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Pra não dizer que não pisei nas flores

abril, 13 - 2009

Outro dia me deparei com um artigo do Bráulio Tavares, que sintetiza muito bem algo que há tempos tem me dado muito que pensar:

Quais são os limites da liberdade?

Não sei se você já percebeu, mas não dá para existir paz e liberdade absolutas convivendo na mesma civilização.
Para usar a analogia que o próprio Bráulio colocou: tente imaginar um líquido que seja um solvente universal. Tente imaginar um frasco que seja perfeitamente incorrosível. Parece uma boa ideia tentar guardar o solvente universal no frasco incorrosível, até você perceber que essas duas coisas não podem existir no mesmo universo, pois são mutuamente excludentes (conceito popularmente conhecido como “o paradoxo das facas Ginsu e das meias Vivarina”).
O mesmo para a paz e a liberdade.
Viver em um mundo com total liberdade de pensamento implica que as pessoas serão livres para aderir às ideologias que preferirem: religião, partido político, time de futebol, filosofia de vida, etc.; e serão livres também para adotar ideologias excludentes e/ou agressivas: neonazistas, racistas, sexistas – coisa que torna impossível a manutenção de uma paz ideal.

Por outro lado, o esforço para manter uma paz perfeita passa necessariamente pelas vias da repressão. A liberdade passa a ter contornos muito claros e estreitos, e as transgressões são rigidamente penalizadas no intuito de manter a ordem. A ideia nos remete automaticamente aos regimes autoritários e concluimos que esse seria um estado de paz instituída, mais frágil do que no primeiro caso.

Os anos de ditadura nos ensinaram muito sobre paz e liberdade, dado que hoje temos a convicção de que viver a confusão de um país livre ainda é preferível a viver num estado de paz amordaçada.

Onde quero chegar com isso?

Como alguns de vocês devem saber, eu estudo a homofobia. Nesses três anos de pesquisa foi doloroso quando fui colocada diante de um paradoxo: para que os homossexuais possam  ter liberdade, há que se podar a liberdade no outro extremo: o do preconceito.  Parece impossível intervir na questão sem lançar mão de um favoritismo. E justo. Trata-se de proteger um grupo da violência. Mas até onde é possível proteger sem interferir na liberdade de pensamento (ou ter que usar aquele nome terrível que nos dá calafrios: CENSURA)?

Indo muito diretamente ao ponto: no Brasil vigora uma liberdade de pensamento que não se estende à liberdade de agressão. Se há liberdade de pensamento, os preconceitos estão livres para morar na cabeça de quem os quiser. Preconceitos são lícitos, não importa a cara feia que façamos para eles. A polícia não pode prender alguém por pensar ou querer mal a um gay, a um negro ou a um corintiano simplesmente por serem aquilo que eles são. E do mesmo modo, não pode impedir ou constranger um casal gay namorando em público, ainda que as pessoas ao redor se sintam incomodadas. Não pode impedir o torcedor da fiel de ir ao estádio mesmo sabendo que ele pode criar confusão.
A conduta muda quando o pensamento se torna ação, quando descamba para a agressão, difamação, omissão onerosa, humilhação ou ofensa. Isso se chama discriminação e é passível de punição.

Preconceito e discriminação são coisas diferentes: o primeiro é pensamento, o segundo é ato. São co-dependentes: o preconceito dá origem à discriminação, e esta fortalece o preconceito. Fica nesse limiar pálido a separação entre o direito individual e o crime. É nessa transição nebulosa que a legislação tenta impor limites claros. 
Acontece que é ineficaz combater a discriminação sem intervir na sua origem: o preconceito. Significa que para resolver o problema é preciso meter o dedo na liberdade de pensamento individual e… opa, acabamos de falar em censura??

Pois é.
Mas isso não deve ser novidade. Quantas propagandas já não foram retiradas do ar por determinação judicial porque faziam piadas maldosas com grupos escolhidos a dedo? Não vamos ser hipócritas a ponto de achar que não existe censura no Brasil. Vou além e manifesto minha opinião pessoal: é preciso haver um rudimento de censura, sim.

