Archive for setembro \29\UTC 2010

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Em quem vou votar

setembro, 29 - 2010

Alguns meses atrás eu tinha prometido não voltar a falar de política neste blog. Mas é que não dá!! Voltei da viagem para encontrar a eleição mais baixo nível que esperava ver na vida (ou será que sou que fiquei exigente demais?). Tiririca disparado em primeiro lugar para deputado federal??! Netinho para senador??! Esse é o tipo de notícia que me dá vontade de refazer as malas e ir embora pra Austrália! Estou profundissimamente decepcionada com minha falta de opções, e vou fazer bom uso deste canal de comunicação pessoal para deixar claro o meu protesto.

E já que o voto é meu para quem eu quiser mostrar, deixo minhas escolhas comentadas aqui, para quem quiser saber:

Presidente

Não vou votar na Dilma, não somente pelo recente escândalo da Berenice Guerra na Casa Civil, não somente por ter Michel Temer como vice, não somente porque não gosto do discurso assistencialista muito conveniente (e eleitoreiro) do PT, mas por vê-la como mero fantoche do partido, que já se dá ao devaneio (e cara de pau) de dividir cargos antes de ganhar a eleição.

Não vou votar no Serra, em primeiro lugar por aceitar este tipo de apoio político que já vem de outras eleições, se não com o mesmo candidato, com a mesma retórica. Segundo, por falar muito em aumentos, bolsas e expansões assistencialistas, com propostas de aumento do salário mínimo para R$600, aumento de 10% na aposentadoria, 13º salário do bolsa família, criação do bolsa adolescente, “erradicação da pobreza” (tá!), mas o que eu gostaria mesmo era ver a viabilidade dessas promessas.

Não vou votar na Marina. Até que ela tem propostas razoáveis, e merece aplausos por ser a única candidata a presidente com uma política clara voltada para o meio-ambiente. Mas… eita cabecinha! Marina, eu até te perdoaria por ser evangélica, mas por concordar com o ensino do criacionismo não dá! E é muito fácil quando um assunto polêmico como o aborto ou a união civil lhe cai nas mãos se livrar logo da batata quente propondo um “plebiscito”, e assim disfarçar que é conservadora ao mesmo tempo em que posa de democrática. Democrática uma banana! Quero ver se proporia um plebiscito se não tivesse certeza de que o povo brasileiro em massa compartilha da sua mesma opinião. Não consigo enxergar democracia em deixar que uma maioria de cidadãos decida por direitos de minorias. Valeu pela tentativa, Marina, mas não dá!

*Post-scriptum: e não é que, desertada do apoio dos evangélicos, Marina resolveu mudar o discurso para posar de candidata liberal? Ao mesmo tempo em que Dilma muda claramente o discurso sobre a legalização do aborto para se dobrar à vontade da bancada evangélica. Ah, as eleições e suas idiossincrasias!

Não vou votar no Plínio, que é o paradoxo em pessoa.

Não vou votar em nenhum dos outros candidatos.

Resumo da ópera: voto nulo.

Governador

Voto no Geraldo Alckmin, em quem vejo poucas probabilidades de me dar más surpresas.

Senador

Voto no Ricardo Young, do PV, por ter um curriculum que me orgulharia muito de que fosse de um presidente do Brasil.

Voto no Aloysio Nunes, do PSDB, pelo histórico de atuação contra impostos abusivos e principalmente por trabalhar em favor da cultura.

Deputado Federal

Eu ia votar no Fernando Alcântara, do PSB, mas nesta última hora soube que o Protógenes Queiroz está candidato a deputado federal pelo PCdoB e, levando em consideração que ele prendeu vagabundos de altíssimo quilate (Maluf, Pitta, Law King Chong, Daniel Dantas), razão pela qual foi perseguido, investigado, sacaneado e, por fim, afastado da PF, eu muito que vou dar um voto de confiança pra esse cara! Pena que se for eleito ele não vai pra Brasília com poder de polícia, mas espero que faça um bom serviço ajudando a desinfetar as cadeiras da Câmara dos Deputados daqueles vermes que roem o dinheiro público no Brasil.

Deputado Estadual

Voto no Carlos Giannazi, do PSOL. Candidato da capital paulista, ele tem como carro chefe da campanha a educação pública, foi pivô da expansão da Unifesp (com a criação do campus Santo Amaro), tem projetos para a área da cultura, além de ter discursado na câmara de SP em favor da criminalização da homofobia.

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Australionauta, o relato – Parte 6

setembro, 28 - 2010

Não, nem tudo na Austrália funciona às mil maravilhas. Como por exemplo a internet. Ou como o ônibus desgraçado que peguei para viajar de Byron Bay a Sydney. Eita, viagem longa! Foram 12 horas noite adentro no busão cheio de baratas e sem bancos reclináveis. Um tédio. Um castigo. Sem conseguir dormir, queria ficar acordada. Sem conseguir ficar acordada, queria dormir. Revirava os olhos entre a consciência e o coma, e quando abria, via uma baratinha passeando no encosto do banco da frente… Argh!

A desvantagem é que depois duma viagem dessas você chega estragada. Sydney… Sydney é imensa, até mesmo para o padrão duma paulistana. Ainda tive que pegar taxi para o meu hostel que ficava perto da Harbour Bridge.

Sydney está entre as 10 cidades mais caras do mundo, e reluz a ouro. Meu hostel em Sydney foi o mais caro da viagem, só pelo luxo de ter vista para a ópera, mas valia a pena. Ali eu estava no The Rocks, um charmoso bairro antigo de Sydney, a um tropeço da Harbour Bridge, monstruosa, belíssima, e a poucos minutos de caminhada da Opera House, very impressive. Claro que a primeira coisa que eu fiz assim que larguei as malas e tomei um banho foi ir correndo me ajoelhar diante do monumento.

