Archive for maio \06\UTC 2009

h1

Tire 10 minutos para ler isso

maio, 6 - 2009

Dica da minha amiga Giseli, que me passou o link.

dayswithmyfather2

Days With My Father (Dias com Meu Pai), do Phillip Toledano, é um e-book em inglês, bem curtinho, fácil de ler e muito tocante. É um documentário fotográfico dos últimos 3  anos de um filho junto a seu pai quase centenário. Após a morte da mãe, Phillip passa a registrar o dia-a-dia de seu velho pai, que tem amnésia anterógrada (ou seja, perdeu a capacidade de formar novas memórias) e, para poupá-lo de um luto permanente pela perda da esposa, inventa a história de que ela viajou e logo vai voltar.

As fotografias são surpreendentes, dizem mais do que palavras.

É um olhar bastante sensível sobre a velhice.

Simplesmente belo. Leia!

Anúncios
h1

SciFi Tupiniquim

maio, 5 - 2009

Resenha do Chanceler Martok para o site SciFi Tupiniquim

livrofabulas

Está é a primeira resenha que faço de um livro, e foi uma boa escolha para essa resenha inaugural, o melhor adjetivo que descreveria a impressão que tive depois da leitura seria, “sensacional”.

Lembro-me da primeira vez que tive contato com um livro de contos, foi na escola, um livro de Machado de Assis. Confesso que na época não dei a importância que o livro e o novo gênero literário que tinha acabado de conhecer mereciam. Talvez por que na época da escola, muitas coisas nos parecem imposições. Só depois, mais velho, e já um apaixonado por ficção científica, por opção própria, lendo os contos de Asimov me dei conta do quão sensacional é um livro de contos.

Já ouvi umas críticas de alguns colegas, dizendo que não gostam do gênero, pois muitas histórias começam no meio algumas terminam sem dar aquela sensação de fim. Eles não se deram conta que o objetivo do conto é esse mesmo, lançar uma idéia, dar uma mensagem, despertar questionamentos usando fragmentos de história, fazendo com que o leitor participe do livro, entrando na história, raciocinando sobre ela, imaginando seu próprio final, ou se colocando no lugar dos personagens e bolando outras formas de lidar com as situações. Alem disso é uma oportunidade de visitar vários temas, várias épocas da humanidade, fantasiar sobre passado presente e futuro, ler um livro e ter a sensação de que leu vários.

Tudo isso é muito bem feito e explorado nesse livro de contos, Fábulas do Tempo e da Eternidade de Cristina Lasaitis. Quando o meu amigo Maicon praticamente me intimou a ler o livro, eu sabia que ia gostar, pois gosto muito de livros nesse estilo, só não sabia que iria gostar tanto. Ótima linguagem, narrativa, desenvolvimento, caracterização do ambiente e dos personagens, uma viagem surpreendente a várias épocas e temas. Uma prova de que temos potencial sim para escrever ficção científica de alto nível, e que nossa literatura pode abranger temas mais densos, mais sócio-políticos, coisa que não é feita com muita freqüência na literatura tupiniquim.

Nota para o conto “Assassinando o Tempo”, que é um dos melhores que já li, se conhecesse a autora pessoalmente, a primeira pergunta que faria a ela é, se aquela teoria é 100% de sua autoria. Uma forma intrigante de ver as coisas, o conto foi muito bem construído dando veracidade à teoria.

O livro também quebra alguns tabus, a maioria acha que ficção científica é falar sobre tecnologia, dispositivos futuristas e naves espaciais, nada disso, ficção científica sempre foi e sempre será sobre pessoas. Como cada um de nós encaixa em nossa sociedade, e como a sociedade age e reage em cada situação e em cada época e isso é muito bem desenvolvido nesse livro.

Não tenho palavras pra descrever mais o quanto eu gostei, sem entrar spoilers, recomendo esse livro a qualquer pessoa, mesmo que não costume ler ficção científica. É diversão garantida.

h1

Ela me fez chorar

maio, 4 - 2009

xinran

Pulei da cadeira ao saber que a jornalista chinesa Xinran Xue virá para a FLIP este ano.

Há muitos anos Xinran tinha um programa de rádio na China que contava histórias de mulheres chinesas. Segundo ela, não era raro os ouvintes mandarem relatos e denúncias impressionantes, que Xinran foi pessoalmente investigar e comprovar. Contudo, a maior parte dessas histórias ela não podia contar, dada a quase ausente liberdade de imprensa em seu país. Quando escapuliu para a Inglaterra, a jornalista compilou as biografias mais comoventes dessas mulheres chinesas, cada uma com sua tragédia de vida, no livro As Boas Mulheres da China.

boasmulheresdachina

Nos idos de 2003, quando eu tinha muito tempo e nenhum dinheiro, esse livro me chamou a atenção numa prateleira, comecei a folhear e rapidamente percebi que não conseguiria largar. Sentei numa poltrona, fui devorando história por história e, sem perceber, entrando em um transe de horror e perplexidade. Quando me dei conta estava com os olhos rasos – no meio da livraria! – eu, que me julgava uma mulher razoavelmente durona! O livro é uma porrada na cara. Simplesmente doloroso. São muitas histórias de meninas e mulheres (e inclusive da própria autora) vítimas de toda sorte de opressões, perseguições, guerras, costumes cruéis e muito descaso. Terminei de ler e saí dali me acreditando uma garota de muita sorte por ter nascido no final do século XX no Brasil, minha consciência subitamente escancarada ao perceber como esse acaso “cronogeográfico” é brutal para as mulheres.

