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Se é de tristeza que vivem os poetas…

novembro, 28 - 2008

“E de repente eu acordo e me dou conta de que estou angustiada.
Há um hiato na minha motivação quando eu olho para a janela e vejo os dias se passando do lado de fora, e eu aqui dentro, mofando, sendo sugada indefinidamente por um notebook que virou o meu melhor amigo, o meu confessor, o meu trabalho.
E a dependência é tanta, que eu tento fugir e vou me encontrar justamente aqui, espancando o teclado do meu confidente porque não vejo mais com quem falar, eu desaprendi todos os outros meios de ser gente. Eu falo com os dedos e não sei mais o gosto das palavras na boca, pouco a pouco me esqueço do costume primitivo da fala.
E eu olho a noite caindo lá fora e me pergunto: “o que estou fazendo da minha juventude?” Será que um dia eu vou cair em mim e me arrepender? E então lamentarei os dias que passei trancada com a minha desmotivação, essa desvontade que se abateu sobre mim e não me deixa?
Onde você está? O que anda fazendo da sua vida? O que isso tem resultado?
Nada. Nada. Nada!
Eu tento escrever, mas as palavras morrem muito antes de serem formuladas por algum circuito que há muito tempo se desligou em mim. Tento me encontrar nos meus planos, mas eles se transmutam em labirinto, e eu estaco, e titubeio, e perco a vida parada no mesmo ponto. Eu não consigo dar a guinada. Eu não consigo ir em frente.
E mais uma vez vacilo, e me deixo vacilar até perceber que eu não tenho outra saída senão prosseguir em meio ao labirinto de projetos inacabados que é a minha vida.
Eu não ganho dinheiro, eu não termino os meus livros, eu não saio da mesma e não chego a lugar nenhum. E me mordo em saber que todos os ângulos do fracasso convergem para uma aresta comum: esta pessoa falível que vos fala.
Esta pessoa que eu não domino e que me canso de ser.
E no instante eu sinto uma pontada de dor no peito, que se não é forte, é suficientemente real para sacudir minhas certezas e me fazer ter medo de um dia chorar sobre o tempo derramado.
Ao contrário do que você deve estar imaginando, isto não é um pedaço de ficção.
Isto sou eu.”

26 de Julho de 2007.

Às vezes, quando desenterro alguns textos dos meus arquivos antigos, me surpreendo ao constatar que fui eu mesma que os escrevi. Alguns são pavorosos de verdade (tecnicamente falando), outros são gritos maravilhosos e desesperados. Como esse, que data de uma fase complicada que passei em meados de 2007, quando parecia que nada na minha vida ia pra frente. É um berro tão íntimo e pessoal, tão cheio de melancolia clariceana, que certamente escrevi sem intenções de mostrar a alguém. Mas resolvi publicá-lo porque meu estado de espírito hoje é tão diferente que chego a considerar esse desabafo como uma peça de criptobiografia. Desconfio que os bons momentos só fazem sentido quando lembramos a cor do fundo do poço.

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10 comentários

  1. O estudo da criptobiografia só demonstra que depois das tempestades caóticas, sempre há calmaria e um patamar mais alto que alcançamos. 🙂


  2. Peço gentilmente que saia de minha mente nos próximos dois minutos. 🙂


  3. Oi, Cristina.

    Eu li com um nó na garganta.
    Na data em que você escreveu esse texto eu também passava por uma fase muito difícil na minha Vida.
    2007 não será lembrado como o melhor ano que passei.

    Por outro lado, procuro ver o lado bom do ano passado.

    Eu sobrevivi.
    Eu estou aqui.

    E parafraseando sua conclusão, o melhor da escuridão é quando enxergamos a luz.

    Beijos mil!!!


  4. É verdade Christie. Criptobiografia é uma forma de desconstruir-se e manter uma certa esquizofrenia saudável, através do acúmulo de auto-personagens que ficam cada vez mais exóticos com a distância.
    Ou ao menos temos cópias defasadas de nós mesmo rodando em continuums sem saída, como velhas cascas de inseto, convertidas em motores da angústia multiversal, alimentando o cinema de deuses moribundos.

    O chumbo fica no fundo e o ouro sobe como vapor transubstanciado.


  5. Minha CriptoEMO favorita ! 🙂


  6. Ótimo blog. Adorei o conto ‘O Homem ATômico’. Já coloquei nos favoritos.


  7. Cristina:

    Comprei seu livro Fábulas no Jedicon e ainda o estou lendo, mas já percebi que se trata de uma grande realização.
    Com certeza se no ano passado você estava em crise por não finalizar seus projetos, este ano você deve estar muito orgulhosa do que criou.
    Ou se não está, na minha opinião, deveria 🙂


  8. Boteco urgente.


  9. Oi Mauro,
    Muito obrigada! Exato, esse ano sobrepujou as expectativas. Não dá pra conseguir nada sem antes penar e pastar um pouco.

    Mila,
    Hehe, nessa época eu não tinha nem grana pra botecar. Situação crítica!


  10. pois é, menina-cristina
    o phoda que atualmente me encontro como você em 2007, especialmente em relação à falta de dinheiro. escritor é tudo um bando de débil mental. rsrs.
    beijos.



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