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Opinião do leitor

abril, 20 - 2009

Resenha de Sandro Côdax, autor de O Homem que Sabia Mentir, para o Fábulas do Tempo e da Eternidade

fabulas

Não poderia começar a falar sobre o livro Fábulas… sem falar primeiro sobre a autora; ou melhor sobre o texto da autora. Notasse, que em sua escrita, Cristina Lasaitis talha as frases com cuidado, mas também com robustez. A cadência do texto é firme, coesa. Notasse logo que a autora é competente, escreve com grata elegância. Por vezes desconcerta, como já logo de cara, em seu primeiro conto. Utilizando-se de frases curtas, muda o ritmo, toma a rédea da leitura; o que  pode até incomodar no começo, mas que depois torna-se mecanismo perfeito na climatização da história. Ponto para a autora.

E como um belo arco-íris depois de uma forte chuva, o seu texto toma outra cara na história seguinte. Toma para si uma linguagem mais culta, mais clássica, cheia de eloquência, mas sem perder a modernidade. A partir daí, Cristina Lasaitis segue firme nesta mistura do texto mais culto com a linguagem moderna, sem tropeços. Suas histórias são muito bem formuladas, demonstram total conhecimento do que conta. Ficção Científica de primeira.

As histórias que formam este livro, são profundas, mas, sem deixar de ser sutil, leve – descontraídas até. O primeiro conto, Além do Invisível, chega a ser angustiante: eleva o velho conflito do amor impossível a níveis cibernéticos. No segundo conto, As Asas do Inca, conhecemos uma belíssima fábula sobre a eterna vontade de alcançar o futuro, de vencer a eterna dúvida de “quem somos? de onde viemos? para onde iremos?”; e não sem antes, nos presentear com um pequeno vislumbre do povo Inca e sua fascinante sociedade.

Quando li o conto Nascidos das Profundezas, uma antiga inquietação me voltou a mente: ‘Se a sociedade humana faz parte do cosmos, não faria também parte da grande sociedade cósmica? Não seriam, nossos irmãos mais velhos, aqueles que sempre denominamos de extraterrenos? Não seriam eles civilizações desenvolvidas, tutores de civilizações retrógradas como a nossa?’. Bem se vê este tipo de pensamentos neste conto, onde viajantes que se locomovem em sua ‘carruagem dos deuses’ fazem uma parada não programada e se defrontam com uma precária e rudimentar tribo perdida no tempo, que lhes observam como verdadeiros deuses. É a triste meta-inversão da evolução.

A próxima história, Revés Alquímico, é uma história leve, agradável, sem muitos questionamentos, como as anteriores. Serve como um descanso, um minuto de ar fresco. Claudia Mansilha faz sua primeira aparição em Assassinando o Tempo. Personagem muito bem talhada pela autora, que aqui nos é apresentada, em uma sci-fi (vulgo ficção científica) das boas. Em A Outra Metade, a autora retoma a eloquência, mas sem cair na pieguice. Talvez seja minha história predileta: é novamente o amor impossível, a solidão, a angústia que move a história. É como já disse mestre Dostoievski: ‘Um minuto inteiro de felicidade! Afinal, não basta isso para encher a vida inteira de um homem?…’.

Viagem Além do Absoluto, me é difícil de comentar. Personagem que estão a beira de vislumbrar um novo nascer do universo. Uma história metafísica, atemporal, percepções que não podem ser partilhadas. Bem, e cá está por outra vez a velha indagação: De Onde Viemos, Para Onde Vamos; é este o título deste conto. Oh, que fantástica história! A polidez do texto, a ironia, o humor; onde velhos se vão; onde um homem entregue a sua eloquência, vai perdendo seus ouvintes, restando apenas um. Oh, aflitiva! oh bendita estátua!

Irmãos Siameses, talvez seja a história de menor intensidade. Não por falta de criatividade, não por falta de um bom contexto, bons personagens. É a história (claro!) de dois irmão que nasceram grudados: duas cabeças em um único corpo. O cenário, os personagens, nos são todos muito bem apresentados; a história de suas vidas bem retratadas. No entanto, no andar da leitura não me prendeu a atenção, e o final não conseguiu me cativar. Bem ao contrário disso, Caçadores de Anjos é uma história que nos fisga desde o começo. Tem um começo magnífico – do tipo: começos inesquecíveis – bem a meu gosto. É uma deliciosa e libidinosa história, onde o interesse dos anjos, dos homens e das instituições ‘igrejas’ se colidem e conflitam; e onde não há a quem, nem a quê, se apegar. O tema me fascina, e o final, é impecável.

O universo de Claudia Mansilha volta a nos tocar em Os Parênteses da Eternidade. Este conto só vem reforçar a idéia de que Cristina Lasaitis em nada deve aos escritores estrangeiros de ficção científica, e que ela, assimilou e soube desenvolver muito bem a influência adquirida dos grandes mestres do gênero.

Para encerrar, quando os ponteiros do relógio se juntam em Meia-Noite, a autora nos trás a fadada e inevitável cibernética que vem nos engolindo a passos largos, em nossos dias. Ficção? Quem disse? Visionarismo.

Ótimo livro.

Autora que promete.

Literatura altamente recomendável.

Novos condutores da ficção substituindo os antigos.

E como diz a própria autora:

“Os velhos são a única prova do passado, o resto são especulações”.

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10 comentários

  1. Opa, mais uma resenha! 🙂
    Bom, aprendi que para comentar e resenhar decentemente uma antologia é preciso mencionar todos os contos… isso eu esqueci na resenha do ano passado =/


  2. Não necessariamente, Gi. É o melhor e o mais adequado – mas às vezes uma boa solução é o chamado “spotlight”, em que se pode escrever um bom e suculento texto sobre um livro e não mencionar tudo o que existe nele (no caso de uma coletânea ou antologia, os contos – claro que estou falando aqui de coletânea de um autor só; no caso de antologias de diversos sutores, realmente pega muito mal mencionar quase todo mundo e deixar alguns de fora. 🙂


  3. Giseli, Giseli, sempre muito preocupada com certos e errados (tão virtuais quanto a vida na Matrix).

    A melhor resenha que existe é a sincera.


  4. Ahmm, sabe como é, força do hábito rs. Mas tô tentando largar esse hábito, don’t worry.


  5. Ola Cristina, navegando deparei com o seu texto sobre ficção cientifica, adorei o texto.Nos que lemos só pelo prazer de ler não nos damos conta dessas varias vertentes da fc, vc foi brilhante,espero ler alguns dos seus livros.
    Teresópolis rj


  6. Obrigada, Amarildo 🙂
    Espero que você curta os textos!


  7. Estou relendo o “Fábulas”… Como uma dogra inebriante, fiquei viciado na doce intoxicação que as páginas de seu livro induzem.. 🙂

    bjs


  8. Resenha do Sandro!! Super gente boa ele. Bjss


  9. Jorge
    Espero que a “dogra” faça efeito e que a maresia lhe seja fresca 😉

    Oi Eric, vc conhece o moço? Ele é muito gentil, vou ler o livro dele.

    Bjos!


  10. “Ficção? Quem disse? Visionarismo.”

    Clap, clap, clap, clap, clap!



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