Espero ter a oportunidade de dizer a ela que me ajudou a enxergar minha condição de mulher de outro jeito. Além de ter me feito chorar…

h1

A multiplicação das resenhas

maio, 4 - 2009

Não tenho como explicar a explosão de resenhas da última semana (pedi uma, apareceram cinco!), e o que me deixa mais bem impressionada é a atitude dos leitores: “li, gostei, tenho algo a dizer, vou resenhar!” São ou não são os melhores leitores do mundo? 😉

Desta vez, encontrei quase por acaso a resenha do Bruno Schlatter, para o blog Rodapé do Horizonte, que como leitor está se saindo um ótimo crítico literário. Muito grata pela resenha, Bruno!

Segue:

fabulinhas

“Ao se pegar pela primeira vez Fábulas do Tempo e da Eternidade, de Cristina Lasaitis, a impressão que se tem é que o livro não vale o preço cobrado. O formato pequeno, do tipo que cabe facilmente no bolso traseiro da calça, e as relativamente poucas páginas, fruto da fonte pequena e das margens espremidas, nos fazem refletir um pouco sobre o valor de capa, ainda mais com a concorrência daqueles pockets importados que, mesmo com o dólar alto, continuam com um preço bem convidativo – coisas do mercado editorial brasileiro, vai entender. Mas é verdade também que os melhores (e geralmente mais caros) perfumes vêm nos menores frascos, ou ao menos é o que nos diz a sabedoria popular, e acho que não há melhor analogia a fazer nesse caso.

O livro é dividido em doze contos, organizados no índice como as horas de um relógio, revelando já ali o tema principal que preenche a maioria das histórias: o tempo e a sua passagem. Da teoria do não-tempo de Assassinando o Tempo ao terror do futuro de As Asas do Inca e a busca da imortalidade de Revés Alquímico, todos discorrem de alguma forma sobre o assunto, abordando de diferentes maneiras o conflito entre a noção do que é efêmero e passageiro e a busca pela eternidade. A própria ordem dos contos já transmite um pouco dessa idéia, à medida que o ponteiro segue de uma hora até a seguinte, e encontramos novamente os cenários e personagens das primeiras histórias décadas ou séculos depois – diferente do que ocorre na maioria das coletâneas, os contos de Fábulas devem ser lido idealmente na ordem em que estão dispostos.

A autora recorre ainda a uma vasta gama de recursos da fantasia e da ficção científica, sempre de forma imaginativa e com soluções inesperadas. Que não se espere, no entanto, histórias de aventura e ação, com heróis maiores-que-a-vida e batalhas intensas; o tom fantástico destas fábulas está em um nível muito mais humano e cotidiano, pagando tributos a Borges e García Márquez mais do que a Tolkien ou Howard. Há ecos de Calvino e suas Cosmicômicas em Viagem Além do Absoluto, sobre a jornada das últimas partículas do universo até o fim dos tempos, e também do cyberpunk nos mundos virtuais de Além do Invisível e Meia-Noite, histórias que abrem e fecham a obra, respectivamente, fazendo a ligação entre a primeira e a última horas do relógio. E, pequeno que seja o livro, sobra espaço mesmo para textos mais densos e introspectivos (A Outra Metade), ou para um realismo fantástico mais inusitado (De Onde Viemos, Para Onde Vamos, que é narrado por uma estátua).

Fábulas do Tempo e da Eternidade é, enfim, uma obra ímpar, com histórias que podem ser lidas e relidas uma dezena de vezes e ainda causar o mesmo espanto e maravilhamento da primeira vez. Talvez se possa dizer que a autora peca algumas vezes no rebuscamento de algumas frases, ou que poderia ser mais contida em algumas descrições; mas aí também seria só eu querendo ser chato, provavelmente, com a minha mania de minimalismo e até, vá lá, uma pontinha de inveja de uma obra tão interessante de uma jovem autora nacional. Ainda assim, é impossível não recomendar o livro para qualquer um que goste de fantasia, ficção científica ou simplesmente boa literatura.”

h1

Demita um político você também!

maio, 3 - 2009

Sei que estou aqui ralando loucamente para conseguir bancar minha passagem para a Austrália enquanto pago 40% de impostos sobre quase tudo para que meus representantes no congresso nacional viagem com a família de graça para Paris, Buenos Aires, Nova Iorque…

Tô com vontade de mandá-los todos para o Putaquiparistão, me ajuda?

espalhe

Vamos nos fazer o favor de não reeleger ninguém. Não sei se vai resolver, mas tenho certeza que tentar é mais barato do que repetir o erro.

