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Sonhos borgianos

abril, 15 - 2009

Há uma espécie de surrealismo que só os assíduos fãs de Borges estão prontos a reconhecer e apontar: “isso é borgiano!”. Jorge Luis Borges é (vou usar no presente, pois ele é imortal) um escritor literalmente fantástico que tem o dom de criar estratos metalinguísticos, e deu o seu toque pessoal à ficção acrescentando a ela a beleza geométrica dos fractais, dos caleidoscópios, das dízimas periódicas e das séries infinitas.

Borges não é um escritor conhecido do grande público, ele habita um universo distante da literatura ordinária – essa feita de best sellers cheios de clichés e soluções fáceis. A melhor analogia a que posso chegar é que ler os contos de Borges é como comer uma barra de chocolate suíço 85% cacau. É uma literatura feita para capturar paladares refinados. É densa, não tem aquela docilidade óbvia que torna o prazer fácil e consumível em grandes bocados; para pegar o “gostinho” é preciso saborear com calma e com atenção e… voilá! Não tem coisa igual!

Mas o que eu ia dizer?

Essa manhã foi especial: tive um sonho borgiano com o Borges.

Estava em uma livraria (ou seria uma biblioteca?) muito estranha. A princípio fiquei bestificada observando um globo terrestre localizado à entrada no qual cada hemisfério girava em um sentido, os mares e continentes iam se misturando, era uma das coisas mais psicodélicas que já sonhei. E havia por ali uma noite de autógrafos cheia de celebridades literárias, mas nem reparei na cara dos outros autores depois que reconheci aquele distinto lorde argentino, tão cego quanto elegante, despontando sobre um oceano de livros. Cheguei perto e fiquei observando enquanto ele trocava palavras com outro. Tudo parecia muito normal. Ninguém estava gritando nem se emocionando em vê-los ali.

Mas era um sonho e eu acordei. E saí por aí pensando nele, assim, maravilhada. Então vejo o senhor Borges na rua, vindo na minha direção. Ao cruzarmos, paro e lhe digo:

– Mas olha que coincidência! Sonhei com o senhor na noite passada!

Não lembro direito o final, mas acho que Borges sorriu, mais ou menos assim:

 borges

Aí eu acordei de verdade.

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8 comentários

  1. Borges é o cara! 🙂 Queria voltar a me lembrar dos sonhos bizarros, mas ultimamente esqueço =/
    Não sei porque, mas ao olhar essa foto aí, eu me lembrei do Niels Bohr… será que parece? rs


  2. E só para não perder o hábito, recomendo o Felisberto Hernández ^^ Bjss!


  3. Cristina, Borges teria certamente ficado deliciado com o facto de você sonhar com ele. Nós ficaremos deliciados se isso originar um conto 🙂

    Abraços
    LFS


  4. Um conto com Borges não seria má ideia, Luís.

    Também é fantástico esse Felisberto Hernández, Eric? Existe toda uma escola de argentinos ainda desconhecidos meus. Preciso ler Julio Cortázar, preciso ler Bioy Casares, e também Angelica Gorodischer…


  5. Seria ainda mais borgiano se no final nós descobríssemos que na verdade ele estava sonhando você… 🙂


  6. Hehe

    Boa!!


  7. É, seria borgeano. 😛


  8. É por isso que a Camila é minha revisora preferida 😉



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