Archive for junho \30\UTC 2010

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Sábado tem RPGcon!

junho, 30 - 2010

Acontece no próximo fim de semana (dias 03 e 04 de julho) a RPGcon, que este ano será no Colégio Notre Dame, perto do metrô Sumaré (São Paulo-SP).

Dentre as coisas bacanas que deverão acontecer por lá, está o lançamento da coletânea de contos Imaginários 3, da Editora Draco:

E também uma mesa redonda organizada pelo Conselho Steampunk onde falarei de ficção científica, especialmente steampunk, ao lado dos autores Douglas MCT, Eric Novello, Richard Diegues e Gianpaolo Celli. A mesa redonda  acontece no sábado, dia 03/07 das 13 às 14h no mini-auditório.

A entrada no evento, para quem ainda não se inscreveu, custa R$20 a inteira e R$10 a meia.

See you!

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Modernização da Lei de Direitos Autorais

junho, 15 - 2010

A lei de direitos autorais brasileira está sendo revista e o Minc acabou de liberar a consulta pública para a modernização da lei de direito autoral – Isso quer dizer que eu e você podemos (e devemos) contribuir.

Veja alguns dos principais pontos discutidos:

Regulação do direito de cópia: atualmente é proibido tirar fotocópias de livros para fins educacionais, usar um trecho de música para remix ou copiar um cd de músicas para uso pessoal. A nova proposta visa facilitar o acesso aos bens culturais e deverá liberar o acesso às obras nesses casos.

Proteção aos direitos do autor: a proposta quer proteger aquele que mais contribui para a cultura: o autor, defendendo que 50% do valor da obra sejam pagos a ele.

Cessão de direitos autorais: normalmente os autores cedem os direitos autorais por tempo indeterminado, e algumas vezes se vêem na situação absurda de serem privados dos direitos sobre suas obras porque mudaram de editora ou de gravadora. Segundo a nova proposta um prazo de cessão de direitos deverá ser explicitado em contrato.

Prazo de proteção das obras: Continua como é hoje: a obra cai em domínio público 70 anos após a morte do autor.

Sebos e bibliotecas legalizados: acredite se quiser, a lei atual reza que o autor deve autorizar a distribuição da obra para fins de empréstimo, revenda, venda e aluguel, o que significa que os sebos e bibliotecas estão na ilegalidade. A nova proposta estabelece que esse direito de distribuição termina com a primeira venda.

Punição para quem paga jabá: uma prática comum das gravadoras é pagar para as rádios tocarem suas músicas. Pela nova proposta, esses casos serão punidos como infração à ordem econômica e ao direito de acesso à diversidade cultural.

A cartilha com o texto integral dessa discussão pode ser baixada aqui. Para participar, acesse o site do Ministério da Cultura, cadastre-se e opine.

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Realidade & Ficção

junho, 13 - 2010

Como prometi que não falaria sobre política, vou falar sobre ficção e também realidade. Como elas se tocam. Como a ficção descreve a realidade, a realidade confirma a ficção e até mesmo a supera. Para começar, faço-lhe uma pergunta:

Você sabe qual é a semelhança entre Kim Jong-il (o “presidente” da Coréia do Norte) e George Orwell?
Pense, pense…

A semelhança é o talento de ambos para fazer distopia.

Caso você nunca tenha ouvido falar em distopia, transcrevo uma definição dada no artigo “Ficção Científica, o Universo e Tudo Mais…“, publicado neste blog em 2008:

Um gênero inteiro dedicado a tratar de utopias que saíram pela culatra. Ficção ou nem tão ficção assim, as distopias exploram meios de opressão institucionalizada, cujos padrões se repetem interminavelmente na história da humanidade. É provável que estejam entre as obras mais conhecidas da ficção científica (raramente assumidas como FC): Admirável Mundo Novo (Aldous Huxley), 1984 (George Orwell), Farenheit 451 (Ray Bradbury), Laranja Mecânica (Anthony Burgess), O Caçador de Andróides (ou Blade Runner, Philip K. Dick) e The Handmaid’s Tale (Margaret Atwood). No cinema, bons exemplos são os filmes Gattaca, Filhos da Esperança, Aeon Flux, além das adaptações das obras já citadas. A receita da boa distopia é angustiar o leitor situando-o numa atmosfera opressiva, de regras intrincadas, leis injustas, estreita vigilância, desesperança e desilusão.

Talvez você já tenha lido algumas dessas obras supracitadas. Se não leu, recomendo fortemente que leia pelo menos 1984 e então você entenderá o que quero dizer a seguir.

