Archive for 4 de maio de 2009

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Ela me fez chorar

maio, 4 - 2009

xinran

Pulei da cadeira ao saber que a jornalista chinesa Xinran Xue virá para a FLIP este ano.

Há muitos anos Xinran tinha um programa de rádio na China que contava histórias de mulheres chinesas. Segundo ela, não era raro os ouvintes mandarem relatos e denúncias impressionantes, que Xinran foi pessoalmente investigar e comprovar. Contudo, a maior parte dessas histórias ela não podia contar, dada a quase ausente liberdade de imprensa em seu país. Quando escapuliu para a Inglaterra, a jornalista compilou as biografias mais comoventes dessas mulheres chinesas, cada uma com sua tragédia de vida, no livro As Boas Mulheres da China.

boasmulheresdachina

Nos idos de 2003, quando eu tinha muito tempo e nenhum dinheiro, esse livro me chamou a atenção numa prateleira, comecei a folhear e rapidamente percebi que não conseguiria largar. Sentei numa poltrona, fui devorando história por história e, sem perceber, entrando em um transe de horror e perplexidade. Quando me dei conta estava com os olhos rasos – no meio da livraria! – eu, que me julgava uma mulher razoavelmente durona! O livro é uma porrada na cara. Simplesmente doloroso. São muitas histórias de meninas e mulheres (e inclusive da própria autora) vítimas de toda sorte de opressões, perseguições, guerras, costumes cruéis e muito descaso. Terminei de ler e saí dali me acreditando uma garota de muita sorte por ter nascido no final do século XX no Brasil, minha consciência subitamente escancarada ao perceber como esse acaso “cronogeográfico” é brutal para as mulheres.

Espero ter a oportunidade de dizer a ela que me ajudou a enxergar minha condição de mulher de outro jeito. Além de ter me feito chorar…

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A multiplicação das resenhas

maio, 4 - 2009

Não tenho como explicar a explosão de resenhas da última semana (pedi uma, apareceram cinco!), e o que me deixa mais bem impressionada é a atitude dos leitores: “li, gostei, tenho algo a dizer, vou resenhar!” São ou não são os melhores leitores do mundo? 😉

Desta vez, encontrei quase por acaso a resenha do Bruno Schlatter, para o blog Rodapé do Horizonte, que como leitor está se saindo um ótimo crítico literário. Muito grata pela resenha, Bruno!

Segue:

fabulinhas

“Ao se pegar pela primeira vez Fábulas do Tempo e da Eternidade, de Cristina Lasaitis, a impressão que se tem é que o livro não vale o preço cobrado. O formato pequeno, do tipo que cabe facilmente no bolso traseiro da calça, e as relativamente poucas páginas, fruto da fonte pequena e das margens espremidas, nos fazem refletir um pouco sobre o valor de capa, ainda mais com a concorrência daqueles pockets importados que, mesmo com o dólar alto, continuam com um preço bem convidativo – coisas do mercado editorial brasileiro, vai entender. Mas é verdade também que os melhores (e geralmente mais caros) perfumes vêm nos menores frascos, ou ao menos é o que nos diz a sabedoria popular, e acho que não há melhor analogia a fazer nesse caso.

O livro é dividido em doze contos, organizados no índice como as horas de um relógio, revelando já ali o tema principal que preenche a maioria das histórias: o tempo e a sua passagem. Da teoria do não-tempo de Assassinando o Tempo ao terror do futuro de As Asas do Inca e a busca da imortalidade de Revés Alquímico, todos discorrem de alguma forma sobre o assunto, abordando de diferentes maneiras o conflito entre a noção do que é efêmero e passageiro e a busca pela eternidade. A própria ordem dos contos já transmite um pouco dessa idéia, à medida que o ponteiro segue de uma hora até a seguinte, e encontramos novamente os cenários e personagens das primeiras histórias décadas ou séculos depois – diferente do que ocorre na maioria das coletâneas, os contos de Fábulas devem ser lido idealmente na ordem em que estão dispostos.

A autora recorre ainda a uma vasta gama de recursos da fantasia e da ficção científica, sempre de forma imaginativa e com soluções inesperadas. Que não se espere, no entanto, histórias de aventura e ação, com heróis maiores-que-a-vida e batalhas intensas; o tom fantástico destas fábulas está em um nível muito mais humano e cotidiano, pagando tributos a Borges e García Márquez mais do que a Tolkien ou Howard. Há ecos de Calvino e suas Cosmicômicas em Viagem Além do Absoluto, sobre a jornada das últimas partículas do universo até o fim dos tempos, e também do cyberpunk nos mundos virtuais de Além do Invisível e Meia-Noite, histórias que abrem e fecham a obra, respectivamente, fazendo a ligação entre a primeira e a última horas do relógio. E, pequeno que seja o livro, sobra espaço mesmo para textos mais densos e introspectivos (A Outra Metade), ou para um realismo fantástico mais inusitado (De Onde Viemos, Para Onde Vamos, que é narrado por uma estátua).

Fábulas do Tempo e da Eternidade é, enfim, uma obra ímpar, com histórias que podem ser lidas e relidas uma dezena de vezes e ainda causar o mesmo espanto e maravilhamento da primeira vez. Talvez se possa dizer que a autora peca algumas vezes no rebuscamento de algumas frases, ou que poderia ser mais contida em algumas descrições; mas aí também seria só eu querendo ser chato, provavelmente, com a minha mania de minimalismo e até, vá lá, uma pontinha de inveja de uma obra tão interessante de uma jovem autora nacional. Ainda assim, é impossível não recomendar o livro para qualquer um que goste de fantasia, ficção científica ou simplesmente boa literatura.”