Ai a Opera, como é a Opera? Para falar de monumentos arquitetônico, vou usar uma comparação. Quando fui pra Brasília, olhei para o Palácio do Planalto e pensei: “é essa coisa mixuruca? Dava a impressão de ser tão maior!” Não é o tipo de impressão que se tem com a Opera House, que é realmente enorme e bela a cada ângulo que se olhe. De um lado da Opera tem-se um imenso jardim botânico que eu não tive muito tempo para explorar, apenas cumprimentei as cockatoos e fui embora. Do outro lado, há Circular Quay, com hotéis, lojas, restaurantes, bistrôs, ancoradouro de ferry boat e estação de trem. Muitas lojas de souvenir, e as mais caras, pra variar. Entrei numa loja atraída pelas lindíssimas máscaras do carnaval de Veneza, e, meio besta, perguntei à vendedora se elas tinham alguma coisa a ver coma a Austrália. A vendedora: tem a ver com a ópera!

Óbvio! Como não pensei nisso antes?

Levando-me do cartão postal até o centrão há a George Street, a avenida comercial mais quente de Sydney, com shoppings, galerias, bancos, pubs e todo o comércio que se pode imaginar. Tudo muito chique e moderno. E meio surrealista também: de repente você vê o monorail saindo de um prédio, andando suspenso pela rua e entrando em outro prédio, é bonitinho. O que me chamou muito a atenção foi a Apple Store, que em Sydney é uma “Apple Shopping”, gigante, com 3 andares, e sempre cheia. Não é de estranhar que o que eu mais via na mão dos australianos era iPhone.

Esqueci de dizer que meu hostel ficava bem acima de um sítio arqueológico. Pois é. Como se tratava do bairro mais antigo de Sydney, ali escavavam as relíquias da época da colonização da Austrália. Minhas companheiras de quarto também eram um diferencial. Partilhei a beliche com uma norte-americana que sabia tudo de literatura de ficção científica. Cada livro que eu citava ela já tinha lido, me senti tão feliz em achar alguém que me entendia! E a parte boa de se hospedar em hostel caro é que os turistas abandonam coisas muito boas na cozinha, às vezes eu fazia refeições inteiras com coisas pegas na free food shelf (estava escrito: “help yourself!”, e eu muito me ajudava).

A essa hora a síndrome de abstinência da internet começava a bater e eu pegava meu notebook e mergulhava no primeiro McDonalds. Comi fast food que nem uma doida. Supersize me, baby!

Mas não foram mais do que dois dias que fiquei aí, no coração de Sydney. Eu estava para embarcar numa viagem realmente nova.

Anos antes eu tive a ideia de tentar traçar a árvore genealógica da família Lasaitis com a ajuda da internet. No século XX os Lasaitis saíram da Lituânia e se espalharam pelo mundo. Fui encontrar ramos da família nos EUA e também na Austrália. O mais curioso: buscando no Google acadêmico, encontrei uma suposta prima australiana que fazia pesquisa biomédica, a Regina. Ainda naquela época escrevi a ela – do modo convencional, por cartinha – me apresentando e pedindo informações sobre eles, anexando fotos da família, e… Vendo fotos, concluímos que meu tio australiano e meu pai são parecidíssimos, fazendo as continhas, chegamos à teoria de que meu avô devia ser primo do avô da Reggie, o que nos fazia primas em sétimo grau (eu acho). Mantivemos a partir de então um contato, de vez em quando mandando cartões de Natal para o respectivo outro lado do mundo.

Agora eu estava na Austrália, e iria conhecer os Lasaitis australianos, e que eram muito mais lituanos da gema do que eu.

Num sábado de sol meu primo australiano Andrew veio me buscar no hostel e me levou para o subúrbio de Sydney, a um bairro fofo chamado Rhodes, onde conheci a matriarca da família, tia Júlia, e também conheci pessoalmente a Reggie. Logo eles me botaram no carro e embarcamos num passeio rumo às Blue Mountains, na região de Katoomba. Antes de ver as montanhas azuis, uma parada para conhecer mais primos. Agora eu estava num daqueles bairros tranquilíssimos, de uma cidadezinha ínfima, com casas de boneca e jardins abertos, sem cercas. Era a casa do Anthony, onde ele vive com a esposa e os dois filhos. Me receberam com vinhos e quitutes maravilhosos (meudeus, como cozinham!). Um lanche rápido, Regina e eu caímos na estrada e vamos para as Blue Mountains.

Blue Mountains é um parque nacional, com montanhas, trilhas e pontos de obsevação. O que se vê? Um monumento de pedra que os aborígenes chamam de Três Irmãs, e ao fundo um tapete de floresta que se perde no horizonte com as montanhas… tão longínquas que parecem azuis. Um silêncio, uma paz indizível…

Na volta Reggie me sugeriu tirar um dia para voltar a Katoomba e conhecer a cidade, coisa que fiz mais tarde. Katoomba é uma Campos do Jordão australiana, cidadezinha charmosa que parece embalsamada numa verve colonial, o que mais tem são lojas de antiguidades, sebos de livros muito velhos, cafés onde os velhos vão tomar café, adegas de vinhos, e mais lojas de antiguidades. Katoomba é um dos lugares na Austrália onde neva no inverno, e eu não ligaria nem um pouco de me hospedar num daqueles chalés durante alguns meses para escrever um livro e morrer de tédio. Seria um tédio com graça, um tédio bastante charmoso.

Na semana seguinte eu ficaria hospedada na casa da tia Júlia, no subúrbio de Sydney, à beira do mesmo rio que banha a Opera House, e teria a estranha e gostosa sensação de ter casa e uma família nova. Mas isso merece um capítulo à parte.

Próximo episódio: Lavando roupa e cozinhando em Sydney.

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O futuro do universo num arquivo *gif

setembro, 26 - 2010

Nunca vi uma sequência de slides que contasse de forma tão resumida e com tamanha competência científica o futuro do planeta Terra, do universo, e também o nosso.

Uma sinfonia de fim de mundo quase poética, com cenas que meus olhos mortais não irão ver, e que remete ao tipo de sentimento desolador que às vezes me impele a cometer certos textos como Viagem Além do Absoluto.

É triste mas é bonito.

