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Australionauta, o relato – Parte 3

setembro, 24 - 2010
De Coober Peddy a Alice Springs é mais um dia de estrada.  Levanta-se antes do sol nascer, improvisa-se um breakfast ainda no escuro, e hit the road. O nascer do sol nos pega pelo caminho: a primeira pontinha surgindo do horizonte vermelho. Ainda na Austrália do Sul cruzamos a maior cerca do mundo, contra dingos e coelhos.
Mais à frente, já perto de Alice Springs, paramos na Camel Farm, uma fazenda que cria camelos de corrida, e, claro, damos uma voltinha em cima da corcova. Sacoleja…sacoleja… logo entendi por que os beduínos muitas vezes preferem andar ao lado dos camelos do que montados. Quando o camelo corre, então, é uma delícia, você acha que vai sair voando. Na Camel Farm também acariciamos um dingo que vive como cachorro, vimos cangurus, lhamas e emus. A parte mais engraçada foi ver um camelo sair pulando feliz atrás do trator que vinha lhe oferecer um cubo de feno.
No final da tarde chegamos a Alice Springs, e eu desmaiei de cansaço assim que cheguei ao backpacker. Teria pela frente uma semana em Alice Springs.
Alice é um oásis no coração da Austrália, cercada pelas montanhas McDonnel, cortada por um rio intermitente, a maior parte do tempo seco. Não tem nenhum prédio com mais de 3 andares e se bobear é bem menor que meu bairro, mas é a capital aborígene e tem aquele charme meio Crocodilo Dundee.  São muitas as lojas de souvenir e galerias de arte aborígene, e para quem quiser tem até oficina gratuita de didgeridoo. Mas a característica mais marcante é certamente a presença dos aborígenes.
Falemos dos aborígenes.
A história nos ensinou que toda colonização traz consigo uma grande dose de exploração e filhadaputagem, e nesse quesito os colonos australianos foram mestres.  Antes dos brancos chegarem à Austrália, lá viviam várias tribos aborígenes com suas culturas de 40 mil anos – eu disse: quarenta mil anos! – no seu modo de viver, oito vezes mais antigo do que a civilização que conhecemos. Para quem vê o outback, fica evidente que a sobrevivência nesse ambiente não é bolinho. Para sobreviver a ele é preciso aprender. Para encontrar água e comida e saber evitar as inúmeras plantas e animais venenosos, os nativos precisaram desenvolver e perpetuar um vasto conhecimento sobre o deserto, criaram uma cultura muito rica, e uma mitologia que dá a cada monumento, cada animal, planta e pedra uma história própria no Tempo do Sonho. A cultura aborígene tem leis próprias, proibições, punições, rituais, regras e código de conduta. Quando uma pessoa morre, dependendo do quanto ela é querida, o luto pode durar de uma semana a dez anos. Sendo nômades, não criaram uma relação de posse com a terra. Então vieram os brancos, e começaram a demarcar território com suas cercas, e soltar o gado nos campos. E os aborígenes, que não foram avisados, viam as vacas, tão bobas, e iam caçá-las. Os colonos, claro, abriam fogo contra os aborígenes e muitos deles assim foram mortos. Mas essas são histórias da época da colonização, certo? Errado. O absurdo é que até a década de 60 os aborígenes constavam na constituição como “fauna e flora”, e com quem matasse um aborígene não acontecia nada. Faz apenas 50 anos que oficialmente os aborígenes ganharam o status de seres humanos na Austrália.
Imagino que você já tenha ouvido falar da “geração roubada”. Em alguns lugares da Austrália (como Victoria, até onde sei), uma campanha do governo deu início ao roubo de uma geração inteira de crianças aborígenes, que eram tomadas à força de suas famílias e comunidades para serem criadas nas casas dos brancos e ensinadas dentro de uma cultura branca “superior”. O que aconteceu a muitas dessas crianças foi que elas foram privadas do contato com a sua cultura original de quarenta mil anos e também não se integraram por completo dentro da civilização branca. Apenas em 2007 o primeiro ministro da Austrália pediu perdão oficialmente pela geração roubada – tarde demais, e sem conserto.
