Archive for julho \27\UTC 2009

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Fábulas do Tempo e da Eternidade

julho, 27 - 2009

Uma resenha vinda do outro lado do Atlântico, pela Cristina Alves, uma super-leitora e resenhista de FC e Fantasia.

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Fábulas do tempo e da eternidade é a primeira colectânea de contos de Cristina Lasaitis, um conjunto de doze contos que se centram, como o título indica, em torno da temâtica tempo Vs eternidade e se enquadram nos géneros fantástico e de FC.

O primeiro conto tem como título Para além do Invisível e centra-se num encontro virtual entre duas pessoas.. mas uma destas, Maya, é algo mais do que revelou ao amante. Anos mais tarde encontramos as mesmas personagens no último conto, Meia-Noite. Neste à hora marcada, uma entidade artificial e inteligente é obrigada a atacar o servidor de uma empresa, com o objectivo de fazer evoluir as capacidades cognitivas de uma inteligência artificial, a ela semelhante, que comanda o servidor.

Um dos contos que mais apreciei foi Irmãos Siameses. Este retrata a sobrevivência de duas crianças que, numa aldeia isolada e pobre nos Andes, nascem coladas, espelho uma da outra, mas tão opostas em carácter como o Sol e a Lua – e assim são nomeados, Mani e Luri. De pensamentos e desejos opostos, os dois irmãos aprendem a grande custo a coordenarem as suas acções e movimentos.

Num outro conto, Assassinando o tempo, uma cientista prova que o tempo não existe e torna possível a comunicação com pessoas de épocas diferentes. Esta possibilidade dá origem ao conto Os parênteses da eternidade, em que dois jovens, embora separados por 250 anos, se comunicam e estabelecem uma forte amizade. 

Caçadores de Anjos é um conto que se destaca dos demais, bem distinto destes que acabo de referir. Num mundo em decadência, em que até os anjos são banidos por Deus e caem na Terra como trovões, uma caçadora de anjos procura resgatar, das mãos de Lucifer os seres alados.

Para além destes contos, presenciamos à descoberta de uma Pedra Filosofal amarga em Revés Alquímico,  a uma viagem através do tempo nas asas de um Condor em As Asas do Inca, ou ao final do Universo em Viagem além do Absoluto.

Todas as histórias possuem algo de original e o tom da narração difere consoante os acontecimentos que nos são relatados: nalguns os termos deslizam para o linguajar tecnológico, noutros para vocabulário alquímico. Este é um conjunto coeso de contos (excepto por uma ou duas histórias) que parecem ter alguma continuidade entre elas e formar um círculo, como indicado no relógio que nos serve de índice – no final, retornamos à história inicial.

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Um pequeno recesso

julho, 14 - 2009

Queridos,

Devido a uma falha de planejamento, terei que ficar offline por um tempo. Nada de errado, estou bem. É só MUITO TRABALHO que tenho que por em dia, coisa que vai levar mais ou menos um mês (tenho que acabar esse mestrado de uma vez por todas!)

Não quer dizer que eu não vá responder scraps, e-mails, mensagens, mas simplesmente pode demorar um pouquinho. Peço a compreensão de vocês.

E para quem vai: SIM, darei oficina  no Fantasticon dia 25 de julho! Está confirmado.

Prometo que volto assim que puder, livre e com ânimo renovado.

Beijos, câmbio, desligo.

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O mês promete

julho, 10 - 2009

21 de Julho:

conviteparadigmas3

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26 de Julho:

coletaneasteampunk

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Achismo jornalístico

julho, 3 - 2009

Com a morte do tiozinho-que-anda-pra-trás na semana passada, aconteceu o milagre d’eu assistir a mais noticiários de TV do que não costuma acontecer em um ano inteiro (leia-se: muito pouco).

Me pareceu incrível o número de horas que os programas conseguem segurar a audiência com um mínimo de informação relevante, aproveitando somente o impacto da notícia.

Pensando numa equação de “informação/tempo gasto”, o custo-benefício é ínfimo. E a gente assiste mesmo assim! Como pode???

Lembro de estar acompanhando o jornal do SBT no dia que Mr. Jackson morreu, no momento em que foi ao ar uma super-reportagem exclusiva ao vivo da correspondente em Los Angeles em frente ao casarão do rei-do-pop:

O âncora diz:

– E quais são as últimas notícias?

