Archive for abril \29\UTC 2009

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Leituras – Abril/2009

abril, 29 - 2009

The God Delusion (Deus – Um Delírio) – Richard Dawkins

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Quando soube que Richard Dawkins vem para a Festa Literária de Paraty considerei a possibilidade de ouvir seu discurso com um pouco mais de atenção para formar uma opinião menos apressada e mais baseada em “pós-conceitos”.

A princípio, quero dizer que admiro o trabalho do Dawkins como biólogo evolucionista, e o livro que mais gosto, The Ancestor’s Tale, que conta de maneira bastante didática a evolução das espécies, é praticamente o único que não foi traduzido para o português. Em vez disso, claro, a polêmica é muito mais interessante para o mercado editorial, e você encontra fácil fácil nas livrarias a sua cepa arrasadora de mitos: O Relojoeiro Cego, O Capelão do Diabo, A Escalada do Monte Improvável, e o mais recente: Deus – Um Delírio.

Gosto do trabalho dos caçadores de mitos, cientistas e divulgadores científicos que se dedicam ao árduo trabalho de tentar ensinar a população leiga a pensar com o método científico (por falar nisso: o povo pensa? Tenho minhas dúvidas…). Nesse nicho, Carl Sagan é uma pílula de lucidez que recomendo a todas as pessoas, e os seus livros O Mundo Assombrado Pelos Demônios e Bilhões e Bilhões são os mais esclarecedores (e emocionantes!) que já li.

E o Richard Dawkins? Ele é uma espécie de Carl Sagan destemperado, com uma língua afiada, radicalismo e muito ranço. Desde que publicou O Relojoeiro Cego ele tem dado continuidade a um debate racional interessante, contanto que recrudeceu o discurso com o passar dos anos, provavelmente por ter percebido que: 1- os ateístas como ele não se congregam, e 2- que debate em cima de religião vende muito livro (e dá dinheiro, fama, popularidade, et coetera).

A premissa de Deus – Um Delírio é basicamente “Imagine a world without religion”. E durante o livro todo ele argumenta como a religião é má e o ateísmo é bom, como os religiosos são desequilibrados, como os agnósticos são indecisos, como os argumentos em favor da religião são pobres enquanto os argumentos científicos são fortes, e como o mundo seria muito melhor sem a religião.

Como fã e amigo de Douglas Adams (autor do Guia do Mochileiro das Galáxias), Dawkins tem tiradas óóótimas! Dei boas risadas com o sarro que ele tira da mitologia católica. A sua discussão é muito pertinente e ele sabe expor pensamentos interessantes, como aquele que citei num tópico anterior.

O que enche o saco é a insistência de que só o ateísmo é coerente e todas as pessoas que não acreditam em um Deus pessoal (ou uma entidade deífica) devem sair do armário e se afirmar como ateístas. É interessante que sobra bronca até para os agnósticos (aquelas pessoas que não acreditam nem desacreditam de nada, não afirmam nem negam, se esquivam de discussões metafísicas), que segundo ele são indecisos, ficam em cima do muro.

Olha, seu Dawkins, eu vou lhe dar meus argumentos (e sei que você não vai ouvir, tudo bem). Digo pra você que “em cima do muro” é um lugar fantástico para se estar, pois é calmo, tem uma vista fabulosa, um campo de visão amplo, de onde pode-se assistir de camarote ao fogo cruzado, e isso me diverte, perturba, fascina, sem que eu precise ganhar um arranhão. Sou racionalista e tenho na ciência a régua mais confiável para medir esse pé direito imenso que guarda mais mistérios do que sonha a nossa vã filosofia. Não quero todas as certezas, sou feliz na dúvida. Se há algo belo em termos sido colocados aqui sem resposta para nossos grandes dilemas existenciais – de onde vim? por que estou aqui? para onde vou? – é que a dúvida nos deixa pouco espaço para o comodismo, ela nos obriga a viver!

Então vê se vai tratar mais de ciência (aquela para o qual você se formou) e me deixa em paz aqui no muro!

Sonhos de Robô – Isaac Asimov

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É uma coletânea de contos que abrange um período muito amplo da carreira de Isaac Asimov, com textos escritos entre 1947 e 1982. O livro vem com uma introdução bem interessante em que Asimov discorre sobre a evolução científica e tecnológica que ele teve a oportunidade de assistir ao longo das décadas e como algumas confirmaram suas previsões enquanto outras as contrariaram completamente. Notável, segundo ele, foi a revolução da informática seguindo em direção ao encolhimento dos computadores em vez de erigir os gigantescos Multivacs (os megacomputadores de suas histórias), e também o desenvolvimento da robótica e a exploração do sistema solar desnudando a face dos planetas que Asimov tanto visitara na imaginação.