Dias atrás, o New York Times publicou uma reportagem sobre a atual situação interna da Coréia do Norte. Entrevistaram 8 norte coreanos fugitivos, que descreveram um panorama aterrador, porém consistente, sobre o que anda se passando dentro do país (feudo?) de Kim Jong-il.

Quem for assinante UOL pode ler a reportagem em português clicando aqui. Ou, em todo caso, pode ler em inglês na página do NY Times.

Se prestar atenção, verá que as semelhanças entre 1984 e Coréia do Norte são incríveis, como se o ditador estivesse se aconselhando com o escritor, ou como se estivesse incumbido de realizar a profecia de Orwell. Mas eu diria que Kim Jong-il é mais talentoso, pois foi além e construiu seu próprio reino de ficção com os tijolos da realidade, e atualmente submete 24 milhões de pessoas a uma legítima distopia, talvez mais competente que o mundo dos pesadelos de Winston Smith.

George Orwell capturou tão bem a mentalidade dos estadistas totalitários, seu comportamento, seus métodos de arrebanhamento, suas ferramentas de controle e sujeição, que o resultado é a mais desconcertante adaptação de uma realidade que se repete ad infinitum e se reafirma de tempos em tempos. Seja pelo dom profético ou por uma análise precisa dos padrões, é surpreendente notar como a obra de George Orwell jamais fica datada.

Ele deve estar lá em cima, no hipotético céu, sentado ao lado direito de Maquiavel, trazendo nos lábios aquele sorriso torto de “eu não disse?”

Pensando bem, é de arrepiar. Você já reparou? He is watching us!

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Adendo

junho, 10 - 2010

Quanto mais discuto política, mais gosto de física quântica. Quanto mais discuto política, mais gosto de novela, de futebol, de carnaval e de axé. Quanto mais discuto política, melhor me parece o créu e o pangolé.

Por essas e outras razões, me calo.

Quero dizer que sou agnóstica em matéria de política. Esclareço que não sou fã de Israel, não sou fã do Irã, não sou fã do Lula, nem do Serra, nem da Dilma, nem da Marina. Vou segui-los no twitter, mas prometo que os políticos não voltarão a este blog tão cedo.

E não me candidato a nada.

E aproveito para declarar, também, que essa discussão está encerrada.

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Acha que dinheiro não cai do céu?

junho, 7 - 2010

Veja o e-mail que acabo de receber de uma generosa desconhecida:

Dear Beloved,


This letter might surprise you, Please don’t ignore it as I am writing thisletter to you with heavy tears In my eyes and great sorrow in my heart because i only have few months to live according to my Doctor.Base on this predicament,
I have now decided to spread all my wealth,to contribute mainly to the development of charity. Please i need a reliable person who will use the Money ($18 million dollars) to build orphanage home or charity organization. Kindly get back to me with trust and sincerity that you will help me on thisregards.Here is my personal mail box:
(deletado)
I have set aside 30% for you and for your time.


God be with you
Mrs Aladin Saeed Ahmed

Veja só, parece que fiquei milionária! Agora tenho a missão de construir um orfanato e quem sabe levar as crianças pra Disney. Ofereço um pouco de dinheiro pra vocês também, para fazer circular tanta generosidade.

Na pior das hipóteses, se eu não estiver rica, pelo menos vou dormir contente esta noite sabendo que o mundo dos spams está cada vez mais romântico.

Mrs. Aladin, you gave me the best spam of my life!

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Toma que o aborto é teu

junho, 6 - 2010

Segundo essa reportagem publicada no Estadão, uma em cada sete mulheres brasileiras entre 18 e 39 anos já abortou. A pesquisa ainda diz que 80% delas têm religião, 64% são casadas e 81% são mães, sinal de que essas “criminosas” (considerando que no Brasil o aborto é crime) não estão nada distantes do perfil da maioria das mulheres que você e eu conhecemos. Indiretamente, isso também significa que a cada sete mulheres com quem você e eu convivemos, uma já deve ter praticado o aborto. Elas estão nas nossas famílias, são nossas amigas, colegas de trabalho e de faculdade… Não são “as outras”.

O que acho intrigante é que as pessoas agem como se o problema do aborto existisse por si mesmo. Quando a discussão surge, me vem essa pergunta inquietante: por que o pessoal do “a favor” e do “contra” não resolve fazer algo verdadeiramente efetivo contra o aborto, como combater o seu problema original: a gravidez indesejada?

Suponhamos que exista o acesso universal a métodos contraceptivos e que as pessoas estejam devidamente informadas. Suponhamos que haja uma grande conscientização sobre o problema da gravidez indesejada. Suponhamos que cada mulher e cada homem que não deseja ter filhos faça a parte que lhe cabe para evitá-los.