Hoje em dia as comunidades aborígenes são protegidas pelo governo, mas quando vêm à nossa civilização os aborígenes enfrentam uma situação de quase-indigência, e é o que há de mais próximo à mendicância que você há de ver na Austrália. Quem não gosta de ter um supermercado perto de casa, comprar chocolate, frango, macarrão instantâneo, sucrilhos? É óbvio que é mais fácil para os aborígenes ir ao supermercado do que viver procurando raízes no deserto. Acontece que o organismo deles, acostumados durante milhares de anos a uma dieta frugal, não está adaptado para ingerir a tremenda quantidade de gordura e açúcar que consumimos. As doenças do nosso tempo: diabetes, hipercolesterolemia, hipertensão, obesidade, alcoolismo, atacam em cheio os aborígenes. Quando um adoece e vai para a cidade se tratar, a família toda o acompanha. O parente fica no hospital e os outros ficam por aí. Com o auxílio do governo, eles retiram dinheiro para sobreviver, ir ao mercado, comprar roupas, etc. Como o banho não é um costume nas comunidades aborígenes (onde a água é escassa), eles cheiram mal, e os hostels não aceitam hospedá-los. Então ficam vagando pelas esquinas, pelo leito do rio seco, dormem onde encontram um colchão de gramado verde. Nômades, ficam andando em círculos pela cidade como andam no deserto. E é assim que vemos aborígenes o tempo todo circulando por Alice Springs. Muito tímidos, não estão habituados a olhar nos olhos. E eu que também sou tímida, nem me aproximei.
Ainda em Melbourne havia contratado o “The Rock Tour” – um tour de 3 dias rumo ao Kings Canyon e ao Uluru Kata-Tjuta. Estava na hora de conhecer a pedrona.
20 turistas e um guia que se intitulava “mãe, pai, médico, baby sitter e enfermeira” do grupo durante 3 dias e 2 noites. Partimos para o oeste, primeira parada: Kings Canyon. Numa Austrália tão plana, foi até estranho ver montanhas tão altas e um canyon tão profundo. De início, uma boa escalada morro acima, agüentando o sol e – o pior – as moscas, que tem alguma fixação suicida por engolimento, pois voam direto para a sua boca. Esse foi o único trecho da viagem inteira em que eu realmente passei calor. Anda-se pelo alto do cânion aprendendo sobre as rochas e as plantas típicas – conhecimento aborígene – até chegar ao belíssimo jardim do éden, nas profundezas do cânion.
Na estrada novamente. Ao entardecer, paramos na estrada para recolher galhos secos para a fogueira. Primeira noite de acampamento sob as estrelas, numa região erma, sem outros confortos da civilização além de nossos sacos de dormir. No meio da madrugada eu acordo e, acima de mim, a Via Láctea, mais visível que nunca.
O segundo dia nos trouxe  uma tempestade. Desabaram cataratas sobre o outback. Chegamos ao parque nacional e fomos direto ao Kata Tjuta, ou os Olgas. Na chuva eu molhei a única blusa de moletom que havia levado, e o vento frio me desencorajou totalmente a seguir a excursão na caminhada pelos Olgas. Fiquei debaixo de um toldo, tiritando de frio, olhando as pedras de longe. Dos Olgas (Kata Tjuta) se vê o perfil distante da Ayers Rock (Uluru), e vice-e-versa. Na estrada de novo, fomos na direção do monólito. E ali estava a Ayers Rock, de pertinho, para a alegria de nossas câmeras fotográficas.
No final da tarde fomos para um lugar com mesas de piquenique onde os turistas de luxo pagam duzentos dólares para tomar champanhe vendo a Ayers Rock mudar de cor ao pôr-do-sol. Ali jantamos com o mesmo priviégio, mas sem tomar champanhe nem desembolsar grana. Ao cair da noite, nosso guia, o lendário Skippy, pôs para tocar Down Under no último volume e dirigiu em frenético zigue-zague pelo estacionamento do parque.
