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Do the evolution, baby!

fevereiro, 13 - 2009

“I’m ahead, I’m a man
Im the first mammal to wear pants,
I’m at peace with my lust
I can kill cause in God I trust,
It’s evolution, baby!”

                                                 (Pearl Jam)

darwin

Lembro daquele dia, quando eu tinha 6 anos, em que peguei um peixinho no lago e saí correndo feliz da vida para mostrar às pessoas. Disseram que não era bem um peixe, era um girino, filho de algum sapo desnaturado. Mas como? Como assim? Fiquei abismada em saber que uma coisinha tão bonitinha e nadante estava destinada a se tornar um bicho feio melequento. Queria tirar a prova e ninguém me demoveu da ideia: levei o girino pra casa, iria observar o seu desenvolvimento. Coloquei-o num baldinho de água de água limpa e devidamente clorada da torneira, acho que devo ter colocado umas plantinhas arrancadas do jardim para ele se esconder. Tentei alimentá-lo com pedacinhos de pão, sucrilhos, bife… mas ele recusava e eu não sabia direito o que os girinos comiam. Ao fim de dois dias, com muito pesar, tive que comunicar meus pais que ele havia falecido.  Mas a metamorfose, depois vim a saber,  não era de mentira. Que coisa incrível, uma criatura virando outra completamente diferente!

Um dia vieram os lagartos, imensos, de cem toneladas e rugido ensurdecedor. Invadiram os cinemas, as bancas de jornais, as lojas de brinquedos… Vieram em forma de epidemia, não me pouparam: contraí dinomania severa. Desenvolvi um estranho frenesi por qualquer espécie de material relacionado a paleontologia, cheguei a ser mais íntima dos paquicefalossauros do que dos camelos do simba safári. Acreditar em dinossauros era diferente de acreditar em fadas, em papai-noel, em mula-sem-cabeça. Eles existiram! E evidentemente não existiam mais. Quando virava as páginas finais do período cretáceo surgia um sentimento muito parecido com indignação. Uma sensação de perda. Houve aqui criaturas extraordinárias que ninguém jamais saberá como foram na realidade, que cores tinham, como se movimentavam, como se comportavam? Sangue quente ou sangue frio? E os ambientes em que viveram, como se pareciam?

Calculando a perda definitiva de todos esses detalhes que nem um milhão de ossadas poderão reconstituir, comecei a compreender o quanto é dinâmico o ciclo da vida na Terra.  Talvez por essa razão eu tenha abraçado a teoria da evolução sem titubear: ela foi mais um brinquedo no meu berço. Muito lógica, muito óbvia: podia ser doloroso pensar em algumas das suas implicações, mas a ideia geral fazia com que eu me sentisse em casa.

Sei que foi estranho crescer e perceber que algumas pessoas não eram capazes de absorvê-la tão facilmente. Mais estranho ainda perceber que havia gente muito mais crescida metida em guerras ideológicas por causa da mesma. Tive que considerar que há pessoas que mamam na religião como eu mamei na ciência – coisa que veio do berço, da criação, da teimosia, whatever

Nunca me incomodou muito, para dizer a verdade. Uma vez dentro de uma universidade científica, cursando uma faculdade voltada à pesquisa em biológicas, o criacionismo ficou reduzido a uma curiosidade muito, muito distante, trancada do lado de fora da nossa rotina cheia de relatórios. O conceito de evolução não era um simples tijolo, mas uma viga de aço fundamentando toda a biologia que aprendemos.  Lembro de ter assistido a seminários maravilhosos com pesquisadores em busca das origens bioquímicas da primeira célula. Lembro de ter ficado chocada quando meu professor de neurofisiologia, Luís Eugênio Mello, comentou que nos Estados Unidos ainda existem pesquisadores que vão a congressos científicos defendendo o criacionismo.