– Estamos em frente à casa do astro, os fãs começam a chegar, e blá blá blá blá (= nenhuma novidade).

– E quais são os próximos passos?

– Ainda nenhuma informação do que será feito, blá blá blá (= nenhuma novidade)

– E já há uma data para o funeral?

– Não, ainda não há nenhuma informação sobre a data, blá blá blá blá (= nenhuma novidade)

– Fulana, o que você ACHA que vai acontecer a partir de agora? (hein, ouvi direito??)

– É, eu acho que… (ELA ACHA????!!)

Aí eu pensei bem e achei que era hora de desligar a TV.

a-morte-de-nao-se-sabe-quem

E finalmente lembro porque odeio assistir televisão.

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Leituras – Junho/2009

julho, 1 - 2009

Paradigmas vol.2 – vários autores

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Depois de uma excelente estréia, o projeto segue com a quebradeira de paradigmas. O número 2 da coletânea está muito bom, se bem que um pouco menos uniforme na qualidade dos contos. Desta vez serei menos impessoal e tentarei fazer críticas com sugestões construtivas, ok?

+ Já havia lido o conto de abertura Ricardo Edgar, Detetive Particular, do Ataíde Tartari, na coletânea Portal Solaris. É uma história detetivesca com toques de ficção científica que manipula alguns clichês do estilo noir para construir um desfecho inesperado. Já li outros trabalhos do Ataíde, a quem considero um ótimo escritor.

+ Em O Pequeno Oenteph, do Raul Tabajara, uma excursão escolar a um casarão colonial guarda muitas surpresas para um garoto, que descobrirá que é um… oenteph! E o que é um oenteph? Só lendo pra entender. Conheço o Raul como um excelente ilustrador; como escritor eu o aconselho a tomar mais intimidade pelas técnicas narrativas.

+ No conto do Flávio Medeiros, Efeitos Adversos, um cientista sofre com os efeitos colaterais de uma experiência secreta e imprevisível. Um ótimo conto de ficção científica hard com o tempero mutante das HQs de super-heróis. Muito bem escrito. Adoro a espontaneidade com que o Flávio usa nomes brasileiros em suas histórias de FC.

+ A Boa Senhora de Convent Garden, da Camila Fernandes, conta a vida de uma cortesã londrina, cotada na Lista de Harris das Damas de Convent Garden (ou seja, a lista das melhores prostitutas londrinas do século XVIII com a descrição detalhada de seus atributos especiais), gozando uma liberdade que poucas mulheres tinham na época e eventualmente transformando alguns de seus clientes em vítimas. Achei um conto delicioso construído sobre uma premissa histórica deveras interessante.

+ Fuga, conto do Fernando S. Trevisan, narra a perseguição frenética de uma agente numa missão que ela mesma pouco compreende, mas na qual mergulha de cabeça. Eu diria que o conto caberia perfeitamente em um dos episódios surreais do desenho Aeon Flux. É difícil eu gostar de cenas de ação, até porque é difícil encontrar autores que saibam escrevê-las de maneira envolvente. A narrativa psicológica do Fernando é surpreendente, mostra que suas habilidades literárias vão muito além das resenhas que ele posta regularmente em seu site.

+ O Deus de Muitas Faces, do Gabriel Boz, é um conto de inspiração mítica e com jeito de lenda. Narra a passagem de um jovem à vida adulta no contexto de uma tribo antiga da Albânia, numa época em que os homens literalmente falavam com os deuses. Conheço os textos do Gabriel Boz de outros projetos e também o considero um ótimo escritor da nova geração.

+ Frei François, do Ademir Pascale, se passa no século XVII e narra o encontro de um frei caçador de aventuras com uma criatura demoníaca, uma história bastante inspirada em O Nome da Rosa. Tenho lido outros contos do autor e a sugestão que faço ao Ademir é não se cristalizar em uma única forma narrativa (a que usa em 99% dos textos, como ele conta), mas fazer um esforço para ser mais versátil: usar outras pessoas e tempos verbais, experimentar outras formas de contar histórias. Diversifique o quanto puder.

