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Adaptação de verdade

fevereiro, 7 - 2009

Uma das frases que mais costumo ouvir quando saio do cinema é “o livro é certamente melhor”. Cresci entendendo as adaptações infelizes como uma lei inviolável de Holywood. Quantos filmes não assisti com aquela sensação de vergonha alheia, imaginando o pobre autor se contorcendo no túmulo? Não vou dizer que não há adaptações boas, já assisti a muitas que foram fiéis e satisfatórias. Mas admito que em raras, muito raras ocasiões me senti na obrigação de tirar minha boina para certos diretores e roteiristas de cinema que alcançaram a façanha de deixar um bom livro no chinelo.

É exatamente o que aconteceu com a adaptação cinematográfica de David Fincher para o conto homônimo de F. Scott Fitzgerald: O Curioso Caso de Benjamin Button.

Um filme bastante surpreendente, simplesmente encantador com seus cenários vintage, atmosfera poética e o casamento perfeito do maravilhoso com o cotidiano. Prende a atenção terrivelmente a despeito das três horas de duração, que passam rápido, fazendo a volta no tempo. Muito tocante. No final da sessão, encontrei umas duas ou três pessoas com os olhos vermelhos, rasos. Talvez precise admitir que eu também saí do cinema me sentindo algo diferente.

E intrigada.

A qualidade da adaptação de O Curioso Caso de Benjamin Button não se mede pela fidelidade ao texto original, muito pelo contrário, a licença criativa é enorme! Tornou o filme muito mais rico, detalhado, cativante e interessante do que o conto publicado em 1920 (que é lindo, diga-se de passagem).

No conto de Fitzgerald, Benjamin Button nasce velhinho – um velhinho grandinho e não um bebê -, e desde o primeiro dia de vida fala e reclama como um velho. Seu pai não o abandona, mas tenta escondê-lo do mundo e forçá-lo numa vida apropriada à sua idade verdadeira. Assim, o velhinho resmungão é contrariado, ganha brinquedos, é mandado para o jardim da infância, mas sendo idoso de “corpo e alma” seu grande prazer é mesmo fazer companhia para o avô. No filme, Benjamin é literalmente uma criança em corpo de velho, é curioso, quer brincar, gosta da companhia das crianças, é mimado pelos outros velhos, e essa não conformidade de idade/aparência garante o choque dramático. O personagem, aqui, vive as angústias de tentar se ajustar ao mundo de acordo com sua aparência enquanto sua mente, adequada à idade, grita na direção contrária. Benjamin transita por suas várias fases cruzando a vida às avessas, é o velho infantil, o coroa atencioso, o homem apaixonado, o gatinho despojado, o menino retardado e o bebê esquecido. Sua relação com o grande amor de sua vida ganha posição central na trama. Daisy (a garota dos cabelos de cor inesquecível, exatamente como descreveu Fitzgerald) é ao longo da história sua amiguinha “de infância”, jovem sedutora, namorada apaixonada, mãe de família e, mais tarde, uma espécie de avó adotiva. O cruzamento das duas vidas é o ponto alto.

No conto, a relação de Benjamin e Daisy se desgasta com o tempo e eles se separam quando suas idades se extremam demais. No filme, a relação entre ambos é muito mais profunda e, de certo modo, indissolúvel. Daisy não é meramente uma coadjuvante, torna-se uma segunda protagonista.

Grande parte da riqueza do filme se deve à adição de personagens pictóricos e cativantes (o capitão do rebocador, a nadadora, o sobrevivente dos 7 raios, a mãe adotiva, o relojoeiro cego, o exótico pigmeu…), vários deles desempenhando um papel fundamental na biografia de Benjamin Button. Outra curiosidade é que, à exceção do Sr. Button pai, nenhum desses personagens está no conto de Fitzgerald.

É claro que o conto, apesar de comprido e dividido em capítulos, sofre com as limitações do seu espaço restrito. O detalhamento não é profundo, mas a história é redonda, basta-se em si mesma apesar da premissa permitir o desdobramento de um romance. O que vi no cinema merece ser chamado de uma adaptação de verdade. Uma obra à parte, que não é necessariamente fiel, mas enriquece e transcende ao texto por saber acrescentar.

Não dá pra ser mais recomendável. Assista!

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4 comentários

  1. Oi, Cristina!

    Depois de ler suas observações, sem dúvida, irei assistir mesmo.
    Valeu a dica!

    Beijos mil!!!


  2. Hum, ainda não li o conto, mas pelo que tu descreve, parece que o filme é mais rico em detalhes… De fato, a adição dos personagens foi um complemento engraçado e delicioso. As cenas do homem dos 7 raios são divertidas! 😀


  3. O filme é bom pra caramba. David Fincher sabe o que faz.

    E talvez – só talvez – o cinema não esteja tão decadente quanto eu pensava, rs.


  4. Eu assisti 3 vezes, e fiquei apaixonada pela história, mas confesso nunca ter lido o conto… Depois dessa, pretendo ler, é bom ver os dois lados das coisas.



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