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Leituras de Março/2009

março, 29 - 2009

Hamlet – William Shakespeare

hamlet

Você já teve a impressão de que toda a literatura de língua inglesa, de um modo ou de outro, converge para o legado de Shakespeare? Pois não é sem razão. Descobri que ler suas peças é bem diferente de assistir às montagens teatrais, e muito diferente de somente ouvir falar nesse teatrólogo tão influente quanto mitificado.

Afinal, o que Shakespeare tem? É um autor que domina com perfeição a profundidade do drama, consegue fazer rir na tragédia e chorar na comédia, constrói diálogos geniais, cenas clássicas e marcantes, é um crítico, é um filósofo, é um gozador excepcional da sociedade de seu tempo e de todos os tempos.

E quanto a Hamlet? Eu tinha a impressão de que ele fosse uma espécie de emo do século XV, um príncipe que ao ser confrontado com a perda se punha melancolicamente a filosofar sobre a vida e a morte com uma caveirinha na mão. Nada disso! Encontrei um personagem extremamente carismático e irônico. Jovem herdeiro do trono da Dinamarca e órfão recente de pai, Hamlet começa a se revoltar quando sua mãe e seu tio resolvem se casar nem dois meses depois do velho rei (o Hamlet pai) ter descido à sepultura, e termina de se revoltar completamente  quando o fantasma do antigo rei vem lhe contar que fora assassinado e exigir de seu filho uma vingança. Hamlet usa de toda a sua criatividade para investigar a culpa do tio (agora entronado rei), faz-se de louco, dispensa sua amada aos xingamentos, arma um espetáculo teatral na corte para esfregar na cara do assassino os pormenores do seu ato. E em descobrir o reino de vilanias e morte que o tem como príncipe, Hamlet vai tomando intimidade com a amargura e a desesperança, ou – como comenta o crítico literário Harold Bloom – torna-se o próprio anjo caído: sarcástico, amargurado e vingativo.

Apesar da transmutação, o carisma de Hamlet é tão grande e seu comportamento é de tal graça que o expectador (ou leitor) não deixa de se identificar e torcer por ele um único momento. Um personagem simplesmente arrebatador.

A edição que eu tenho é o pocket da L&PM, a capa é do Delacroix (isso, aquele pintor da revolução francesa) e tradução de ninguém menos que Millôr Fernandes.

Mulheres, Mitos e Deusas – o feminino através dos tempos – Martha Robles

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Achei bem interessante a proposta desta escritora mexicana que resolveu concentrar em um único livro 52 biografias de personagens femininas influentes na cultura universal (e mexicana): figuras mitológicas, personagens trágicas, donzelas de contos de fadas, rainhas, nobres, intelectuais, santas, escritoras, artistas, monjas… É o tipo de livro que gosto bastante pela alta densidade de informação aproveitável. Quando fechava o livro, precisava fechar muito bem pra não vazar conteúdo pelas lombadas.

Descobri várias curiosidades, por exemplo: na cultura grega antiga, de acordo com o que se pode concluir através dos mitos e narrativas heróicas, grandes demonstrações emocionais eram tidas como comportamento de homem; das mulheres esperava-se que ocultassem suas emoções, que fossem mais frias e estóicas. Descobri também que São Cirilo, o mais provável mandante do assassinato da filósofa e astrônoma Hipátia de Alexandria, foi canonizado pela Igreja, adivinha por quê por quê por quê? Porque defendeu a infalibilidade da religião católica. Digna de nota também é o capítulo dedicado à rainha Elizabeth I, que tem um dos mais invejáveis currículos a que um estadista pode aspirar. Outros destaques são Catarina de Médici, Cleópatra, Simone de Beauvoir, Virginia Woolf, Cristina da Suécia…

O livro peca em alguns pontos. A começar pela linguagem floreado-diafanizada da autora que nas intermitências do texto penetra os escaninhos de uma prolixidade que, de momento a momento, não quer dizer porcaria nenhuma. Ela não percebeu que certos exercícios de síntese não funcionam, p. ex: não dá pra resumir a queda de Tróia em detalhes dentro de quatro páginas citando todos os heróis, vilões e os vinte filhos de Príamo e Hécuba. Também senti que em alguns momentos a autora trata versões apócrifas de mitos como se fossem as mais confiáveis, e às vezes parece tentar minimizar certos indícios históricos, como no caso da biografia de Safo, que era lésbica de nascimento (Ilha de Lesbos) e gostava de mulheres,  mas, segundo a autora, “não era bem assim”… A parte mais desmerecida é o capítulo chamado “Caminho de Deus”, em que se assiste a um desfile interminável de Nossas Senhoras mexicanas e santinhas milagreiras feitas de pasta de milho que só são do interesse dos católicos nativos. Para não compensar, há lacunas e omissões inexplicáveis: nem uma menção sequer a Julieta, Desdêmona, Hildegard von Bingen, Joana D’arc, Catarina Grande, Lucrécia Bórgia, as irmãs Brontë ou Mary Shelley. Não deu pé nem para Frida Kahlo, pintora mexicana que na visão de Martha Robles é menos merecedora de uma biografia que sua conterrânea e colega de arte María Izquierdo (alguém já ouviu falar dela?).

