Archive for abril \28\UTC 2010

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De volta à eternidade

abril, 28 - 2010

Queridos e queridas,

A Tarja Editorial e eu temos a satisfação de anunciar…

FÁBULAS DO TEMPO E DA ETERNIDADE – 2ª Edição!

Sim, sim! No Brasil, onde o mercado literário não é tão movimentado como nós escritores gostaríamos que fosse, poucas são as obras que chegam a uma segunda edição. Embora sua tiragem inicial tenha sido pequena, Fábulas do Tempo e da Eternidade foi muito bem recebido pelos leitores, e graças à divulgação de colegas atenciosos (a quem devo minha profunda gratidão) esgotou sua 1ª edição em menos de 2 anos. Para uma coletânea de contos de ficção científica e fantasia de uma autora brasileira em começo de carreira, este é um fato a ser muito comemorado!

O que há de novo?

A 2ª edição terá formato maior, mais páginas, encadernação de ótima qualidade, capa diferenciada e virá com comentários da autora.

A nova edição já pode ser encomendada no site da Tarja Livros com preço promocional de R$28,80 e previsão de entrega para o dia 10 de maio.

Em breve sortearei um exemplar aqui no blogue.

A propósito, 2010 promete outras novidades. Stay tunned!

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Dados Técnicos:

Fábulas do Tempo e da Eternidade
Autoria: Cristina Lasaitis
ISBN: 978-85-61541-17-0
Páginas: 206
Formato: 14×21cm
Ano: 2010

Divulgado hoje no site da Tarja Editorial. Pré-venda na loja virtual da Tarja Livros.

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Homenagem aos fãs de Twilight

abril, 23 - 2010

And virginity.

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Efeito Placebo

abril, 9 - 2010

Nem somente pela voz elétrica de Brian Molko, ou pelo charme estranho, o ritmo desembalado, ou talvez a melancolia poética dissolvida num oceano de despretenciosidade feito letras onde cabem poucos ou nenhum cliché. Nem pela performance ao vivo, que não é imperdível. Nem pela rebeldia, que não é novidade. Não é por idolatria, pois já passei da fase. E também não é por paixão.
Então o quê?
Talvez o momento. Pois para certos momentos uma música ou modo de dizer caem como uma luva. E de uma coleção de momentos se faz uma fase, que – como toda fase – é assumidamente passageira. E como toda transição, melhor se bem vivida. Vivida para ser melhor passada.
Sintonizei esse momento, e a empatia tem gosto de despretensão e timing de fase. Aqui dentro há uma sensação infinita de lado B, um saber ser parte do que está à parte. E ser consciente das limitações, hesitante na bifurcação de todos os rumos que uma vida pode tomar, observando às costas uma juventude que aos poucos bate em retirada, embora você não tenha certeza do quanto isso lhe importa.
Não é nada, e com efeito. Eu poderia citar esta, esta, esta, esta e esta razões, mas o melhor motivo que tenho para ir nesse show é o fato de que tenho me sentido muito Placebo ultimamente.

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Blind

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Lady of the Flowers

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Protège Moi

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Running Up That Hill

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Taste In Men

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Microconto

abril, 5 - 2010

Era uma vez uma formiga que caiu no açucareiro e morreu feliz.

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Sangria

abril, 5 - 2010

Uma homenagem ao dia internacional da TPM.

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Sangria

É assim: começa com uma sensação incômoda, os seios enrijecem, ficam sensíveis e doloridos. O corpo acumula líquido, incha, a calça jeans parece ter encolhido de repente. A ansiedade e a irritação vão tomando forma e você mal percebe até o momento em que se pega arrancando os cabelos. Cansada, não dorme direito à noite. A tensão se acumula, a sensação é de que a corda vai arrebentar a qualquer instante.

A corda é você.

Ela estica estica estica… e arrebenta! E como todo ato violento, envolve um banho de sangue.

Ali no ventre um pedaço seu começa a gritar: é aquele órgão kamikaze, automutilante, ele se contorce, se esfrega, esfacela-se todo por dentro. Você não tem como se livrar, então carregue a cruz, agüente! Vai arder como ferro em brasa, vai pesar, sufocar… No clímax, há de se irradiar para todo o corpo, travando músculos, arrancando gemidos, a coluna vergada por uma força terrível:

Dor!

Não há alívio rápido possível. A dor agride, cobra uma reação. Você não pode se vingar dela, então se vinga do mundo: xinga, morde, imagina coisas inconfessáveis; pensa no vestido mais caro que pode rasgar, no homem mais gato que pode torturar, naquele vaso lindo de cristal que está doida para experimentar contra a parede. Tudo isso em pensamentos, claro, porque a dor lhe faz a criatura mais covarde da casa. Você se encolhe na cama e agüenta tudo de boca fechada, como uma ovelhinha, com a resignação que a vida lhe ensinou.