Pois há um fenômeno pitoresco que acomete os americanos – ele disse. Nos EUA existe um grande número de universidades de fundação religiosa, sobretudo protestante, e contrárias à teoria da evolução. Desse modo, os EUA foram durante muito tempo um solo acadêmico não exatamente estéril, mas difícil para germinar pesquisas evolucionistas. Não é de estranhar que alguns dos principais estudiosos da área sejam da terra natal de Darwin, só para citar Richard Dawkins.

Uma crítica ao modelo evolucionista é que ele tem falhas, há quem diga que Darwin não conseguiu explicar o mundo natural com perfeição. É claro que não. Na época de Darwin a biologia não passava de um rascunho de ciência, não se conhecia praticamente nada sobre os processos estruturais, bioquímicos e biofísicos que constituem a vida. A própria teoria celular surgiu nesse tempo, e ainda nem se sonhava com a genética (só para ter uma ideia, as descobertas de Mendel sobre a hereditariedade só foram publicadas 7 anos depois da Origem das Espécies de Darwin e ficaram no anonimato até que fossem redescobertas em 1900). Isso apenas torna mais meritória a teoria de Darwin: ele não tinha conhecimentos que sustentassem suas ideias, não dispunha de tradição científica nenhuma para se basear, não havia gigantes ofertando-lhe os ombros para que ele enxergasse longe; todas as observações ele fez sozinho enquanto viajava o mundo a bordo do Beagle, e a gestação da teoria não levaria menos que 20 anos.

Imagino qual seria a reação de Darwin perante os projetos genoma que estão desenhando nossa árvore genética rumo à ancestralidade comum; e quando soubesse do mecanismo das mutações, que atuam “turbinando” a seleção natural; ou das descobertas arqueológicas do último século, que tem nos aproximado cada vez mais do elo perdido entre o homem e seu parente mais próximo. Essas são notícias que eu adoraria dar. Se hoje pudesse tapear um século e meio, visitaria Charles Darwin com minha maleta repleta de novidades. Falaria dos mecanismos que ele mesmo ignorava, levaria recortes de jornal para mostrar como sua encrenca se perpetua através dos séculos, como sua teoria virou bandeira de militância ateísta, e sobretudo: evidências como o mundo foi forçado a mudar e se curvar à sua descoberta.

Acredito que o embate da evolução com a religião não esteja fundamentado nas origens da vida, mas no seu significado presente, neste antropocentrismo vicioso: NÓS, A HUMANIDADE, os diletos de Deus, a razão do universo, o centro de todas as coisas, de repente sabotados pela nossa própria inteligência a nos provar que a Terra não é plana, também não é o centro do universo, nem sequer do sistema solar;  que as nossas fontes de riqueza são finitas; que somos primos do macaco e aparentados de todos os seres vivos por um ancestral comum; que talvez não estejamos sozinhos no universo, porém continuaremos isolados; que nossa vida pode surgir dentro de uma proveta… e o que virá depois? Uma prova de que não existe Deus? De que não existe vida depois da morte? De que não há paraíso? De que a humanidade é vulnerável no caos? De que daqui milhões de anos as criaturas que habitarão o mundo serão totalmente diferentes do que somos e todo nosso delírio de grandeza estará enterrado sob mil camadas sedimentares virando petróleo?

Mas e se essa for a verdade, por quanto tempo vamos varrê-la para baixo do tapete até admitir que não há outra escolha senão pôr um fim à nossa longa infância?

Se Darwin não tivesse nos legado a teoria da evolução – que viria à tona, mais cedo ou mais tarde – hoje o mundo seria muito diferente (e nada interessante, creio eu). O terremoto, a polêmica, o cisma – dos quais ainda hoje sentimos os ecos – foram libertadores simplesmente porque puseram abaixo o absolutismo dos dogmas. Negar as sagradas escrituras seria negar a divindade dos homens que a escreveram, recusar a nossa natureza divina para abraçar o parentesco com o macaco . É muito compreensível que algumas pessoas resistam à essa ideia.

A boa notícia é que se a humanidade sobreviver, virá a se tornar uma outra coisa um dia. E quem sabe essa pós-humanidade não esteja um pouco mais próxima desse ideal de perfeição tão humano que ousamos chamar de divino?