Se a animação não rodar, clique na imagem:

O link original é este.

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Australionauta, o relato – Parte 5

setembro, 26 - 2010
Quando estava em Queensland fui tentada diversas vezes a embarcar num tour até Maroochydore, onde fica o Australia Zoo, propriedade do caçador de crocodilos. Crocodilo Dundee? Nãão! Estou falando de Steve Irwin! Hoje muito mais famoso e comemorado do que seu compatriota fictício.
Após uma bem sucedida carreira como naturalista e celebridade televisiva, Irwin morreu em 2006, ferido no coração por uma arraia enquanto gravava um documentário na Grande Barreira de Corais. Morreu e virou instantaneamente um mito (ou, devo dizer, um culto?) na Austrália, com direito até a sósias zumbis assombrando as festas de Halloween. Você entra nas lojas e vê boneco do Steve Irwin, material escolar do Steve Irwin, animais de plástico do Steve Irwin, walkie talkie do Steve Irwin, bússola do Steve Irwin, toda uma série de brinquedos do Steve Irwin. Aqui e acolá, às vezes vê-se um pôster grandão, com o bloke segurando um crocodilo e fazendo uma cara de… Steve Irwin.
Valeu, Steve! Infelizmente eu não fui ao Australia Zoo porque seria uma mordidona de crocodilo nas minhas economias de mochileira.
Como vocês sabem a Austrália tem a maior população de crocodilos de água salgada do mundo, bem como uma grande população de tubarões atacando por toda a costa, e pra alimentar todos esses bichões só mesmo com muito surfista.
Durante o inverno austral você pode ir à praia que quiser e mesmo naquelas mais remotas e improváveis poderá ver surfistas aos cardumes. Eu tive a prova de que na Austrália tem muitos amantes do surf – mas digo, amantes MESMO, tarados – quando, ainda em Victoria, passei por Bells Beach (praia de origem de marcas famosas, como Quicksilver e Rip Curl) e num clima que era simplesmente glacial, perfeito pra pingüim e leão marinho, eu – que fiquei à beira do penhasco toda encapotada e tremendo que nem gelatina em cima de trio elétrico – vi um bando de malucos surfar no Mar da Tasmânia, enfrentando aquele vento assassino e as ondas abaixo de zero. Não sou católica, mas acho que deve existir uma Nossa Senhora do Surfe pra proteger aqueles caras.
E só mesmo na Austrália poderia existir uma cidade chamada Surfers’ Paradise!
Já disse que tenho um primo que fabrica pranchas de surf? Procure no Google pelo Boto Lasaitis e você verá. Mas como diz o ditado, casa de churrasqueiro, espeto de brócolis: nunca tive uma prancha de surf. Tive muita vontade de contratar uma escolinha para tomar umas aulas enquanto estava em Surfers Paradise, mas no fim acabou vencendo meu lado baleia branca das águas tropicais morrendo de frio no Pacífico Sul.
Mas eu me prometi que entraria no mar, e promessa é uma coisa que eu faço e nunca me cobro. Deixei minha bela marina em Surfers Paradise e peguei o ônibus para desembarcar horas depois em Byron Bay.
Apesar da homenagem, a cidade não faz nenhum jus a Lord Byron. Como definir Byron Bay, meudeus?
Imagine a cidade praiana mais tranqüila, mais vida boa que você conhece. Imaginou? É um pouco mais tranqüila e vida boa do que isso. Acrescente muita natureza, muito charme e muitas cores. Imagine uma cidade do tamanho ideal para não ter nenhum McDonalds, e onde metade do comércio são lojinhas de roupa indiana. Imagine pessoas tocando violão e guitarra em cada esquina nos finais ensolarados de tarde. Imagine praias desertas. Imagine ver por toda cidade surfistas molhados (e molhadas) carregando pranchas debaixo do braço. Imagine hippies circulando com suas kombis floridas. Imagine ônibus e muros pintados em cores psicodélicas. Imagine o que John Lennon imaginou… Imagine.
É o paraíso, velho!
Me hospedei num hostel que era outra versão daquela música Hotel California; affordable, com piscina, varandonas ao sol, café à vontade e de vez em quando umas panquecas for free no café da manhã. Ali eu preferia que o tempo não passasse.
A praia… a praia principal não é habitada, mas tangencia a cidade e é de fácil acesso. Bastante limpa e bonita. Tomei muita coragem e num dia de sol arrisquei dar um mergulho ao lado dos surfistas. Mas no inverno bate um vento frio e o entardecer é meio gelado. Eu me enrolava toda na canga e na toalha e ficava lendo de frente pro mar.
Explorar as galerias e lojas da cidade era uma delícia! Além de lojas de moda surf e indiana, Byron Bay tem grifes de roupa tribal e alternativa. Tudo bastante caro, é verdade. Passei mal provando as roupas maravilhosas da loja de moda tribal e não levei nada. Pouco depois, numa lojinha de moda neogótica e rockabilly nem com todas as forças pude resistir à tentação de comprar um corset!  Foi o maior luxo que me paguei nessa viagem.
De passagem, fiz amizade com outros turistas que estavam por lá: uma surfista da Nova Caledônia, uma dançarina exótica da Malásia, um australiano da construção civil… E íamos pra balada. É uma obrigação de todos os turistas em Byron Bay conhecer o Cheeky Monkeys, um pub muito divertido, cheio das brincadeiras e promoções. Todas as noites rolavam alguns quitutes de graça e joguinhos cujos prêmios variavam desde jarros de cerveja até estadias em hostel. Tomei bastante cerveja ganhada, o resto eu não lembro.
Outra coisa obrigatória a se fazer em Byron Bay é caminhar até o farol. Subindo o Cape Byron, de repente se chega a uma estrada com uma vista belíssima, de um lado a praia principal de Byron, do outro uma praia deserta, que só não é mais deserta porque tem surfista. Subindo até o farol, no alto de um penhasco, a visão é simplesmente paradisíaca, e lá no mar azul, se você prestar atenção, consegue ver as baleias saltando.
Outro passeio que eu achava obrigatório em Byron Bay é o tour para Ninbin. Ninbin é uma vila hippie que fica a uns 40Km de Byron Bay, você vai num ônibus pintado de arco-íris, parando durante o caminho em lagoas e cachoeiras.
Eu achava que iria chegar em Ninbin e ver uma comunidade hippie de verdade, como nos anos 70, mas quando cheguei lá descobri que Ninbin vive exclusivamente da sua fama de capital australiana da maconha (sim, a maconha é tão ilegal lá quanto aqui), e tudo o que há nas 2 ruas da cidade são lojinhas de roupa indiana e de souvenires que prestam tributo à marijuana. E claro, uma brisa com um cheiro bastante característico. Assim que chegamos em Ninbin nosso guia alertou para os biscoitos de marijuana que são vendidos na cidade: se você comer mais do que meio biscoitinho vai parar em Júpiter.  Só sei que não provei biscoitinho, não comprei souvenir, não viajei na brisa, não contribui com o museu da maconha, a única coisa que gostei mesmo de fazer em Ninbin foi ir a um bistrô e ganhar um café delicioso de uma garota para quem dei uma moeda do Brasil.
Cada um vê o arco-íris como prefere.
E no próximo episódio: SYDNEY!
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Australionauta, o relato – Parte 4

