h1

Vou gritar

outubro, 29 - 2009

the_scream_munch

No Brasil, dá-se aula sobre a cultura africana e logo vem um pai ou mãe evangélico reclamar que estão ensinando macumba para as crianças, ou que lhes dão obras demoníacas para ler, afinal, o que é Harry Potter senão incentivo à bruxaria? E Marina Silva, agora forte candidata à presidência, vem me dizer que o evolucionismo de Darwin é só mais uma teoria, que pode ser ensinada junto com o criacionismo nas escolas públicas. E então percebo o quanto tenho medo dos nossos políticos, porque são também o espelho do povo.

Saio de casa e em qualquer caixa de supermercado, balcão de loja ou mesa de concessionária encontro os dignos trabalhadores do meu país, que não raras vezes mal sabem fazer uma operação básica de matemática. Pego textos de universitários que sequer conhecem que existe uma pontuação na língua portuguesa. Lembro-me do dia em que fui ser fiscal do ENEM em uma escola pública, onde, numa sala de mais de 50 estudantes, consegui recolher apenas duas redações.Vejo nas salas da universidades alunos perguntando aos professores questões da alçada do ginásio – pelo qual passaram sem aprender o básico do básico. Uma população de analfabetos funcionais, gente com atitude completamente passiva frente à informação, bem adestrados pelos anos de condicionamento vegetativo em frente à televisão. Uma multidão universitária que paga cursos para ter um diploma sem exigir a qualidade, pois o que se paga lhe será dado; e assim o Brasil vira o eldorado dos bacharéis pseudoalfabetizados.

O que me assusta é que esses poderão ser os médicos que um dia irão me operar, ou os engenheiros que construirão castelos de carta e corredores de dominó, os professores que perpetuarão o ciclo de deseducação, e o pior: serão também os políticos!

Abro o jornal e as estatísticas estimam que os 10% melhores alunos das escolas brasileiras mal se podem comparar aos 10% piores das escolas finlandesas. De onde vem tanto descaso? Existirá uma cura para a ignorância institucionalizada? E agora, quem eu cobro? O que faço? Pra onde vou? Sento e choro?

Desculpa, mas é que a ignorância do meu povo me ofende! E se eu não gostasse do meu país, não estaria aqui engasgada, à beira dum grito. Hoje isso me subiu à cabeça e me mergulhou num inferno patriótico.

Vivemos numa Idade Média surreal, quando a ignorância coexiste com o estado-da-arte do conhecimento científico e tecnológico e nunca se teve tanto acesso à informação. Paradoxal? Pois penso que não é à toa que os pais daquelas crianças vêem demônios e bruxas nos livros dos filhos – eles não têm outra saída: vivem num mundo assombrado pelos demônios, onde a superstição ainda ampara mais do que a ciência ininteligível.

E como eu disse, isso me assusta, porque a realidade também me foge à compreensão. Tenho medo do que não entendo.

Desculpem, eu só estava precisando gritar.

Anúncios

18 comentários

  1. 😮
    Pois é, é impressionante termos esse contraste em pleno século 21, não? =(
    Nem se dê ao trabalho de entender a realidade, apenas pegar partes dela que sejam úteis para você no momento. Quem tentar entender pira mesmo…


  2. Ah, esqueci de mais uma coisa. Curti o novo layout do blog. O banner tu mesma que fez? Putz, me ensina a fazer um legal pro meu blog? =)


  3. Pelo que eu entendo, os 10% melhores alunos das escolas secundárias dos USA mal se podem comparar aos 10% piores das escolas secundária finlandesas.
    A Finlândia tem atualmente a melhor qualidade de ensino do mundo desde o elementar até o universitário.

    O problema do Brasil novamente é termos pontualmente escolas de altíssimo nível (IME,ITA,UNICAMP, a minha UFRJ) e no geral temos instituições de ensino precárias, atendendo ao grosso da população.

    Não existe solução fácil e de curto prazo, mas eu creio que investindo mais em educação, pagando melhores salários aos professores da rede pública, investindo-se mais na capacitação destes e implementando programas de Ensino a Distância, etc
    podemos reverter essa tendência à médio prazo.


  4. É o Jorge falou o certo: não há solução fácil, mágica, de curto prazo. A coisa é complicada e é cultural: ninguém acha que estudar, aprender, é importante. Sabe-se que é necessário um diploma, mas não o aprendizado que deveria justificar o título… então paga-se o diploma, não o aprendizado.

    E, vamos ser sinceros: olha a situação de um monte de gente que É inteligente, ESTUDOU de verdade, tem diploma e está… a) desempregada; b) em sub-emprego ou c) em outra área, pq a área dela não dá $$ pra viver

    A real é que a reforma tem que ser ENORME, com um prazo de duração de mais de 20 anos. Que governante vai fazer algo assim? O cara precisa de votos pra próxima eleição…

    …ops, é, tá tudo errado mesmo. Desencana.