A maioria são histórias de robôs, e não apenas “de robôs”, mas histórias que humanizam robôs (ideia da capa do livro, se você prestar atenção). Tem também histórias de extraterrestres, de aventureiros espaciais, de supercomputadores espertinhos e de gênios incompreendidos. Aqui também se encontra um dos contos mais potentes e filosóficos de toda a ficção científica: A Última Pergunta. Não leu? Não perca tempo, leia! É uma divagação muito pertinente sobre a nossa ânsia de infinitude dentro de um universo finito. Fora este, o conto que mais gostei foi O Garotinho Feio. Uma corporação inventa uma armadilha do tempo capaz de trazer para o presente espécimes de períodos pré-históricos. Um menininho neandertal cai na armadinha e vai parar no galpão da corporação, que se interessa pelo garoto apenas enquanto ele lhe traz fama. Uma enfermeira é contratada para cuidar dele, e o foco da história é o choque, o estranhamento e o envolvimento dos dois. Esse conto é uma grande surpresa porque, a despeito do que a ciência dizia na época – que os neandertais não tinham linguagem -, Asimov colocou palavras na boca do menino. Apenas muito recentemente os cientistas descobriram por análises do DNA encontrado em um osso de neandertal que a versão atual do gene da fala – o FOXP2 – já estava presente no Homo neandertalensis e deve ter passado para os Homo sapiens por cruzamento. Ou seja, é provável que os neandertais falassem mesmo! E bem que eu gostaria de ter tido a chance de dar essa notícia ao Asimov.

O Livro de Ouro da Mitologia (A Idade da Fábula) – Thomas Bulfinch

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A Idade da Fábula virou O Livro (Edi)Ouro da Mitologia provavelmente porque é uma referência clássica, foi escrito no século XIX. É uma compilação de mitos organizados pelo critério (caótico) de Thomas Bulfinch, que tem o mérito de abranger a quase totalidade da mitologia greco-romana, as narrativas clássicas (de Homero e Virgílio – muito bem contadas, aliás!); e ainda uma paçoca de mitos hindus, egípcios, persas, nórdicos e celtas. De resto, prometo que não vou bater muito porque Thomas Bulfinch não está aqui para se defender.

O livro é bom? Eu diria que é completo, rico em informação, é um livro que eu certamente daria para uma criança ou um adolescente conhecer mitologia. Mas para alguém que está pesquisando com um interesse que vai além da mera curiosidade e se preocupa com a acurácia, não é uma boa fonte de pesquisa. O texto de Bulfinch não é aquela coisa (ou a tradução que é ruim, ou os dois), os mitos estão encobertos por um véu de puritanismo vitoriano (sinto dizer, a pornochanchada mítica ficou de fora), e a todo o momento ele faz referência a textos poéticos (absolutamente redundantes) de escritores da língua inglesa, como se estivesse se escondendo atrás deles pra se proteger: “olha, não fui eu que disse, foi Lord Byron!”

O critério de agrupamento de informações é curiosamente nebuloso, juntando no mesmo capítulo temas tão próximos quanto Pitágoras, oráculos e mitologia egípcia, ou Zoroastro, mitologia hindu, Buda e o Dalai Lama(??!!). Realmente, pros americanos do século XIX devia ser tudo farinha do mesmo saco (ora bolas, Buenos Aires ainda é a capital do Brasil!). Apesar de seguir a nomenclatura romana, em alguns momentos os nomes deslizam pros lados da Grécia, Minerva ora é chamada Palas, Febo é mais chamado de Apolo… Não existe nenhuma divisão entre o que é mito, o que é história e o que é literatura; todas as informações são lançadas no texto e misturadas como se fossem uma coisa só. A biografia de Safo (não sei porque, mas como critério de confiabilidade a biografia de Safo sempre é o tendão de Aquiles) saiu-se uma pérola: uma grande poetisa da antiguidade que se apaixonou por um jovem e se atirou de um penhasco – que romântico! Franboesa de ouro também para o tradutor e o time de revisores que deixaram todas as referências a Shelley (MARY Shelley) no masculino.

Mas olha pelo lado bom: é cheio de figuras!

Anna Karenina – Liev Tolstói

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Conhece a biografia do Tolstói? Não? Eu tenho a impressão que depois de passar uns minutinhos consultando a wikipedia você vai sentir um influxo de respeito cada vez que se deparar com a música deste nome: Tols..tói.

