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A Biogeografia de Borges

junho, 13 - 2009

Acabei de ler um post no blog Los Hermanos (do Ariel Palacios, blogueiro do Estadão) que derrubou todos os pressupostos que eu tinha sobre a vida de um escritor dos que mais admiro, Jorge Luis Borges.

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Talvez tenha sido preconceito de minha parte, sabendo que Borges morrera em 1986 em Genebra e, como intelectual, a vida toda muito devotado aos estudos, eu o tomava injustamente por um excêntrico burguês argentino. Agora entendo melhor quanta injustiça há nesse raciocínio.

Borges viveu a maior parte da vida em Buenos Aires, a cidade que amava, que dizia ser “tão eterna quanto a água e o ar” (preciso conhecê-la!), e seus bairros contrastantes dos quais ele derivava os vertiginosos labirintos oníricos de seus contos.

Mas o que mais me impressionou no post do Palacios é que a vida de Borges não parece ter tido muito glamour. Até seus 70 anos ele morou com a mãe em um apartamento pequeno, onde dormia na sala. Cego, pegava emprestado os olhos de sua mãe (e rememoro o artigo escrito por Luís Fernando Veríssimo no Estado semanas atrás, especulando sobre essa parte da vida de Borges, já idoso e tendo sua mãe quase centenária lendo para ele à noite, talvez mudando aqui e acolá o final dalguma história…). Inclusive, foi ditando para sua mãe que Borges escreveu O Aleph, possivelmente sua obra mais conhecida.

Depois da morte da mãe, Borges passou a ter um quarto próprio. Mario Vargas Llosa o visitou em 1981 (Borges já era octogenário) e o descreveu como “uma cela: estreito, com uma cama tão frágil que parece de criança, e uma pequena estante cheia de livros anglo-saxões”. Ainda estou curiosa para saber, nessa altura da vida, quem lia para ele.

Borges fora diretor da Biblioteca Nacional. Quando Perón chegou ao poder, afastou-o do cargo e o “promoveu” a inspetor de galinhas nas feiras públicas. Em 1955, com a saída de Perón, Borges foi reintegrado na diretoria da Biblioteca Nacional, mas então estava quase totalmente cego.

A cegueira de Borges, segundo ele mesmo, evoluiu continuamente ao longo de sua vida, não constituindo para ele nenhuma novidade, nem o choque abrupto de uma escuridão repentina. Aliás, Borges não se refere à cegueira como “escuridão”, em uma palestra dada em 1977 ele fala para o público de sua relação pessoal com a cegueira, e durante a maior parte da conferência ele fala somente das cores.

A minha visão da vida de Borges é bem a de um quebra cabeça intrincado (labiríntico), pouco óbvio e tanto mais fascinante a cada peça encaixada. Não vou me referir a ele como um ídolo ou um herói, pois já faz um tempo que desmontei o meu altar, mas é certamente um cara com quem eu teria tido prazer infinito em tomar uns tragos nalgum rincón da Puente Alsina. Não é de estranhar que às vezes sonho com ele.

Fica a sugestão, professor. Se estiver me “lendo”, esteja onde estiver, passa aqui a qualquer sonho. Tem tantas coisas que gostaria de debater com você…

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9 comentários

  1. Fico curiosa para saber que tipos de coisas tu gostaria de discutir com ele =)


  2. Christie, já leu Por que ler Borges? Num primeiro momento o título me afastou, mas após essa resenha creio que valha uma olhada:
    http://paisagensdacritica.wordpress.com/2008/04/29/por-que-ler-borges-de-ana-cecilia-olmos/

    No final do ano passado, a autora ministrou um ótimo curso sobre literatura fantástica na Biblioteca Viriato Corrêa, de onde é curadora.

    No blog do professor Júlio Pimentel há também um breve texto sobre a vida de Borges: http://paisagensdacritica.wordpress.com/2008/10/24/nota-jorge-luis-borges/


    • Oi Leandro,

      Eu descobri bons motivos pra ler Borges rapidinho depois que sentei pra ler Ficções (meu livro preferido dele).

      Obrigada pela contribuição!

      Beijos


  3. Confesso que desconhecia esse lado precário da morada de Borges. Sempre o imaginei como um Coleridge, sempre visitando os amigos e conversando e ficando pra dormir e ficando mais um tempo e conversando mais um pouco até que por algum motivo obscuro tinha que ir embora, apenas para cuidar da mãe ou ver como ela estava. Eu tenho um amigo – meu melhor amigo provavelmente – e ele se encaixa em um espaço físico semelhante (estranho), talvez devesse forçá-lo a escrever – coisa que eu sempre quis -, afinal, ele escreve melhor que a maioria dos autores que eu conheço mesmo sendo um ‘mero’ farmacêutico.

    Excelente post, Cris.

    Alguns dos livros do Andahazi podem ser achados por R$ 9,90 em algumas bancas de jornais – recomendo O Conquistador, uma ‘história alternativa’ bem interessante. O novo mundo conquistando o velho mundo em literatura mainstream, coisa rara, né?

    Bom, espero vê-la no próximo sábado na Liv.Cultura do Bourbon, teremos a Mesa-Redonda de Terror!

    Besos y segui leyendo Borges… 😀


    • Oi Horácio, tudo jóia? Fiquei babando de vontade de conhecer Buenos Aires. É um trecho que infelizmente não deu pra incluir na viagem que fiz em 2006.

      Seu amigo farmacêutico talvez deva escrever, sim. Quem sabe esteja precisando só de um empurrãozinho?

      Não queria perder a mesa do dia 20 (lembrando que vai ter homenagem!), pena que já tenho um compromisso marcado pro mesmo dia e horário. Vou se os planos mudarem de última hora.

      Beijos


  4. Há anos eu traduzi uma biografia ótima de Borges, que tratava bastante desse lado dele. Já após a morte dele vários pressupostos sobre a suposta “burguesia” e o “extremismo político” dele caíram por terra.

    É isso aí, Cris. Siga descobrindo esses maravilhosos autores. Antes tarde do que nunca! 🙂


    • Oi Fábio,
      Às vezes me impressiono com o poder que a fofoca tem de distorcer a vida das pessoas… Mas me parece que isso é inevitável. Nada como deixar uma biografia autorizada para esclarecer as coisas…

      Minha pilha de livros só cresce e eu me deprimo em saber que não vou conhecer todos os bons autores que existem (não, não tenho esperanças de alcançar a sua velocidade de leitura!). Pelo menos posso aproveitar a oportunidade do “aqui e agora” e confraternizar com os bons autores que estão presentes e por perto. Essa é toda a graça da vida.


  5. Ah, o Borges… eu sabia alguma coisa dessa vida dele por conta de um livro muito bom da Ana Cecília Olmos – “Por que ler Borges”, da PubliFolha.
    Acho que conhecer um pouco da vida daqueles que nos fazem felizes ou que nos enlouquecem ajudam a compreender um pouco o sentido das coisas, os porquês…

    Beijão, Christie.
    Saudade.



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