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Realidade & Ficção

junho, 13 - 2010

Como prometi que não falaria sobre política, vou falar sobre ficção e também realidade. Como elas se tocam. Como a ficção descreve a realidade, a realidade confirma a ficção e até mesmo a supera. Para começar, faço-lhe uma pergunta:

Você sabe qual é a semelhança entre Kim Jong-il (o “presidente” da Coréia do Norte) e George Orwell?
Pense, pense…

A semelhança é o talento de ambos para fazer distopia.

Caso você nunca tenha ouvido falar em distopia, transcrevo uma definição dada no artigo “Ficção Científica, o Universo e Tudo Mais…“, publicado neste blog em 2008:

Um gênero inteiro dedicado a tratar de utopias que saíram pela culatra. Ficção ou nem tão ficção assim, as distopias exploram meios de opressão institucionalizada, cujos padrões se repetem interminavelmente na história da humanidade. É provável que estejam entre as obras mais conhecidas da ficção científica (raramente assumidas como FC): Admirável Mundo Novo (Aldous Huxley), 1984 (George Orwell), Farenheit 451 (Ray Bradbury), Laranja Mecânica (Anthony Burgess), O Caçador de Andróides (ou Blade Runner, Philip K. Dick) e The Handmaid’s Tale (Margaret Atwood). No cinema, bons exemplos são os filmes Gattaca, Filhos da Esperança, Aeon Flux, além das adaptações das obras já citadas. A receita da boa distopia é angustiar o leitor situando-o numa atmosfera opressiva, de regras intrincadas, leis injustas, estreita vigilância, desesperança e desilusão.

Talvez você já tenha lido algumas dessas obras supracitadas. Se não leu, recomendo fortemente que leia pelo menos 1984 e então você entenderá o que quero dizer a seguir.

Dias atrás, o New York Times publicou uma reportagem sobre a atual situação interna da Coréia do Norte. Entrevistaram 8 norte coreanos fugitivos, que descreveram um panorama aterrador, porém consistente, sobre o que anda se passando dentro do país (feudo?) de Kim Jong-il.

Quem for assinante UOL pode ler a reportagem em português clicando aqui. Ou, em todo caso, pode ler em inglês na página do NY Times.

Se prestar atenção, verá que as semelhanças entre 1984 e Coréia do Norte são incríveis, como se o ditador estivesse se aconselhando com o escritor, ou como se estivesse incumbido de realizar a profecia de Orwell. Mas eu diria que Kim Jong-il é mais talentoso, pois foi além e construiu seu próprio reino de ficção com os tijolos da realidade, e atualmente submete 24 milhões de pessoas a uma legítima distopia, talvez mais competente que o mundo dos pesadelos de Winston Smith.

George Orwell capturou tão bem a mentalidade dos estadistas totalitários, seu comportamento, seus métodos de arrebanhamento, suas ferramentas de controle e sujeição, que o resultado é a mais desconcertante adaptação de uma realidade que se repete ad infinitum e se reafirma de tempos em tempos. Seja pelo dom profético ou por uma análise precisa dos padrões, é surpreendente notar como a obra de George Orwell jamais fica datada.

Ele deve estar lá em cima, no hipotético céu, sentado ao lado direito de Maquiavel, trazendo nos lábios aquele sorriso torto de “eu não disse?”

Pensando bem, é de arrepiar. Você já reparou? He is watching us!

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4 comentários

  1. […] This post was mentioned on Twitter by Leandro R. Fernandes, crislasaitis. crislasaitis said: http://bit.ly/cNANsO Orwell profeta, Coréia do Norte e 1984: quando a realidade supera a ficção. […]


  2. A Coréia do Norte é o Reino de Sonho da Morte…


  3. O que me assusta e o poder que um regime desses exerce sobre a mente das pessoas, … tornando essa realidade tao subjetiva quanto a ficcao. E uma realidade que se molda como uma trama bem escrita, de maneira programada e efetiva, a ponto de obscurecer ou tornar invisivel tudo aquilo que nao esta em conformidade com esta realidade.

    Ouvindo alguns comentarios do tecnico da selecao da Coreia do Norte, fica evidente que a realidade que ele vive e outra! Nao e apenas a ficcao da literatura que se torna realidade, mas a ficcao do regime se torna realidade na mente das pessoas.

    E tao chocante que me parece um bom exemplo de como podemos criar nossa Matrix, sem precisar de qualquer revolta das maquinas.


    • Tenho medo de qualquer forma de nacionalismo, um sentimento que transforma fronteiras em abismos e estrangeiros em alienígenas. Contra ele, a globalização é uma bênção. E a liberdade de informação a nossa verdadeira LIBERDADE.
      Informação é tudo, e quem tem o monopólio sobre ela é capaz de criar sua própria Matrix, como bem falou o Luis Mauro.
      Vivemos algo parecido durante a ditadura militar, com alienação televisiva e censura. E, veja só, a abertura só veio em 1985, o pós 1984…



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