Archive for fevereiro \28\UTC 2009

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Leituras de Fevereiro/2009

fevereiro, 28 - 2009

warinheaven

War In Heaven – David Zindell

É o romance que encerra a série Requiem For Homo Sapiens. A sequência de livros é:

Neverness  (1988)
The Broken God  (1992)
The Wild  (1995)
War In Heaven  (1998)

Fiz alguns comentários sobre a série no tópico Leituras de 2008. O balanço final, depois de ter concluído a saga, é que ler David Zindell é uma experiência diferente, dolorosa e recompensadora. Diferente por quê? Porque é um épico de ficção científica sui generis, uma aventura gigantesca comparável à Duna do Frank Herbert, porém com uma dimensão profundamente humana, filosófica e um tratamento que ora resvala para o romantismo, ora para o arcadismo, alimentada pelo mito do bom selvagem e os motes carpe diem, fugere urbeminutilia truncat. O resultado é beleza, é arrebatamento. Ainda hoje considero difícil encontrar escritores de ficção científica que tenham coragem (sim, isso mesmo) de demonstrar tanta sensibilidade. Doloroso por quê? Primeiro porque faz pensar muito na condição humana, na vida e na morte. Depois porque cada livro é um calhamaço de 700 a mil páginas, com margens estreitas, espaçamento simples e letrinhas pequenas. Para leitores vorazes, isso não é problema. Mas David Zindell tem uma qualidade que de certo modo também é um defeito: ele é muito prolixo e repetitivo, a ponto de podermos cortar 70% do texto sem acarretar nenhum prejuízo à história. Mas logo percebe-se que o excedente é responsável pela ambientação e o detalhamento que transportam o leitor para outro universo, e como o próprio Zindell confessou em uma entrevista que li tempos atrás, ele realmente gosta de preencher todas as lacunas e descrever tudo ao nível dos pequenos detalhes. E aí se explica por que é recompensador ler: Zindell conta a história de 4 gerações em um universo fabuloso, que é uma das coisas mais ambiciosas que já vi na ficção científica. Em muitos aspectos lembra o universo de George Lucas, em que existem centenas de planetas e inúmeras irmandades, tribos, sociedades, onde a política tem um papel centralizador, a tecnologia alcançou a aparência de mágica e há até um vilão-mocinho que fora corrompido para o lado negro da força e uma espécie de estrela da morte ameaçando pulverizar a galáxia. Mas as semelhanças param aí. É evidente que David Zindell usa os mesmos arquétipos, mas lhes confere uma aparência toda nova e peculiar. A série inteira é bastante engenhosa e criativa. Em alguns momentos cai no marasmo, mas há a recompensa dos trechos em que fica impossível largar o livro.

Se fossem traduzidos para o português, Neverness e a trilogia Requiem For Homo Sapiens seriam publicações caras demais para um público muito restrito, e não vejo uma editora louca que se arrisque. As edições americanas ficaram muito tempo sem ser reeditadas e podem ser importadas pela Amazon. David Zindell está longe de ser um autor popular, mesmo nos EUA, mas quem resolver se aventurar nas dobras do universo formidável que ele criou tem o meu estímulo.

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 O Escafandro e a Borboleta – Jean-Dominique Bauby