Como sempre, você suporta. E geme. Não é apenas sangue: você se desfaz em coágulos, dissolve-se numa sopa vermelha de minúsculos nacos. Dizem que o primeiro dia é um inferno, no segundo já se consegue respirar, o terceiro e o quarto são trégua e paz. A brasa esfria, as dores se calam, o sangramento perde força e ganha consistência. No final resta uma descamação escura. E estanca.

Quer uma boa notícia? Isso não vai acontecer somente uma vez, será tão freqüente e corriqueiro que vai acabar se acostumando, logo será mestre em lidar com essa bizarrice da natureza. Sendo ao mesmo tempo protagonista e palco desse espetáculo grotesco, será até capaz de representá-lo com bastante elegância! Pois ao criar a mulher, o sádico Deus falou: “enquanto a pele ainda for macia, enquanto os seios forem redondos, enquanto a sensualidade habitar teu corpo serás torturada uma vez ao mês. Esse será o custo de poder carregar os filhos no ventre”.

Deus só pode ser homem.

“Ser mulher é uma condição mística” – minha ginecologista me disse.

É sim, ou você acha que tem cabimento um bicho sangrar todo mês e não morrer? Não é exagero dizer que muitas mulheres não têm medo do parto porque treinaram para isso a vida inteira. A cada mês, um óvulo abortado, uns mililitros de sangue perdidos e uma alma não nascida para sempre.

É muito fácil chamá-las de bruxas; mas é o que elas são e eu as invejo. A natureza não é estúpida, tortura mas não mata.

Falando desse jeito parece que é sangria desatada. No meu caso, é desatada mesmo: sou hemofílica.

Você certamente não fica pensando com freqüência no ar em que respira ou no sangue que corre pelas suas veias. Eu, sim, penso nisso todos os dias. Odeio sangue. Amo sangue. Sangue é o oceano que contorna minha existência por todos os lados. Minha maldição, minha salvação, meu permanente alerta vermelho.

Olha lá a menina vampira tomando sangue pelas veias! Entrou meio pálida, agora está corada, já pode até se acidentar. Vide o rótulo: “frágil”, mantenha sempre embrulhada em espuma e plástico-bolha. Não deixe que ela corra, não deixe que faça balé nem educação física; objetos cortantes ou pontiagudos sempre fora de alcance; é melhor nem deixá-la muito perto das outras crianças; dê livros para compensar,  mas cuidado para ela não se cortar com as folhas; lembre-a de sempre prestar atenção por onde anda…

Pois é, minha cara, a vida é assim. Não tenha dúvidas que eu preferia menstruar uma vez por mês.

Porque uma vez só já foi o bastante. Eu tinha dez anos e ninguém podia adivinhar que seria tão cedo, tão intenso, dessas hemorragias que mudam a cor dos lençóis na virada da noite. Lembro como se fosse hoje, quando fui me deitar sentindo uma dor incômoda na barriga, os lençóis eram rosas. Quando acordei do coma, uma semana depois, eles eram verdes! Ainda bem que não vi as cores intermediárias, acho que teria morrido de susto.

Tenho um problema sério com o vermelho, ele não me deixa em paz. São as maçãs, os morangos, os tomates, os batons, os vestidos de gala, a cruz da ambulância; eles me perseguem, me põem neste nervosismo, não dá para pensar.

Verdes? Pensando melhor, acho que os lençóis eram brancos. Lençóis, aventais, paredes e a mosquinha branca aqui: uma em 25 milhões. Todos os dias vinham médicos, residentes, enfermeiros, entravam no quarto em excursões de três, quatro, cinco, e eu demorei a perceber que era a mais nova atração turística da medicina.

– Seu pai é hemofílico? – um moço de branco me perguntou.

Não sei, não o conheci, mas a genética diz que sim (era minha matéria preferida na escola, adivinha só porquê). Bem que mamãe podia ter selecionado melhor o vigarista que a engravidou…

Olha só, que ingratidão! Se não fosse por uma mãe descuidada e um pai mal escolhido eu não estaria aqui para contar esta história. E sem a medicina do século XX, muito menos. Todos os dias tomo uma pílula em homenagem ao homem que evitou que muita gente nascesse por acidente, ele poderia ter me condenado, mas me salvou: é essa pilulazinha irônica que impede meu corpo de apertar o botão de autodestruição. Por efeito colateral, eu sobrevivo.

Vivo para fazer o hemocentro funcionar. Gosto dos hospitais tanto quanto eles gostam de mim. Tem gente que vai ao teatro, tem gente que prefere cinema, eu sempre fui muito ao hospital e penso que gosto não se discute. Já experimentei sangue de todos os tipos, sou receptora universal. O A+ costuma ser o meu preferido, se bem que acho o O- bastante docinho (talvez porque seja sangue de luxo), enquanto o AB+ é sangue vira-lata, faz bem o meu tipo. Todo mês recebo salário, cesta básica, pílulas e fatores sanguíneos. E é claro, tenho medo que dia desses me venha de brinde um HIV, uma hepatite C, uma doença de Chagas. Dizem que a cavalo dado não se olha os dentes, sei que em alguns lugares não olham mesmo e isso me deixa em pânico!