+ Abaixo de Nós, da Luciana Muniz, é um conto bem no estilo Viagem ao Centro da Terra, literalmente, à medida em que um explorador se aventura a desbravar as imensidões interiores da Terra, descobrindo um novo mundo, habitado por outros homens… Achei uma história bastante ambiciosa, que infelizmente ficou um pouco espremida em formato de conto. Tenho acompanhado a evolução dos textos da Lu e me parece que ela está num caminho ótimo (estou curiosa para ver o romance que ela tem na manga!). A sugestão que faço é que o conto tem potencial para ser expandido e virar, talvez, uma noveleta.

+ Em Carta a Monsenhor, Ana Cristina Rodrigues usa seu conhecimento como historiadora para contar a história de um homem encarregado de recensear vilas num mundo medieval devastado pela praga. Ela demonstra ótimo domínio da forma de narrar dos homens da Idade Média, observando seus protocolos e vocabulário, unidos numa técnica pessoal muito bem desenvolvida. Achei interessante o modo como ela faz uso de um fato histórico, que visto pela ótica medieval se transmutou em um conto de terror.

+ Conto BÁRBARO do Saint Clair Stockler, Triângulo em Tempo Rubato e Gota de Sangue conta um pitoresco triângulo amoroso de uma moça, um rapaz e… um gato! A história é contada através das impressões do felino a respeito dos humanos e os rastros que eles deixam no universo que o rodeia. O que o faz formidável é o domínio da narrativa, criando um texto leve, lírico, sinestésico, preenchido de momentos casuais e belos. Este é o conto que mais gostei no livro.

+ A Dama e o Cavaleiro, do Ricardo Delfin, é uma história cavaleiresca, à primeira vista idêntica às (muito) antigas novelas de cavalaria, no conteúdo e nos clichês, mas com um desfecho surpreendente. Recomendo fortemente ao autor ler mais, treinar muito a escrita e exercitar a linguagem, repensando na escolha das palavras – e sobretudo no uso dos adjetivos – para que a narração se torne mais fluida, natural e menos truncada.

+ O Fazedor de Terra, do Ubiratan Peleteiro, é definitivamente um conto diferente de tudo que já li. É uma trama política que se passa em um clã de carneiros monteses muito geniosos e donos de uma cultura própria. Achei uma história muito criativa em todos os sentidos, está de parabéns!

+ Na noveleta Clausura, Richard Diegues conta a história de uma filha de fazendeiros feita refém de um prolongado sequestro. É um texto torturante, passa uma sensação terrível de angústia, dor; e por todas essas fortes emoções que rende ao leitor, digo que foi uma tacada de mestre do Richard. Excelente.

 E que venha o volume 3!

A Mulher que Matou os Peixes – Clarice Lispector

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Ainda não tinha experimentado Clarice Lispector escrevendo pra crianças. Profundamente intimista e confessional como só ela sabe ser,  neste livro Clarice fala de suas relações com os animais, desde as indesejáveis baratas até sua mais apegada macaquinha de estimação. É bonito, insólito e triste, bem no estilo Clarice.

Sei que me deu uma vontade enorme de escrever livros confessionais.

O Terceiro Testamento – Livro I – X. Dorison & A. Alice

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Não resisti, comprei esta graphic novel pelo conteúdo gráfico caprichadíssimo e um trabalho de ambientação histórica tecnicamente perfeito. É uma trama inquisitorial passada na Europa do século XIV, misturando religião e elementos macabros. Influência cabal de O Nome da Rosa, com direito a um protagonista que é a cara de Sean Connery. Achei uma história em quadrinhos bastante complexa e adulta, o que quer dizer que realmente gostei. Só me incomodou o decote da mocinha, gratuitamente escancarado na maior parte das cenas, uma alusão besta àquele mundo das HQs feitas sob medida para meninos nerds que não transam.

Série Harry Potter – J.K. Rowling

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Na minha mais sincera opinião, foi uma façanha. J.K. Rowling é bruxa, só pode ser!

Uma escritora competentíssima, dona de uma fertilidade criativa invejável, arquiteta de tramas macarrônicas saturadas de reviravoltas rocambolescas e – o mais incrível – que não confunde o leitor! Ela consegue sustentar através de sete livros uma narrativa leve e cativante, dosando um nível de maturidade crescente. Sabe construir personagens carismáticos; aliás, gera um exército deles! Lança todos no tabuleiro e não perde o comando do jogo, constrói uma teia supercomplexa de relações e brinca de fazer e desfazer os nós… Isso que é uma tremenda contadora de histórias!

