Archive for março \30\UTC 2009

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Já tomou sua pílula de consciência hoje?

março, 30 - 2009

Tire 21 minutos do seu dia para assistir a este vídeo:

(para a versão legendada, clique aqui)

Vi esse documentário, The Story of Stuff, no blog da Camila Fernandes e, sim, me abalou. Não é nada que nós não saibamos, mas estava faltando uma explicação mais didática, incisiva e abrangente para que fosse um tapa na cara de efeito.

Esse é o modelo de capitalismo que importamos dos doutores no assunto, portanto essa bronca também se aplica a nós. A crítica não é ao capitalismo como modelo político, mas sim ao motor do consumismo atrelado a ele. Hoje somos reféns (e também agentes) de um modelo econômico que está cozinhando o mundo em que habitamos. A questão nem é propriamente política ou econômica, mas de vergonha na cara, porque sabemos por intuição que as atitudes cabíveis só serão tomadas em regime de emergência, quando a coisa estiver feia, quente, suja e talvez irrecuperável.

Diante da crise econômica que marcou a virada de 2008/2009 qual é a medida desesperada que os governos estão tomando para fortalecer a economia? Estimular o consumo. Há até governo que tenha distribuído cheques à população para fazer compras e aquecer as vendas. A marca da saúde financeira do Brasil qual é? É a inclusão das classes D e E no mercado consumidor. A nossa força como nação hoje se reflete principalmente no nosso potencial de produzir, vender e comprar – a língua que o capitalismo internacional fala.

É muito difícil mudar o jeito como o mundo funciona, e uma certeza que temos é que mudá-lo é a única saída. Se você sentiu indignação, se os ombros pesaram com a sensação de impotência, saiba que não está sozinho. Se serve de consolo, talvez um milhão de indignados unidos consigam reciclar mais lixo e reduzir uma fração do dano.

Eu espero que esses fatos doam em você também. E que consigam nos arrancar da inércia.

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Leituras de Março/2009

março, 29 - 2009

Hamlet – William Shakespeare

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Você já teve a impressão de que toda a literatura de língua inglesa, de um modo ou de outro, converge para o legado de Shakespeare? Pois não é sem razão. Descobri que ler suas peças é bem diferente de assistir às montagens teatrais, e muito diferente de somente ouvir falar nesse teatrólogo tão influente quanto mitificado.

Afinal, o que Shakespeare tem? É um autor que domina com perfeição a profundidade do drama, consegue fazer rir na tragédia e chorar na comédia, constrói diálogos geniais, cenas clássicas e marcantes, é um crítico, é um filósofo, é um gozador excepcional da sociedade de seu tempo e de todos os tempos.

E quanto a Hamlet? Eu tinha a impressão de que ele fosse uma espécie de emo do século XV, um príncipe que ao ser confrontado com a perda se punha melancolicamente a filosofar sobre a vida e a morte com uma caveirinha na mão. Nada disso! Encontrei um personagem extremamente carismático e irônico. Jovem herdeiro do trono da Dinamarca e órfão recente de pai, Hamlet começa a se revoltar quando sua mãe e seu tio resolvem se casar nem dois meses depois do velho rei (o Hamlet pai) ter descido à sepultura, e termina de se revoltar completamente  quando o fantasma do antigo rei vem lhe contar que fora assassinado e exigir de seu filho uma vingança. Hamlet usa de toda a sua criatividade para investigar a culpa do tio (agora entronado rei), faz-se de louco, dispensa sua amada aos xingamentos, arma um espetáculo teatral na corte para esfregar na cara do assassino os pormenores do seu ato. E em descobrir o reino de vilanias e morte que o tem como príncipe, Hamlet vai tomando intimidade com a amargura e a desesperança, ou – como comenta o crítico literário Harold Bloom – torna-se o próprio anjo caído: sarcástico, amargurado e vingativo.

Apesar da transmutação, o carisma de Hamlet é tão grande e seu comportamento é de tal graça que o expectador (ou leitor) não deixa de se identificar e torcer por ele um único momento. Um personagem simplesmente arrebatador.

A edição que eu tenho é o pocket da L&PM, a capa é do Delacroix (isso, aquele pintor da revolução francesa) e tradução de ninguém menos que Millôr Fernandes.

Mulheres, Mitos e Deusas – o feminino através dos tempos – Martha Robles

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Achei bem interessante a proposta desta escritora mexicana que resolveu concentrar em um único livro 52 biografias de personagens femininas influentes na cultura universal (e mexicana): figuras mitológicas, personagens trágicas, donzelas de contos de fadas, rainhas, nobres, intelectuais, santas, escritoras, artistas, monjas… É o tipo de livro que gosto bastante pela alta densidade de informação aproveitável. Quando fechava o livro, precisava fechar muito bem pra não vazar conteúdo pelas lombadas.