Deixando de lado as ideias revolucionárias, as atitudes inusitadas e o romantismo quixotesco que cerca a sua morte quase heróica, para entender por que Tolstói é considerado um dos grandes escritores da literatura mundial, só lendo.

O exemplar que li (velhinho e ao mesmo tempo virgem) comprei a 15 mangos num sebo. É uma tradução portuguesa da tradução francesa do original russo, ou seja, tem muito pouco de Tolstói de facto. E apesar do telégrafo sem fio passando por terras francesas e lusitanas, o romance me soou perfeitamente belo e brutal. Imagino como deve estar boa essa edição nova da editora Cosac Naify (capa acima), traduzida para o português brasileiro diretamente do russo.

Fui ler Anna Karenina de tanto que foi recomendada por um professor meu. Fisgou minha atenção o fato da obra ser praticamente um tratado sobre o amor em todas as suas formas, cores e fases, abordado com uma delicadeza que me deixou boquiaberta. As cenas em que o amor acomete os personagens são mágicas, há desde o encantamento da paixão à primeira vista, o amor-babão, o amor-devoção, o ciúme, o amor autodestrutivo…

O romance é praticamente uma novela, no sentido telenovelesco do termo (mas sem a ingenuidade implícita). Existem vários núcleos dramáticos entrelaçados. Anna Karenina não é exatamente uma protagonista, ela divide a cena com uma dúzia de personagens principais, e a cada momento da narrativa um deles é colocado sob o holofote para que seu drama seja dissecado até a última frestinha da alma. Impressionante é a habilidade com a qual autor comunica a tensão de cada cena. A descrição da agonia de um homem morrendo de tuberculose, por exemplo, me deixou paralisada no meio do metrô de São Paulo, idem para a narração de um parto que só faltou me fazer gemer. É bem o tipo de narrativa que transporta o leitor para outro mundo.

Liev Tolstói transportou a si mesmo para o romance na forma de um personagem (não vou dizer qual é, mas quem ler vai identificar fácil), que dá vazão às suas ideias pessoais (e incomuns para a época) em relação a política, religião, convívio em sociedade, entre outras coisas. Ele consegue pintar um quadro perfeito da vida burguesa na Rússia czarista, criticando-a não com palavras diretas, mas com a retratação desconcertante de uma alta sociedade frívola, ociosa, entediada, artificial e profundamente blasé

E tem mais: nunca vi outro escritor do sexo masculino com uma sensibilidade tão aflorada, afiada e potente quanto a de Tolstói. Me deixou sem palavras! Para ele rasgo todas as sedas, os veludos, as rendas, e também as musselinas e os brocados…

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And the Nebula award goes to…

abril, 26 - 2009

Novel : Powers – Ursula K. Le Guin (Harcourt, Sep07)

Novella : “The Spacetime Pool” – Catherine Asaro (Analog, Mar08)

Novelette : “Pride and Prometheus” – John Kessel (F&SF, Jan08)

Short Story : “Trophy Wives” – Nina Kiriki Hoffman (Fellowship Fantastic, ed. Greenberg and Hughes, Daw Jan08)

Script : “WALL-E” Screenplay by Andrew Stanton, Jim Reardon, Original story by Andrew Stanton, Pete Docter (Walt Disney June 2008)

Andre Norton Award : Flora’s Dare: How a Girl of Spirit Gambles All to Expand Her Vocabulary, Confront a Bouncing Boy Terror, and Try to Save Califa from a Shaky Doom (Despite Being Confined to Her Room) – Ysabeau S. Wilce (Harcourt, Sep08)

* * *

O que é o prêmio Nebula? Pergunte à Wikipedia, caro navegante. Para poupar seu trabalho, adianto que é uma das duas maiores premiações da literatura de ficção científica e fantasia (a outra é o prêmio Hugo).

Por que estou contente? Porque a mulher que me capturou para a literatura fantástica levou o prêmio mais uma vez. Ursula K. Le Guin completa 80 aninhos este ano e continua mais do que lúcida, na ativa, escrevendo a mil, publicando bonito e prosseguindo com sua pequena revolução pessoal que começou há 40 anos com a publicação de A Mão Esquerda da Escuridão (que também levou os prêmios Hugo e Nebula). Ela é uma dessas pessoas para quem eu olho e penso: ” é assim que quero ser quando crescer”. Parabéns vovó, mais uma vez!

E fica aqui a dica: conheçam a Ursula, crianças! Vale a pena.