    :* gostei do post, Cris, relevante, apesar de ser “só um grito”.


  5. Posso gritar junto?


  6. Ola Cris,

    Fiquei com a impressao que o comentario da Marina Silva foi o estopim da sua revolta.
    Se foi isso, eu diria que esse e um caso agudo de incontinencia politica e infelizmente acho que nao se restringe ao nosso territorio. Em outros paises, politicos agem da mesma maneira diante de um eleitorado. Sobre o mesmo tema, George W. Bush disse coisas semelhantes e piores.
    Nao estou defendendo a Marina Silva. Ate gostei da candidatura dela e fiquei imaginando se seria possivel uma chapa junto com o Cristovao Buarque, justamente por causa da educacao. Obviamente ela pisou na bola e somos obrigados a navegar nessas “incongruencias” para escolher o menos pior como sempre.
    Mas ate me sinto mal falando aqui sobre politica, quando o problema real que voce levantou e realmente desesperador. Por isso, por favor, GRITE!!! Acho que faz toda a diferenca. Quem sabe, num futuro proximo, a gente nao descobre como a internet, que e algo novo, vai fazer do seu grito algo ainda mais poderoso e transformador.

    Obrigado!


  7. Engraçado como hoje mesmo eu pensava nisso. O grito dói ainda mais porque é também a expressão da nossa (até certo ponto, claro) impotência diante de uma realidade tão massacrante e ampla.
    Faço minhas as palavras do Daniel: Posso gritar junto?

    Abraços!
    Marcelo.


  8. Bastante perturbada nesse artigo, einh, Cris? Puta da vida com a merda toda que escorre pelas paredes desse Brasil. A nós não resta outra coisa se não gritar em vão e passar a mão na vassoura. Alguém tem que limpar isso tudo.


  9. Eu diria que não apenas um investimento brutal em educação é necessário, mas também um controle de natalidade massivo também.

    Acredito friamente que se pudermos reduzir a quantidade de gente gerada nesse país, particularmente dentro de famílias mais pobres e menos estruturadas, tornaremos o problema da educação (além de muitos outros) mais palpável a longo prazo.

    Não estou dizendo que apenas isso resolverá o problema, claro. Mas com menos gente para educar, maiores e melhores podem ser os esforços específicos na educação e, a longo prazo, os resultados podem ser ainda melhores.

    Também acho que mais infraestrutura deveria ser oferecida nos estados das regiões nordeste, norte e centro oeste. As pessoas têm que se sentir melhor em seus estados de origem e ter melhores oportunidades lá também. Porque eu entendo e apoio alguém que venha dessas regiões para SP estudar. Mas vir para cá para viver em favela e trabalhar em sub emprego de jeito nenhum!


  10. Eu também sou a favor de redução da natalidade, mas das famílias dos políticos brasileiros, para controlar a pobreza de espírito e falta de estrutura de caráter endêmicos neste grupo social…

    A sim, os fascitóides de plantão deveriam ser castrados e além disso ter seus dedos cortados para não postarem insanidades preconceituosas no meio de discussões sérias..


  11. Para quem se interessa, tem aqui o estudo do IBGE, a nossa Taxa de Natalidade é de 2 filhos por mulher, mas e mal dá pra repor a população:

    http://201.7.176.88/pais/arquivos/pais_ibge_saude.pdf

    De jeito nenhum que o problema é Controle de Natalidade, mas de Cultura !!!!!


  12. Não estou dizendo que as pessoas deveriam ser proibidas de ter quantos filhos quiserem, Jorge. E faça a gentileza de não ser um argumentista cretino, sim?

    O que eu quero dizer é que deveria ser imensamente mais fácil para toda a população, independente do poder aquisitivo, ter tantos quanto quer e tem condições de criar. Por mais que a taxa de natalidade seja 2 por mulher aqui no Brasil (um fato que eu não sabia e que acho bom, valeu Ivo), muitas famílias que não têm condições de criar mais que isso acabam tendo mais filhos, justamente por falta de cultura e de um estímulo e apoio adequado do governo.

    O que digo é que o governo deveria estimular as famílias a não ter mais que dois ou três e dar condições e estímulo ao povo mais pobre de conseguir ter apenas isso. Facilita a vida deles também.