setembro, 24 - 2010

Depois de passar uma semana na Austrália central, tomei o avião para Brisbane.

Voando Qantas, você descobre o quanto a compania é poderosa na Austrália: opera a maior parte dos vôos comerciais e em aeroportos onde outras empresas não operam, dá nome e patrocina a seleção oficial de rugby da Austrália (Qantas Wallabies) e tem até um canal de televisão próprio para transmitir diariamente dentro das aeronaves. Não vou falar do charme das aeromoças, de blazerzinho azul com vestido de estampa aborígene, nem dos vinhos australianos de Barossa Valley oferecidos durante o vôo, mas… ops, já falei.

O aeroporto de Brisbane é uma sacanagem, cobra A$4 o aluguel do carrinho de malas. Eu estava carregadíssima, com duas mochilas cheias, uma pendurada na frente, outra nas costas, e uma mala laranja made in China com um carrinho que eu vinha cansando de remendar, e que foi despachada na esteira já sem as rodinhas. Não pago, não pago, não pago o carrinho do aeroporto, e fui toda atrapalhada arrastando a mala sem rodinhas por aí, até achar uma van que me levasse para a cidade.

Mesmo no inverno o clima de Brisbane é bom, pela primeira vez eu não tremia de frio. Passeei muito pelo centro da cidade, lotada de shoppings e boulevares charmosos, galerias antigas e bem conservadas, museus, casinos… Foi de certo modo um turismo de compras: comprei uma mala nova e joguei a laranja sem rodinhas fora, fiz compras no mercado, feira e comprei livros numa livraria especializada em ficção científica, fantasia e literatura policial. Brisbane tem um jeito muito de Brasil, mas é um Brasil utópico, com prédios lindos e bem conservados, parques idem, um rio limpo cortado por pontes surrealistas, ladeado de ciclovias, com parque aquático e praia artificial gratuitos e abertos ao público.

Eu já falei dos restaurantes japoneses da Austrália? Devido à grande imigração asiática, são muitos os restaurantes japoneses, chineses, tailandeses, vietnamitas, coreanos, indiandos… Mas os japoneses, em particular, já absorveram o conceito de fast food há muito tempo. Atenção temakerias brasileiras, vocês não estão com nada! Na Austrália os restaurantes japas têm uma vitrine semelhante à das sorveterias, onde variados rolinhos de sushi são expostos de acordo com os sabores. Os rolinhos têm umas duas ou três polegadas cada, metade do tamanho da folha de alga verde, é fácil para o sushiman fazer e fácil para o cliente escolher e comer, segurando no guardanapo mesmo, sem precisar de palitinhos e toda aquela parafernália que só torna mais caro. E o melhor: os rolinhos custam em média de A$2 a A$2.50, o que dá uns quatro reais cada. Dois rolinhos são o bastante para matar a vontade do amante de sushi e paga-se menos do que cobra a mais barata das nossas temakerias, consequentemente, o restaurante fica muito mais acessível e popular, e nos horários de almoço eu cheguei a ver filas que dobravam a esquina.

Passei cinco dias em Brisbane e depois peguei o ônibus para a Gold Coast.

O ônibus. Na Austrália a maior compania é a Greyhound Pioneer, que opera no país inteiro e com monopólio em algumas regiões. Tem opções de passagem que nunca vi no Brasil. Você pode comprar ticket por quilometragem, por período, ou por trechos, e o melhor de tudo: hop on/hop off! Significa que você pode ir parando e ficando nas cidades até completar todo o trajeto do trecho que você escolheu. Comprei um desses tickets para ir de Brisbane até Melbourne pagando A$216, preço salgadinho, mas para os padrões australianos foi uma pechincha.

A cidade must see da Gold Coast é obviamente Surfers Paradise. Já tinham me avisado: Surfers é balada, balada e balada! Você sabe que está chegando quando vê o céu povoado de arranha-céus chiquérrimos, e nas ruas o charme de Riviera Francesa tropical, com grifes caras, shoppings (coisa que mais tem na Austrália) e boulevares a beira mar.

Meu hostel ficava a quinze minutos de carro do centro, em Mariner’s Cove. Esse foi o hostel nota 10 da viagem, no segundo andar de uma marina, de frente para o mar e os hiates, com paredes de vidro e varandas imensas, tudo muito tropical e arejado. A paisagem compensava a distância e o isolamento. Eu ia para o centro na van gratuita do hostel, mas podia passear a qualquer hora por entre os barcos, podia ir a pé ao Sea World. Ao meu lado, hotéis de altíssimo padrão: Palazzo Versace, Sheraton Plaza, e o shopping Mariner’s Cove, cheio das lojas de grife, e eu feliz da vida no hotelzinho califórnia de 25 dólares.