Ursula K. Le Guin

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Opinião do leitor

abril, 20 - 2009

Resenha de Sandro Côdax, autor de O Homem que Sabia Mentir, para o Fábulas do Tempo e da Eternidade

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Não poderia começar a falar sobre o livro Fábulas… sem falar primeiro sobre a autora; ou melhor sobre o texto da autora. Notasse, que em sua escrita, Cristina Lasaitis talha as frases com cuidado, mas também com robustez. A cadência do texto é firme, coesa. Notasse logo que a autora é competente, escreve com grata elegância. Por vezes desconcerta, como já logo de cara, em seu primeiro conto. Utilizando-se de frases curtas, muda o ritmo, toma a rédea da leitura; o que  pode até incomodar no começo, mas que depois torna-se mecanismo perfeito na climatização da história. Ponto para a autora.

E como um belo arco-íris depois de uma forte chuva, o seu texto toma outra cara na história seguinte. Toma para si uma linguagem mais culta, mais clássica, cheia de eloquência, mas sem perder a modernidade. A partir daí, Cristina Lasaitis segue firme nesta mistura do texto mais culto com a linguagem moderna, sem tropeços. Suas histórias são muito bem formuladas, demonstram total conhecimento do que conta. Ficção Científica de primeira.

As histórias que formam este livro, são profundas, mas, sem deixar de ser sutil, leve – descontraídas até. O primeiro conto, Além do Invisível, chega a ser angustiante: eleva o velho conflito do amor impossível a níveis cibernéticos. No segundo conto, As Asas do Inca, conhecemos uma belíssima fábula sobre a eterna vontade de alcançar o futuro, de vencer a eterna dúvida de “quem somos? de onde viemos? para onde iremos?”; e não sem antes, nos presentear com um pequeno vislumbre do povo Inca e sua fascinante sociedade.

Quando li o conto Nascidos das Profundezas, uma antiga inquietação me voltou a mente: ‘Se a sociedade humana faz parte do cosmos, não faria também parte da grande sociedade cósmica? Não seriam, nossos irmãos mais velhos, aqueles que sempre denominamos de extraterrenos? Não seriam eles civilizações desenvolvidas, tutores de civilizações retrógradas como a nossa?’. Bem se vê este tipo de pensamentos neste conto, onde viajantes que se locomovem em sua ‘carruagem dos deuses’ fazem uma parada não programada e se defrontam com uma precária e rudimentar tribo perdida no tempo, que lhes observam como verdadeiros deuses. É a triste meta-inversão da evolução.

A próxima história, Revés Alquímico, é uma história leve, agradável, sem muitos questionamentos, como as anteriores. Serve como um descanso, um minuto de ar fresco. Claudia Mansilha faz sua primeira aparição em Assassinando o Tempo. Personagem muito bem talhada pela autora, que aqui nos é apresentada, em uma sci-fi (vulgo ficção científica) das boas. Em A Outra Metade, a autora retoma a eloquência, mas sem cair na pieguice. Talvez seja minha história predileta: é novamente o amor impossível, a solidão, a angústia que move a história. É como já disse mestre Dostoievski: ‘Um minuto inteiro de felicidade! Afinal, não basta isso para encher a vida inteira de um homem?…’.

Viagem Além do Absoluto, me é difícil de comentar. Personagem que estão a beira de vislumbrar um novo nascer do universo. Uma história metafísica, atemporal, percepções que não podem ser partilhadas. Bem, e cá está por outra vez a velha indagação: De Onde Viemos, Para Onde Vamos; é este o título deste conto. Oh, que fantástica história! A polidez do texto, a ironia, o humor; onde velhos se vão; onde um homem entregue a sua eloquência, vai perdendo seus ouvintes, restando apenas um. Oh, aflitiva! oh bendita estátua!

Irmãos Siameses, talvez seja a história de menor intensidade. Não por falta de criatividade, não por falta de um bom contexto, bons personagens. É a história (claro!) de dois irmão que nasceram grudados: duas cabeças em um único corpo. O cenário, os personagens, nos são todos muito bem apresentados; a história de suas vidas bem retratadas. No entanto, no andar da leitura não me prendeu a atenção, e o final não conseguiu me cativar. Bem ao contrário disso, Caçadores de Anjos é uma história que nos fisga desde o começo. Tem um começo magnífico – do tipo: começos inesquecíveis – bem a meu gosto. É uma deliciosa e libidinosa história, onde o interesse dos anjos, dos homens e das instituições ‘igrejas’ se colidem e conflitam; e onde não há a quem, nem a quê, se apegar. O tema me fascina, e o final, é impecável.

