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Australionauta, o relato – Parte 2

setembro, 23 - 2010
Jet lag, você já teve?
É uma sensação gostosa. O relógio marca seis da manhã mas todas as células do seu corpo dizem que são 4 da tarde, você passa a noite em claro e tem vontade de comer lasanha no café da manhã.
A despeito de um fuso horário com 13 horas de diferença, por increça que parível eu não tive jet lag. Já no Brasil andava totalmente invertida, dormindo às 8 da manhã e acordando às 5 da tarde, quando fui para a Austrália entrei no fuso horário dos bons cristãos, acordando e dormindo cedinho.
Por falar em cristãos, li em algumas fontes que a Austrália é o país com a maior porcentagem de ateus na população e, na minha opinião, levando em conta a cultura, a educação e o nível de vida, não é de estranhar. Na Austrália são  poucas as Igrejas protestantes, dividindo o espaço com a igreja católica e a anglicana. Mas tem templos, claro, e arquitetonicamente muito bonitos, tirei várias fotos.
Em Melbourne duas atrações que deixei de comentar no tópico anterior são o Melbourne Aquarium e o Queen Victoria Market. Não sei se vocês sabiam, mas eu gosto muito de aquários, gosto tanto que não me atrevo a comprar um. Para quem curte, o Melbourne Aquarium é de cair o queixo. Logo na entrada você é saudado por dezenas de pingüins imperadores, e nas alas seguintes aprende sobre os fósseis escavados na Austrália (o terreno mais antigo do mundo), a missão australiana na Antártica, e segue para a ala dos aquários com biótopos do mundo inteiro (aquários amazônicos, do malawi, de Sumatra, de ciclídeos, tem até aquário do outback australiano).  O final reserva uma surpresa: uma sala enorme onde quem fica dentro do aquário somos nós, e os peixões, raias, tubarões e tartarugas nadam ao redor e sobre a cabeça dos visitantes, nos túneis. A visão de uma arraia gigante passando sobre sua cabeça é inesquecível!
Para compensar a ausência de uma 25 de Março e de um Mercado Municipal, Melbourne tem o Queen Victoria Market, três pavilhões cobertos com feirinhas onde você acha um pouco de tudo: roupas, souvenirs, cama mesa e banho, cafés, quitandas, vinhos, barraquinhas de legumes e frutas, padarias, docerias, açougues, peixarias, lojinhas que vendem os mais variados petiscos para comer na hora ou levar pra casa. Faltou só o bom pastel de feira com caldo de cana, mas aí já é pedir demais.
E parques! Quantos parques! As cidades australianas são muito verdes, todas com muitos parques, praças e jardins botânicos. Os subúrbios são imensos, povoados com aquelas casinhas fofas do tipo que se vê em filme, com varandinha, jardim e normalmente sem muros ou cercados. Nada de prédios, para construir mais do que dois andares é preciso permissão especial. Por essas e outras, os prédiões só se vê mesmo no centro das grandes cidades. A Austrália é plana, literalmente plana. E apesar do vazio demográfico, o trânsito tem seus momentos de caos.
Uma grande preocupação dos australianos, sobretudo os australianos de Victoria, é a água. Diferentemente do Brasil, a Austrália não tem vastos lençóis freáticos nem aqüíferos generosos. Uma imensa porção do centro-norte do país, englobando praticamente todo o outback, foram cobertas por mar em duas ocasiões de sua história geológica e o terreno é salgado. Acrescente ainda que o padrão de chuvas da Austrália é o menos confiável do mundo e, para colocar a cereja no bolo, os colonos devastaram 99% da mata nativa, fodendo de vez com o ciclo da água. O reservatório de água no subsolo australiano é finito, não se renova, diminui a cada ano. A previsão é que nos próximos 15 anos o estado de Victoria será obrigado a importar água de outras regiões da Austrália (que não estão em situação muito melhor) e/ou passar a dessalinizar a água do mar (um processo caríssimo). O problema da água é generalizado e na Austrália, em todos os banheiros de hostel em que entrei para tomar banho, havia um cartaz pedindo que não passássemos dos 4 minutos no chuveiro (encontrei um francês que me contou que em Melbourne se hospedou em um lugar onde tocava o alarme no hostel inteiro caso o hóspede passasse dos famigerados 4 minutos).
Depois de 15 dias em Melbourne, fechei a mala segui para a Southern Cross Station, uma moderna estação de trens e ônibus com arquitetura arrojada e teto ondulado, para pegar o bus que me levaria numa viagem de um dia inteiro para o oeste, até Adelaide.
Seguindo para o interior de Victoria, andando o dia inteiro, o que se vê são plantações e gado. De vez em quando uma cidadezinha típica do interior australiano, com duas dúzias de casas, totalmente silenciosas e vazias, onde todo movimento que se vê é uma bola de feno atravessando a rua ou, com sorte, um velhinho passeando pela calçada de cadeira motorizada. Cidadezinhas para se morrer de tédio. Em uma dessas cidades anônimas, desci do ônibus e comprei uma porção de fish and chips (uma iguaria na Austrália!) carregados de óleo e curti uma azia o restante da viagem.
Carregada de malas, cheguei à noite em Adelaide para conhecer o pior hostel que pegaria durante a viagem, um tal de Oz Backpacker. Por sorte, durante uma só noite. E eu estava tão cansada (e ainda doente) que nem tive muito tempo de me incomodar com os quartos mofados e bagunçados, os banheiros não exatamente limpos e com as vidraças quebradas que deixavam passar um ventinho gélido, ou o vestiário bissex (detalhe que só descobri quando um sujeito entrou para tomar banho na cabine ao meu lado).  Depois de algumas horas desmaiada na cama do Oz, levantei ainda de madrugada para tomar a van que me levaria a Alice Springs. E lá fui eu rumo ao outback, sem sequer ter conhecido a Adelaide em que pisei.
Meu tour para Alice Springs tinha 7 pessoas, contando o motorista, fantasiado de safári australiano dos pés à cabeça.  Muito frio na estrada. Amanhecendo o dia, vimos o último braço do mar no sul da Austrália, em Port Augusta. Dali para a frente a paisagem tornava-se progressivamente mais inóspita e seca. Primeira parada: Flinders Ranges. Uma cordilheira rasa na paisagem, tão antiga quanto a Terra, e que no passado abrigara montanhas mais altas que o Everest. Observando-a ao longe, conversamos sobre fósseis. No solo da Austrália tem sido encontrados os fósseis de invertebrados mais antigos, datados de mais de um bilhão de anos atrás.
A estrada do outback é bem pavimentada e corre ao lado da linha do The Ghan, o famoso trem “trans-outbackiano”. De vez em quando, um lugar para parar o carro e fazer pique-nique, ou uma roadhouse com posto de gasolina. O outback não é necessariamente distante da civilização. Paramos para almoçar num desses descansos de estrada, frente a um lago de sal, que nunca se viu tão cheio, e cuja água – disse o guia – era ainda mais salgada que a do Mar Morto. Algumas regiões do outback estão abaixo do nível do mar, e duas vezes no passado o coração da Austrália se encheu de água.
O inverno no outback é frio pra valer. Vento gelado, noites congelantes. Mas avisaram-me que eu não ia querer conhecê-lo no verão, quando se torna uma fornalha cheia de moscas.
Dá pra ver canguru? De dia, não. Os cangurus e wallabies (como quase todos os outros animais do deserto) têm hábitos noturnos, e geralmente são mais visíveis nas estradas depois do pôr-do-sol. Muitos são atropelados. Animais que se vê com freqüência são os emus. De vez em quando, camelos.
No final da tarde a excursão chegou a Coober Peddy, a cidade das minas de opala. Coober Peddy foi invadida por mineiros quando se descobriu lá a maior jazida de opalas do mundo – e opalas de uma qualidade única, nunca dantes vista. Muita gente enriqueceu, e na própria cidade desenvolveram-se tecnologias novas de escavação do solo. As máquinas foram abrindo galerias no chão e os mineiros, muito convenientemente, lá foram se instalando.  Hoje em dia a maioria das casas, hotéis, lojas e até uma igreja ficam debaixo do chão, nas minas desativadas.
Quando se chega em Coober Peddy, percebe-se que ficar debaixo da terra é uma delícia: lá fora um frio de trincar os dentes, e dentro da terra, quentinho. No verão, o inferno lá fora, e debaixo do solo, fresquinho. Fomos instalados em um hostel com várias galerias debaixo do solo, e saímos à noite para conhecer a cidade. Depois da janta, uma passada no orfanato de cangurus.
O orfanato de cangurus é tocado por um casal, donos de uma loja de arte aborígene, que dedicam grande parte de seu tempo e dinheiro para acolher os joeys (filhotes de cangurus) resgatados das bolsas das fêmeas atropeladas na estrada. Enquanto os pais adotivos contavam sobre o trabalho que dá criar cangurus, demos amendoins para dois canguruzinhos jovens, já praticamente adolescentes, e depois pegamos no colo o caçula, que ainda passa a maior tempo numa bolsa postiça.
Findo o passeio, voltamos tiritando de frio para nossa confortável cama dentro da terra, quentinha, sem janelas e sem estrelas.
E no próximo episódio: AYERS ROCK!
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3 comentários