Mas deveria haver censura a ponto de reprimir ideologias específicas, como o neonazismo? Com um pouco de dor no coração eu digo: sim, deveria. E vou citar um bom exemplo. Hoje a Alemanha é um dos países mais livres e bem colocados do mundo; não obstante, não há quem se atreva a usar uma suástica ou manifestar publicamente qualquer simpatia ao nazismo, simplesmente porque se fizer vai em cana. Os alemães, que têm alguma experiência na área, não pouparam medidas para abafar o que a história já ensinou que não compensa. Por outro lado, um país que afrouxou as rédeas a ponto de permitir a existência de uma Ku Klux Klan hoje investe pesado na segurança de um presidente negro que os fanáticos estão loucos para assassinar.
Nós, em nosso lugar, temos a experiência da ditadura e a convicção de que amamos a democracia, apesar dos políticos que ela nos dá. Não gostamos da censura, mas temos que reconhecer que em doses homeopáticas ela faz juz ao bom-senso.

Lembro quando o congresso tentou aprovar a lei que criminaliza a homofobia (PL122/2006) e foi assolado por uma avalancha evangélica enfurecida. Eles (os evangélicos) protestavam que a lei iria restringir a liberdade de culto, pois a bíblia fala claramente em punição para os homossexuais. Talvez ninguém tenha explicado a eles que a lei é contra a discriminação, o que não os impede de professar os ensinamentos homofóbicos da bíblia (que, aliás, também defende o estupro, o incesto, o assassinato e o genocídio, embora ninguém tenha cogitado esses detalhes), só os impede de colocá-los em prática, do mesmo modo como proíbe o apedrejamento de mulheres adúlteras ou a matança de idólatras.

Tanto quanto o Estado não consegue ser laico, sabemos que a lei não consegue ser imparcial. Ela tem que pesar para um lado, tem que agradar a um curral eleitoral, e no final acaba saindo ao gosto de quem faz, quem aprova e quem põe em prática.

O Paradoxo da Igualdade
Por falar em igualdade, é curioso notar como os esforços para alcançá-la geram assimetria. Um negro é livre para ostentar com orgulho uma camiseta escrita “100% negro”, enquanto um branco não faria mesmo (usar uma camisa “100% branco”) sem comprar uma briga no metrô, ou no mínimo ser olhado com muita desconfiança. Do mesmo modo, se um dia resolverem instituir uma “Parada do Orgulho Heterossexual” tenho certeza de que algumas pessoas se sentirão seriamente ofendidas.
O esforço pela igualdade gera um protocolo que permite a uma minoria (ou “grupo oprimido”) manifestar seu orgulho e levantar bandeiras, mas impossibilita que uma maioria (ou “grupo opressor”) faça o mesmo sem que isso seja interpretado como provocação. A igualdade nesse caso se torna um paradoxo, até que… até que eu me sinta à vontade para desfilar uma camiseta escrita “100% branca”, acho eu.

O delicado equilíbrio das ofensas
Lembro que uma vez estava eu numa livraria com minha ex-então-namorada, sentamos em uma poltrona para folhear livros e perdemos noção da hora, ficamos ali até a loja esvaziar. Eu sou muito distraída, mas minha namorada percebeu que o atendente começou a entrar numa crise de hesitação, pois ele tinha que pedir que nós nos retirássemos pois a livraria tinha que fechar, mas, tendo reparado que éramos um casal, estava receoso de que nós o interpretássemos mal o pedido. No final, muito delicadamente e todo gentileza, ele veio explicar que tinham que fechar. Nós saímos e ela comentou que tinha reparado na insegurança do rapaz, e isso nos deu o que pensar.
O que me intriga é que o receio dele fazia sentido. Ele sabia que qualquer mal entendido poderia ser interpretado como preconceito, como de fato costuma acontecer. Muitos gays e lésbicas desenvolvem uma espécie de hipersensibilidade: perdem a a capacidade de distinguir uma simples negativa de um preconceito. É algo que em geral se desenvolve depois de algumas más experiências.