O universo de Claudia Mansilha volta a nos tocar em Os Parênteses da Eternidade. Este conto só vem reforçar a idéia de que Cristina Lasaitis em nada deve aos escritores estrangeiros de ficção científica, e que ela, assimilou e soube desenvolver muito bem a influência adquirida dos grandes mestres do gênero.

Para encerrar, quando os ponteiros do relógio se juntam em Meia-Noite, a autora nos trás a fadada e inevitável cibernética que vem nos engolindo a passos largos, em nossos dias. Ficção? Quem disse? Visionarismo.

Ótimo livro.

Autora que promete.

Literatura altamente recomendável.

Novos condutores da ficção substituindo os antigos.

E como diz a própria autora:

“Os velhos são a única prova do passado, o resto são especulações”.

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Uma questão de sorte?

abril, 17 - 2009

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“a grande maioria das pessoas que poderiam ser criadas pela loteria combinatória do DNA na realidade jamais nascerá. Para nós, sortudos, que estamos aqui, descrevi a brevidade relativa da vida imaginando uma luzinha de laser avançando ao longo de uma enorme linha do tempo. Tudo o que há antes ou depois da luzinha está mergulhado na escuridão do passado morto ou na escuridão do futuro desconhecido. Somos incrivelmente sortudos de estar sob a luz. Por mais curto que seja nosso tempo sob o sol, se desperdiçarmos um segundo dele, ou reclamarmos que é tedioso ou estéril ou chato (como uma criança), isso não poderá ser visto como um insulto insensível para os trilhões de não-nascidos que jamais terão a chance de receber a vida?”

                                                     Richard Dawkins, Deus – Um Delírio

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Outras visões da eternidade

abril, 16 - 2009

Mais uma resenha sai do forno quentinha. Esta é do Alex de Souza para o site de notícias nominuto.com 

Fábulas do Tempo e da Eternidade

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Gênero de sucesso comercial nas livrarias, alavancado na última década pelo fenômeno Harry Potter, pela versão cinematográfica da trilogia O Senhor dos Anéis e semelhantes, a fantasia pena para ter reconhecimento no mercado nacional.

Entre os autores brazucas de sucesso, nomes como André Vianco e Orlando Paes Filho conseguem destaque nas vendas, apesar das limitações estilísticas. Por isso, é de se louvar quando um bom livro – que também se arrisca pelo pantanoso terreno da ficção científica (outro patinho feio) – é lançado em nossas terras.

Este livro é Fábulas do Tempo e da Eternidade (Tarja Editorial, 176 páginas, R$ 25) da estreante Cristina Lasaitis. Com apenas 26 anos, a escritora mostra desenvoltura e domínio da técnica do conto nas 12 histórias que compõem o volume.

Em comum, as narrativas se debruçam sobre o mais cruel dos deuses: o tempo e suas implicações. Está lá por todo lado: em histórias futurísticas, em universos alternativos, em cenários medievais, a difícil relação do homem (ou de qualquer coisa parecida com isso) com a passagem dos dias está no âmago das histórias.

Apesar de brincar com teorias e conceitos científicos de difícil compreensão até para um leitor mais preparado, as histórias de ficção científica de Lasaitis escapam da armadilha do hermetismo, preferindo descrições prosaicas de situações complexas, principalmente nos contos que envolvem a teoria do Não-Tempo – uma brincadeira da autora com a relatividade einsteiniana que nos brinda com uma personagem instigante: a professora Cláudia Mansilha.

A física brasileira que muda a história da ciência é a protagonista de ‘Assassinando o Tempo’, texto incluído na coletânea FC do B – Ficção Científica Brasileira – Panorama 2006/2007, concurso literário no qual também tive um conto selecionado. A teoria do Não-Tempo rende ainda uma história cheia de lirismo e sentimento, Os Parênteses da Eternidade, em que um casal troca correspondências através dos séculos.

Ainda na seara da FC, a escritora faz um tour de force imaginativo em Viagem Além do Absoluto, uma instigante especulação científica de como as duas últimas consciências do universo observariam o fim dos tempos, num futuro para lá de longínquo.

Nesta história, Lasaitis mostra que tem imaginação de sobra, além de um bom embasamento teórico para evitar absurdos científicos. Há também ecos das Cosmicômicas, de Calvino – mas sem a comédia.

É nas histórias fantásticas, ou seja, em que o estranho se manifesta não pela ciência, mas pelo sobrenatural ou o inexplicável, que Cristina Lasaitis se supera – e foge aos lugares comuns do gênero.