Descobri várias curiosidades, por exemplo: na cultura grega antiga, de acordo com o que se pode concluir através dos mitos e narrativas heróicas, grandes demonstrações emocionais eram tidas como comportamento de homem; das mulheres esperava-se que ocultassem suas emoções, que fossem mais frias e estóicas. Descobri também que São Cirilo, o mais provável mandante do assassinato da filósofa e astrônoma Hipátia de Alexandria, foi canonizado pela Igreja, adivinha por quê por quê por quê? Porque defendeu a infalibilidade da religião católica. Digna de nota também é o capítulo dedicado à rainha Elizabeth I, que tem um dos mais invejáveis currículos a que um estadista pode aspirar. Outros destaques são Catarina de Médici, Cleópatra, Simone de Beauvoir, Virginia Woolf, Cristina da Suécia…

O livro peca em alguns pontos. A começar pela linguagem floreado-diafanizada da autora que nas intermitências do texto penetra os escaninhos de uma prolixidade que, de momento a momento, não quer dizer porcaria nenhuma. Ela não percebeu que certos exercícios de síntese não funcionam, p. ex: não dá pra resumir a queda de Tróia em detalhes dentro de quatro páginas citando todos os heróis, vilões e os vinte filhos de Príamo e Hécuba. Também senti que em alguns momentos a autora trata versões apócrifas de mitos como se fossem as mais confiáveis, e às vezes parece tentar minimizar certos indícios históricos, como no caso da biografia de Safo, que era lésbica de nascimento (Ilha de Lesbos) e gostava de mulheres,  mas, segundo a autora, “não era bem assim”… A parte mais desmerecida é o capítulo chamado “Caminho de Deus”, em que se assiste a um desfile interminável de Nossas Senhoras mexicanas e santinhas milagreiras feitas de pasta de milho que só são do interesse dos católicos nativos. Para não compensar, há lacunas e omissões inexplicáveis: nem uma menção sequer a Julieta, Desdêmona, Hildegard von Bingen, Joana D’arc, Catarina Grande, Lucrécia Bórgia, as irmãs Brontë ou Mary Shelley. Não deu pé nem para Frida Kahlo, pintora mexicana que na visão de Martha Robles é menos merecedora de uma biografia que sua conterrânea e colega de arte María Izquierdo (alguém já ouviu falar dela?).

 Em geral é um livro muito bom, a leitora aqui que é meio cricri.

Paradigmas 1 – Vários autores

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Não é porque o filho também é meu, mas essa é uma das coletâneas melhor organizadas da cena literária atual. São 13 contos de 13 autores bastante diversificados em temáticas e estilos, todos eles se encaixam de algum modo nas designações da literatura fantástica, mas aqui não existem fronteiras claras de gênero e vanguarda, a proposta é justamente gerar uma quebradeira de rótulos. Creio que a maioria dos contos conseguiu cumprir com a missão.

Reparei que muitos autores investiram na quebra dos paradigmas por meio da reinvenção mitológica e, em alguns casos, com o tempero do erotismo.

+ Jacques Barcia em O Vento, Seu Fôlego. O Mundo, Seu Coração operou a tranfiguração da mitologia indiana em uma vertiginosa epopéia onírica.

+ Roberta Nunes em Una deu vidas passadas e ares de ficção científica à saga de Lilith. Belíssimo!

+ Já Fogo de Artifício, do Eric Novello, é um inusitado conto policial onde os bandidos são personagens de contos de fadas e a loura Alice com seu coelho inseparável não é mais uma menininha…

+ Em Aqui Há Monstros, Camila Fernandes praticamente inventa um novo mito grego, um jovem náufrago vai parar em uma ilha desconhecida onde é salvo por uma misteriosa mulher cuja beleza ele jamais pode olhar.

+ E quem disse que dragões não tem nada a ver com favela e tráfico de drogas? Essa conexão inusitadíssima é mérito do Bruno Cobbi, com O Mendigo e o Dragão.

+ Um Forte Desejo, de MD Amado, conta as aventuras sexuais de uma mulher independente com uma bizarra criatura.

+ Tem ainda uma escritora chamada Cris Lasaitis com sua alegoria moderna sobre um maestro narcisista e uma melodia mágica (Sinfonia Para Narciso).

+ Leonardo Pezzella com A Lenda do Homem de Palha praticamente inventou uma lenda popular tão pictórica quanto as que povoam o imaginário da cultura brasileira.

+ O conto da Ana Cristina Rodrigues, O Templo do Amor, traz um interessante duelo entre as duas maiores forças que norteiam a nossa existência: o amor e a morte.

+ A Teoria na Prática (excelente título) é uma grande sacada do Romeu Martins ao dar sentido e quintas intenções à cultura da pasmaceira que chamamos de teoria da conspiração. Ou você não percebeu que tem alguém interessado em fazer você acreditar que camisinha dá câncer?

+ O conto do Richard Diegues, MAI-NI Expressas é uma viagem alucinante num mundo ciber-futurista-distópico onde motoboys rompem fronteiras a mil e seiscentos quilômetros por hora para entregar o seu pacote antes que a guerra comece.

+ O Combate de Maria Helena Bandeira é um altar de sacríficios ao deus Xanam, o deus do acaso e também das roletas russas.

+ E Madalena, de Osíris Reis, é um conto de terror situado entre o grotesco e o escatológico, onde não há fronteira entre os pesadelos e a realidade para uma menina de nove anos aterrorizada e violada pelos seus monstros pessoais e pela religião. Lembra um pouco um caso que aconteceu no Pernambuco outro dia…

Acho que não deixei faltar ninguém. É isso aí, criançada, parabéns! E que venha o volume 2!