Suponhamos que métodos de esterilização definitiva sejam disponibilizados sem restrições nos hospitais públicos para todas as pessoas que queiram optar por eles de espontânea vontade.

Suponhamos que não existam mulheres abandonadas pelos homens que as engravidaram.

Suponhamos que as crianças e adolescentes sejam devidamente orientados, acompanhados e não reprimidos (e jamais abusados).

Suponhamos que não haja estupros. Suponhamos que ninguém seja coagido a fazer sexo sem proteção.

Suponhamos que todas as mulheres sejam donas da sua sexualidade e não sejam oprimidas. Suponhamos que elas não tenham medo de perder o emprego por estarem grávidas.

Suponhamos que as pílulas contraceptivas não falham e que as camisinhas não furam.

Nessa suposta realidade, o problema do aborto foi minimizado ao extremo, e só se aplica em casos de exceção, de fetos malformados ou quando a gravidez é de risco para a mãe. O fim da gravidez indesejada tecnicamente colocaria um fim sobre o “problema do aborto”.

Mas se você concorda comigo que esse quadro está muito distante da nossa realidade, e que:

– Algumas pessoas são sexualmente irresponsáveis.

– Seres humanos cedem a impulsos independentemente da disponibilidade da camisinha.

– Mulheres são oprimidas.

– Mulheres são estupradas.

– Mulheres são abandonadas pelo pai da criança que levam no ventre.

– Mulheres perdem o emprego quando ficam grávidas.

– Homens acham que esse problema não é com eles.

– Métodos contraceptivos são combatidos por instituições religiosas, o acesso não é universal e as pessoas não estão devidamente informadas.

– Adolescentes sofrem pressão de grupo para transar, nem sempre têm acesso a métodos anticoncepcionais, nem sempre são orientados ou simplesmente acham que são imunes às consequencias do sexo sem proteção.

– Cirurgias de vasectomia e ligadura de trompas estão disponíveis nos hospitais públicos apenas para homens e mulheres maiores de 25 anos e com dois ou mais filhos vivos.

– Pílulas falham, camisinhas também.

– As leis nem sempre se cumprem neste país.

E por mais que se faça para combater a gravidez indesejada, ela continuará acontecendo por razões que fogem a toda tentativa de controle.

Pode-se adivinhar que enquanto houver gravidez indesejada, haverá aborto. E enquanto o aborto for ilegal, haverá abortos clandestinos. E enquanto houver abortos clandestinos, haverá mulheres com complicações, mortes e custos arcados pelo Estado no atendimento a essa população. A conclusão é que nada resolve o “problema do aborto”, ele no máximo pode ser minimizado, ou autorizado como método de redução de danos.

Agora, vou levantar uma outra questão, interessantíssima:

Quantas das pessoas que gostam de debater sobre o aborto estão realmente preocupadas em resolver o problema da gravidez indesejada?

Porque algo me diz que a febre do debate é uma dessas coisas que existem por si mesmas, uma forma de instinto bélico, onde a graça é a argumentação, defender seu grupo e seu ponto de vista como quem defende um território e demarca limites claros entre “bem” e “mal”, “certo” e “errado”. Existe o desejo de confrontar, de submeter e de controlar os outros. Sem um debate bem quente muitos ficam órfãos de causa.

Quem veio aqui na esperança de me ver tomar parte em algum dos lados do discurso vai ficar decepcionado. Eu vim dizer que a culpa do aborto é minha, é sua, é do padre, do presidente e da sua avó. Implicitamente, isso nos obriga a tomar, não uma posição, mas uma ação. Eu vim lhe inquirir e convidar você a se tornar também um chato inquiridor.

Pergunte às pessoas que gostam de debater sobre o aborto o que elas tem feito:

– Para aumentar a conscientização sobre a gravidez indesejada?

– Para informar a população sobre o assunto?

– Para contribuir com as políticas de planejamento familiar?

– Para garantir o acesso popular aos métodos contraceptivos nas redes de saúde públicas?

– Para orientar crianças e adolescentes sobre sexo seguro?

– Para desconstruir a cultura machista no Brasil?

– Para garantir os direitos da mulher?

– Para assegurar a punição dos estupradores e dos pais que fogem à paternidade?

– Para cobrar mais ações dos políticos?

– Para cobrar que sejam cumpridas as leis?

É muito gostoso apontar o dedo e inflamar o discurso, agora quero ver arregaçar as mangas e mostrar o que sabem fazer.