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Meu vício predileto

janeiro, 16 - 2009

cafe

Não saio de casa sem o pretinho básico. De vez em quando, se bebo demais, bate uma sensação de estômago corroído e uma ligeira percepção de entorpecimento – efeito que costumo atribuir ao adoçante, ou talvez ao plástico da colherinha.

O coração fica meio descompassado, mas não é de paixão. Mexe de um jeito meio errado, criando um vácuo no peito – oi! estou aqui! – Mexe como quem não quer ser esquecido. Não escolhe hora para debandar a bater, às vezes no meio da propaganda da Telessena, às vezes durante o sono sem sonhos, ou numa visita ao banheiro, ou virando a esquina de casa… Dizem que é por causa da cafeína. Eu insisto: é culpa do adoçante, vou mudar de marca.

Um dia, ele – seu coração – dá um salto no peito e te põe num baita susto. É aí que você promete: vou parar de tomar por um tempo.

Dito. Dito e feito.

Entra em jogo a neuroquímica dizendo: esquece, você não vai conseguir; se não conseguiu parar de roer unha em vinte anos – as unhas!, que só servem para remoer a ansiedade e não dão nenhum barato – imagine se vai aguentar viver sem a molécula chave da alquimia metropolitana!

Você percebe que está viciado quando tenta parar e descobre que não dá. Dois dias de abstinência é o limite.

O despertador toca, o dia começou sem pedir licença. Você acorda sem acordar, se autoexpulsa da cama. Vai tomar o café da manhã sem café – ou seja, toma só a manhã. Fecha a porta de casa e o corpo segue por inércia, dormindo nas profundezas do cérebro o sono das múmias. A calçada é cinza, as casas são cinzas, os carros são cinzas, o cachorro é invisível (você não viu e foi logo chutando). Anda por aí que nem um zumbi, se arrastando. Pega o metrô e percebe que o tempo se move aos saltos. Agora eu existo, agora não. Existo. Não existo. Estou. Não estou (deixe recado na caixa postal). Tenta ler um livro, precisa amarrar a mente em algo que lhe prenda na realidade. Lê um parágrafo, uma página, dez folhas… e o que estava escrito mesmo? Não faço idéia.

O dia não rende. Você faz o trabalho com o mesmo prazer de alguém que faz um tratamento de canal: anestesiado.

Alguém lhe vê de olhos baixos, pensa que está de porre – você tomou alguma coisa? Não, o problema é esse: eu deixei de tomar! E adoraria ir tomar bem agora… em qualquer lugar.

Chega em casa um trapo. Cai na cama e dorme que nem um bebê (o que não quer dizer necessariamente que irá acordar babado, melado e vomitado, isso não). Dez, doze irremediáveis horas de sono; uma verdadeira hibernação. E se não dormir o suficiente, o dia seguinte será a mesma maravilha.

Por fim, dor de cabeça.

E na manhã seguinte vem aquele cheiro inconfundível de um pretinho bem passado, que o faz esquecer que um dia na vida teve dor de estômago – é melhor que a enxaqueca de ontem, que andar de olhos baixos e ser daltônico por opção – esquece do coração destrambelhado. O coração descompassa, mas é de fissura. Vai buscar a xícara. Melhor, a tigela de sopa! E toma pela primeira vez em dois dias o café da manhã com café.

E o mundo volta a ser como era antes. Você e a molécula, felizes para sempre…

* * *

Motivos para você também tomar, beber ou encher a cara, a seu critério:

Beber café pode prevenir o Alzheimer, diz estudo.

Café reduz risco da doença de Parkinson, indica estudo.

Mulheres que bebem café tem risco reduzido de câncer de ovário.

Consumo de café protege fígado contra cirrose e câncer.

Cafeína reforça a barreira hematoencefálica prevenindo doenças neurológicas.

Beber café melhora o humor, deixa a pessoa mais desperta, melhora a capacidade de raciocínio e retenção de conhecimento.

Cafeína demais pode causar alucinação, diz estudo. (agora sei que nunca tomei o bastante)

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Reset

janeiro, 1 - 2009

Como bem disse Mário Quintana, o calendário é um belo truque que nos oferece a ilusão contínua de um recomeço. Ano vai, transforma fatos em memória, carrega velhas querelas embora. Ano vem, traz consigo uma safra de desejos novos e promessas recicladas. O ano novo é aquele inóspito momento onde se situa a fábrica das expectativas, quando tudo é otimismo e confraternização; e a cada fim de calendário aparece aquela coceira existencial, vontade de largar o ano que passou no cabide e vestir um ano branquinho combinando com uma atitude nova, outros planos, idéias, esperanças… Não vou negar, não escapo disso. A cada virada preciso reformar algo na minha vida (nem que seja o template do blog), fechar pra balanço, elaborar uma lista de realizações.

E para o ano que começa, eu desejo:

Que as crianças deste país possam ter uma educação mais decente.

Que o Brasil saiba valorizar sua cultura e que o acesso a ela seja mais democrático.

Que Obama assuma seu cargo frente à “delegacia do mundo” com muito mais responsabilidade que seu antecessor, e que tenha sorte e jogo de cintura para não frustrar tantas expectativas.

Que o otimismo inabalável do Lula tenha ressonância na realidade.

Que o mundo se recupere da crise econômica, que não sejam os mais fracos a levar sempre a pior.

Uma sociedade um pouquinho mais justa e igualitária.

Muito trabalho. Ter um tempo para me dedicar à literatura. Começar a escrever aquele livro que estou muito a fim de escrever.

Ver bons livros lançados por jovens escritores. Que a literatura brasileira possa florescer outra vez e se firmar em um novo momento.

Um corretor do Word com as regras da reforma ortográfica (esse não pode faltar).

Quem sabe, realizar o sonho de ver a virada de 2010 na baía de Sydney.

Que os ganhos compensem as perdas, que você também realize seus sonhos.

E que 2009 nos traga muita coisa boa para lembrar.