dar uma oportunidade para que você próprio se familiarize com um estranho, e deixá-lo familiarizar-se com você. A única saída é a convivência. Que negros, brancos, amarelos e vermelhos compartilhem o mesmo espaço, que homens e mulheres tenham os mesmos salários, que homossexuais namorem em público, que portadores de deficiência sejam atendidos em sua cidadania, que direitos e deveres sejam partilhados em comum, sem sufocar aquilo que temos de mais belo: nossa variedade, pois essa é a única maneira de ensinarmos tolerância a nós mesmos e deixarmos de nos encarar como estranhos, mas sim como membros de uma gigantesca tribo.

***

Aos biomédicos desejo um feliz dia do biomédico. A todos, um dia da Consciência Negra cheio de reflexões.

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7 comentários

  1. Belo post! Aprendi um bocado de coisas… e é interessante notar que a evolução no ser humano é lenta. Ainda estamos com alguns comportamentos pré-históricos, como essa característica de reconhecer perigo no “outro” e uma outra: também precisávamos comer o quanto pudesse num banquete pré-histórico, pois nunca se sabia quando seria o próximo e era necessário estocar energia. Isso não é mais necessário atualmente, com a relativa abundância de alimento (tá, a distribuição nunca foi lá justa), mas continuamos comendo como se fosse o último dia… e o corpo acha que precisa estocar.
    Penso até que uma civilização/sociedade com hábitos viciosos e dependente de tecnologia estagna a evolução natural e teríamos que evoluir por nossa conta, ou seja, artificialmente.
    Bom, páro por aqui. Tenha um bom dia de reflexões aí e feliz dia da biomédica 🙂


  2. Oi, Cristina.

    Um dos melhores textos que li sobre tolerância e amizade.
    Porque nada deveria se impor entre pessoas que desejam conviver pacificamente. Muito menos a cor da pele.

    Beijos mil!!!


  3. Parabéns pelo texto senhorita Cristina e um feliz dia da biomédica para você também.

    Como antropólogo de formação fico feliz que você seja mais uma a se maravilhar com o jardim das borboletas.

    Felicidades!


  4. Dã… Feliz Dia do Biomédico… mesmo atrasado.


  5. O coração não deveria sentir mesmo.

    E viva a pluralidade \o/

    (E você me surpreende, Christie. Mas ainda não vou falar disso, hehe).

    BEIJOS.


  6. Obrigada pessoal!

    Gi, parece que vamos acertar as contas com a evolução só no dia que aprendermos a reprogramar nossos próprios genes. Enquanto isso perpetuamos nossos maus genes com os inúmeros tratamentos para todos os males. Bom para o indivíduo, péssimo para a espécie.

    Jorge, obrigada! Aliás, nem sei quando é dia do engenheiro.

    D, não sabia que você era antropólogo! É o primeiro que conheço.

    Geovana, como assim “ainda”? Hehe 🙂

    Beijos


  7. Sinceramente, o perigo as vezes pode estar nos “mesmos”, basta saber de notícias em que mães, pais, filhos, se matam a troco de nada, ou de pouco, ou pior, não matam, mas abusam, agridem, ferem fisica ou psicologicamente o aparente “mesmo”.

    A humanidade apenas crescerá no dia em que a cor do sangue vai ser a única a ter importância, que é o que vai diferir vivos de mortos, e só.

    Venho de uma mistura deliciosa de cores e raças que carrego no sangue com todo o orgulho que muitos repudiariam, e quanto aos medos que a sociedade me desperta, é de suas fardas morais que tenho medo, dos muitos lobos em peles de cordeiros…



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