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Vendi minha alma pro sebo

março, 27 - 2009

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A fantástica biblioteca de assuntos medievais da Cris.

Tudo começou esta tarde com uma vontade irresistível de comer sushi que me atacou no metrô bem quando passava pela estação Liberdade. Vendo que era horário de almoço, resolvi descer e ir me esbaldar no Asia House, um restaurante que serve um sushi maravilhoso a preço bem camarada. O almoço foi ótimo! Eu quase nem lembrava do quanto andar pela Liberdade é perigoso para a minha conta bancária. O problema são sempre os milhões de sebos que se escondem por aqueles lados, sabe? Foi impossível resistir. Em aproximadamente uma hora fiquei um passo mais próxima da falência.

Comprei 7 livros, alguns deles enciclopédicos (devia ter levado um carrinho de feira), e ainda saí lamentando as cartilhas de latim para seminaristas do século XIX que não deu pra levar porque estavam a preço de colecionador 😦 

No pacote:

Dois tomos da História Artística da Europa – Idade Média, do Geoges Duby

A História das Inquisições – Portugal, Espanha e Itália – Séculos XV-XIX, do Francisco Bethencourt

As Utopias Medievais, do Hilário Franco

O Físico, do Noah Gordon

A Sociedade Secreta dos Templários

e mais um manual de latim para estudantes do ginásio (do século retrasado, claro), que foram se somar a outras aquisições relativamente recentes da minha bibliotequinha para assuntos medievais:

O Tempo das Catedrais, do Georges Duby

Anjos Caídos, do Harold Bloom

História da Bruxaria, do Jeffrey B. Russel e Brooks Alexander

A Divina Comédia, do Dante

O Nome da Rosa, do Eco

Dom Quixote, do Cervantes

e tem até o Anno Domini – Manuscritos Medievais, coletânea organizada pela Helena Gomes.

Pra que tudo isso? Fonte de pesquisa para escrever. A ideia é que sejam leituras de curto prazo (quão curto vai ser esse prazo eu não sei). Já faz um tempo que eu não sou mais eu. O brainstorming já debandou para aquela fase esquizofrênica em que os personagens vêm te ameaçar na cama, você vê coisas e ouve vozes, habita outro planeta, tem vertigem, não pensa em outra coisa…

Nessa situação, sinto que terminar logo a tese é uma questão de vida ou morte. Não aguento mais. Já era. Caminho sem volta. Tem um romance implorando pra sair.

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2º Ciclo de debates sobre Literatura Fantástica

março, 27 - 2009

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A OPELF (Oficina de Produção e Estudos de Literatura Fantástica) e a Livraria Cultura convidam ao 2º Ciclo Paulista de Literatura Fantástica.

Na edição de 2009 teremos diversas atrações preparadas especialmente para os fãs da literatura fantástica e mês a mês, uma mesa-redonda explorando os subgêneros de Ficção Científica, Fantasia e Terror, com sorteios, lançamentos de livros, novidades e workshops.

O Ciclo tem seu início no sábado, 4 de abril, às 15h00, na unidade Bourbon Shopping Pompéia, confira abaixo a programação:

15h00 Palestra – O que é Literatura Fantástica? com Janaina Azevedo
Nesta palestra a lingüísta formada pela USP, Janaina Azevedo, irá apresentar temas como gênero, subgêneros e a construção da escrita na literatura fantástica.

17h00 Mesa-Redonda de Ficção Científica
Neste ano a mesa-redonda terá a mediação da OPELF, representada por Horacio Corral e Janaina Azevedo.

+ Fábio Fernandes + um dos mais ativos participantes do cenário de FC no Brasil, criador do blog Pós-Estranho e Post Weird Thougths com Jacques Barcia. Colaborador de publicações como Le Monde Diplomatique, Itaú Cultural, Portal Neuromancer, Revista Kalíopes e Terra Incognita. Tradutor de diversas obras de literatura fantástica e autor de A Construção do Imaginário Cyber, William Gibson, criador da cibercultura.

+ Ana Cristina Rodrigues + autora, historiadora e uma das figuras mais ativas da literatura fantástica nacional. Idealizadora de projetos como Fábrica de Sonhos, Letra e Video, mantém um blog e ainda, moderadora as comunidades de Ficção Científica e Escritores de Fantasia no Orkut. Ana é Diretora do CLFC, e autora AnaCrônicas – Pequenos Contos Mágicos, participou da coletânea Paradigmas Vol.I.

+ Gérson Lodi-Ribeiro + um dos grandes autores de Ficção Científica Hard do Brasil, participou de revistas como Asimov Magazine e Megalon e de diversas antologias da editora Ano-Luz, é autor de Outros Brasis e de Taikodom: Crônicas.

+ Clinton Davisson + jornalista e autor carioca, participa assiduamente das discussões sobre Ficção Científica e Fantasia, temas que compõem a sua obra. Clinton é autor de Fafia: A Copa do Mundo de 2022 e Hegemonia: O Herdeiro de Basten.

+ Cristina Lasaitis + biomédica e autora de Fábulas do Tempo e da Eternidade, mantém um blog, participou das antologias FC do B 2007/2008, Visões de São Paulo – Ensaios Urbanos e Paradigmas Vol. I.