A Gold Coast é uma espécie de Orlando australiana, lotada de parques temáticos. Ficando uma semana, fechei pacote para visitar 3 parques: Wet’n Wild, Sea World e Movie World. O Wet’n Wild foi a decepção: fui num dia chuvoso e frio, o parque estava vazio, metade das atrações não funcionavam, sozinha eu não podia ir nos toboáguas de bóias duplas e múltiplas (a desvantagem de viajar sozinha) e passei a maior parte do tempo morgando na piscininha quente. No dia seguinte, com sol, Movie World – o parque da Warner Bros. Foi o mais divertido. Uma espécie de conto de fadas hollywoodiano que misturava numa mesma esquina Batman, Super Man, Shrek, Scooby Doo, Looney Tunes, Marilyn Monroe, Harry Potter, e olhe que até souvenir do Crepúsculo vendia. O dia inteira tinha showzinho na praça principal, e as montanhas russas eram maravilhosas, com exceção da “Máquina Letal”, que era realmente uma máquina letal.

E que mais posso dizer? O desfile de personagens é a atração obrigatória, e eu achei interessante. Eu, que gosto de fantasias. Achei incrível a força de vontade do sujeito que tinha que se vestir de Batman e manter a cara de sério diante daquelas multidões de japoneses querendo tirar foto.

Por último o Sea World, também é um parque interessante, onde tudo se paga à parte. Quer tocar nos golfinhos? Paga à parte. Quer dar comida para os tubarões? Paga à parte. Quer andar de pedalinho? Pague no balcão. Mas para quem gosta de olhar bichos e de montanha russa, era bem interessante. Gostei particularmente de ter contato com as arraias, que eram de graça. As arraias nadam na beira do tanque e você pode acariciar as asinhas, acho até que elas gostam. Os tubarões são lindos, e os ursos polares são incríveis, uns bichões de 2 toneladas brincalhões feito cachorrinhos. Já a parte das crianças era patrocinada pela Vila Sésamo.

Entre o Sea World e o meu hostel tinha uma loja de frutos do mar que era também um fantástico (e concorrido) restaurante de fish and chips. Eu que sou uma peixólatra me acabei, e tive a insana ideia de comprar uma dúzia de ostras para o meu jantar. E assim, no hostel, experimentei pela primeira vez as tais das ostras, que comida mais sem graça! Fiz um minguado sashimi de salmão e fiquei com fome o resto da noite.

Mas em Surfers Paradise evoluí ainda mais no conhecimento da culinária japonesa-australiana. Fui a um restaurante japonês escondidinho nas galerias da cidade, daqueles onde os pratinhos passeiam de esteira hipnotizando os clientes, e pedi um sushi muito prático: vinha numa tigela, todo o arroz na parte de baixo e os pedaços de peixe todos na parte de cima. Menos trabalho, mais barato e mais gostoso também. Restaurantes japoneses do Brasil, aprendam!

Não fui nas baladas, mas freqüentei o pub da minha tranqüila marina, onde eu tinha acesso grátis à internet a partir do McDonalds. Adorava acordar e ir tomar meu café da manhã no McDonalds de Mariners Cove, onde pedia um bom café espresso, um muffin, e checava meus e-mails enquanto assistia os ricos de férias numa espécie de Revista Caras ao vivo.

Meu único lamento foi não poder ter viajado para o norte de Queensland, não ter visto Sunshine Coast, Cairns, Airlie Beach, a Grande Barreira de Corais e o Cape Tribulation.  Mas gostei do que vi, e Surfers Paradise vai me deixar saudades.

E no próximo episódio: Surfistas, hippies & lojinhas indianas, viva BYRON BAY e a marijuana!

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Australionauta, o relato – Parte 3