 Em geral é um livro muito bom, a leitora aqui que é meio cricri.

Paradigmas 1 – Vários autores

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Não é porque o filho também é meu, mas essa é uma das coletâneas melhor organizadas da cena literária atual. São 13 contos de 13 autores bastante diversificados em temáticas e estilos, todos eles se encaixam de algum modo nas designações da literatura fantástica, mas aqui não existem fronteiras claras de gênero e vanguarda, a proposta é justamente gerar uma quebradeira de rótulos. Creio que a maioria dos contos conseguiu cumprir com a missão.

Reparei que muitos autores investiram na quebra dos paradigmas por meio da reinvenção mitológica e, em alguns casos, com o tempero do erotismo.

+ Jacques Barcia em O Vento, Seu Fôlego. O Mundo, Seu Coração operou a tranfiguração da mitologia indiana em uma vertiginosa epopéia onírica.

+ Roberta Nunes em Una deu vidas passadas e ares de ficção científica à saga de Lilith. Belíssimo!

+ Já Fogo de Artifício, do Eric Novello, é um inusitado conto policial onde os bandidos são personagens de contos de fadas e a loura Alice com seu coelho inseparável não é mais uma menininha…

+ Em Aqui Há Monstros, Camila Fernandes praticamente inventa um novo mito grego, um jovem náufrago vai parar em uma ilha desconhecida onde é salvo por uma misteriosa mulher cuja beleza ele jamais pode olhar.

+ E quem disse que dragões não tem nada a ver com favela e tráfico de drogas? Essa conexão inusitadíssima é mérito do Bruno Cobbi, com O Mendigo e o Dragão.

+ Um Forte Desejo, de MD Amado, conta as aventuras sexuais de uma mulher independente com uma bizarra criatura.

+ Tem ainda uma escritora chamada Cris Lasaitis com sua alegoria moderna sobre um maestro narcisista e uma melodia mágica (Sinfonia Para Narciso).

+ Leonardo Pezzella com A Lenda do Homem de Palha praticamente inventou uma lenda popular tão pictórica quanto as que povoam o imaginário da cultura brasileira.

+ O conto da Ana Cristina Rodrigues, O Templo do Amor, traz um interessante duelo entre as duas maiores forças que norteiam a nossa existência: o amor e a morte.

+ A Teoria na Prática (excelente título) é uma grande sacada do Romeu Martins ao dar sentido e quintas intenções à cultura da pasmaceira que chamamos de teoria da conspiração. Ou você não percebeu que tem alguém interessado em fazer você acreditar que camisinha dá câncer?

+ O conto do Richard Diegues, MAI-NI Expressas é uma viagem alucinante num mundo ciber-futurista-distópico onde motoboys rompem fronteiras a mil e seiscentos quilômetros por hora para entregar o seu pacote antes que a guerra comece.

+ O Combate de Maria Helena Bandeira é um altar de sacríficios ao deus Xanam, o deus do acaso e também das roletas russas.

+ E Madalena, de Osíris Reis, é um conto de terror situado entre o grotesco e o escatológico, onde não há fronteira entre os pesadelos e a realidade para uma menina de nove anos aterrorizada e violada pelos seus monstros pessoais e pela religião. Lembra um pouco um caso que aconteceu no Pernambuco outro dia…

Acho que não deixei faltar ninguém. É isso aí, criançada, parabéns! E que venha o volume 2!