Espalhe por aí!

h1

Um outro olhar sobre as Fábulas do Tempo…

maio, 1 - 2009

A nova resenha é do Cezar Berger Júnior, que com seus 18 anos é um jovem divulgador da literatura fantástica e autor do blog Falando de Fantasia. Também está resenhando para o site de cultura pop Ambrosia.

Fábulas do Tempo e da Eternidade

olho

O mercado editorial brasileiro voltado para a literatura de ficção fantástica e científica é ainda limitado e muitas vezes conservador, baseando-se unicamente em estratégias de vendas e publicando apenas obras com um público maior, mas pouco estruturado. As conseqüências dessas medidas são a pouca variedade dentro dos gêneros e a péssima qualidade dos livros que são publicados. Já tive a oportunidade de ler muitos livros nacionais ruins, sendo que alguns deles se tornaram muito famosos. Muitos autores populares, como é o caso do escritor e desenhista Orlando Paes Filho, parecem não possuir potencial estilístico para criar uma obra consistente e satisfatória para leitores amadurecidos. Felizmente não é o caso do primeiro livro  da autora Cristina Lasaitis, uma paulistana de apenas 26 anos que ganhou espaço na ficção publicando contos em diversas coletâneas e recebendo notoriedade pelo seu excelente trabalho.

Publicado em 2008 pela Tarja Editorial, uma ótima editora que se propõe a publicar novos autores e obras inovadoras, além de manter um acabamento gráfico diferenciado, Fábulas do Tempo e da Eternidade nos mostra diferentes histórias acerca do tempo através de 12 contos. Os leitores fanáticos por ficção científica terão o prazer de encontrar referências sobre Isaac Asimov, Arthur C. Clarke, Ray Bradbury, William Gibson, Ursula K. Le Guin, entretanto não é só isso, pois também sentimos a aura do realismo fantástico dos gênios Jorge Luis Borges e Ítalo Calvino, a perspicácia de Clarice Lispector e até a sabedoria do mestre Machado de Assis. Admito que  fiquei impressionado com a quantidade de referências durante a leitura, algo que só teve a acrescentar no estilo de Cristina.

A teoria do Não-Tempo desenvolvida pela professora brasileira Cláudia Mansilha e a mudança repentina de tudo que sabíamos sobre a física constituem o que há de mais interessante na obra para muitos leitores. Com um ritmo de leitura sintético e objetivo, carregado de complexas teorias e suposições sobre a constituição do tempo, que soam abstratas até para leitores que estudam ou trabalham na área de Exatas, o conto nos transporta para um Brasil prestes a ser reconhecido mundialmente através de uma experiência cujo objetivo é provar a inexistência do tempo. A quantidade de informações atiradas para o leitor, além dos fatos que compõem intrigante vida da professora Mansilha e sua obstinação pelo trabalho, cria uma realidade alternativa maravilhosamente verossímil e digna de ser comparada a credibilidade do mundo do livro As Fontes do Paraíso de Arthur C. Clarke.

Em oposição à “ficção científica soft” temos o conto de realismo fantástico As Asas do Inca, onde a história de um imperador assombrado pelo medo da morte termina com uma ótima lição de moral. Ainda nessa mesma linha temos Nascidos das Profundezas, um dos meus contos preferidos, onde é possível observar uma apimentada antropológica durante o encontro de um povo miserável que habita o deserto e os visitantes de uma região mais rica da Terra. É interessante observar a linha tênue que separa os mundos onde os contos se passam, pois também Os Irmãos Siameses alimenta um cenário baseado na cultura latina, algo que enriquece a história dramática sobre a relação de dois irmãos fadados a convivência.

Outro conto de grande destaque é o Viagem Além do Absoluto, onde a escrita de Cristina nos faz flutuar diante de um mundo de fantasia e ficção científica sem limites! É com certeza um conto que nos remete imediatamente a fantasia absurda de Cosmicômicas, obra essencial para quem admira Ítalo Calvino, mas com um teor científico que coloca os leitores de ficção científica mais ferrenhos no chão. Um conto que gostei muito, tanto pela forma criativa de ter sido escrito, quanto pelo conteúdo e o final inesperado, foi o Os Parênteses da Eternidade, onde dois desconhecidos trocam cartas que viajam através do tempo, história ambientada em universo alternativo criado anos após a fantástica experiência de Cláudia Mansilha. Recomendo também a leitura do Caçadores de Anjos, onde Cristina Lasaitis utiliza mais uma vez da sua versatilidade como escritora e assim estrutura um cenário de fantasia medieval impecável.

Mais que uma coletânea de contos, Fábulas do Tempo e da Eternidade é um exemplo de que o Brasil tem potencial para publicar escritores de ficção em um nível superior ao de muitos países. Espero que assim como Cristina Lasaitis, muitos outros escritores surjam aí para mostrarem a qualidade e a criatividade do escritor brasileiro.

* * *

Oxalá, Cezar!  Você é um garoto literalmente à frente do nosso tempo. Quando eu completar 26, acho que te alcanço 😉
Obrigada pela resenha.