O que mais me admira não é o amplo impacto da série Harry Potter e o fato dela tem ter conquistado leitores de todas as idades, em todos os países. Tenho certeza que ela criou um conto de fadas para as crianças dos próximos séculos. É um clássico absoluto. Rowling não escreveu simplesmente uma história de bruxos, ela criou uma mitologia completa e a situou no mundo contemporâneo, na realidade das crianças de hoje, falando a língua delas, conhecendo as suas necessidades e gostos. E a despeito da complexidade, que é bem alta (inclusive nos primeiros livros), consegue prender a atenção infantil – por isso eu repito: é uma façanha!

Muitas pessoas – eu, inclusive – vivem lembrando as influências onde Rowling bebeu para criar Harry Potter. A começar que o menino é a cara de Tim Hunter, o menino bruxo dos Livros da Magia, do Neil Gaiman, que também é órfão, também está destinado a se tornar um grande bruxo e também tem uma coruja de estimação. Ou pode ainda ter se baseado numa tal escola de magia de Roke, do mundo de Terramar (Earthsea, concebido pela Ursula K. Le Guin), igualmente povoado de dragões e palavras mágicas, e com vilões cuja grande aspiração é a imortalidade. Eu não chamaria de plágio, mas tenho certeza que essas referências passaram por Rowling e a ajudaram, ainda que inconscientemente, a compor o universo de Harry Potter. No caso, o que interessa não é se ela usou as referências, mas COMO as usou.

Mas vamos aos livros…

Falando dos personagens que mais gostei (e os mais criativos, na minha opinião) destaco: a família trouxa Dursley, o gigante Hagrid (e seus bichinhos: Norberto, Bicuço, os explosivins…), Alvo Dumbledore, o narcisista Gilderoy Lockhart, os gêmeos tagarelas Fred e Jorge Weasley, o lobisomem Lupin, os dementadores, a professora Trelawney, a veela Fleur Delacour, Olho-Tonto Moody, Ninfadora Tonks, a megera Umbridge e – minha clone fictícia: – Luna Lovegood. No entanto, como tenho uma verdadeira fascinação por personagens ambíguos – que transitam entre a vilania e o heroísmo – o meu favorito é o Severo Snape, com quem simpatizei logo de início e no final virei fã completa (soube que é um dos personagens favoritos de Rowling também). É raro encontrar personagens tão bem trabalhados.

Das metáforas inteligentes: medalha de bronze para  o F.A.L.E., da Hermione Granger, uma instituição devotada a querer libertar os elfos domésticos, que não fazem a menor questão de serem libertados. Medalha de prata para a Inquisidora de Hogwarts, Dolores Umbridge, e seus decretos-lei que não deixam nada a dever para o AI-5. Medalha de ouro para a supremacia da raça bruxa e a perseguição aos sangue-ruins; só faltava os Comensais da Morte usarem a suástica no lugar da marca negra.

Críticas. Acho que eu recomendaria um pouco menos de Agatha Christie no tempero. Às vezes a trama fica rocambolesca demais, e então a situação se esclarece magicamente numa conversa com algum personagem chave. Estranho também Harry Potter e cia terem um chutômetro excepcionalmente bom e um talento inexplicável para juntar pistas e chegar a conclusões improváveis e magicamente certeiras. Senti uma certa falta de arrependimento em Harry nos momentos em que ele percebeu que estava errado. E bem que fiquei me perguntando se um dos pré-requisitos para ser professor em Hogwarts é ser solteiro e celibatário. E sobre a temática dos últimos livros – a morte -, a questão do medo da morte perdeu o impacto num universo que é habitado por fantasmas e onde os mortos voltam por magia para dar conselhos. Conheço muita gente que não gostou do final; realmente, o livro 7 parece ter algumas fraquezas – personagens esquecidos que ficam sem desfecho, muitas idas e vindas em meio às batalhas finais, uma certa tendência a sucumbir a clichês e um epílogo que me pareceu totalmente redundante. Mas de resto, perfect!

Os dois primeiros livros pouco me prenderam. A trama começou a ficar muito mais empolgante a partir do 3º (o prisioneiro de Azkaban); a mudança radical de atitude do 5º livro (a Ordem da Fênix) é o ponto alto da série, e também curti o roteiro imprevisível e diferentoso do sétimo livro (as Relíquias da Morte).

É isso aí. Elogios feitos, chapéu tirado. Agora, se me permite, vou desaparatar…