Além do debate com os participantes da mesa e as perguntas do público, o evento terá atrações multimídias que visam divulgar a produção nacional e debater sobre o alcance da Ficção Científica no Brasil.

20hs + Lançamento do livro “Taikodom: Crônicas”
Em parceria com a Hoplon e a Devir, a OPELF faz o lançamento do novo livro de Gérson Lodi-Ribeiro, parte do universo Taikodom.

Onde?
Livraria Cultura Bourbon Shopping Pompéia –
Rua Turiassú, 2100 – São Paulo/SP
Próximo ao Metro Barra Funda.
(veja o googlemaps)

Quando?
03/4/2009, às 15:00h
Entrada gratuita.
Mais informações, consulte o site da OPELF – www.opelf.org
Contatos: contato@opelf.org ou pelo telefone (11) 2212-7539
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Publicações científicas

março, 26 - 2009

Se há uma semelhança entre escritores e cientistas é que ambos creditam sua competência (e autoestima) profissional àquilo que publicam. São dois mundos governados respectivamente por grandes editoras e revistas de alto impacto, nas quais o direito de publicação é um passaporte para o reconhecimento.

Um pesquisador sem resultados publicados é como um escritor sem livros, experimenta uma sensação de incompletude, de semiprofissionalismo. Por mais que trabalhe, você não é ninguém caso não tenha uma obra para mostrar. O simples fato de publicar na mídia formal já leva a carreira a um outro patamar, é a superação de uma barreira.

Foi assim que me senti quando publiquei o primeiro livro da minha autoria. É assim que me sinto agora como pesquisadora. Apesar da minha atuação acadêmica ter começado antes da carreira de escritora, só agora começam a aparecer os frutos. Não publiquei meu livro por uma grande editora, também não estou publicando meus trabalhos em revistas de alto impacto indexadas no ISI, mas só essa sensação de ser publicada nada paga, é um alívio, um bom começo.

E são muitos motivos para comemorar. A princípio, é bem difícil conseguir publicar os resultados de uma pesquisa de mestrado dentro do prazo curtíssimo do próprio mestrado. E veja só, para quem não tinha nenhum artigo publicado, me vêm logo dois de uma vez: meus primeiros rebentos científicos são gêmeos!

São dois artigos sobre a validação de um instrumento de indução de estados emocionais que uso na minha pesquisa, publicados este mês na Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul e no Jornal Brasileiro de Psiquiatria. Ambos já estão disponíveis (baixáveis em pdf) pela SciELO.

rprs

Lasaitis C, Ribeiro RL, Freire MV, Bueno OFA. Atualização das Normas Brasileiras para o International Affective Picture System (IAPS). Rev Psiquiatr RS. 2008;30(3):230-235

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Lasaitis C, Ribeiro RL, Bueno OFA. Brazilian norms for the International Affective Picture System (IAPS) – comparison of the affective ratings for new stimuli between Brazilian and North-American subjects. J Bras Psiquiatr.2008;57(4):270-275.

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Os portais irão se abrir…

março, 19 - 2009

Preparar para o lançamento:

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8…

7….

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5…………………………

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3……………………………………………………………………………………………

2…………………………………………………………………………………………………………………………….

[distorção relativística ativada]

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Lançamento do Paradigmas Vol. I

É nesta sexta-feira, dia 20 de março de 2009 a partir das 18:30 no Bardo Batata!!

Rua Bela Cintra, 1.333 – Jardins (São Paulo – SP), pertinho do metrô Consolação.

Pode vir. Não precisa espiar pelo buraco da fechadura!

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MAI-NI Expressas » Richard Diegues » autor dos livros Tempos de AlgóriA (2009), Sob A Luz do Abajur (2007), Magia – Tomo I (1997), além de organizador e co-autor do livro Visões de São Paulo – Ensaios Urbanos (2006), co-autor dos livros Histórias do Tarô (2008), Necrópole – Histórias de Bruxaria (2008), Necrópole – Histórias de Fantasmas (2006) e Necrópole – Histórias de Vampiros (2005). Trabalha com eventos e palestras na área literária, atuando também como editor pela Tarja Editorial. Paga as contas como programador de computadores, consultor editorial para autores, rastreando hackers, e jogando bilhar. É o idealizador do projeto Paradigmas.

Vento, Seu Fôlego. O Mundo, Seu Coração » Jacques Barcia » é um escritor azul de ficção estranha. Tem contos publicados no Brasil e Romênia, em papel e prana. É editor da revista online Terra Incógnita junto com o rishi Fábio Fernandes, com quem também divide o blogue Post-Weird Thoughts. Quando não escreve, berra mantras e dança com duas belas apsarases.

Um Forte Desejo » M. D. Amado » analista de sistemas, mineiro de Belo Horizonte, e participou do livro Necrópole – Histórias de Fantasmas (2006) com o conto O Fotógrafo. Possui contos publicados em vários sites revistas eletrônicas. Desde 1996 mantém o site Estronho e Esquésito, que, entre outras coisas, disponibiliza gratuitamente um espaço para que autores de literatura fantástica divulguem seus trabalhos. Na atualidade desenvolve dois projetos literários solo, que em breve se tornarão livros.