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10 comentários

  1. Você me fez lembrar da minha dinomania também…. Droga, onde que foi parar aquele esqueleto de T-Rex que eu tinha? 😦
    De fato, a teoria da evolução foi um dos grandes passos da ciência, e mesmo que alguns insistam em dar uns passos atrás (esses criacionistas), ainda vai evoluir para uma teoria melhor, e chegamos a grandes avanços graças ao primeiro passo feito por Darwin.
    Parabéns véio! (ontem não é aniversário dele ou da teoria?).
    E curti o post, viu! 😉

    PS: Girinos curtem sopas.


  2. Ah! Eu quase ia esquecendo… cê chegou a ver a imagem legal que o Natural Museum de London criou para divulgar a exposição deles sobre Darwin? Tá aqui: http://www.nhm.ac.uk/visit-us/whats-on/darwin/index.html
    Achei bem sacada! 😀


  3. Cris,
    Não apenas os criacionistas duvidam da evolução. Uma amiga minha, historiadora, não cristã, mas atéia, despreza profundamente a teoria de Darwin. Alega que, mesmo não tendo em mãos uma teoria melhor, não é obrigada a acreditar numa teoria furada. Embora eu não concorde, respeito esse tipo de (curioso) pensamento, pois respeito a audácia de quem questiona. Era certamente algo que Darwin possuía. 🙂
    Preciso caçar em alguma gaveta lá de casa meu velho álbum de figurinhas de dinossauros. Ô infância nerd boa…


  4. Mila, concordo com você…. que saudades da infância nerd! 😀


  5. […] das mutações, que atuam “turbinando” a seleção natural; … Veja o post completo clicando aqui. Post indexado de: […]


  6. Acho engraçado que dizem que “vir do macaco” é terrível. “Eu? Parente do macaco? Deus me livre!”. Mas vir do barro é ultra chique. Humaninhos de terracota.
    Como diz um amigo “Deus fez a barata sua imagem e semelhança”. Baci!


  7. Cris,
    Parabéns pelo seu texto sensível!


  8. Meus Parabéns!
    Eu concordei absolutamente com tudo e achei cada estrofe, frase e palavra sutilmente escrita no momento certo do texto. Sinto agora muita inveja de não ter sido eu a escrever esse texto, pois com toda minha sinceridade, representou toda minha dúvida, contestação e possível certeza (quem sabe um dia eu mude de opinião) em relação a minhas escolhas e pensamentos. Peço a você que possa divulgar seu texto, somente repassar a uns 3 ou 4 amigos e mostrar também a uns amigos em minha universidade. Nunca vi um texto de poucas linhas ir tão a fundo em um assunto complicadíssimo de se tratar e que seja tão fundamentado, simples. Colocadas nas devidas proporções, permita-me chamar seu texto de “Davi”, fazendo alusão a obra de Michelangelo, uma obra prima.
    Parabens mais uma vez e espero sua resposta em seu e-mail rsennas@hotmail.com, para que eu possa devidamente colocar sua correta bibliografia e autoria.
    Rafael Senna de Souza


  9. Muito bom seu texto.

    Não vejo empirismo nele.
    Muito bom mesmo. Mas sabemos que a própria ciência não é absoluta. De tempos em tempos novas teorias são criadas, o que ontem se acreditava, hoje já não se acredita mais. E no fim das contas é tudo muito relativo. Me pergunto, será que um dia o homem vai conseguir explicar o infinito do universo? Ou encontrar a menor partícula de matéria? E a teoria do Big Bang? Ela defini que ali foi o começo do universo, e antes desse começo, o que existia? e como explicar o “tempo”, será que existiu um marco Zero ou é ele sem inicio, meio e fim? Vejo que quanto mais conhecimento temos, mais percebemos que nada sabemos.


  10. Pessoas, com muito atraso, obrigada pelos comentários. É interessante reler esse texto (parece que escrevi há tanto tempo!), pouco me lembrava.



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