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O vírus e a ignorância

maio, 3 - 2010

A ignorância é uma merda, desculpe a expressão.

Queria dizer que existe toda uma categoria de pessoas desocupadas no mundo que se dedicam a uma coisa chamada Teoria da Conspiração.

A Teoria da Conspiração é a mãe de todas as pasmaceiras: são os bichos transgênicos sem patas nem cabeça cultivados para os hambúrgueres do McDonalds, são os governos tentando ocultar os alienígenas, são as mensagens subliminares da TV derretendo sua massa cinzenta. São histórias absurdas que prosperam na ignorância, justamente porque elas assustam e são espalhadas como alertas do tipo “escute, escute, porque eles estão contra você!”.

Eu sei, é difícil para algumas pessoas conseguir separar realidade de ficção (quem não consegue, não se sinta mal, o importante é ter saúde).  Acontece que às vezes as teorias conspiratórias alcançam o seu propósito, que é amedrontar e confundir as pessoas pra valer.

Eu digo isso porque tenho visto conhecidos meus, pessoas em geral inteligentes, que estão se negando a tomar a vacina da gripe suína (H1N1) confundidos pelas polêmicas que proliferaram nos meios de comunicação (a internet, principalmente) contra a vacina.

Ouve-se de tudo: que a vacina não foi testada, que é feita com agentes tóxicos, que pode induzir síndromes bizarras, que as reações podem ser letais, que é uma conspiração dos EUA para reduzir à metade a população mundial, etc.

Para tentar esclarecer as coisas de um ponto de vista profissional, falarei como biomédica.

Sobre a gripe A (H1N1)

As pandemias de gripe reincidem em ciclos, de acordo com a taxa de mutação do vírus. A penúltima aparição do vírus Influenza A subtipo H1N1 foi a gripe espanhola, há 90 anos. De certo modo, pode-se dizer que já era esperada uma nova pandemia de gripe A.

A gripe A mata principalmente pessoas jovens por causa da reação imunológica intensa que provoca, podendo destruir o tecido pulmonar e levar à síndrome respiratória aguda. Por isso a doença afeta sobretudo os adultos jovens saudáveis.

No Brasil, a pandemia atingiu a maior taxa de letalidade do mundo: pelo menos 5% das pessoas que adquirem a gripe A vêm a óbito.

Se não houvesse um programa de prevenção e vacinação contra o vírus H1N1, no próximo inverno poderíamos esperar uma pandemia de dimensões trágicas, como aconteceu com a gripe espanhola.

Sobre a vacina contra a gripe A

Vacinas são feitas com vírus inativados ou pedaços de vírus. Portanto, quando se toma uma vacina, mesmo que haja uma reação, não há infecção.

A vacina contra o vírus H1N1 foi produzida com a mesma tecnologia da vacina contra a gripe comum. Não existe razão para temer uma e não outra.

Os componentes considerados “tóxicos” que entram na formulação da vacina em quantidades ínfimas também estão presentes em outras vacinas, e não consta terem envenenado ninguém (como você, provavelmente, já experimentou).

Todas as vacinas têm um risco próprio de desenvolver reações adversas. A questão é que esse risco é extremamente baixo, enquanto ficar doente é incomparavelmente mais perigoso, mais arriscado e desagradável para qualquer pessoa.

Antes de chegar ao Brasil, as vacinas foram testadas no outono passado nas populações da América do Norte e da Europa, sem reportar complicações ou reações adversas graves. O Brasil compra as vacinas excedentes dos países produtores (e não é apenas dos EUA). O Canadá, por exemplo, tem uma população de 20 milhões e produziu cerca do dobro de vacinas.

Entre os cientistas, não há confusão quanto à eficácia e segurança da vacina contra o vírus H1N1. A polêmica que chega até você é fruto mídia e sobretudo da pseudomídia que nos cerca, mandando spams para o seu endereço de e-mail.

O que pode acontecer se você tomar a vacina é ficar imunizado. Se tiver reação, será no máximo uma febre muito baixa ou dor no local num período de até 48 horas depois da injeção (a única contra-indicação é para as pessoas que têm alergia a ovo).

O que pode acontecer se você não tomar a vacina é contrair a gripe A e arcar com os sintomas, as despesas e os riscos implicados.

A biotecnologia é um advento recente, sorte a nossa ela estar aí para nos poupar das tragédias anunciadas do nosso tempo.

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Cristina Lasaitis é biomédica da UNIFESP e tomou a vacina contra a gripe A no primeiro dia de vacinação.