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14 comentários

  1. Hum, leituras bacanas! 🙂 E putz, encarou a tarefa de ler Hamlet?
    Acho que a única coisa que li inteira do Shakespeare é “A Tempestade”, uma peça de teatro… resolvi ler esse, porque é mencionado em Ilium e Olympus (do Dan Simmons).
    Comecei a rascunhar a resenha do Paradigmas, mas agora que tu publicou, acho que não publico mais 😛 Acho que já não sei escrever mais resenhas decentes…
    Olha, dá um desconto à escritora mexicana… afinal, é bem complicado falar de TODAS as mulheres influentes da história, não? E o assassinato de Hipátia foi uma das coisas mais vergonhosas que já aconteceram na história da ciência e da religião 😦


  2. Uma especialista em Shakespear, amiga da minha mãe, passou aqui em casa ontem e falou uma coisa muito interessante: a maioria dos dramaturgos que dirigiram suas próprias peças, acabavam alterando elas, conforme elas era exibidas, por isso temos três versões aceitas de Hamlet. Algumas mais políticas, algumas mais românticas. Isso também aconteceu com Esperando Godot, que o próprio Brecht alterou o texto quando estava traduzindo do francês para o inglês.

    Sobre o Paradigmas, o meu conto preferido é esse de uma tal de Cris, que fala de maneira apaixonada e apaixonante sobre o mito de Narciso. Os contos do Leonardo Pezzela e Romeu Martins são realmente excelentes também. O mundo criado por Diegues é interessante, e tem momentos bons, mas achei um pouco exagerado no traço gibsonesco, e um pouco inconsistente no final, ainda assim, possui um descrição bem gráfica e interessante.


  3. Grato pela leitura (e ao Franksands, também).

    Eu mesmo ainda não recebi os livros, o que só deve acontecer no próximo sábado, se eu for mesmo ao evento de literatura fantástica em SP.

    Mas já havia lido alguns dos contos antes da publicação do livro, o seu, o do Jacques e o do Richard (sem falar no do Tivor, “Eu sou foda, cara!” que infelizmente ficou de fora desta primeira fase da Paradigmas por decisão do autor). E são todos excelentes contos mesmo, sem a menor dúvida.

    Estou muito curioso para ler os outros oito…


  4. Gi,
    Não sei se é a tradução do Millôr, mas a linguagem da peça é bem tranquila e praticamente livre de rococós barrocos.
    E publique a resenha, por favor! Sua opinião é só sua, de mais ninguém.

    Francisco,

    Engraçado, eu fui lendo e já imaginando minha própria versão teatral da tragédia.
    Quanto ao Paradigmas, obrigada. Gostei de muitos contos, seria injusto escolher os “mais”, mas já escolhendo, gostei pacas da história da Una.

    Romeu,

    Opa, você vem sábado? Jóia! Vou pegar seu autógrafo. Dos contos eu já tinha lido o seu, o do Richard, da Camila, do Jacques, do Eric… Reparei que as versões finais ficaram irretocáveis. Sempre é bom submeter o texto á prova dos leitores beta.


  5. Se não der zebra de novo (como deu quando eu quase fui ao lançamento da Paradigmas) eu vou.

    E sim, uma Tropa Beta é muito importante e uma experiência enriquecedora, sem dúvida.


  6. Espero que os terroristas não resolvam sabotar sua vinda a São Paulo 😉


  7. É… os caras são phoda…

    Publiquei sua resenha no Terrorcon e percebi que esqueci de dizer que o conto da Ana eu também já havia lido… é amnésia da idade…


  8. Adoro Shakes.
    Mãe do david tem um livro baseado no A Tempestade. Se chama A um passo.
    O Hamlet é o mais bacana mesmo. Se bem que Macbeth… Já viu trono manchado de sangue? do Akira Kurosawa… afe afe… enfim, adoro. Bjss!


  9. Meu próximo será Macbeth!


  10. […] Leia a resenha da Cristie! […]


  11. Hipátia rocks, babe.

    Caso ainda não tenha lido, recomendo “Baudolino”, de Humberto Eco, no qual o autor cria um legado no mínimo criativo para essa personagem feminina (que no romance é chamada pela variante “Hipásia”). Além de ser um ótimo livro de aventura e fantasia medieval. 😉

    Macbeth é uma das melhores traédias do Shakes. Nunca a vi interpretada, mas como leitura é sensacional. Destacam-se as emblemáticas três bruxas/sibilas e a incomparável Lady Macbeth, esposa do personagem-título.


  12. E aí, será melhor ler O Nome da Rosa ou Baudolino?


  13. […] mas para quem quer ler sobre eles, deixo aqui dois links com breves comentários da Cris Lasaitis aqui (vol 1) e aqui (vol 2). Aproveita para ler as outras resenhas e os posts, afinal, a guria escreve […]


  14. […] Paradigmas vol. 3     Paradigmas vol. 2      Paradigmas vol. 1   […]



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