É a autobiografia tragicômica de Jean-Dominique Bauby, ex-redator chefe da revista Elle, que após um acidente vascular cerebral ficou totalmente paralisado dos pés à cabeça, e o que é pior: completamente lúcido. Essa condição bastante rara, conhecida como síndrome locked-in, é descrita como a sensação mais próxima de ser enterrado vivo. Jean-Dominique ficou privado de toda a sua ligação com o mundo e impossibilitado de se comunicar, ou de acordo com a metáfora criada por ele mesmo: sentia-se afundar dentro de um escafandro, enquanto sua memória e imaginação intactas – a borboleta – eram as únicas forças capazes de libertá-lo por alguns instantes. O único movimento que lhe restou foi o da pálpebra esquerda, e isso bastou para que a ortofonista estabelecesse um elo de comunicação, soletrando a Jean-Dominique uma versão do alfabeto no qual as letras são ordenadas de acordo com sua frequência na língua francesa para que ele piscasse na letra escolhida e assim, letra por letra, formasse palavras e depois frases. O livro inteiro foi escrito nesse sistema. Jean-Dominique descreve o seu processo de compor o texto, memorizar e editar mentalmente para depois escrevê-lo com a ajuda de uma redatora em intermináveis sessões de piscadas. E olhe que não é um livro tão curto. Jean-Dominique conta suas memórias constrastando a sua vida antes do AVC com a do homem que um dia acordou dentro do escafandro, descrevendo o tamanho da sua angústia ao mesmo tempo em que ri da tragédia com um sarcasmo e senso de humor incríveis.

Jean-Dominique faleceu dez dias após a publicação de O Escafandro e a Borboleta.

aguaviva

Água Viva – Clarice Lispector

Ler um livro da Clarice é sempre uma experiência refrescante para a linguagem e para o espírito. Água Viva é um livro epifânico, na mesma linha de A Paixão Segundo G.H., transbordante de emoção e reflexão, uma viagem sem início nem final através da alma da autora. A viagem é existencial, é uma tentativa de descrever em palavras a vida quando não existem palavras que possam descrevê-la. O “eu” de Clarice mergulha inúmeras vezes na tessitura da existência, morre, renasce, dá à luz a consciência do leitor, nega a morte diante de Deus para reassumi-la e tentar compreendê-la, num processo cíclico, contínuo.

Tenho que dizer algo muito pessoal agora: cada livro da Clarice é um terremoto pra mim. Sinto que preciso dela, como ser humano e como escritora.

tempoespaco

Além do Tempo e do Espaço – vários autores

Publicada em 1965, é uma coletânea de contos da chamada “1ª onda” da ficção científica brasileira. Como toda coletânea, alguns autores se saem melhor do que outros. Algo que reparo muito nessa geração é que o conceito de ficção científica  ainda não parecia estar totalmente absorvido, alguns textos da coletânea não me pareceram nem um pouco sci-fi, mas sim contos fantásticos.  O elogio é que eles introduziram o gênero no Brasil. A crítica é que não tinham ninguém a superar senão eles mesmos.

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Retratos da Leitura no Brasil

fevereiro, 20 - 2009

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Saíram os resultados de uma pesquisa muito interessante feita pelo IBOPE para o Instituto Pró-Livro que teve por objetivo traçar o perfil dos leitores e não leitores brasileiros. O relatório da pesquisa traz uma grande quantidade de informações que acredito ser do maior interesse dos escritores, ou ao menos daqueles interessados em saber quem e quantos são os leitores do Brasil, o que eles lêem e porque lêem. Segue um resumo dos dados mais importantes:

Gêneros mais lidos pelos leitores:

Bíblia  45%
Livros didáticos  34%
Romance  32%
Literatura infantil  31%
Poesia  28%
História em quadrinhos  27%
Livros religiosos  27%
História, política e ciências sociais  23%
Contos  20%
Enciclopédias e dicionários  17%
Literatura Juvenil  15%
Biografias  14%
Auto-ajuda  13%
Cozinha/ artesanato/ assuntos práticos  12%
Livros técnicos  12%
Artes  10%
Ensaios, Ciências e Humanidades  7%
Esoterismo (ocultismo)  4%
Outros  3%
Nenhum destes  3%

Escritores brasileiros mais admirados pelos leitores:

1) Monteiro Lobato
2) Paulo Coelho
3) Jorge Amado
4) Machado de Assis
5) Vinícius de Moraes
6) Cecília Meireles
7) Carlos Drummond de Andrade
8) **Érico Veríssimo
9) José de Alencar
10) Maurício de Souza  
11) Mário Quintana
12) Ruth Rocha
13) Zibia Gasparetto
14) Manuel Bandeira
15) Ziraldo
16) Chico Xavier
17) Augusto Cury
18) Ariano Suassuna
19) Paulo Freire
20) Edir Macedo               *medo*
21) Castro Alves
22) Graciliano Ramos
23) Rachel de Queiroz
24) Luis Fernando Veríssimo
25) Clarice Lispector