É o mesmo caso de quem tem uma cisma ou um complexo qualquer. Imagine alguém que tem (ou acha que tem) um nariz grande que lhe incomoda, não é de se estranhar que o mundo vai girar ao redor daquele nariz: todos os comentários, os dedos levantados, os risos, as gracinhas em surdina; tudo convergirá para ele. Eu mesma vivenciei isso de uma maneira muito vívida (e traumática) entre meus 12-15 anos, quando era obrigada a usar um sutiã número 48.
Mas quem sou eu pra dizer que não tenho meus pontos frágeis? Quantas vezes me deparei com coisas para mim desconcertantes que costumam passar completamente imperceptíveis aos olhos da maioria das pessoas?

O universo numa cabeça de alfinete
É muito raro eu sair para baladas gays com amigos gays apenas, coisa que fazia bastante, anos atrás. Mas de vez em quando eu saio, nem que seja para lembrar a razão de ter desanimado.

Outro dia acompanhei uma amiga minha num passeio noturno com um grupo de garotas, todas elas lésbicas. Passamos a noite entre baladas e conversa de bar. Por mais que eu aprecie a vida noturna, houve algo a respeito daquelas pessoas que me deu coceira, incomodou – e vem me incomodando há muito tempo: a mentalidade de gueto.
O único fator de união daquela multidão na virada da madrugada é a orientação sexual, e ao redor dela orbita praticamente toda a conversa, as piadas, as reclamações e, claro, a paquera. Um universo hermético, asfixiante, alienado.
Não há dúvidas que o gueto conseguiu se impor. Ninguém nega que a população homossexual tem hoje um lugar no mundo. Tornou-se um país virtual, sem território definido, mas com bandeira, hino e um senso de pertencimento pra torcida organizada nenhuma botar defeito. Qual é o erro? O erro é que esse país fica no armário da humanidade. Foi uma forma de se criar um ambiente seguro quando lá fora impera um clima hostil. Mas perde-se muito, porque é um lugar minúsculo de se viver. É algo que eu me recuso veementemente a adotar.
Preferia que esse país semirreal não existisse e que sua população estivesse dissolvida no todo, convivendo, levando a vida cada um ao seu modo, na paz e na tolerância.
Mas aí volto àquela primeira pergunta: há esperança de vivermos em paz e com total liberdade?

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6 comentários

  1. Putz, esse post deu muito o que pensar, viu…
    É, de fato é meio chato esse negócio de “gueto”, de certa forma se sente limitada e ainda por cima há hipersensibilidade, qualquer gafe e já f…
    A humanidade de fato é um pouco paradoxal… e sua frase sobre se a paz poderia conviver com a liberdade resume de maneira sucinta esse paradoxo.
    Você esqueceu de adicionar também o paradoxo da maior força do Universo contra a coisa mais forte do Universo 🙂


  2. Crista Lasaitis, múltipla, vária e multiforme, você se espanta que não existe bandeira,castelo,pátria, vila ou gueto que possa te abrigar? Espelho para refletir fielmente essa sua imagem caleidoscópica? Ideologia para açabarcar as suas múltiplas contradições?

    Quem se define se limita, moça Cris… 🙂

    Beijos


  3. “Você esqueceu de adicionar também o paradoxo da maior força do Universo contra a coisa mais forte do Universo”

    Qual?


  4. Quem me dera, Jorge, quem me dera. Como estou doida pra sair dessas 4 paredes e conhecer um pouco mais do mundo. Ando muito enclausurada ultimamente.

    Valeu
    Beijos


  5. Hm, é esse mesmo da frase rs.
    Assim, se você diz que existe no Universo uma força capaz de quebrar tudo e também disser que existe algo inquebrável nesse universo, isso implica num paradoxo, porque quem vence? A força insuperável ou o algo inquebrável?


  6. Se eu fosse falar o que penso e sinto sobre cada um dos pontos que você levantou, escreveria um outro jornal auto-referente e ao mesmo tempo abrangente, como o último e-mail que te enviei. 😛

    Para não cair nisso, afirmo apenas que esse é um tema extremamente espinhoso que você conseguiu, como sempre, abordar com elegância e imparcialidade, mesmo utilizando experiências pessoais como exemplo.

    Parabéns! 🙂



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