Na segunda noite o clima que pairou sobre o outback foi polar. Nosso acampamento, agora perto do parque nacional, tinha vestiário e chuveiros com água quente (minha salvação), mas iríamos dormir sob as estrelas de novo… e quem disse que dormiríamos? A temperatura caiu abaixo de zero e eu tremi a noite toda dentro do saco de dormir, sem conseguir sentir meus pés gelados, tive o sincero medo de ficar com hipotermia. Antes do sol raiar já estávamos de pé e prontos para embarcar. Tomaríamos o breakfast com vista para a pedra, disputando com hordas de turistas por um ângulo de fotografia no instante em que o sol raiou. Tomado o café da manhã, fomos caminhar ao redor da Ayers Rock, sob o seu vulto, ao sopé da pedra.
Imensa, uma pedra só, enterrada no solo na vertical. A Ayers Rock é como a ponta de um iceberg, sendo que os geólogos ainda não sabem exatamente qual o calibre subterrâneo da pedrinha. Mas é bonita, sim, com contornos graciosos, e um lindo jardim nativo em volta. A coloração da pedra se deve ao alto teor de ferro. A região esteve submersa por mar duas vezes, e a mistura de sal, ferro, sol e vento resulta na ferrugem. A pedra não está simplesmente erodindo, ela está enferrujando. Caminhando em torno do Uluru, nosso guia nos fala sobre cada trecho. O que os aborígenes faziam aqui e ali, onde era a creche, onde era a cozinha… Muitos trechos não podem ser fotografados, são sagrados para os aborígenes. Há lugares de um sagrado masculino que não podiam ser vistos pelas mulheres, há lugares de um sagrado feminino que não podiam ser vistos pelos homens. Claro que os turistas vêem de tudo e, a despeito da proibição, fotografam tudo. Tirei várias fotos das partes liberadas, mas por alguma maldição aborígene cometi um erro fatal na hora de salvar os arquivos, formatei o cartão e perdi quase tudas as fotos tiradas em Alice Springs e na Ayers Rock. Não me sobrou uma foto sequer do Kings Canyon, e quando me dei conta da cagada passei longos dias tentando me perdoar. Whatever…
Pode subir na Ayers Rock? Sim, mas é bastante desaconselhável. O Uluru é muito sagrado para os aborígenes, eles não podem proibir os turistas, mas pedem por favor para não subir. A escalada é péssima, não tem proteção e é terrivelmente perigosa, 35 turistas morreram nos últimos anos tentando escalar. E lá em cima não tem nenhuma atração, não tem McDonalds, não tem banheiro. Quem sobe, acelera o processo de erosão e ajuda a poluir o local (pois, como disse, lá em cima não tem banheiro).
Conta-se que no ano passado uma striper francesa escalou a Ayers Rock e fez um striptease lá no alto, o que foi uma ofensa terrível para os aborígenes. Quando desceu, foi deportada de imediato.
Nos despedimos da Ayers Rock, e à noite, de volta a Alice Springs, fomos ao pub encher a cara.
E no próximo episódio: QUEENSLAND – The Sunshine State
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5 comentários

  1. Que inveja! Você viu um Moloch horridus de perto…


  2. E aí, botou a boca no trombone? Quero dizer: no didgeridoo?

    Fiquei impressionada com o tamanho da barbaridade praticada contra os aborígenes. Eu não tinha ideia do tamanho, nem de quanto tinha durado. :-S

    Tirando essa parte bobafeiachata a sua aventura está de fazer inveja. Keep it comin’!

    Beijão.


    • Obrigada Mi 🙂

      Eu até tentei, mas é difícil pegar o jeito do tal didgeridoo. Não quis comprar os CDs, mas tem músicas com didgeridoo que são bem dançáveis no sentido tribalístico da coisa.

      Beijos


  3. […] Australionauta, o relato – Parte 3 […]



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