**essa carinha foi sacanagem do wordpress

Os livros mais importantes na vida dos leitores:

1) Bíblia
2) O Sítio do Pica-pau Amarelo**
3) Chapeuzinho Vermelho
4) Harry Potter
5) Pequeno Príncipe
6) Os Três Porquinhos
7) Dom Casmurro
8) A Branca de Neve
9) Violetas na Janela
10) O Alquimista
11) Cinderela
12) Código Da Vinci
13) Iracema
14) Capitães de Areia
15) Ninguém é de Ninguém
16) O Menino Maluquinho
17) A Escrava Isaura
18) Romeu e Julieta
19) Poliana
20) Gabriela Cravo e Canela
21) Pinóquio
22) Bom Dia Espírito Santo
23) A Moreninha
24) Primo Basílio
25) Peter Pan
26) Vidas Secas
27) Carandiru
28) O Segredo
29) A Ilha Perdida
30) Meu Pé de Laranja Lima

**O número de citações da Bíblia é 10 vezes maior do que do 2º colocado.

O último livro que os leitores leram ou estavam lendo na data da pesquisa:

1) Bíblia
2) Código Da Vinci
3) O Segredo
4) Harry Potter
5) Cinderela
6) Chapeuzinho Vermelho
7) Violetas na Janela
8) A Branca de Neve
9) Os Três Porquinhos
10) O Sítio do Pica-pau Amarelo**
11) O Caçador de Pipas
12) Dom Casmurro
13) O Monge e o Executivo
14) A Moreninha
15) Senhora
16) A Bela e a Fera
17) Romeu e Julieta
18) Iracema
19) Peter Pan
20) Bom Dia Espírito Santo
21) A Pequena Sereia
22) O Cortiço
23) O Grande Conflito
24) Pinóquio
25) O Alquimista
26) Pequeno Príncipe
27) O Menino Maluquinho
28) Quem mexeu no Meu Queijo
29) Edir Macedo (Biografia)
30) Pais Brilhantes, Professores Fascinantes

Quem mais influenciou os leitores a ler:

Mãe (ou responsável mulher)  49%
Professora  33%
Pai (ou responsável homem)  30%
Outro parente  14%
Amigo  8%
Padre, pastor ou líder religioso  5%
Colega ou superior no trabalho  2%
Outros  3%
Ninguém  14%
Não sabe ou não informou  1%

Principais formas de acesso aos livros:

Emprestados por outras pessoas  45%
Comprados  45%
Emprestados por bibliotecas (inclusive escolares)  34%
Presenteados  24%
Distribuídos pelo governo e/ou escolas  20%
Baixados gratuitamente da internet  7%
Fotocopiados/ xerocados  7%
Não informou  4%

Canais do mercado para acesso aos livros:

Livrarias  35%
Bancas  19%
Sebos  9%
Feiras de livro  9%
Igrejas  6%
Supermercados  5%
Vendedores ambulantes  4%
Pela internet  4%
Na escola  4%
Lojas de departamentos  2%
Porta a porta  2%
Outros  1%

Motivação do consumidor para comprar um livro:

Prazer ou gosto pela leitura  28%
Entretenimento e lazer  21%
Porque a escola/faculdade exige  17%
Necessidade do trabalho  9%
Presentear  6%
Outro motivo  3%
Não compram livros  47%

Fatores que mais influenciam os leitores na escolha de um livro:

Tema  63%
Título do livro  46%
Dicas de outras pessoas  42%
Autor  33%
Capa  23%
Críticas/resenhas  13%
Publicidade/ Anúncio  12%
Editora  7%
Outro motivo  2%
Não costuma escolher livros  9%

Quanto aos não leitores, razões alegadas para não terem lido livros no último ano:

