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Australionauta, o relato – Parte 1

setembro, 22 - 2010

Acabo de voltar de uma viagem de 71 dias por terras oceaníacas, e… bem, por onde começar? Por onde se começa a contar todas as facetas de uma aventura de dois meses e meio? Que medo, faz tanto tempo que não escrevo que às vezes perco a segurança na contação de histórias.
Mas com porções de ficção e não ficção, dou início ao relato da loura australionauta.
AUSTRÁLIA! Austrália… Sempre quis ir para a Austrália.
Por que? Não sei explicar. Acho que era uma vontade de visitar minha utopia pessoal de um Brasil de primeiro mundo. Também um sonho de fuga temporária. Um sonho de descoberta. A questão é que eu era tão louca para conhecer a Austrália que há muitos anos vinha articulando um jeitinho de realizar a empreitada. Foram anos juntando o dinheirinho das bolsas, fazendo planos, estudando mapas, colecionando pilhas de material informativo… A ideia só começou a tomar contornos de realidade quando em 2008 soube do International Congress of Applied Psychology 2010, um congressão da área de psicologia marcado para acontecer em Melbourne. Era tempo suficiente para que eu conseguisse terminar as pesquisas do meu mestrado, me inscrever e pedir uma ajuda do departamento para ir ao meu primeiro congresso internacional.
E 2010 chegou; fim de mestrado, tese entregue, artigo em andamento, e os primeiros meses focados na ida ao congresso. Consegui um auxílio da AFIP para ir à Austrália apresentar dois trabalhos, eu estenderia a viagem por conta própria para passar sessenta dias na Austrália (esticadinha perfeita para incluir o 68º World Science Fiction Convention, em Melbourne, no mesmíssimo local) e outros dez na Nova Zelândia. E nem três meses atrás, em julho, eu estava de malas prontas, exultante, partindo para o aeroporto.
Interessam causos de avião?
Meu primeiro avião, de São Paulo a Santiago, me deu um vôo inesquecível. Você já passou por turbulências? Sabe aquela sensação que se tem naquelas torres de parque de diversão que te mandam pro alto numa cadeirinha e aí despencam? Perda súbita de gravidade… que delícia, estou no espaço! Sacode avião, aeromoça sai correndo com o carrinho de bebidas, a luz falha, os passageiros gemem de medo. Minha mão gelada e eu tensa olhando pela janelinha “ai, essa m**da vai cair!”. O avião sacode outra vez e instintivamente eu e a velhinha ao lado nos damos as mãos. Ela sente meus dedos frios encharcados de suor e diz:
– Eu era aeromoça! Fica tranqüila.
Então tá, tia. Mas as turbulências do primeiro foram suficientes para que eu sentisse trauminha de avião em todos os outros 9 vôos que eu deveria pegar pelo restante da viagem.
São Paulo, Santiago. Santiago, Auckland. Auckland, Melbourne. Como demora a viagem para a Austrália! E como é incrível cruzar o oceano no encalço da noite e viver 24 horas de escuridão. Assim que o Sol raiou eu vi do alto os primeiros contornos de terra, a Austrália bem debaixo dos meus pés.
Fiz amizade com uma chilena durante o vôo, e com ela ganhei uma carona de graça até o centro de Melbourne.


Melbourne, no auge do inverno, que cidade fria! E essas casas inglesas, a Europa é aqui? Uma Europa austral, sem neve. Cool, em todos os sentidos. O centro me pareceu tão londrino, ou novaiorquino (não sei, nunca estive em Londres ou Nova Iorque), de avenidas amplas, assépticas, povoadas de bondinhos (os trams), arranha-céus de vidro, prédiões antigos, pessoas de preto, árvores peladas de folha do Canadá, bistrôs e cafés, lojas fast-food e de conveniência. Detalhe para o sinal sonoro da travessia de pedestres, que de repente dispara te apressando: vai, corre, corre!