O Mendigo e o Dragão » Bruno Cobbi » é tradutor, designer multimídia e escritor estreante. Descobriu seu talento para contar histórias através do RPG e atualmente é aluno da primeira turma do Curso de Pós Graduação em Formação de Escritores, em São Paulo. Fã de videogames, cinema e quadrinhos, é dono do blog Aprendiz de Escritor e editor do blog d3system.

Una » Roberta Nunes » gosta tanto de literatura que não suporta quem a maltrata. Publicou alguns textos em listas de discussão de literatura e blogs literários, tendo um trabalho publicado o livro Visões de São Paulo – Ensaios Urbanos (2006). Atualmente tenta, com afinco, se dedicar aos blogs pessoais Profana?Eu?, onde escreve suas desventuras e ao Estilhaços de Alma, dedicado a críticas de livros, peças teatrais, filmes, eventos e de bares onde a cerveja teima em não gelar.

Fogo de Artifício » Eric Novello » autor dos romances Dante – o Guardião da Morte (2004) e Histórias da Noite Carioca (2005). Participou do livro Necrópole – Histórias de Bruxaria (2008) com o conto De Fumaça e Sombras, possui mais de 60 contos e crônicas online e mantém atualmente o site Fantastik de divulgação de literatura fantástica nacional. É tradutor e trabalha como crítico literário e de cinema para o portal de arte Aguarrás. Está trabalhando em um romance de Fantasia Urbana com o mesmo protagonista de Fogo de Artifício.

Aqui Há Monstros » Camila Fernandes » alter ego de Mila F. Enquanto Camila Fernandes assina contos e revisões, Mila F, é ilustradora especializada em pintura digital e capista desta edição. Lançou seus primeiros contos no NecroZine, depois, participou dos livros Necrópole – Histórias de Vampiros (2005), Necrópole – Histórias de Fantasmas (2006), Visões de São Paulo – Ensaios Urbanos (2006) e Necrópole – Histórias de Bruxaria (2008). No momento, tem desenhado muito, feito revisão de textos para editoras e autores independentes e reparado seu livro solo.

Sinfonia Para Narciso » Cristina Lasaitis » Não sabe dizer se é uma cientista que se apaixonou pela ficção ou se é uma escritora que se apaixonou pela ciência. Autora da coletânea de contos de ficção científica e fantasia Fábulas do Tempo e da Eternidade (2008) e participante do livro Visões de São Paulo – Ensaios Urbanos (2006). Sua imaginação vive uma constante viagem, e ela sonha com o dia em que poderá viver de contar histórias. Atualmente mora com seus pais e vive catando as traças da sua biblioteca de estimação.

A Lenda do Homem de Palha » Leonardo Pezzella Vieira » engenheiro que escrevia poesias. Dono de um forte hábito de leitura, participou de grupos de escritores e trocou as poesias pelos contos e pequenos romances de terror e ficção. Publicou no Jornal da Praça e em diversos sites de contos e crônicas. Participou do livro Visões de São Paulo – Ensaios Urbanos (2006). Seus textos podem ser encontrados em seu blog pessoal, o Monologando.

A Teoria na Prática » Romeu Martins » jornalista especializado na área de divulgação científica, com ênfase em inovação tecnológica, é co-autor do livro Conhecimento & Riqueza (2007), o que o torna, na maioria das vezes, bastante cético quanto a avanços radicais em um futuro próximo. Resenhista e entrevistador, do site Overmundo, também é o criador do blog Terroristas da Conspiração.

O Combate » Maria Helena Bandeira » formada em jornalismo, artista plástica. Menção Especial do Prêmio Guararapes da União Brasileira de Escritores. Conto Brasileiro do Mês da Isaac Asimov Magazine, indicada pra o Prêmio Argos em 2002, colaboradora do fanzine Somnium, da revista Scarium e do site português E-nigma. Participou das antologias Anjos de Prata (2001-2007), Antoloblogue (2007) e FC do B – panorama 2006/2007 (2007) e GRAGEAS – 100 cuentos breves de todo el mundo (2007), na Argentina.

O Templo do Amor » Ana Cristina Rodrigues » escritora, historiadora, funcionária pública, professora, editora, agitadora cultural, roteirista e mãe. Balzaquiana, escreve para tentar calar as vozes (sem sucesso). Já apareceu com contos em diversos sites brasileiros e internacionais. Está escrevendo um romance de fantasia histórica alternativa.

Madalena » Osíris Reis » cursou três semestres em Medicina, e três em Mecatrônica, até assumir o gosto pela narrativa. Autor do livro Treze Milênios – Gênese Vermelha (2006), o primeiro de uma saga de Ficção Científica e Terror. Escreveu o conto Bandeiras, publicado na Scarium Megazine. Estudante do curso de Audiovisual (TV, Rádio, Cinema), trabalha com roteiros de cinema e HQ.