Por falta de tempo  29%
Não é alfabetizado  28%
Por desinteresse ou não gostar de ler  27%
Prefere outras atividades  16%
Não ter dinheiro  7%
Falta de bibliotecas por perto  4%
Não havia onde comprar  2%
Por problemas de visão ou doença  1%
Não costuma ler  15%
Não sabe ou não informou  3%

Indicadores:

Números de leitores autodeclarados:

95,6 milhões (55% da população estudada)*

*Leram pelo menos 1 livro nos 3 meses anteriores à pesquisa.
*Não inclui os 6 milhões que disseram ter lido em outros meses do ano.
*47,4 milhões (50%) leram livros indicados pelas escolas (incluindo didáticos) e 6,9 milhões estavam lendo a Bíblia.

Número de não leitores:

77,1 milhões (45% da população estudada)#

#Não leram nenhum livro nos 3 meses anteriores à pesquisa.
#Estão aqui os 6 milhões que disseram ter lido pelo menos 1 livro nos outros meses do ano.
#4,5 milhões (6%) dos não leitores lêem a Bíblia.

Número de livros comprados por ano:

1,2 livros por habitante/ano €

€ Entre compradores, a média foi de 5,4 livros adquiridos por ano.
€ 36,3 milhões (21% da população estudada) compraram pelo menos 1 livro no ano anterior.
€ Informações prestadas pelo entrevistado e não checadas no ponto de venda. Referem-se a livros em geral, inclusive os indicados pela escola.

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Fábulas na revista Locus

fevereiro, 20 - 2009

Soube que eu e meu livrinho aparecemos na revista americana Locus de janeiro de 2009, em um artigo sobre a ficção científica no Brasil.

locus-january-2009

Quero comprar um exemplar, mas não tenho cartão de crédito internacional. Alguém pode me dar uma mãozinha?

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Vida de escritor (sem purpurina)

fevereiro, 18 - 2009
Uma pessoa vai andando pela rua e encontra um amigo:
– Oi, como vai? Soube que virou escritor!
– É verdade, escrevi um livro.
– E está vendendo bem?
– Ah, sim! Já vendi meu carro, meu apartamento, meu telefone…

Retirado do livro da Sônia Belotto: “Você já pensou em escrever um livro?”

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Notícias do país das bananas

fevereiro, 14 - 2009

Verba para ciência sofre redução de 18% em 2009

O ministro da Ciência e Tecnologia, Sergio Rezende, classificou como irresponsável o corte de 18% no orçamento da sua pasta, aprovado pelo Congresso Nacional para 2009, e admitiu que, se a situação não se reverter, “bolsistas terão de ser mandados embora”.

A peça orçamentária foi feita pelo senador Delcídio Amaral (PT-MS). “O relator demonstrou falta de responsabilidade, de compromisso, com o futuro do Brasil”, afirmou Rezende à Folha ontem.

Rezende diz que o corte no orçamento é irresponsável; caso a situação não seja revertida, bolsistas terão de ser mandados embora.

O corte de R$ 1,1 bilhão representa um valor 10% maior do que toda a receita de 2008 da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), a agência estadual de fomento à pesquisa mais rica do país, que sustenta quase toda a ciência paulista.

Apesar de dizer que existem “incertezas” sobre o futuro, o ministro afirma que tentará resolver a questão das bolsas dentro do Executivo. “Acharemos uma saída e isso [a perda do benefício] não vai ocorrer.”

O corte no orçamento recebeu críticas duras da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) e da ABC (Academia Brasileira de Ciências). Os presidentes das duas instituições consideram a situação “extremamente grave” e dizem que, se os recursos forem realmente cortados, a política científica nacional ficará “desanimadora”.

Para Jacob Palis Jr, da ABC, esse corte seria como “dar um tiro no pé”. Ele demonstrou seu ponto de vista com o exemplo dos Estados Unidos: “No meio da maior crise que o país já teve, o presidente [Barack Obama] convocou grandes líderes científicos para participarem do governo e se comprometeu com o aumento dos investimentos no setor”, disse. “[Fazer cortes em ciência] é uma política de suicídio. A maneira de sair da crise é ser competitivo”, disse Palis.