  1. “…a Austrália é o país com a maior porcentagem de ateus na população e, na minha opinião, levando em conta a cultura, a educação e o nível de vida, não é de estranhar.”

    Então não sou só eu que penso que isso? Rs!

    Adorei essa foto de igreja. Aliás, se há um mérito do cristianismo como instituição contra os seus muitos deméritos históricos, é a arte sacra. Ô coisa bacana de se ver. Em Roma, é tanta igreja que chega a enjoar rs.

    Ficou linda sua foto no aquário, por alguma razão o ambiente tem tudo a ver com você (mesmo sem considerar seu gosto pelo aquarismo). E o lugar deve ser o máximo! 😉

    Esse lance dos alarmes anti-banho longo é ALARMANTE mesmo. De arrepiar qualquer brasileiro mal-acostumado com água à vontade. As chuvas andam raras e mesmo assim ainda não se fala em racionamento. Acho que poderíamos aprender algo com os australianos sobre poupar recursos. Pelo menos parece que a secura australiana é um ponto favorável à arqueologia.

    E esse vestiário vale-tudo? Bizaaaarro.

    Muito curioso o orfanato de cangurus! Nunca imaginei que existisse esse tipo de trabalho voluntário para cangurus, assim como aqui temos os grupos de resgatadores e cuidadores de gatos e cães abandonados. Acho que eu teria mútiplos acessos de fofice num lugar desses, rs. E depois passar a noite num subterrâneo cheio de histórias. Incrível!

    Aguardo novos capítulos da saga. 🙂


  2. Mi, se você fosse australiana estaria fazendo trabalho voluntário na “confraria dos miados, latido e pulos”!
    Mas criar canguru dá uma trabalheira, sô! É atenção 24 horas.


  3. […] Australionauta, o relato – Parte 2 […]



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