    Mães de famílias pobres que têm 6, 7 ou mais filhos provavelmente vão dizer que os têm porque o marido recusa-se a usar preservativo, porque não tem condições de comprar anticoncepcionais ou fazer uma operação de esterilização. Para piorar, há sempre a grande chance de as filhas começarem a ter os próprios filhos antes mesmo de terem uma família estruturada. E então? Como eles vão bancar e educar todos esses filhos? Quanto mais filhos houverem, mais difícil é educar a todos mesmo quando se tem condições financeiras, mais difícil é mantê-los longe de drogas, tráfego e outros problemas sociais graves.

    Controle de natalidade forte, sim. Dando condições e entendimento às pessoas para fazerem a parte delas. Mas obrigar as pessoas a fazerem o que não querem, nunca.


  13. Falci,
    sinceramente eu tentei compreender o que você escreveu acima, mas o seu fluxo de idéias é um tanto claudicante demais para ser acompanhado por um engenheiro acostumado com raciocínios mais cartesianos..

    Bem, o assunto inicial deste post era o colapso da educação no Brasil, e como as universidades brasileiras estão produzindo gente com um canudo debaixo do braço e que são incapazes de pensar e compreender o mundo onde elas vivem.

    Eu acho que suas postagens (eu estou na suposição de que você tem algum diploma de nível superior) exemplificam tão bem esta situação catastrófica, que qualquer outra argumentação que eu possa fazer é irrelevante.

    Eu acho que eu vou me juntar ao pessoal aí acima e começar a gritar também… Isso se esta náusea que estou sentindo me deixar..


  14. Jorge,

    Adimito que meu primeiro post tem suas idéias dispostas de maneira breve e rude, o que gera o tipo de impressão que você teve. É uma falha minha ter o hábito de me expressar assim. O meu segundo post teve como objetivo explicar melhor o primeiro.

    Mais do que investir melhor em educação, também precisamos de investimentos estruturais para melhor acomodar as pessoas em suas terras natais (algo que não comentei no segundo post).

    Acredito também que precisamos de investimentos para instruir e estimular as pessoas a evitar ter mais do filhos do que podem criar, pois ter muitos filhos significa ter de ser capaz de um esforço grande para educá-los e sustentá-los adequadamente. Este esforço infelizmente não está ao alcance de todas as famílias. Aliás, dependendo do tamanho da família, nem mesmo boas condições financeiras ajudam muito.

    Muitas pessoas desejam ter esse controle sobre sua quantidade de filhos, mas dependem do governo para realizá-lo direito (geralmente por falta de condições de fazê-lo por meios privados). O governo tem que oferecer melhor assistência nesse aspecto.

    No primeiro post eu apenas relacionei o fato que com menos gente para educar, fica mais viável resolver o problema educacional. Seriam, resumindo de forma grosseira, menos alunos por professor e, portanto, mais atenção e dedicação ao aluno. Mas de maneira alguma eu quis reduzir a solução do problema a apenas isso.

    No mais, desviando um pouco do assunto e comentando especificamente seu comentário final: Eu sou engenheiro eletricista formado num dos melhores cursos de engenharia elétrica com especialidade em telecomunicações do Brasil, ministrado pelo INATEL. Estou finalizando uma tese de mestrado na UNICAMP, cujo foco é a educação à distância e formas de melhorá-la.

    Mas é lastimável que seja tão rápido em me julgar baseado apenas em alguns poucos parágrafos meus.

    Divirta-se gritando. Vou ali fazer minha parte em favor deste país.


  15. Hum… absorto na discussão com o Jorge ontem e tentando dar-lhe uma pequena alfinetada, percebo que teci uma ofensa a todos os presentes aqui na discussão sem me dar conta disto.

    Por isto, especificamente, gostaria de pedir desculpas àqueles que se sentirem ofendidos pelo comentário que teci.


  16. Paulo Francis disse em uma entrevista que a função das universidades é formar elites e não dar diplomas para pés rapados.No inicio da decada de 70 um museu na Dinamarca comprou um quadro classico pintado em 1670 por um pintor famoso pagando 2,5 milhoes de dolares. Foi o maior sucesso, 30 mil pessoas visitaram o museu em um mes. Seis meses depois Pelé e o time do Santos foram jogar uma partida de futebol e numa unica tarde 40 mil torcedores foram ao estadio. Inteligencia e cultura sempre foi coisa de poucos.


  17. Cris, absolutamente assinado em baixo!
    Dona Marina, saudada como um “sopro de renovação”, agora nega que tenha defendido a aberração que é o ensino do criacionismo.
    “Eu não sabia de nada” virou um lema bem conveniente, hein?
    E este é o país do futuro, pois é…
    Beijos


  18. Não me resta dizer nada senão… tenha medo, Cris, tenha muito medo. Estamos condenadas a isso por termos consciência. É o apocalipse cultural rolando lentamente sob as nossas fuças. Por isso que eu digo… desce mais uma Malzbier.



Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: