Archive for 29 de abril de 2009

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Leituras – Abril/2009

abril, 29 - 2009

The God Delusion (Deus – Um Delírio) – Richard Dawkins

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Quando soube que Richard Dawkins vem para a Festa Literária de Paraty considerei a possibilidade de ouvir seu discurso com um pouco mais de atenção para formar uma opinião menos apressada e mais baseada em “pós-conceitos”.

A princípio, quero dizer que admiro o trabalho do Dawkins como biólogo evolucionista, e o livro que mais gosto, The Ancestor’s Tale, que conta de maneira bastante didática a evolução das espécies, é praticamente o único que não foi traduzido para o português. Em vez disso, claro, a polêmica é muito mais interessante para o mercado editorial, e você encontra fácil fácil nas livrarias a sua cepa arrasadora de mitos: O Relojoeiro Cego, O Capelão do Diabo, A Escalada do Monte Improvável, e o mais recente: Deus – Um Delírio.

Gosto do trabalho dos caçadores de mitos, cientistas e divulgadores científicos que se dedicam ao árduo trabalho de tentar ensinar a população leiga a pensar com o método científico (por falar nisso: o povo pensa? Tenho minhas dúvidas…). Nesse nicho, Carl Sagan é uma pílula de lucidez que recomendo a todas as pessoas, e os seus livros O Mundo Assombrado Pelos Demônios e Bilhões e Bilhões são os mais esclarecedores (e emocionantes!) que já li.

E o Richard Dawkins? Ele é uma espécie de Carl Sagan destemperado, com uma língua afiada, radicalismo e muito ranço. Desde que publicou O Relojoeiro Cego ele tem dado continuidade a um debate racional interessante, contanto que recrudeceu o discurso com o passar dos anos, provavelmente por ter percebido que: 1- os ateístas como ele não se congregam, e 2- que debate em cima de religião vende muito livro (e dá dinheiro, fama, popularidade, et coetera).

A premissa de Deus – Um Delírio é basicamente “Imagine a world without religion”. E durante o livro todo ele argumenta como a religião é má e o ateísmo é bom, como os religiosos são desequilibrados, como os agnósticos são indecisos, como os argumentos em favor da religião são pobres enquanto os argumentos científicos são fortes, e como o mundo seria muito melhor sem a religião.

Como fã e amigo de Douglas Adams (autor do Guia do Mochileiro das Galáxias), Dawkins tem tiradas óóótimas! Dei boas risadas com o sarro que ele tira da mitologia católica. A sua discussão é muito pertinente e ele sabe expor pensamentos interessantes, como aquele que citei num tópico anterior.

O que enche o saco é a insistência de que só o ateísmo é coerente e todas as pessoas que não acreditam em um Deus pessoal (ou uma entidade deífica) devem sair do armário e se afirmar como ateístas. É interessante que sobra bronca até para os agnósticos (aquelas pessoas que não acreditam nem desacreditam de nada, não afirmam nem negam, se esquivam de discussões metafísicas), que segundo ele são indecisos, ficam em cima do muro.

Olha, seu Dawkins, eu vou lhe dar meus argumentos (e sei que você não vai ouvir, tudo bem). Digo pra você que “em cima do muro” é um lugar fantástico para se estar, pois é calmo, tem uma vista fabulosa, um campo de visão amplo, de onde pode-se assistir de camarote ao fogo cruzado, e isso me diverte, perturba, fascina, sem que eu precise ganhar um arranhão. Sou racionalista e tenho na ciência a régua mais confiável para medir esse pé direito imenso que guarda mais mistérios do que sonha a nossa vã filosofia. Não quero todas as certezas, sou feliz na dúvida. Se há algo belo em termos sido colocados aqui sem resposta para nossos grandes dilemas existenciais – de onde vim? por que estou aqui? para onde vou? – é que a dúvida nos deixa pouco espaço para o comodismo, ela nos obriga a viver!

Então vê se vai tratar mais de ciência (aquela para o qual você se formou) e me deixa em paz aqui no muro!

Sonhos de Robô – Isaac Asimov

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É uma coletânea de contos que abrange um período muito amplo da carreira de Isaac Asimov, com textos escritos entre 1947 e 1982. O livro vem com uma introdução bem interessante em que Asimov discorre sobre a evolução científica e tecnológica que ele teve a oportunidade de assistir ao longo das décadas e como algumas confirmaram suas previsões enquanto outras as contrariaram completamente. Notável, segundo ele, foi a revolução da informática seguindo em direção ao encolhimento dos computadores em vez de erigir os gigantescos Multivacs (os megacomputadores de suas histórias), e também o desenvolvimento da robótica e a exploração do sistema solar desnudando a face dos planetas que Asimov tanto visitara na imaginação.

A maioria são histórias de robôs, e não apenas “de robôs”, mas histórias que humanizam robôs (ideia da capa do livro, se você prestar atenção). Tem também histórias de extraterrestres, de aventureiros espaciais, de supercomputadores espertinhos e de gênios incompreendidos. Aqui também se encontra um dos contos mais potentes e filosóficos de toda a ficção científica: A Última Pergunta. Não leu? Não perca tempo, leia! É uma divagação muito pertinente sobre a nossa ânsia de infinitude dentro de um universo finito. Fora este, o conto que mais gostei foi O Garotinho Feio. Uma corporação inventa uma armadilha do tempo capaz de trazer para o presente espécimes de períodos pré-históricos. Um menininho neandertal cai na armadinha e vai parar no galpão da corporação, que se interessa pelo garoto apenas enquanto ele lhe traz fama. Uma enfermeira é contratada para cuidar dele, e o foco da história é o choque, o estranhamento e o envolvimento dos dois. Esse conto é uma grande surpresa porque, a despeito do que a ciência dizia na época – que os neandertais não tinham linguagem -, Asimov colocou palavras na boca do menino. Apenas muito recentemente os cientistas descobriram por análises do DNA encontrado em um osso de neandertal que a versão atual do gene da fala – o FOXP2 – já estava presente no Homo neandertalensis e deve ter passado para os Homo sapiens por cruzamento. Ou seja, é provável que os neandertais falassem mesmo! E bem que eu gostaria de ter tido a chance de dar essa notícia ao Asimov.

O Livro de Ouro da Mitologia (A Idade da Fábula) – Thomas Bulfinch

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A Idade da Fábula virou O Livro (Edi)Ouro da Mitologia provavelmente porque é uma referência clássica, foi escrito no século XIX. É uma compilação de mitos organizados pelo critério (caótico) de Thomas Bulfinch, que tem o mérito de abranger a quase totalidade da mitologia greco-romana, as narrativas clássicas (de Homero e Virgílio – muito bem contadas, aliás!); e ainda uma paçoca de mitos hindus, egípcios, persas, nórdicos e celtas. De resto, prometo que não vou bater muito porque Thomas Bulfinch não está aqui para se defender.

O livro é bom? Eu diria que é completo, rico em informação, é um livro que eu certamente daria para uma criança ou um adolescente conhecer mitologia. Mas para alguém que está pesquisando com um interesse que vai além da mera curiosidade e se preocupa com a acurácia, não é uma boa fonte de pesquisa. O texto de Bulfinch não é aquela coisa (ou a tradução que é ruim, ou os dois), os mitos estão encobertos por um véu de puritanismo vitoriano (sinto dizer, a pornochanchada mítica ficou de fora), e a todo o momento ele faz referência a textos poéticos (absolutamente redundantes) de escritores da língua inglesa, como se estivesse se escondendo atrás deles pra se proteger: “olha, não fui eu que disse, foi Lord Byron!”