Marco Antonio Raupp, da SBPC, concorda que investir em ciência e tecnologia é uma saída para a crise financeira e manifesta preocupação com a redução de recursos. Ele conta que “o Orçamento saiu do Executivo muito bem”. “Mas, no Congresso, de uma forma que a gente não entendeu direito, teve cortes significativos. Tudo isso nos pareceu arbitrário, uma aberração”, disse.

O ministério também foi pego de surpresa. “Tomamos conhecimento da proposta do relator na véspera da votação [em dezembro]”, disse Rezende.

“O governo, e o presidente Lula reafirmou isso, tinha a ideia de chegar ao fim de 2010 com 1,5% do PIB em investimentos de Ciência e Tecnologia. Atualmente, investimos na casa de 1%. Então, o aumento deveria ser de 50%. Esses cortes vão na contramão, evidentemente”, afirmou Palis.

Segundo ele, o prejuízo às bolsas de estudo é “um crime”. Em 2007, o país chegou a produzir 10 mil doutores. E a previsão para 2009 era de produzir 11,5 mil doutores. “Talvez isso não aconteça se esses cortes prevalecerem.”

Além das bolsas, os presidentes temem que os cortes afetem os recém-criados Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia –fato que Rezende rebate– e que eles travem o sistema de inovação no País. Esse programa, que cria centros de excelência em pesquisa no país, foi anunciado com pompa e circunstância pelo ministério no fim do ano passado.

Para os dirigentes científicos, o novo orçamento também pode prejudicar a tentativa de manter bons pesquisadores na Amazônia e atrair novos cientistas para a região.

* * *

Engraçado, eu não lembro de ter visto algum corte nos impostos que pago. Alguém aí sentiu que está pagando menos?

Sei que no Brasil a profissão de pesquisador é uma das mais ingratas. A “profissão” não tem regulamentação, a grande maioria dos pesquisadores trabalha sem carteira assinada ou vínculo empregatício, como meros professores visitantes ou adjuntos nas universidades públicas do país. Não há benefícios, 13º, licença maternidade ou aposentadoria. Não raro, a verba sequer é suficiente para manter os gastos de manutenção do laboratório, o “salário” dura enquanto durar a bolsa pesquisa, e a cada ciclo de aproximadamente quatro anos o profissional fica na dependência de uma renovação do auxílio junto às instituições de fomento, que têm poder total para decidir sobre a continuidade do projeto de pesquisa.

Tem dúvida de qual é o sentimento das pessoas que trabalham hoje com pesquisa científica no Brasil? O tamanho da desilusão de profissionais recém-formados que ainda têm expectativas quanto a um mestrado ou doutorado?

Mais do que nunca vê-se a opção de ir trabalhar no exterior como a única saída. O pior é que eu sei que na próxima eleição os candidatos à presidência (alô, Dilma?)  ainda vão fazer discurso denunciando a vergonha da fuga dos cérebros.

Cortar investimento em ciência é vergonhoso para um país emergente que diz ter sérias pretensões de ser alguma coisa na nova ordem mundial. O que há em comum entre as novas potências (inclusive China e Coréia do Sul) é a produção de ciência e tecnologia que depois venderão aos pobres burros que não têm condições de investir e por isso pagam muito mais caro para importar.

Meu sentimento no momento é: excelentíssimo senador Delcídio Amaral, uma banana trangênica pra você!!

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Mulheres na comédia

fevereiro, 13 - 2009

Tenho sentido muita falta, e olha que tem gente talentosa por aí.

Um apelo:

Garotas, façam comédia!

Marcela Leal (e Genial), comediante stand-up

 

Agnes Zuliani, comediante da Terça Insana

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Do the evolution, baby!

fevereiro, 13 - 2009

“I’m ahead, I’m a man
Im the first mammal to wear pants,
I’m at peace with my lust
I can kill cause in God I trust,
It’s evolution, baby!”

                                                 (Pearl Jam)

darwin

Lembro daquele dia, quando eu tinha 6 anos, em que peguei um peixinho no lago e saí correndo feliz da vida para mostrar às pessoas. Disseram que não era bem um peixe, era um girino, filho de algum sapo desnaturado. Mas como? Como assim? Fiquei abismada em saber que uma coisinha tão bonitinha e nadante estava destinada a se tornar um bicho feio melequento. Queria tirar a prova e ninguém me demoveu da ideia: levei o girino pra casa, iria observar o seu desenvolvimento. Coloquei-o num baldinho de água de água limpa e devidamente clorada da torneira, acho que devo ter colocado umas plantinhas arrancadas do jardim para ele se esconder. Tentei alimentá-lo com pedacinhos de pão, sucrilhos, bife… mas ele recusava e eu não sabia direito o que os girinos comiam. Ao fim de dois dias, com muito pesar, tive que comunicar meus pais que ele havia falecido.  Mas a metamorfose, depois vim a saber,  não era de mentira. Que coisa incrível, uma criatura virando outra completamente diferente!

Um dia vieram os lagartos, imensos, de cem toneladas e rugido ensurdecedor. Invadiram os cinemas, as bancas de jornais, as lojas de brinquedos… Vieram em forma de epidemia, não me pouparam: contraí dinomania severa. Desenvolvi um estranho frenesi por qualquer espécie de material relacionado a paleontologia, cheguei a ser mais íntima dos paquicefalossauros do que dos camelos do simba safári. Acreditar em dinossauros era diferente de acreditar em fadas, em papai-noel, em mula-sem-cabeça. Eles existiram! E evidentemente não existiam mais. Quando virava as páginas finais do período cretáceo surgia um sentimento muito parecido com indignação. Uma sensação de perda. Houve aqui criaturas extraordinárias que ninguém jamais saberá como foram na realidade, que cores tinham, como se movimentavam, como se comportavam? Sangue quente ou sangue frio? E os ambientes em que viveram, como se pareciam?

Calculando a perda definitiva de todos esses detalhes que nem um milhão de ossadas poderão reconstituir, comecei a compreender o quanto é dinâmico o ciclo da vida na Terra.  Talvez por essa razão eu tenha abraçado a teoria da evolução sem titubear: ela foi mais um brinquedo no meu berço. Muito lógica, muito óbvia: podia ser doloroso pensar em algumas das suas implicações, mas a ideia geral fazia com que eu me sentisse em casa.

Sei que foi estranho crescer e perceber que algumas pessoas não eram capazes de absorvê-la tão facilmente. Mais estranho ainda perceber que havia gente muito mais crescida metida em guerras ideológicas por causa da mesma. Tive que considerar que há pessoas que mamam na religião como eu mamei na ciência – coisa que veio do berço, da criação, da teimosia, whatever

Nunca me incomodou muito, para dizer a verdade. Uma vez dentro de uma universidade científica, cursando uma faculdade voltada à pesquisa em biológicas, o criacionismo ficou reduzido a uma curiosidade muito, muito distante, trancada do lado de fora da nossa rotina cheia de relatórios. O conceito de evolução não era um simples tijolo, mas uma viga de aço fundamentando toda a biologia que aprendemos.  Lembro de ter assistido a seminários maravilhosos com pesquisadores em busca das origens bioquímicas da primeira célula. Lembro de ter ficado chocada quando meu professor de neurofisiologia, Luís Eugênio Mello, comentou que nos Estados Unidos ainda existem pesquisadores que vão a congressos científicos defendendo o criacionismo.

Pois há um fenômeno pitoresco que acomete os americanos – ele disse. Nos EUA existe um grande número de universidades de fundação religiosa, sobretudo protestante, e contrárias à teoria da evolução. Desse modo, os EUA foram durante muito tempo um solo acadêmico não exatamente estéril, mas difícil para germinar pesquisas evolucionistas. Não é de estranhar que alguns dos principais estudiosos da área sejam da terra natal de Darwin, só para citar Richard Dawkins.

