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Fé na humanidade?

janeiro, 30 - 2010

“É tarde demais para ser pessimista.”

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Hoje, dia 30 de janeiro de 2010, declaro que perdi a fé na humanidade.

Não aconteceu nada extraordinário comigo ou com quem conheça, não testemunhei um assassinato, não assisti a nenhuma injustiça maior do que aquelas que acontecem todos os dias.

Foi só uma ficha, que, como é da natureza das fichas, às vezes resolve cair.

Tem caído um dilúvio na cidade onde moro. Os verões são chuvosos, mas não costumam ser o tempo inteiro. Adoro ver a lua nascer amarelada no horizonte, mas de anos pra cá ela às vezes surge vermelha. Estava me espreguiçando na praia onde passo as férias desde que nasci, quando me dei conta de que ainda em minha vida eu provavelmente a verei desaparecer. E como se não bastasse: talvez todas as praias desaparecerão. E algumas ilhas. E cidades. Alguns países.

Você não se preocupa até o momento em que vem a catástrofe e leva a sua casa. Somos péssimos para reagir a mudanças lentas e, infelizmente, muito adaptáveis. Digo infelizmente porque nossa adaptabilidade às vezes falha em nos impor freio, e continuamos seguindo com hábitos viciosos. Somos mais adaptáveis do que a grande maioria das espécies com as quais dividimos o mundo e esse não é um bom negócio.

Somos uma praga fora de controle, sem predador, sem barreiras geográficas. E o que acontece com as espécies que se reproduzem demais e esgotam os recursos do seu ambiente é algo que você pode conferir em qualquer livro escolar de ecologia. O problema é que se um dia a espécie humana provocar sua autoextinção é porque já terá feito o trabalho com todas as outras espécies com as quais coexistiu. Com exceção das baratas, talvez.

Mas não sou pessimista, nem catastrófica, muito menos teórica da conspiração. Não acho que a humanidade vá perecer por causa do aquecimento global. Vamos, sim, ter uma considerável redução populacional (o que acharia ótimo, não fosse pelas vias da catástrofe). Mas como ia dizendo, somos os diletos da evolução: amplamente adaptáveis. E em que mundo as próximas gerações terão que exercitar sua adaptabilidade, eu não faço ideia. Que espécie de planeta deserto, quente e estéril vai sobrar, não gosto de imaginar.

Dizem que temos uma década para fazer a revolução ambiental, dar a guinada para a sustentabilidade, alterar amplamente nossos modelos de extração, produção, distribuição e renovação, mudar radicalmente nossa economia energética. Isso nos dá a lista de tarefas mais longa da história, e nós, com os traseiros mais gordos de todos os séculos, teremos que fazer mágica para nos entendermos, negociarmos e revertermos nossa natureza depredatória num estalar de dedos (historicamente falando).

Por mais que se diga “é tarde demais para ser pessimista”, não sei por quê, tenho certeza de que essa utopia de mudanças não se realizará no curto prazo, e daqui 30, 50 anos estaremos assumidamente danados. Tenho 26 anos, mas parece que convivi tempo o suficiente com a espécie humana pra saber quão imbatível é nossa propensão à inércia e quão descuidados os nossos improvisos de última hora.

Acho que a besteira está feita. Pronto, falei.

Não sou,  nunca fui uma pessoa pessimista ou niilista. O pior é isso: não sou! Só que não acredito mais na humanidade. Não quero ter filhos, não pretendo levar isso adiante. Não vou ser hipócrita, não vou abdicar de confortos que o progresso me deu. Mas também estou me acostumando à ideia de não esperar mais nada.

* * *

HOME é um documentário de 1h 30 min sobre o aquecimento global que pode ser visto pelo Youtube. Tem imagens impressionantes, edição impecável e ótima didática. Infelizmente não encontrei nenhuma versão dublada ou legendada em português (se alguém achar, por gentileza poste nos comentários).

A pior maneira de ser cético é ser cético sobre um assunto absolutamente vital como este.

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8 comentários

  1. Ainda estou assistindo, mas estou impressionada pacas! O.o
    Ah, tem versão em pt de Portugal aqui: http://www.youtube.com/watch?v=7jzoAlKUqXk (parte 1, as outras continuam nos links).


  2. […] Essa eu não podia deixar passar. Assisti a um documentário impressionante, de 1 hora e meia, com uma mensagem importante, o “Home”. A dica foi da Cris. […]


  3. “e daqui 30, 50 anos estaremos assumidamente danados”

    Daqui a 50 anos, temos grandes chances de estar assumidademente mortos, ou velhos e senis demais para entender ou se interessar sobre o que está se passando.

    Tomar decisões pessoais baseadas em eventos catastróficos sobre os quais nós não temos controle nem sequer sabemos *se* e *quando* irão ocorrer é absoluta insanidade disfarçada de ponderação lógica.

    O que a gente pode e deve fazer é cuidar direitinho do noss cantinho, fazer o seu dever de casa, acertar a nossa vida e limpar o nosso próprio quintal. Arrumando direito o nosso canto,talvez o mundo inteiro melhore.

    E cuidar bem do que é nosso não só é possível como o correto de se fazer.