O critério de agrupamento de informações é curiosamente nebuloso, juntando no mesmo capítulo temas tão próximos quanto Pitágoras, oráculos e mitologia egípcia, ou Zoroastro, mitologia hindu, Buda e o Dalai Lama(??!!). Realmente, pros americanos do século XIX devia ser tudo farinha do mesmo saco (ora bolas, Buenos Aires ainda é a capital do Brasil!). Apesar de seguir a nomenclatura romana, em alguns momentos os nomes deslizam pros lados da Grécia, Minerva ora é chamada Palas, Febo é mais chamado de Apolo… Não existe nenhuma divisão entre o que é mito, o que é história e o que é literatura; todas as informações são lançadas no texto e misturadas como se fossem uma coisa só. A biografia de Safo (não sei porque, mas como critério de confiabilidade a biografia de Safo sempre é o tendão de Aquiles) saiu-se uma pérola: uma grande poetisa da antiguidade que se apaixonou por um jovem e se atirou de um penhasco – que romântico! Franboesa de ouro também para o tradutor e o time de revisores que deixaram todas as referências a Shelley (MARY Shelley) no masculino.

Mas olha pelo lado bom: é cheio de figuras!

Anna Karenina – Liev Tolstói

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Conhece a biografia do Tolstói? Não? Eu tenho a impressão que depois de passar uns minutinhos consultando a wikipedia você vai sentir um influxo de respeito cada vez que se deparar com a música deste nome: Tols..tói.

Deixando de lado as ideias revolucionárias, as atitudes inusitadas e o romantismo quixotesco que cerca a sua morte quase heróica, para entender por que Tolstói é considerado um dos grandes escritores da literatura mundial, só lendo.

O exemplar que li (velhinho e ao mesmo tempo virgem) comprei a 15 mangos num sebo. É uma tradução portuguesa da tradução francesa do original russo, ou seja, tem muito pouco de Tolstói de facto. E apesar do telégrafo sem fio passando por terras francesas e lusitanas, o romance me soou perfeitamente belo e brutal. Imagino como deve estar boa essa edição nova da editora Cosac Naify (capa acima), traduzida para o português brasileiro diretamente do russo.

Fui ler Anna Karenina de tanto que foi recomendada por um professor meu. Fisgou minha atenção o fato da obra ser praticamente um tratado sobre o amor em todas as suas formas, cores e fases, abordado com uma delicadeza que me deixou boquiaberta. As cenas em que o amor acomete os personagens são mágicas, há desde o encantamento da paixão à primeira vista, o amor-babão, o amor-devoção, o ciúme, o amor autodestrutivo…

O romance é praticamente uma novela, no sentido telenovelesco do termo (mas sem a ingenuidade implícita). Existem vários núcleos dramáticos entrelaçados. Anna Karenina não é exatamente uma protagonista, ela divide a cena com uma dúzia de personagens principais, e a cada momento da narrativa um deles é colocado sob o holofote para que seu drama seja dissecado até a última frestinha da alma. Impressionante é a habilidade com a qual autor comunica a tensão de cada cena. A descrição da agonia de um homem morrendo de tuberculose, por exemplo, me deixou paralisada no meio do metrô de São Paulo, idem para a narração de um parto que só faltou me fazer gemer. É bem o tipo de narrativa que transporta o leitor para outro mundo.

Liev Tolstói transportou a si mesmo para o romance na forma de um personagem (não vou dizer qual é, mas quem ler vai identificar fácil), que dá vazão às suas ideias pessoais (e incomuns para a época) em relação a política, religião, convívio em sociedade, entre outras coisas. Ele consegue pintar um quadro perfeito da vida burguesa na Rússia czarista, criticando-a não com palavras diretas, mas com a retratação desconcertante de uma alta sociedade frívola, ociosa, entediada, artificial e profundamente blasé

E tem mais: nunca vi outro escritor do sexo masculino com uma sensibilidade tão aflorada, afiada e potente quanto a de Tolstói. Me deixou sem palavras! Para ele rasgo todas as sedas, os veludos, as rendas, e também as musselinas e os brocados…