Mesmo na história mais capa-e-espada do livro, Caçadores de Anjos, há ali uma visão feminina da história típica de escritoras como Zimmer Bradley e Ursula K. Le Guin, que foge ao clichê machista que infesta esse tipo de narrativa.

Outro ponto positivo do livro está no uso da América espanhola como cenário. É tentador imaginar que o instigante As Asas do Inca, em que um imperador tenta antever o futuro de seu povo, guarde relações espaciais com Nascidos nas Profundezas e Irmãos Siameses. Ainda que não esteja implícito, fica-se com a impressão que ambas se passam no mesmo local geográfico, e as fronteiras entre história e imaginação se dissolvem ante os olhos do leitor.

Por fim, Lasaitis mostra-se antenada com o que há de mais instigante na produção contemporânea da ficção científica, com o conto Meia-Noite. Como bem explica o escritor paulista Fábio Fernandes, na introdução, a história “pós-cyber” traz ecos de William Gibson e Cory Doctorow.

Ampliando seu leque de opções temáticas, a escritora mostra que está muito além da chamada ‘sorte de principiante’ com este primeiro lançamento.

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Sonhos borgianos

abril, 15 - 2009

Há uma espécie de surrealismo que só os assíduos fãs de Borges estão prontos a reconhecer e apontar: “isso é borgiano!”. Jorge Luis Borges é (vou usar no presente, pois ele é imortal) um escritor literalmente fantástico que tem o dom de criar estratos metalinguísticos, e deu o seu toque pessoal à ficção acrescentando a ela a beleza geométrica dos fractais, dos caleidoscópios, das dízimas periódicas e das séries infinitas.

Borges não é um escritor conhecido do grande público, ele habita um universo distante da literatura ordinária – essa feita de best sellers cheios de clichés e soluções fáceis. A melhor analogia a que posso chegar é que ler os contos de Borges é como comer uma barra de chocolate suíço 85% cacau. É uma literatura feita para capturar paladares refinados. É densa, não tem aquela docilidade óbvia que torna o prazer fácil e consumível em grandes bocados; para pegar o “gostinho” é preciso saborear com calma e com atenção e… voilá! Não tem coisa igual!

Mas o que eu ia dizer?

Essa manhã foi especial: tive um sonho borgiano com o Borges.

Estava em uma livraria (ou seria uma biblioteca?) muito estranha. A princípio fiquei bestificada observando um globo terrestre localizado à entrada no qual cada hemisfério girava em um sentido, os mares e continentes iam se misturando, era uma das coisas mais psicodélicas que já sonhei. E havia por ali uma noite de autógrafos cheia de celebridades literárias, mas nem reparei na cara dos outros autores depois que reconheci aquele distinto lorde argentino, tão cego quanto elegante, despontando sobre um oceano de livros. Cheguei perto e fiquei observando enquanto ele trocava palavras com outro. Tudo parecia muito normal. Ninguém estava gritando nem se emocionando em vê-los ali.

Mas era um sonho e eu acordei. E saí por aí pensando nele, assim, maravilhada. Então vejo o senhor Borges na rua, vindo na minha direção. Ao cruzarmos, paro e lhe digo:

– Mas olha que coincidência! Sonhei com o senhor na noite passada!

Não lembro direito o final, mas acho que Borges sorriu, mais ou menos assim:

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Aí eu acordei de verdade.

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Pra não dizer que não pisei nas flores

abril, 13 - 2009

Outro dia me deparei com um artigo do Bráulio Tavares, que sintetiza muito bem algo que há tempos tem me dado muito que pensar:

Quais são os limites da liberdade?

Não sei se você já percebeu, mas não dá para existir paz e liberdade absolutas convivendo na mesma civilização.
Para usar a analogia que o próprio Bráulio colocou: tente imaginar um líquido que seja um solvente universal. Tente imaginar um frasco que seja perfeitamente incorrosível. Parece uma boa ideia tentar guardar o solvente universal no frasco incorrosível, até você perceber que essas duas coisas não podem existir no mesmo universo, pois são mutuamente excludentes (conceito popularmente conhecido como “o paradoxo das facas Ginsu e das meias Vivarina”).
O mesmo para a paz e a liberdade.
Viver em um mundo com total liberdade de pensamento implica que as pessoas serão livres para aderir às ideologias que preferirem: religião, partido político, time de futebol, filosofia de vida, etc.; e serão livres também para adotar ideologias excludentes e/ou agressivas: neonazistas, racistas, sexistas – coisa que torna impossível a manutenção de uma paz ideal.

Por outro lado, o esforço para manter uma paz perfeita passa necessariamente pelas vias da repressão. A liberdade passa a ter contornos muito claros e estreitos, e as transgressões são rigidamente penalizadas no intuito de manter a ordem. A ideia nos remete automaticamente aos regimes autoritários e concluimos que esse seria um estado de paz instituída, mais frágil do que no primeiro caso.

Os anos de ditadura nos ensinaram muito sobre paz e liberdade, dado que hoje temos a convicção de que viver a confusão de um país livre ainda é preferível a viver num estado de paz amordaçada.

Onde quero chegar com isso?

Como alguns de vocês devem saber, eu estudo a homofobia. Nesses três anos de pesquisa foi doloroso quando fui colocada diante de um paradoxo: para que os homossexuais possam  ter liberdade, há que se podar a liberdade no outro extremo: o do preconceito.  Parece impossível intervir na questão sem lançar mão de um favoritismo. E justo. Trata-se de proteger um grupo da violência. Mas até onde é possível proteger sem interferir na liberdade de pensamento (ou ter que usar aquele nome terrível que nos dá calafrios: CENSURA)?

Indo muito diretamente ao ponto: no Brasil vigora uma liberdade de pensamento que não se estende à liberdade de agressão. Se há liberdade de pensamento, os preconceitos estão livres para morar na cabeça de quem os quiser. Preconceitos são lícitos, não importa a cara feia que façamos para eles. A polícia não pode prender alguém por pensar ou querer mal a um gay, a um negro ou a um corintiano simplesmente por serem aquilo que eles são. E do mesmo modo, não pode impedir ou constranger um casal gay namorando em público, ainda que as pessoas ao redor se sintam incomodadas. Não pode impedir o torcedor da fiel de ir ao estádio mesmo sabendo que ele pode criar confusão.
A conduta muda quando o pensamento se torna ação, quando descamba para a agressão, difamação, omissão onerosa, humilhação ou ofensa. Isso se chama discriminação e é passível de punição.

Preconceito e discriminação são coisas diferentes: o primeiro é pensamento, o segundo é ato. São co-dependentes: o preconceito dá origem à discriminação, e esta fortalece o preconceito. Fica nesse limiar pálido a separação entre o direito individual e o crime. É nessa transição nebulosa que a legislação tenta impor limites claros. 
Acontece que é ineficaz combater a discriminação sem intervir na sua origem: o preconceito. Significa que para resolver o problema é preciso meter o dedo na liberdade de pensamento individual e… opa, acabamos de falar em censura??

Pois é.
Mas isso não deve ser novidade. Quantas propagandas já não foram retiradas do ar por determinação judicial porque faziam piadas maldosas com grupos escolhidos a dedo? Não vamos ser hipócritas a ponto de achar que não existe censura no Brasil. Vou além e manifesto minha opinião pessoal: é preciso haver um rudimento de censura, sim.

Mas deveria haver censura a ponto de reprimir ideologias específicas, como o neonazismo? Com um pouco de dor no coração eu digo: sim, deveria. E vou citar um bom exemplo. Hoje a Alemanha é um dos países mais livres e bem colocados do mundo; não obstante, não há quem se atreva a usar uma suástica ou manifestar publicamente qualquer simpatia ao nazismo, simplesmente porque se fizer vai em cana. Os alemães, que têm alguma experiência na área, não pouparam medidas para abafar o que a história já ensinou que não compensa. Por outro lado, um país que afrouxou as rédeas a ponto de permitir a existência de uma Ku Klux Klan hoje investe pesado na segurança de um presidente negro que os fanáticos estão loucos para assassinar.
Nós, em nosso lugar, temos a experiência da ditadura e a convicção de que amamos a democracia, apesar dos políticos que ela nos dá. Não gostamos da censura, mas temos que reconhecer que em doses homeopáticas ela faz juz ao bom-senso.

Lembro quando o congresso tentou aprovar a lei que criminaliza a homofobia (PL122/2006) e foi assolado por uma avalancha evangélica enfurecida. Eles (os evangélicos) protestavam que a lei iria restringir a liberdade de culto, pois a bíblia fala claramente em punição para os homossexuais. Talvez ninguém tenha explicado a eles que a lei é contra a discriminação, o que não os impede de professar os ensinamentos homofóbicos da bíblia (que, aliás, também defende o estupro, o incesto, o assassinato e o genocídio, embora ninguém tenha cogitado esses detalhes), só os impede de colocá-los em prática, do mesmo modo como proíbe o apedrejamento de mulheres adúlteras ou a matança de idólatras.