    Só minha opinião


  4. Flor. O pior é que concordo com você. Acho que o que nos mantém nesse caminho besta é a mesma coisa de sempre: esperança. Temos esperança em nós mesmos, em dias melhores, na capacidade humana pra dar jeito em tudo, na sabedoria dos nosso filhos (?!) e até no clássico “Deus proverá”. Esperança, às vezes, é a pior barreira contra o semancol.

    É por isso que sempre digo: só uma espécie melhor pode criar um mundo melhor. Eu acredito (esperança, de novo) que nós não somos, mas poderíamos ser essa espécie. Só que coletivamente não queremos. Vivemos de querer que alguém dê um jeito, só isso. E vamos ficar nessa pasmaceira até não ter mais jeito a se dar.

    Eu não sei o que esperar dos próximos anos. Não sei se a minha insistência em separar o lixo reciclável, não comer animais e não jogar lixo na rua vai servir de alguma coisa. E não sei se tenho o direito de esperar algo.

    Viu Cunha? Viu São Luís do Paraitinga? Viu o Haiti? Viu Tuvalu, que está sumindo debaixo d’água? De repente o fim do mundo, tão aguardado para 2012, já começou e não é de hoje. Note bem: o fim do mundo como o conhecemos, não do planeta. De repente a erradicação de uns dois terços da humanidade será uma coisa boa. Não para nós, claro. Para o planeta e as outras espécies que conseguirem sobreviver nele. :-S

    Desculpe se não consigo dar um UP de otimismo, mas como o resto do mundo eu tento me agarrar à tolice suprema que impede que eu termine com tudo agora mesmo: esperança.

    Ao menos, morreremos entre amigos.


  5. Li a postagem no domingo. Segunda-feira, ontem, aguentei algumas horas de discussão sobre reciclagem, muito pouca gente levando a sério isso e nenhuma força de vontade de meter a mão na massa do grupo de meio ambiente de onde trabalho. No fim da tarde tive que enfrentar enchente, como sempre.

    Hoje minha chefe (que também é bióloga) disse que me acha radical demais ( não, ela não estava na discussão do dia anterior e falou por razões completamente alheias àquilo). Que com o tempo devo aprender que não dá pra levar tão a ferro e fogo essa coisa de meio-ambiente. Pra ajudar, outro dos biólogos de lá concordou com ela e começou um discurso embolorado sobre preço do progresso e tal.

    Sexta é dia do reciclável no bairro e o caminhão só passa em duas casas na minha rua. A minha e a do vizinho que convenci.

    Já dizia o Wolverine: “Tudo bem, tá cheio de moinho de vento por aí pra enfrentar”. E quer saber? Vou continuar. Vai ser um saco. Vou sofrer. Não vou salvar a centopéia de peito rosado da extinção? Mas já ajudei um macaco a se reproduzir em cativeiro pela primeira vez, já que na natureza ele está quase desaparecido. Já fiz um vizinho colocar recicláveis e aceitaram meu projeto de recolhimento de pilhas no prédio do laboratório.

    Perca a fé na humanidade. Ela não merece sua fé. Mantenha-a naquilo que fazemos. Tudo de que reclamamos seria inimaginável 50 anos atrás. Tudo de que dispomos hoje para lutar era ficção 26 anos atrás!

    E quero que você possa ver sua praia amada lá, quando tiver 50 anos. Mesmo que seja na festa de reinauguração após duas décadas de bandeirinha vermelha nela.


  6. A humanidade e a somatoria de cada um de nos. E realmente so podemos contribuir mudando a nos mesmos.

    Por isso vou ficar torcendo para que recupere sua fe! … Porque e o que gostaria de ver nos seus melhores textos: fe e alegria! … Porque voce e importante garota! As pessoas leem e dao valor ao que voce escreve.

    Nao quero lhe atribuir mais responsabilidade. Todos temos a mesma, que e ser o melhor de nos mesmos.

    Eu tambem acho que estamos correndo riscos absurdos e que ja fizemos algumas cacas ao ponto de nao retorno. Mas tambem acho que se existe algo mais adaptavel que o homem, esse algo e a propria natureza, a vida. E quanto as mudancas, elas estao acontecendo mais rapidamente do que nunca, no aspecto comportamental e tecnologico. As vezes e preciso apenas massa critica para que uma mudanca radical se implemente.

    Eu sou otimista e tambem tenho minhas crises de fe. Acho que ajuda ficar atento as boas noticias, … quando souber de alguma eu mando para voce.


  7. Ah, esperança! Aquele ortóptero verde.

    Tem um amigo meu que costuma dizer: “Já tive um filho e escrevi um livro, não vou plantar uma árvore pra não morrer”.

    Acho que eu prefiro não ter o filho. Mas prometo que ainda vou plantar um carvalho, abraçar e dizer: “boa sorte! De agora em diante é só você.”
    Irônico vai ser se o cortarem para fazer caixão.

    Desculpem, é que o bicho do humor negro me mordeu hoje.

    Obrigada pelos comentários e pela injeção de ânimo.
    Cris


  8. […] Essa eu não podia deixar passar. Assisti a um documentário impressionante, de 1 hora e meia, com uma mensagem importante, o “Home”. A dica foi da Cris. […]



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