Mais tarde eu iria descobrir que todas as grandes cidades australianas têm uma Elizabeth Street, e sempre é uma rua interessante de se transitar, fortemente comercial, com casas de câmbio, supermercados, lojas de souvenir, shoppings, restaurantes, e muitas lojas. E o que dizer do Circle Tram? O muito charmoso e conveniente bondinho grátis de Melbourne, me levando para os lugares must see.


Logo no meu primeiro dia fui conhecer o IMAX, que tem em toda cidade grande australiana, onde assisti Eclipse em 2D com todo aquele sangue e açúcar (não, não foi uma grande estréia). No dia seguinte reencontrei minha amiga chilena e conheci pontos turísticos de Melbourne, a Federal Square, Flinders Street Station. Fui ver a mostra do Tim Burton na galeria, que incluía um extenso acervo de desenhos, polaróides, esculturas, filmes, figurinos e poesias da autoria do próprio. Só tenho um comentário: veeelho, Tim Burton é um gênio inesgotável! Criativo e, sobretudo, produtivo. O tamanho do acervo é impressionante e fiquei até emocionada em ver de pertinho os figurinos do Edward Mãos de Tesoura, da Mulher-Gato, da Alice e do Chapeleiro Maluco.


Mas o congresso estava para começar e eu fui conhecer o outro lado do rio Yarra. O rio Yarra! Ah se o Tietê fosse assim! Limpo, com patinhos e barquinhos, as duas margens repletas de parques e ciclovias, pontes modernas e o panorama incrível dos prédios de Melbourne. Pertinho do meu hostel, cruzando o rio, ficava o Melbourne Convention and Exhibition Centre, um pavilhão… ão…ão…ão daqueles que fazem eco, um prédio recente e hipermoderno onde estavam para acontecer o congresso de psicologia e, dois meses depois, o Worldcon.


Ah, imenso congresso! Eram mais de 20 palestras acontecendo ao mesmo tempo, eu sozinha, perdida em meio a hordas psicológicas do mundo inteiro, condicionada em inglês, recompensada com cookies, frutas e café aguado servido nos coffee breaks, e o cenário lindo dos prédios por trás daquelas paredes de vidro. Perdeu, Freud!
Fiz amizade com um grupo de psicólogos sulafricanos que vivem na Austrália e à noite fomos jantar num restaurante sulafricano, onde experimentei carne de canguru (e descobri, deprimida, que a Austrália dói no bolso). Dói, mas você também descola umas barbadas. Nos primeiros dias conheci meu colega de internet que mora em Melbourne, o Sushim, indiano, e ele me levou para conhecer o Crown Casino e um restaurante de frutos do mar onde se paga $20 dólares pela boca livre, incluindo, de quebra, um quilo de camarões graúdos por pessoa. Acabamo-nos.