Tanto quanto o Estado não consegue ser laico, sabemos que a lei não consegue ser imparcial. Ela tem que pesar para um lado, tem que agradar a um curral eleitoral, e no final acaba saindo ao gosto de quem faz, quem aprova e quem põe em prática.

O Paradoxo da Igualdade
Por falar em igualdade, é curioso notar como os esforços para alcançá-la geram assimetria. Um negro é livre para ostentar com orgulho uma camiseta escrita “100% negro”, enquanto um branco não faria mesmo (usar uma camisa “100% branco”) sem comprar uma briga no metrô, ou no mínimo ser olhado com muita desconfiança. Do mesmo modo, se um dia resolverem instituir uma “Parada do Orgulho Heterossexual” tenho certeza de que algumas pessoas se sentirão seriamente ofendidas.
O esforço pela igualdade gera um protocolo que permite a uma minoria (ou “grupo oprimido”) manifestar seu orgulho e levantar bandeiras, mas impossibilita que uma maioria (ou “grupo opressor”) faça o mesmo sem que isso seja interpretado como provocação. A igualdade nesse caso se torna um paradoxo, até que… até que eu me sinta à vontade para desfilar uma camiseta escrita “100% branca”, acho eu.

O delicado equilíbrio das ofensas
Lembro que uma vez estava eu numa livraria com minha ex-então-namorada, sentamos em uma poltrona para folhear livros e perdemos noção da hora, ficamos ali até a loja esvaziar. Eu sou muito distraída, mas minha namorada percebeu que o atendente começou a entrar numa crise de hesitação, pois ele tinha que pedir que nós nos retirássemos pois a livraria tinha que fechar, mas, tendo reparado que éramos um casal, estava receoso de que nós o interpretássemos mal o pedido. No final, muito delicadamente e todo gentileza, ele veio explicar que tinham que fechar. Nós saímos e ela comentou que tinha reparado na insegurança do rapaz, e isso nos deu o que pensar.
O que me intriga é que o receio dele fazia sentido. Ele sabia que qualquer mal entendido poderia ser interpretado como preconceito, como de fato costuma acontecer. Muitos gays e lésbicas desenvolvem uma espécie de hipersensibilidade: perdem a a capacidade de distinguir uma simples negativa de um preconceito. É algo que em geral se desenvolve depois de algumas más experiências.

É o mesmo caso de quem tem uma cisma ou um complexo qualquer. Imagine alguém que tem (ou acha que tem) um nariz grande que lhe incomoda, não é de se estranhar que o mundo vai girar ao redor daquele nariz: todos os comentários, os dedos levantados, os risos, as gracinhas em surdina; tudo convergirá para ele. Eu mesma vivenciei isso de uma maneira muito vívida (e traumática) entre meus 12-15 anos, quando era obrigada a usar um sutiã número 48.
Mas quem sou eu pra dizer que não tenho meus pontos frágeis? Quantas vezes me deparei com coisas para mim desconcertantes que costumam passar completamente imperceptíveis aos olhos da maioria das pessoas?

O universo numa cabeça de alfinete
É muito raro eu sair para baladas gays com amigos gays apenas, coisa que fazia bastante, anos atrás. Mas de vez em quando eu saio, nem que seja para lembrar a razão de ter desanimado.

Outro dia acompanhei uma amiga minha num passeio noturno com um grupo de garotas, todas elas lésbicas. Passamos a noite entre baladas e conversa de bar. Por mais que eu aprecie a vida noturna, houve algo a respeito daquelas pessoas que me deu coceira, incomodou – e vem me incomodando há muito tempo: a mentalidade de gueto.
O único fator de união daquela multidão na virada da madrugada é a orientação sexual, e ao redor dela orbita praticamente toda a conversa, as piadas, as reclamações e, claro, a paquera. Um universo hermético, asfixiante, alienado.
Não há dúvidas que o gueto conseguiu se impor. Ninguém nega que a população homossexual tem hoje um lugar no mundo. Tornou-se um país virtual, sem território definido, mas com bandeira, hino e um senso de pertencimento pra torcida organizada nenhuma botar defeito. Qual é o erro? O erro é que esse país fica no armário da humanidade. Foi uma forma de se criar um ambiente seguro quando lá fora impera um clima hostil. Mas perde-se muito, porque é um lugar minúsculo de se viver. É algo que eu me recuso veementemente a adotar.
Preferia que esse país semirreal não existisse e que sua população estivesse dissolvida no todo, convivendo, levando a vida cada um ao seu modo, na paz e na tolerância.
Mas aí volto àquela primeira pergunta: há esperança de vivermos em paz e com total liberdade?