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O Auto das Normas Divinas

março, 13 - 2009

 (e das coisas que não se deve questionar em vão)

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Muitas histórias contam aqueles que o conhecem. Dizem que quando os passos dele soam no corredor, é como se ecoassem através das catacumbas, o chão até estremece. Ao ouvi-lo se aproximar, as baratas se esgueiram por buracos estreitos, as aranhas se recolhem cautelosas para o vértice das teias, as lagartixas ficam tão pálidas que podem ser confundidas com a pintura das paredes e as formigas, coitadas, debandam num salve-se-quem-puder desesperado. Como um titã, ele vem. Um halo de pesar anuncia a sua chegada e perdura após a partida. O véu negro de sua autoridade se projeta contra as paredes brancas ao mesmo tempo em que um pesadume recai no cerne de todas as coisas: suam as testas dos santinhos de barro, agonizam as chamas das velas. As traças não ousam roer os mantos da sua batina (dizem que certa vez uma tentou e como resultado caiu morta em cinco minutos, vítima de convulsões terríveis!).
Ele passa e atrás dele vem a sombra. Atrás da sombra vem o silêncio.
A sensação que dá é que bem ali, no final do corredor, a qualquer momento irão se abrir os portais do limbo e entrar os cavaleiros do apocalipse, pois os passos de D. José Sardoso Cobrinho já prepararam o terreno para a sua chegada.
Você está tentando encará-lo nos olhos? Pois eu aviso: não o faça! Os olhos dele irradiam labaredas, mas dizem ser tão frios que por onde ele olha neva e nem o calor infernal de Olinda é capaz de aplacar os arrepios.
Falam dos mistérios que cercam a sua clausura. Ninguém nunca ousou entrar lá para conferir, mas dizem que a entrada é guardada por cinco bestas invisíveis – íncubos e súcubos aprisionados, adestrados e castrados. Veja, lá estão eles. Ao ouvir passos começam a ladrar e rosnar como loucos, fazem um escarcéu dos infernos que não é ouvido por ninguém, mas cujos ecos fazem os corações mortais se espremerem até caber em um dedal. A soleira da porta é o limite, dali ninguém ousa ultrapassar.
Ante as flamas nas órbitas de D. Sardoso, os íncubos grunhem e se espantam com os rabinhos entre as patas. Duas gárgulas de Notre Dame do Piratininga vigiam a cabeceira de sua cama. Uma costuma ser muito falante e boba, a outra é calada e esperta. Neste instante estão adormecidas, mas percebendo-o chegar, se endireitam e arrotam golfadas de fogo. Dom Sardoso entra. Em sua mão traz uma carta com a insígnia de Roma. Senta-se na cama sob o olhar curioso das gárgulas e com muita cerimônia abre o envelope do remetente papal.
É uma mensagem de apoio, assinada por ninguém mais que dom Ratzinger. Seus olhos brilham de emoção…

Por muito tempo ele esperou uma oportunidade tão oportunamente boa para provar ao mundo como é implacável a lei de Deus e infinita a sua bondade.
Todas as noites antes de dormir dom José Sardoso rezava três pai-nossos, três ave-marias, um salve rainha e um credo, pedia a proteção divina e já com as roupas de dormir livrava seus íncubos e súcubos da coleira para que saíssem pela noite a amedrontar as criancinhas que ainda estavam fora da cama e se apossar das mãos direitas daqueles que praticavam a luxúria na solidão de seus leitos. Quem sabe um destes pecadores não enlouqueceria o bastante para fazer algo muito, mas muito feio? Um pecado mortal desses que açulam a ira da opinião pública. Quanto pior o mal, mais brilha o bem; um criminoso convertido vale por dez virtuosos. Que propaganda maravilhosa o mal não faz para a diocese?
Pois num belo dia ensolarado, desses que não são nenhuma novidade no Recife, o jornal chega à mesinha de sua clausura com uma notícia bombástica:
– Um aborto! E de gêmeos!
Uma das gárgulas, ouvindo distraidamente os pensamentos do arcebispo, se engasga com o próprio enxofre: cof cof…
– Duma menina de 9 anos!… Violada pelo padrasto.
As flamas brilham nos olhos de dom Sardoso:
– Já sei! Vou excomungar todos os envolvidos – ele pega uma caneta e começa a anotar os nomes –, os médicos, vejam só, são católicos! Malandros! Hereges… Quem mais?
Animada com a novidade, a gárgula opina:
– As enfermeiras?
– Não, não sua anta!
– Err… a diretoria do hospital?
– Não. A mãe! A mãe da menina que autorizou esse pecado descomunal! – ruge o arcebispo.
– Ah.
Esboçando nos lábios o sorriso que Caim tinha para Abel no momento supremo, dom Sardoso anota mais um nome em sua listinha negra. A gárgula se intromete de novo:
– E o pai?
– O pai? Ah, o pai eu vejo depois.
– Não, quer dizer, o padrasto. O estuprador.
Nesse instante os íncubos e súcubos começam a latir freneticamente:
– Au au! Woof woof! (É isso aí – eles querem dizer – manda excomungar ele também!)
O arcebispo olha de soslaio para os demoniozinhos, durante um tempo muito curto, mas o suficiente para que chorem de arrependimento:
– Caim caim caim…
Depois de uma respiração com toda a profundidade da sua sabedoria, o arcebispo decide:
– Não. A lei canônica é clara: o aborto é um pecado gravíssimo e passível de excomunhão. O estupro é um pecado grave, mas nem se compara ao aborto!
A gárgula se entristece, seus olhos vermelhos em fenda ficam melancólicos:
– Mas, mas…
– Sem “mas”!
– Mas e a menina, excelência?
Emanando a lucidez que é marca registrada dos defensores da lei canônica, o arcebispo diz:
– Para dar uma amostra da infinita bondade de Deus e da nossa profundissíssima compaixão, a menina será poupada da excomunhão. O mesmo para o estuprador, para mostrar à essa corja de infiéis que a misericórdia de Deus é capaz de perdoar todas as faltas. – E depois de cinco segundos de um silêncio descontente ele arremata: – Menos o aborto, é claro. Essa é uma penalidade latae setentiae!**
“Oxe, fica tão chique dizer isso!”, ele pensou. (**Agora tente imaginá-lo falando latim com sotaque pernambucano).
A gárgula sorri comovida:
– Como o senhor é bom, excelência! Arretada essa sua decisão!