setembro, 24 - 2010
De Coober Peddy a Alice Springs é mais um dia de estrada.  Levanta-se antes do sol nascer, improvisa-se um breakfast ainda no escuro, e hit the road. O nascer do sol nos pega pelo caminho: a primeira pontinha surgindo do horizonte vermelho. Ainda na Austrália do Sul cruzamos a maior cerca do mundo, contra dingos e coelhos.
Mais à frente, já perto de Alice Springs, paramos na Camel Farm, uma fazenda que cria camelos de corrida, e, claro, damos uma voltinha em cima da corcova. Sacoleja…sacoleja… logo entendi por que os beduínos muitas vezes preferem andar ao lado dos camelos do que montados. Quando o camelo corre, então, é uma delícia, você acha que vai sair voando. Na Camel Farm também acariciamos um dingo que vive como cachorro, vimos cangurus, lhamas e emus. A parte mais engraçada foi ver um camelo sair pulando feliz atrás do trator que vinha lhe oferecer um cubo de feno.
No final da tarde chegamos a Alice Springs, e eu desmaiei de cansaço assim que cheguei ao backpacker. Teria pela frente uma semana em Alice Springs.
Alice é um oásis no coração da Austrália, cercada pelas montanhas McDonnel, cortada por um rio intermitente, a maior parte do tempo seco. Não tem nenhum prédio com mais de 3 andares e se bobear é bem menor que meu bairro, mas é a capital aborígene e tem aquele charme meio Crocodilo Dundee.  São muitas as lojas de souvenir e galerias de arte aborígene, e para quem quiser tem até oficina gratuita de didgeridoo. Mas a característica mais marcante é certamente a presença dos aborígenes.
Falemos dos aborígenes.
A história nos ensinou que toda colonização traz consigo uma grande dose de exploração e filhadaputagem, e nesse quesito os colonos australianos foram mestres.  Antes dos brancos chegarem à Austrália, lá viviam várias tribos aborígenes com suas culturas de 40 mil anos – eu disse: quarenta mil anos! – no seu modo de viver, oito vezes mais antigo do que a civilização que conhecemos. Para quem vê o outback, fica evidente que a sobrevivência nesse ambiente não é bolinho. Para sobreviver a ele é preciso aprender. Para encontrar água e comida e saber evitar as inúmeras plantas e animais venenosos, os nativos precisaram desenvolver e perpetuar um vasto conhecimento sobre o deserto, criaram uma cultura muito rica, e uma mitologia que dá a cada monumento, cada animal, planta e pedra uma história própria no Tempo do Sonho. A cultura aborígene tem leis próprias, proibições, punições, rituais, regras e código de conduta. Quando uma pessoa morre, dependendo do quanto ela é querida, o luto pode durar de uma semana a dez anos. Sendo nômades, não criaram uma relação de posse com a terra. Então vieram os brancos, e começaram a demarcar território com suas cercas, e soltar o gado nos campos. E os aborígenes, que não foram avisados, viam as vacas, tão bobas, e iam caçá-las. Os colonos, claro, abriam fogo contra os aborígenes e muitos deles assim foram mortos. Mas essas são histórias da época da colonização, certo? Errado. O absurdo é que até a década de 60 os aborígenes constavam na constituição como “fauna e flora”, e com quem matasse um aborígene não acontecia nada. Faz apenas 50 anos que oficialmente os aborígenes ganharam o status de seres humanos na Austrália.
Imagino que você já tenha ouvido falar da “geração roubada”. Em alguns lugares da Austrália (como Victoria, até onde sei), uma campanha do governo deu início ao roubo de uma geração inteira de crianças aborígenes, que eram tomadas à força de suas famílias e comunidades para serem criadas nas casas dos brancos e ensinadas dentro de uma cultura branca “superior”. O que aconteceu a muitas dessas crianças foi que elas foram privadas do contato com a sua cultura original de quarenta mil anos e também não se integraram por completo dentro da civilização branca. Apenas em 2007 o primeiro ministro da Austrália pediu perdão oficialmente pela geração roubada – tarde demais, e sem conserto.
Hoje em dia as comunidades aborígenes são protegidas pelo governo, mas quando vêm à nossa civilização os aborígenes enfrentam uma situação de quase-indigência, e é o que há de mais próximo à mendicância que você há de ver na Austrália. Quem não gosta de ter um supermercado perto de casa, comprar chocolate, frango, macarrão instantâneo, sucrilhos? É óbvio que é mais fácil para os aborígenes ir ao supermercado do que viver procurando raízes no deserto. Acontece que o organismo deles, acostumados durante milhares de anos a uma dieta frugal, não está adaptado para ingerir a tremenda quantidade de gordura e açúcar que consumimos. As doenças do nosso tempo: diabetes, hipercolesterolemia, hipertensão, obesidade, alcoolismo, atacam em cheio os aborígenes. Quando um adoece e vai para a cidade se tratar, a família toda o acompanha. O parente fica no hospital e os outros ficam por aí. Com o auxílio do governo, eles retiram dinheiro para sobreviver, ir ao mercado, comprar roupas, etc. Como o banho não é um costume nas comunidades aborígenes (onde a água é escassa), eles cheiram mal, e os hostels não aceitam hospedá-los. Então ficam vagando pelas esquinas, pelo leito do rio seco, dormem onde encontram um colchão de gramado verde. Nômades, ficam andando em círculos pela cidade como andam no deserto. E é assim que vemos aborígenes o tempo todo circulando por Alice Springs. Muito tímidos, não estão habituados a olhar nos olhos. E eu que também sou tímida, nem me aproximei.