Uma crítica ao modelo evolucionista é que ele tem falhas, há quem diga que Darwin não conseguiu explicar o mundo natural com perfeição. É claro que não. Na época de Darwin a biologia não passava de um rascunho de ciência, não se conhecia praticamente nada sobre os processos estruturais, bioquímicos e biofísicos que constituem a vida. A própria teoria celular surgiu nesse tempo, e ainda nem se sonhava com a genética (só para ter uma ideia, as descobertas de Mendel sobre a hereditariedade só foram publicadas 7 anos depois da Origem das Espécies de Darwin e ficaram no anonimato até que fossem redescobertas em 1900). Isso apenas torna mais meritória a teoria de Darwin: ele não tinha conhecimentos que sustentassem suas ideias, não dispunha de tradição científica nenhuma para se basear, não havia gigantes ofertando-lhe os ombros para que ele enxergasse longe; todas as observações ele fez sozinho enquanto viajava o mundo a bordo do Beagle, e a gestação da teoria não levaria menos que 20 anos.

Imagino qual seria a reação de Darwin perante os projetos genoma que estão desenhando nossa árvore genética rumo à ancestralidade comum; e quando soubesse do mecanismo das mutações, que atuam “turbinando” a seleção natural; ou das descobertas arqueológicas do último século, que tem nos aproximado cada vez mais do elo perdido entre o homem e seu parente mais próximo. Essas são notícias que eu adoraria dar. Se hoje pudesse tapear um século e meio, visitaria Charles Darwin com minha maleta repleta de novidades. Falaria dos mecanismos que ele mesmo ignorava, levaria recortes de jornal para mostrar como sua encrenca se perpetua através dos séculos, como sua teoria virou bandeira de militância ateísta, e sobretudo: evidências como o mundo foi forçado a mudar e se curvar à sua descoberta.

Acredito que o embate da evolução com a religião não esteja fundamentado nas origens da vida, mas no seu significado presente, neste antropocentrismo vicioso: NÓS, A HUMANIDADE, os diletos de Deus, a razão do universo, o centro de todas as coisas, de repente sabotados pela nossa própria inteligência a nos provar que a Terra não é plana, também não é o centro do universo, nem sequer do sistema solar;  que as nossas fontes de riqueza são finitas; que somos primos do macaco e aparentados de todos os seres vivos por um ancestral comum; que talvez não estejamos sozinhos no universo, porém continuaremos isolados; que nossa vida pode surgir dentro de uma proveta… e o que virá depois? Uma prova de que não existe Deus? De que não existe vida depois da morte? De que não há paraíso? De que a humanidade é vulnerável no caos? De que daqui milhões de anos as criaturas que habitarão o mundo serão totalmente diferentes do que somos e todo nosso delírio de grandeza estará enterrado sob mil camadas sedimentares virando petróleo?

Mas e se essa for a verdade, por quanto tempo vamos varrê-la para baixo do tapete até admitir que não há outra escolha senão pôr um fim à nossa longa infância?

Se Darwin não tivesse nos legado a teoria da evolução – que viria à tona, mais cedo ou mais tarde – hoje o mundo seria muito diferente (e nada interessante, creio eu). O terremoto, a polêmica, o cisma – dos quais ainda hoje sentimos os ecos – foram libertadores simplesmente porque puseram abaixo o absolutismo dos dogmas. Negar as sagradas escrituras seria negar a divindade dos homens que a escreveram, recusar a nossa natureza divina para abraçar o parentesco com o macaco . É muito compreensível que algumas pessoas resistam à essa ideia.

A boa notícia é que se a humanidade sobreviver, virá a se tornar uma outra coisa um dia. E quem sabe essa pós-humanidade não esteja um pouco mais próxima desse ideal de perfeição tão humano que ousamos chamar de divino?