E assim foi feito. Dom José Sardoso Cobrinho excomungou os médicos que fizeram o aborto na menina e também a mãe. Não satisfeito, ele mandou informar devidamente os donos das almas perdidas e deu um jeitinho para que o fato chegasse aos ouvidos bisbilhoteiros dos jornalistas.
Foi um estouro! Virou manchete no país inteiro. Dom Sardoso até passou perfume para dar entrevista na tevê. E como um homem muito sério no cumprimento do dever ele explicou aos jornalistas a lei implacável de Deus:
– Esse padrasto cometeu um pecado gravíssimo. Agora, mais grave do que isso, sabe o que é? O aborto, eliminar uma vida inocente.
Talvez tivesse se esquecido de que a menina também fosse inocente e que sua jovem vida corria risco de ser igualmente abortada. Mas os bebês assassinados, esses com certeza eram mais inocentes do que a menina.
Mas peraí, isso importa? Não, realmente.
Talvez passasse bem de leve na imaginação do arcebispo que a mãe da garota, a mulher excomungada, no instante em que foi atingida pelo raio dos fatos teria desejado cavar um buraco no chão e se enfiar ali para sempre. Talvez, durante fugazes momentos, inda passasse pela cabeça dele a imagem de uma menininha de 9 anos sustentando com seus 30 e poucos quilos uma gravidez de gêmeos adiantada, sem posição nem ânimo para brincar, a barriga avantajada raiada de estrias vermelhas e profundas, a pele sofrendo com a dor das distensões e com o peso; e a garota vergada, atrapalhada para se equilibrar levando consigo o resultado final de três anos de abusos do padrasto agüentados em silêncio para que ele não cumprisse com a ameaça de matar a sua mamãe, suportando os chutes e pontapés daquelas coisinhas inocentes que poderiam matá-la no final… Poderiam? Mas e se ela já estivesse morta por dentro?
Que nada. Besteira! Depois dos bebês nascerem ela nem se lembraria mais do estuprador. O amor maternal supera tudo, quer apostar quanto? É sempre assim, a Igreja está cheia de casos virtuosos para mostrar.
As mulheres fazem aquelas caras de sofredoras, mas nunca provaram ter vida inteligente. Alguma vez você ouviu uma mulher dizer coisa com coisa? A única mulher que dom Sardoso se lembrava de ter dito algo sensato foi a Virgem Maria, na anunciação: “eis aqui vossa serva, que seja feita a vossa vontade!”
Isso sim que era mulher!
As feministas iriam ficar enfurecidas com a decisão, o que é mais um belo motivo para comemorar, o arcebispo precisava até se segurar para não dar pulinhos de triunfo. Já pensava até no bordão: “estupra, mas não aborta!”
Não teria pena da menina, não. Quando ele era pequeno não tinha essa coisa de ficar passando a mão na cabeça do pirralho. Se fizesse algo errado, levava uma chinelada; se fizesse certo, levava duas. Quando foi para o seminário não havia moleza, não! Ao menor deslize os padres faziam estalar a vara de marmelo nos fundilhos dos noviços. Graças a Deus e à ortodoxia das varadas hoje dom José Sardoso é um arcebispo cabra-macho. Pra ele não existe essa frescura de meias palavras, de “força da necessidade”; de “interpretação da palavra divina”. Se tá escrito, tá escrito, pombas!