Sobrevivi a períodos de estiagem nos bancos de sangue. Coleciono esses dentes encavalados que nunca pude arrancar. Não posso menstruar nem ter filhos. Subir em uma árvore foi a maior façanha da minha infância! A vida me roubou muitos prazeres e me privou de coisas demais, mas o pior não lhe contei ainda: durante a adolescência minha mãe me atormentou com conselhos que nunca gostei de ouvir e dos quais ela não era nenhum exemplo. A questão é que os rapazes eram contra-indicados para a minha condição de garota hemofílica. Quem disse que sexo não é pecado mortal? Eu trazia comigo um hímen de sete cabeças, que cuspia fogo e podia rebentar num rio de lava fervente que me cozinharia na cama com o meu namorado. Essa pequena maldição que ninguém merece eu precisei cauterizar às escondidas no consultório ginecológico. Já disse que a ginecologista é minha melhor amiga? Graças a ela eu não morri de sexo, por melhor que a possibilidade possa parecer.

Mas todas as outras estatísticas estão do meu lado. Veja bem, nasce um menino hemofílico a cada 7.500 ou uma menina a cada 25 milhões. É 43 vezes mais provável ser acertada por um raio. É mais ou menos a mesma chance de ganhar sozinha na mega-sena! Sou ou não sou um pára-raios da improbabilidade? Não paro de pensar nas combinações funestas da minha sorte. Dizem que a tragédia é a combinação de dois fatores aleatórios, porém explosivos quando unidos por acidente (ou como disse um filósofo famoso chamado Murphy, “merda” é um fenômeno físico sempre prestes a acontecer), por exemplo: escada + tropeço, criança + fogão, distração + carro na contramão… As combinações podem ser infinitas. Tudo são números. Probabilidades!

Eu tenho o meu próprio fator de risco, bem alto por sinal. Sei que a qualquer momento virá combinação fatal, muito provavelmente algo do tipo: “transfusão + infecção” ou “hemofilia + acidente sangrento”. Um tiro não me daria nenhuma chance, tampouco uma cirurgia inevitável, talvez até um tombo, um corte, um dente quebrado… Nas muitas horas vagas que passei na fila do hospital cheguei a imaginar mil finais para a minha história, mas o acaso tem o talento de surpreender a gente.

Eu que sou perita em estatísticas, alguns dias atrás resolvi entrar para os índices da violência urbana. Os rapazes me abordaram no semáforo, exigiram minha bolsa e, não contentes, me levaram junto com o carro. Os dois cavalheiros me conduziram até uma favela esquisita, onde me fizeram descer e gentilmente me transferiram para o porta-malas. Ali eu passei não sei quantas horas rezando para Deus, Buda, Shiva, Jeová e todos os deuses dos quais podia me lembrar. Tenho que agradecer pelo fato de não terem me machucado – e precisavam?  Debaixo do cano de um revólver sou uma pessoa bastante cooperativa. Perguntei quanto queriam de resgate, dei os telefones, pedi para falar com a família; aquela coisa toda aprendida por osmose em um milhão de noticiários policiais. Não sei o que eles querem de mim. Acho que querem tempo para a notícia aparecer, minha mãe enlouquecer, meu namorado se desesperar, deve ser isso.

Acho que preferia o tiro, é mais digno.

O que me assusta é que estou perdendo a noção do tempo. Eles só aparecem uma vez por dia para me dar água e comida, devem ser seqüestradores muito ocupados, acho que trabalham fora. Eles vêm e eu imploro pelamordedeus me dá as minhas pílulas! Existem sete bilhões de vidas lá fora e esta aqui calhou de ser minha, é tudo o que tenho, por favor, não vai embora!

Há uma mulher entre eles e sei que ela é a minha desgraça. Deve ser instruída, reconheceu a cartela, sabe que ninguém precisa de anticoncepcionais para sobreviver mas não tem certeza se com eles dá para se matar. Não, dona seqüestradora, eu não iria pôr tantas transfusões de sangue a perder, tanto remédio e tempo perdido em fila de hospital! Mas ela não quer acreditar.

E enquanto isso, estou aqui gritando como uma maluca para que alguma alma me ouça, falando com fantasmas para não enlouquecer, então vê se não vai embora, não me deixe aqui sozinha! Agora sei que liberdade é como esse ar que se respira sem pensar – estou sufocando! De vez em quando durmo nesse chão duro e meu cativeiro termina por alguns instantes. Sonho que não há mais paredes, estou livre, as pessoas me esperam do outro lado, entre nós há apenas um tapete vermelho estendido pelo infinito!… É um pesadelo, um sonho, um pesadelo. Eu acordo. Medito. Rezo. Espero.

Acho que estou indo bem, obrigada por perguntar. Quer saber como me sinto? Eu vou dizer.

É assim: começa com uma sensação incômoda…

Cris Lasaitis

Conto originalmente publicado na Revista Scarium 25, especial Mulheres & Horror