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Leituras de Fevereiro/2009

fevereiro, 28 - 2009

warinheaven

War In Heaven – David Zindell

É o romance que encerra a série Requiem For Homo Sapiens. A sequência de livros é:

Neverness  (1988)
The Broken God  (1992)
The Wild  (1995)
War In Heaven  (1998)

Fiz alguns comentários sobre a série no tópico Leituras de 2008. O balanço final, depois de ter concluído a saga, é que ler David Zindell é uma experiência diferente, dolorosa e recompensadora. Diferente por quê? Porque é um épico de ficção científica sui generis, uma aventura gigantesca comparável à Duna do Frank Herbert, porém com uma dimensão profundamente humana, filosófica e um tratamento que ora resvala para o romantismo, ora para o arcadismo, alimentada pelo mito do bom selvagem e os motes carpe diem, fugere urbeminutilia truncat. O resultado é beleza, é arrebatamento. Ainda hoje considero difícil encontrar escritores de ficção científica que tenham coragem (sim, isso mesmo) de demonstrar tanta sensibilidade. Doloroso por quê? Primeiro porque faz pensar muito na condição humana, na vida e na morte. Depois porque cada livro é um calhamaço de 700 a mil páginas, com margens estreitas, espaçamento simples e letrinhas pequenas. Para leitores vorazes, isso não é problema. Mas David Zindell tem uma qualidade que de certo modo também é um defeito: ele é muito prolixo e repetitivo, a ponto de podermos cortar 70% do texto sem acarretar nenhum prejuízo à história. Mas logo percebe-se que o excedente é responsável pela ambientação e o detalhamento que transportam o leitor para outro universo, e como o próprio Zindell confessou em uma entrevista que li tempos atrás, ele realmente gosta de preencher todas as lacunas e descrever tudo ao nível dos pequenos detalhes. E aí se explica por que é recompensador ler: Zindell conta a história de 4 gerações em um universo fabuloso, que é uma das coisas mais ambiciosas que já vi na ficção científica. Em muitos aspectos lembra o universo de George Lucas, em que existem centenas de planetas e inúmeras irmandades, tribos, sociedades, onde a política tem um papel centralizador, a tecnologia alcançou a aparência de mágica e há até um vilão-mocinho que fora corrompido para o lado negro da força e uma espécie de estrela da morte ameaçando pulverizar a galáxia. Mas as semelhanças param aí. É evidente que David Zindell usa os mesmos arquétipos, mas lhes confere uma aparência toda nova e peculiar. A série inteira é bastante engenhosa e criativa. Em alguns momentos cai no marasmo, mas há a recompensa dos trechos em que fica impossível largar o livro.

Se fossem traduzidos para o português, Neverness e a trilogia Requiem For Homo Sapiens seriam publicações caras demais para um público muito restrito, e não vejo uma editora louca que se arrisque. As edições americanas ficaram muito tempo sem ser reeditadas e podem ser importadas pela Amazon. David Zindell está longe de ser um autor popular, mesmo nos EUA, mas quem resolver se aventurar nas dobras do universo formidável que ele criou tem o meu estímulo.

escaphandre

 O Escafandro e a Borboleta – Jean-Dominique Bauby

É a autobiografia tragicômica de Jean-Dominique Bauby, ex-redator chefe da revista Elle, que após um acidente vascular cerebral ficou totalmente paralisado dos pés à cabeça, e o que é pior: completamente lúcido. Essa condição bastante rara, conhecida como síndrome locked-in, é descrita como a sensação mais próxima de ser enterrado vivo. Jean-Dominique ficou privado de toda a sua ligação com o mundo e impossibilitado de se comunicar, ou de acordo com a metáfora criada por ele mesmo: sentia-se afundar dentro de um escafandro, enquanto sua memória e imaginação intactas – a borboleta – eram as únicas forças capazes de libertá-lo por alguns instantes. O único movimento que lhe restou foi o da pálpebra esquerda, e isso bastou para que a ortofonista estabelecesse um elo de comunicação, soletrando a Jean-Dominique uma versão do alfabeto no qual as letras são ordenadas de acordo com sua frequência na língua francesa para que ele piscasse na letra escolhida e assim, letra por letra, formasse palavras e depois frases. O livro inteiro foi escrito nesse sistema. Jean-Dominique descreve o seu processo de compor o texto, memorizar e editar mentalmente para depois escrevê-lo com a ajuda de uma redatora em intermináveis sessões de piscadas. E olhe que não é um livro tão curto. Jean-Dominique conta suas memórias constrastando a sua vida antes do AVC com a do homem que um dia acordou dentro do escafandro, descrevendo o tamanho da sua angústia ao mesmo tempo em que ri da tragédia com um sarcasmo e senso de humor incríveis.

Jean-Dominique faleceu dez dias após a publicação de O Escafandro e a Borboleta.

aguaviva

Água Viva – Clarice Lispector

Ler um livro da Clarice é sempre uma experiência refrescante para a linguagem e para o espírito. Água Viva é um livro epifânico, na mesma linha de A Paixão Segundo G.H., transbordante de emoção e reflexão, uma viagem sem início nem final através da alma da autora. A viagem é existencial, é uma tentativa de descrever em palavras a vida quando não existem palavras que possam descrevê-la. O “eu” de Clarice mergulha inúmeras vezes na tessitura da existência, morre, renasce, dá à luz a consciência do leitor, nega a morte diante de Deus para reassumi-la e tentar compreendê-la, num processo cíclico, contínuo.

Tenho que dizer algo muito pessoal agora: cada livro da Clarice é um terremoto pra mim. Sinto que preciso dela, como ser humano e como escritora.

tempoespaco

Além do Tempo e do Espaço – vários autores

Publicada em 1965, é uma coletânea de contos da chamada “1ª onda” da ficção científica brasileira. Como toda coletânea, alguns autores se saem melhor do que outros. Algo que reparo muito nessa geração é que o conceito de ficção científica  ainda não parecia estar totalmente absorvido, alguns textos da coletânea não me pareceram nem um pouco sci-fi, mas sim contos fantásticos.  O elogio é que eles introduziram o gênero no Brasil. A crítica é que não tinham ninguém a superar senão eles mesmos.

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5 comentários

  1. Just passing by.Btw, your website have great content!

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  2. Excelente a dica de “O Escafandro e a Borboleta”. Se vc colocar o nome de Jean-Dominique Bauby no Youtube, surgirão diversos segmentos de um documentario com ele, feitos durante a terapia e o processo de escrita do livro.

    Bjs.


  3. Vixe, filezim, adorei seu blogue, e estou com uma vontade danada de fazer uma parceria. Quer ser minha parceira? Eu faço o anelo do seu saite no meu, e você faz o meu no seu.

    Adorei os textos também. Como estudei literatura, sou vexado em escrever sobre os livros que bizoiei.


  4. Hum, acho que nesse ano quero conhecer Clarice Lispector 🙂


  5. […] Além do Tempo e do Espaço – diversos autores Todas as Guerras vol.1 – Tempos Modernos – Nelson de Oliveira (organização) […]



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