Mas na finalmência dos finalmentes, a mais verdadeira verdade é que dom Sardoso não estava preocupado com os bebês abortados, a menina ou as críticas. Ele estava mesmo adorando dar entrevistas! A todo momento choviam ligações, cartas, mensagens de apoio do país inteiro e também do estrangeiro; e ele nunca tinha recebido tanta atenção na vida, nem antes nem depois dos votos. Sentia uma massagem tão grande no ego quando lhe diziam que ele tinha razão! Dava até arrepio…
Ficar famoso não tem preço. Todas as outras coisas a fé pode comprar.
Pois não é fácil essa vida de representante das repartições celestiais na Terra, sabe? A menos que você seja um padre galã e carismático como aquele Marcelo Rossi, geralmente é uma vida bastante anônima e solitária, tão franciscana e tediosa… Mas agora ele lavou a honra da Igreja, é o vingador de Deus e das criancinhas não nascidas. Pois se os homens são o sal da terra, as crianças são o mel. “Deixai vir a mim os pequeninos”, e se eles não vierem, nós iremos até eles. Os homens de Deus têm o dever supremo de defender todas as crianças; as perfeitas, as anencéfalas, as retardadas… Crianças são luz, crianças são calor, crianças relaxam a gente.
Dom José Sardoso nunca esteve com a consciência tão limpa. Seguira metodicamente cada regra da cartilha, suspeitava até que seria canonizado. Um dia vai acabar surgindo um papa que reconhecerá a grandiosidade de seu caráter. Mas esse é um sonho secreto que o arcebispo guarda a sete chaves, afinal, ele é um homem infinitamente humilde. Tão humilde que quando morrer irá diretamente ao encontro de São Pedro nos portais do paraíso. E se por acaso o guardião quiser discutir a sua entrada, ele dirá: “por obséquio, Seu Pedro, vá lá na minha escrivaninha, veja os meus despachos, as minhas obras de caridade, a minha vigilância irretocável pela sagrada lei de Deus. Veja que não faltou uma refeição sem que eu rezasse o padre-nosso, todas as minhas missas estão em dia, todas as minhas confissões (os meus poucos pecados perdoados), todos os sacramentos que ministrei e que me foram ministrados, todos os perigos que afastei e os fiéis que acolhi…” E depois de mostrar a São Pedro o seu virtuoso bolo de papéis, o santo não teria outra alternativa senão carimbar o seu passaporte de entrada no paraíso com validade para todo o sempre.

Mas antes que termine de se elevar em hosanas nas alturas, dom José Sardoso Cobrinho desperta e atina novamente na carta vinda do Vaticano manifestando apoio irrestrito à sua decisão.
O apoio do papa!
O papa é infalível. Se Vossa Santidade o apóia, isso quer dizer que ele não está errado.
– Mas e se vossa excelência, por acaso, por uma ligeira possibilidade, tiver sido cruel com a menininha? – a gárgula tagarela, que ouviu todos os seus pensamentos secretos, pergunta.
O arcebispo cruza olhares com a gárgula estraga-prazeres e de imediato ela esbugalha as órbitas vermelhas como se uma força interna estivesse prestes a explodi-la. Comeaça a tremer incontrolavelmente e, em dois segundos, se espatifa em um milhão de caquinhos de mármore imaginário que se espalham pelo chão de toda a clausura beijando os pés de dom José Sardoso.
– Ainda que eu pudesse estar errado, Deus a tudo perdoa, não é mesmo? – responde docemente com aquele mesmo sorriso fraterno de Caim. – Perdoa tudo, menos o aborto.
O arcebispo está nas nuvens. Ele adora ter razão, ter razão é cristalino e puro! Mostra a assinatura do papa para a gárgula que restou (a esperta, a que fica quieta). Ela se espanta e abaixa os chifres em respeito. Os íncubos e súcubos de estimação abaixam as cabeças e lambem as patinhas, até as bestas medievais mais tapadas reconhecem o valor da autoridade. E com a glória fluindo nas veias, dom José Sardoso vai até a janela espiar as ladeiras da cidade velha, sentindo uma vaga nostalgia dos tempos em que ali crepitavam as fogueiras, o calor da justiça, a chama da ordem… Quando os homens vão aprender que não devem questionar a autoridade do único Ser inquestionável? Chegou a pensar que nascera nos tempos errados, agora sabe que não. Sua missão se revelou: será o redentor dos séculos. E de braços abertos, crucificado na luz do sol causticante frente o parapeito da janela ele sonha com os dias em que a utopia católica se tornará realidade e o mundo será um imenso rebanho de ovelhas dóceis, penitentes, na rígida observância da lei canônica; e nesse mundo – ele sabe – não haverá abortos nem revoltas, não existirá células tronco nem querelas heréticas. Tudo será comunhão, serão olhos aos céus e oferendas ao altar, serão joelhos no chão, mentes imaculadas, consciências limpas e cabeças vazias livres de todo o mal, amém.

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Se liga, pastel, este é um texto de ficção. Antes de querer acusar alguém por difamação, saiba que há certos tipos de vilão que só existem nos contos de fadas e que há certos monstros invejosos dos primeiros que rastejam pelo mundo real fantasiados de gente e que de vez em quando merecem levar um tapa na cara. Toda e qualquer semelhança com fatos reais é mera coincidência, como você está cansado de saber.

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Sobre a autora:
Cristina Lasaitis não tem medo da excomunhão. Como toda mulher emancipada, tem máquina de lavar roupas em casa, aspirador de pó e forno microondas. Não toma anticoncepcional e não planeja fazer nenhum aborto (é lésbica, se isso explica). De vez em quando sofre delírios de lucidez e finge ter um esboço primitivo de inteligência. Fica injuriada com coisas sem sentido, tem surtos emocionais às escondidas e rompantes maternais por crianças injustiçadas. É um caso perdido.

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Quer chorar? Leia essa matéria da Miriam Leitão (ela mesma) sobre o caso que deu o que falar. Economistas também têm coração.
E também o lindo texto da Luciana Muniz.

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Agora chega. Tô passada. Esgotada. Arrasada. Acabei de ler Hamlet e chorei um rio de pitangas. Preciso de oblívio. Vou virar a página e voltar para a minha tese, quero algo bem científico, frio e impessoal, de preferência com muitos números e fórmulas estatísticas. Juro que não dou mais um piu sobre o assunto.
Tchau, fui.