Ainda em Melbourne havia contratado o “The Rock Tour” – um tour de 3 dias rumo ao Kings Canyon e ao Uluru Kata-Tjuta. Estava na hora de conhecer a pedrona.
20 turistas e um guia que se intitulava “mãe, pai, médico, baby sitter e enfermeira” do grupo durante 3 dias e 2 noites. Partimos para o oeste, primeira parada: Kings Canyon. Numa Austrália tão plana, foi até estranho ver montanhas tão altas e um canyon tão profundo. De início, uma boa escalada morro acima, agüentando o sol e – o pior – as moscas, que tem alguma fixação suicida por engolimento, pois voam direto para a sua boca. Esse foi o único trecho da viagem inteira em que eu realmente passei calor. Anda-se pelo alto do cânion aprendendo sobre as rochas e as plantas típicas – conhecimento aborígene – até chegar ao belíssimo jardim do éden, nas profundezas do cânion.
Na estrada novamente. Ao entardecer, paramos na estrada para recolher galhos secos para a fogueira. Primeira noite de acampamento sob as estrelas, numa região erma, sem outros confortos da civilização além de nossos sacos de dormir. No meio da madrugada eu acordo e, acima de mim, a Via Láctea, mais visível que nunca.
O segundo dia nos trouxe  uma tempestade. Desabaram cataratas sobre o outback. Chegamos ao parque nacional e fomos direto ao Kata Tjuta, ou os Olgas. Na chuva eu molhei a única blusa de moletom que havia levado, e o vento frio me desencorajou totalmente a seguir a excursão na caminhada pelos Olgas. Fiquei debaixo de um toldo, tiritando de frio, olhando as pedras de longe. Dos Olgas (Kata Tjuta) se vê o perfil distante da Ayers Rock (Uluru), e vice-e-versa. Na estrada de novo, fomos na direção do monólito. E ali estava a Ayers Rock, de pertinho, para a alegria de nossas câmeras fotográficas.
No final da tarde fomos para um lugar com mesas de piquenique onde os turistas de luxo pagam duzentos dólares para tomar champanhe vendo a Ayers Rock mudar de cor ao pôr-do-sol. Ali jantamos com o mesmo priviégio, mas sem tomar champanhe nem desembolsar grana. Ao cair da noite, nosso guia, o lendário Skippy, pôs para tocar Down Under no último volume e dirigiu em frenético zigue-zague pelo estacionamento do parque.
Na segunda noite o clima que pairou sobre o outback foi polar. Nosso acampamento, agora perto do parque nacional, tinha vestiário e chuveiros com água quente (minha salvação), mas iríamos dormir sob as estrelas de novo… e quem disse que dormiríamos? A temperatura caiu abaixo de zero e eu tremi a noite toda dentro do saco de dormir, sem conseguir sentir meus pés gelados, tive o sincero medo de ficar com hipotermia. Antes do sol raiar já estávamos de pé e prontos para embarcar. Tomaríamos o breakfast com vista para a pedra, disputando com hordas de turistas por um ângulo de fotografia no instante em que o sol raiou. Tomado o café da manhã, fomos caminhar ao redor da Ayers Rock, sob o seu vulto, ao sopé da pedra.
Imensa, uma pedra só, enterrada no solo na vertical. A Ayers Rock é como a ponta de um iceberg, sendo que os geólogos ainda não sabem exatamente qual o calibre subterrâneo da pedrinha. Mas é bonita, sim, com contornos graciosos, e um lindo jardim nativo em volta. A coloração da pedra se deve ao alto teor de ferro. A região esteve submersa por mar duas vezes, e a mistura de sal, ferro, sol e vento resulta na ferrugem. A pedra não está simplesmente erodindo, ela está enferrujando. Caminhando em torno do Uluru, nosso guia nos fala sobre cada trecho. O que os aborígenes faziam aqui e ali, onde era a creche, onde era a cozinha… Muitos trechos não podem ser fotografados, são sagrados para os aborígenes. Há lugares de um sagrado masculino que não podiam ser vistos pelas mulheres, há lugares de um sagrado feminino que não podiam ser vistos pelos homens. Claro que os turistas vêem de tudo e, a despeito da proibição, fotografam tudo. Tirei várias fotos das partes liberadas, mas por alguma maldição aborígene cometi um erro fatal na hora de salvar os arquivos, formatei o cartão e perdi quase tudas as fotos tiradas em Alice Springs e na Ayers Rock. Não me sobrou uma foto sequer do Kings Canyon, e quando me dei conta da cagada passei longos dias tentando me perdoar. Whatever…
Pode subir na Ayers Rock? Sim, mas é bastante desaconselhável. O Uluru é muito sagrado para os aborígenes, eles não podem proibir os turistas, mas pedem por favor para não subir. A escalada é péssima, não tem proteção e é terrivelmente perigosa, 35 turistas morreram nos últimos anos tentando escalar. E lá em cima não tem nenhuma atração, não tem McDonalds, não tem banheiro. Quem sobe, acelera o processo de erosão e ajuda a poluir o local (pois, como disse, lá em cima não tem banheiro).
Conta-se que no ano passado uma striper francesa escalou a Ayers Rock e fez um striptease lá no alto, o que foi uma ofensa terrível para os aborígenes. Quando desceu, foi deportada de imediato.
Nos despedimos da Ayers Rock, e à noite, de volta a Alice Springs, fomos ao pub encher a cara.
E no próximo episódio: QUEENSLAND – The Sunshine State
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Australionauta, o relato – Parte 2