Após os seis dias de congresso tive tempo para maiores estudos antropológicos da Terra Australis. Cosmopolita, cosmopolita é a palavra! Navegando nos trams, cozinhando no hostel, andando por aí eu ouvia todas as línguas, todos os sotaques, e conversava com todo mundo. Os australianos, muito gentis e atenciosos, vinham do nada puxar conversa: “hi, how are you today?”, tanta cordialidade que para o brasileiro desconfiado é até difícil de acostumar. Também muitos orientais, tímidos, mais na deles. E me intrigava não saber de que buraco saía tanto alemão. Conheci um casal de italianos muito simpáticos (e atrapalhados), com uma história inacreditável: haviam comprado passagens para ir da Itália à Sydney, e foram parar… no aeroporto Sydney, no Canadá! Virou notícia até na televisão.
Contei que fiquei doente? Passei meus primeiros quinze dias rouca, com tosse e o nariz sangrando. Fiz turismo no hospital (duas vezes!), fui diagnosticada com sinusite e faringite e provei dos antibióticos australianos, tudo muito controlado e com a receita apreendida na farmácia. Fiz bom uso do meu seguro saúde.
Foi-se o tempo em que as agências de intercâmbio podiam dizer que a Austrália é uma opção mais barata para os estudos. Antes, me pareceu cara como nunca. País desenvolvido com custo de vida alto, mercado imobiliário inflacionado, pouca gente para custear uma infra-estrutura fabulosa (mas nem sempre bem planejada). O melhor exemplo é a internet. Na Austrália, paga-se A$4 a hora de acesso à internet em qualquer lugar que se procure, e isso não é promessa de conexão rápida nem de download ilimitado. Acontece que existem algumas empresas que oferecem acesso à internet, cada qual oferecendo não apenas serviço, mas a própria infra-estrutura. Como na Austrália o total de usuários é pequeno, o custo de instalação e manutenção de toda essa infra-estrutura é altíssimo. E por aí vai. Agora entendeu o silêncio que pairou sobre este blog?
Em Melbourne fiz uma coisa muito sábia. Prevendo que passaria 2 meses viajando pela Austrália, minha preocupação era viajar mais gastando menos. Dormiria em hostels, viajaria de ônibus, faria compra nos supermercados… Para contratar serviços de turismo eu teria que comparar preços, e só pisando na Austrália para conhecer as opções mais baratas. Em Melbourne contratei uma empresa chamada Cheap AZ Travel, que me reservou hostels, passagens de ônibus e de avião e tours para a viagem inteira. Foi um bom negócio. Na Austrália o turismo backpacker é bem desenvolvido, os hotéis são tão caros que até os europeus com muito mais idade e dinheiro que eu se hospedavam nos bons e pagáveis albergues.
Anos atrás eu tinha comprado um quadro com a imagem dos 12 apóstolos da Great Ocean Road para colocar no meu escritório, agora estava tinindo para ir conhecê-los. A viagem pela Great Ocean Road custa cerca de A$95 para um dia inteiro, incluindo refeição. Na estrada, o pensamento que bate é: “ah, se eu alugasse um carro”. Não que a van de turismo seja ruim, mas a estrada é linda, cheia de praias vazias, cidadezinhas charmosas, pontos de observação, tem-se a vontade de ficar e explorar.


No meio do caminho paramos num acampamento de trailers, um lugar campestre, com bosques de eucaliptos, onde era possível ver os coalas em ação (cof, cof), dormindo nas árvores, e também os papagaios picaretas, que sobem em cima de você se estiver com comida. Em outro trecho, numa cidadezinha praiana chamada Lorne, um homem comendo um hambúrguer atraiu 30 pardais e umas 15 cockatoos numa lanchonete e fez a alegria dos turistas, pois cockatoos, além de fofas, não se intimidam se você chegar perto.


Mas os 12 apóstolos… os 12 apóstolos agora são 11 ou 10, de vez em quando cai um. É uma vista fabulosa, certamente, e o parque é invadido todos os dias por exércitos de turistas, especialmente japoneses com canhões fotográficos.

A viagem prossegue dos 12 apóstolos para a London Bridge, parando de trecho em trecho para visitar prainhas e outros monumentos esculpidos pelo mar. Eis que minha guia contou para o grupo uma história pitoresca…
A “London Bridge” era inicialmente ligada à porção de continente por um braço de rocha, que fazia uma ponte. Um dia, Dave, um cidadão da cidade de Townsville disse à esposa e aos filhos que faria uma viagem de negócios a Brisbane, quando na realidade viajou com a amante para Victoria. Os dois vieram para Melbourne e foram para a Great Ocean Road. Foram caminhar sobre a London Bridge e… no dia 15 de janeiro de 1990, às 4 da tarde, a ponte da London Bridge cai, isolando-a no mar, com Dave e sua namorada nela ilhados. Os dois acenam para um ônibus turístico, que vai até a cidade mais próxima pedir a ajuda. O auxílio vem, eficiente, com carros da defesa civil, helicóptero, resgate, e é claro, repórteres! E em Townsville, a família de Dave, que não sabia do paradeiro do papai, assiste pela televisão ao seu resgate ao lado da amante. O casamento, claro, não durou.


Histórias divertidas da Austrália.
E no próximo episódio: o OUTBACK!