setembro, 23 - 2010
Jet lag, você já teve?
É uma sensação gostosa. O relógio marca seis da manhã mas todas as células do seu corpo dizem que são 4 da tarde, você passa a noite em claro e tem vontade de comer lasanha no café da manhã.
A despeito de um fuso horário com 13 horas de diferença, por increça que parível eu não tive jet lag. Já no Brasil andava totalmente invertida, dormindo às 8 da manhã e acordando às 5 da tarde, quando fui para a Austrália entrei no fuso horário dos bons cristãos, acordando e dormindo cedinho.
Por falar em cristãos, li em algumas fontes que a Austrália é o país com a maior porcentagem de ateus na população e, na minha opinião, levando em conta a cultura, a educação e o nível de vida, não é de estranhar. Na Austrália são  poucas as Igrejas protestantes, dividindo o espaço com a igreja católica e a anglicana. Mas tem templos, claro, e arquitetonicamente muito bonitos, tirei várias fotos.
Em Melbourne duas atrações que deixei de comentar no tópico anterior são o Melbourne Aquarium e o Queen Victoria Market. Não sei se vocês sabiam, mas eu gosto muito de aquários, gosto tanto que não me atrevo a comprar um. Para quem curte, o Melbourne Aquarium é de cair o queixo. Logo na entrada você é saudado por dezenas de pingüins imperadores, e nas alas seguintes aprende sobre os fósseis escavados na Austrália (o terreno mais antigo do mundo), a missão australiana na Antártica, e segue para a ala dos aquários com biótopos do mundo inteiro (aquários amazônicos, do malawi, de Sumatra, de ciclídeos, tem até aquário do outback australiano).  O final reserva uma surpresa: uma sala enorme onde quem fica dentro do aquário somos nós, e os peixões, raias, tubarões e tartarugas nadam ao redor e sobre a cabeça dos visitantes, nos túneis. A visão de uma arraia gigante passando sobre sua cabeça é inesquecível!
Para compensar a ausência de uma 25 de Março e de um Mercado Municipal, Melbourne tem o Queen Victoria Market, três pavilhões cobertos com feirinhas onde você acha um pouco de tudo: roupas, souvenirs, cama mesa e banho, cafés, quitandas, vinhos, barraquinhas de legumes e frutas, padarias, docerias, açougues, peixarias, lojinhas que vendem os mais variados petiscos para comer na hora ou levar pra casa. Faltou só o bom pastel de feira com caldo de cana, mas aí já é pedir demais.
E parques! Quantos parques! As cidades australianas são muito verdes, todas com muitos parques, praças e jardins botânicos. Os subúrbios são imensos, povoados com aquelas casinhas fofas do tipo que se vê em filme, com varandinha, jardim e normalmente sem muros ou cercados. Nada de prédios, para construir mais do que dois andares é preciso permissão especial. Por essas e outras, os prédiões só se vê mesmo no centro das grandes cidades. A Austrália é plana, literalmente plana. E apesar do vazio demográfico, o trânsito tem seus momentos de caos.
Uma grande preocupação dos australianos, sobretudo os australianos de Victoria, é a água. Diferentemente do Brasil, a Austrália não tem vastos lençóis freáticos nem aqüíferos generosos. Uma imensa porção do centro-norte do país, englobando praticamente todo o outback, foram cobertas por mar em duas ocasiões de sua história geológica e o terreno é salgado. Acrescente ainda que o padrão de chuvas da Austrália é o menos confiável do mundo e, para colocar a cereja no bolo, os colonos devastaram 99% da mata nativa, fodendo de vez com o ciclo da água. O reservatório de água no subsolo australiano é finito, não se renova, diminui a cada ano. A previsão é que nos próximos 15 anos o estado de Victoria será obrigado a importar água de outras regiões da Austrália (que não estão em situação muito melhor) e/ou passar a dessalinizar a água do mar (um processo caríssimo). O problema da água é generalizado e na Austrália, em todos os banheiros de hostel em que entrei para tomar banho, havia um cartaz pedindo que não passássemos dos 4 minutos no chuveiro (encontrei um francês que me contou que em Melbourne se hospedou em um lugar onde tocava o alarme no hostel inteiro caso o hóspede passasse dos famigerados 4 minutos).
Depois de 15 dias em Melbourne, fechei a mala segui para a Southern Cross Station, uma moderna estação de trens e ônibus com arquitetura arrojada e teto ondulado, para pegar o bus que me levaria numa viagem de um dia inteiro para o oeste, até Adelaide.
Seguindo para o interior de Victoria, andando o dia inteiro, o que se vê são plantações e gado. De vez em quando uma cidadezinha típica do interior australiano, com duas dúzias de casas, totalmente silenciosas e vazias, onde todo movimento que se vê é uma bola de feno atravessando a rua ou, com sorte, um velhinho passeando pela calçada de cadeira motorizada. Cidadezinhas para se morrer de tédio. Em uma dessas cidades anônimas, desci do ônibus e comprei uma porção de fish and chips (uma iguaria na Austrália!) carregados de óleo e curti uma azia o restante da viagem.
Carregada de malas, cheguei à noite em Adelaide para conhecer o pior hostel que pegaria durante a viagem, um tal de Oz Backpacker. Por sorte, durante uma só noite. E eu estava tão cansada (e ainda doente) que nem tive muito tempo de me incomodar com os quartos mofados e bagunçados, os banheiros não exatamente limpos e com as vidraças quebradas que deixavam passar um ventinho gélido, ou o vestiário bissex (detalhe que só descobri quando um sujeito entrou para tomar banho na cabine ao meu lado).  Depois de algumas horas desmaiada na cama do Oz, levantei ainda de madrugada para tomar a van que me levaria a Alice Springs. E lá fui eu rumo ao outback, sem sequer ter conhecido a Adelaide em que pisei.
Meu tour para Alice Springs tinha 7 pessoas, contando o motorista, fantasiado de safári australiano dos pés à cabeça.  Muito frio na estrada. Amanhecendo o dia, vimos o último braço do mar no sul da Austrália, em Port Augusta. Dali para a frente a paisagem tornava-se progressivamente mais inóspita e seca. Primeira parada: Flinders Ranges. Uma cordilheira rasa na paisagem, tão antiga quanto a Terra, e que no passado abrigara montanhas mais altas que o Everest. Observando-a ao longe, conversamos sobre fósseis. No solo da Austrália tem sido encontrados os fósseis de invertebrados mais antigos, datados de mais de um bilhão de anos atrás.
A estrada do outback é bem pavimentada e corre ao lado da linha do The Ghan, o famoso trem “trans-outbackiano”. De vez em quando, um lugar para parar o carro e fazer pique-nique, ou uma roadhouse com posto de gasolina. O outback não é necessariamente distante da civilização. Paramos para almoçar num desses descansos de estrada, frente a um lago de sal, que nunca se viu tão cheio, e cuja água – disse o guia – era ainda mais salgada que a do Mar Morto. Algumas regiões do outback estão abaixo do nível do mar, e duas vezes no passado o coração da Austrália se encheu de água.
O inverno no outback é frio pra valer. Vento gelado, noites congelantes. Mas avisaram-me que eu não ia querer conhecê-lo no verão, quando se torna uma fornalha cheia de moscas.
Dá pra ver canguru? De dia, não. Os cangurus e wallabies (como quase todos os outros animais do deserto) têm hábitos noturnos, e geralmente são mais visíveis nas estradas depois do pôr-do-sol. Muitos são atropelados. Animais que se vê com freqüência são os emus. De vez em quando, camelos.
No final da tarde a excursão chegou a Coober Peddy, a cidade das minas de opala. Coober Peddy foi invadida por mineiros quando se descobriu lá a maior jazida de opalas do mundo – e opalas de uma qualidade única, nunca dantes vista. Muita gente enriqueceu, e na própria cidade desenvolveram-se tecnologias novas de escavação do solo. As máquinas foram abrindo galerias no chão e os mineiros, muito convenientemente, lá foram se instalando.  Hoje em dia a maioria das casas, hotéis, lojas e até uma igreja ficam debaixo do chão, nas minas desativadas.
Quando se chega em Coober Peddy, percebe-se que ficar debaixo da terra é uma delícia: lá fora um frio de trincar os dentes, e dentro da terra, quentinho. No verão, o inferno lá fora, e debaixo do solo, fresquinho. Fomos instalados em um hostel com várias galerias debaixo do solo, e saímos à noite para conhecer a cidade. Depois da janta, uma passada no orfanato de cangurus.
O orfanato de cangurus é tocado por um casal, donos de uma loja de arte aborígene, que dedicam grande parte de seu tempo e dinheiro para acolher os joeys (filhotes de cangurus) resgatados das bolsas das fêmeas atropeladas na estrada. Enquanto os pais adotivos contavam sobre o trabalho que dá criar cangurus, demos amendoins para dois canguruzinhos jovens, já praticamente adolescentes, e depois pegamos no colo o caçula, que ainda passa a maior tempo numa bolsa postiça.
Findo o passeio, voltamos tiritando de frio para nossa confortável cama dentro da terra, quentinha, sem janelas e sem estrelas.
E no próximo episódio: AYERS ROCK!