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Australionauta, o relato – Parte 6

setembro, 28 - 2010

Não, nem tudo na Austrália funciona às mil maravilhas. Como por exemplo a internet. Ou como o ônibus desgraçado que peguei para viajar de Byron Bay a Sydney. Eita, viagem longa! Foram 12 horas noite adentro no busão cheio de baratas e sem bancos reclináveis. Um tédio. Um castigo. Sem conseguir dormir, queria ficar acordada. Sem conseguir ficar acordada, queria dormir. Revirava os olhos entre a consciência e o coma, e quando abria, via uma baratinha passeando no encosto do banco da frente… Argh!

A desvantagem é que depois duma viagem dessas você chega estragada. Sydney… Sydney é imensa, até mesmo para o padrão duma paulistana. Ainda tive que pegar taxi para o meu hostel que ficava perto da Harbour Bridge.

Sydney está entre as 10 cidades mais caras do mundo, e reluz a ouro. Meu hostel em Sydney foi o mais caro da viagem, só pelo luxo de ter vista para a ópera, mas valia a pena. Ali eu estava no The Rocks, um charmoso bairro antigo de Sydney, a um tropeço da Harbour Bridge, monstruosa, belíssima, e a poucos minutos de caminhada da Opera House, very impressive. Claro que a primeira coisa que eu fiz assim que larguei as malas e tomei um banho foi ir correndo me ajoelhar diante do monumento.

Ai a Opera, como é a Opera? Para falar de monumentos arquitetônico, vou usar uma comparação. Quando fui pra Brasília, olhei para o Palácio do Planalto e pensei: “é essa coisa mixuruca? Dava a impressão de ser tão maior!” Não é o tipo de impressão que se tem com a Opera House, que é realmente enorme e bela a cada ângulo que se olhe. De um lado da Opera tem-se um imenso jardim botânico que eu não tive muito tempo para explorar, apenas cumprimentei as cockatoos e fui embora. Do outro lado, há Circular Quay, com hotéis, lojas, restaurantes, bistrôs, ancoradouro de ferry boat e estação de trem. Muitas lojas de souvenir, e as mais caras, pra variar. Entrei numa loja atraída pelas lindíssimas máscaras do carnaval de Veneza, e, meio besta, perguntei à vendedora se elas tinham alguma coisa a ver coma a Austrália. A vendedora: tem a ver com a ópera!

Óbvio! Como não pensei nisso antes?

Levando-me do cartão postal até o centrão há a George Street, a avenida comercial mais quente de Sydney, com shoppings, galerias, bancos, pubs e todo o comércio que se pode imaginar. Tudo muito chique e moderno. E meio surrealista também: de repente você vê o monorail saindo de um prédio, andando suspenso pela rua e entrando em outro prédio, é bonitinho. O que me chamou muito a atenção foi a Apple Store, que em Sydney é uma “Apple Shopping”, gigante, com 3 andares, e sempre cheia. Não é de estranhar que o que eu mais via na mão dos australianos era iPhone.

Esqueci de dizer que meu hostel ficava bem acima de um sítio arqueológico. Pois é. Como se tratava do bairro mais antigo de Sydney, ali escavavam as relíquias da época da colonização da Austrália. Minhas companheiras de quarto também eram um diferencial. Partilhei a beliche com uma norte-americana que sabia tudo de literatura de ficção científica. Cada livro que eu citava ela já tinha lido, me senti tão feliz em achar alguém que me entendia! E a parte boa de se hospedar em hostel caro é que os turistas abandonam coisas muito boas na cozinha, às vezes eu fazia refeições inteiras com coisas pegas na free food shelf (estava escrito: “help yourself!”, e eu muito me ajudava).

A essa hora a síndrome de abstinência da internet começava a bater e eu pegava meu notebook e mergulhava no primeiro McDonalds. Comi fast food que nem uma doida. Supersize me, baby!

Mas não foram mais do que dois dias que fiquei aí, no coração de Sydney. Eu estava para embarcar numa viagem realmente nova.

Anos antes eu tive a ideia de tentar traçar a árvore genealógica da família Lasaitis com a ajuda da internet. No século XX os Lasaitis saíram da Lituânia e se espalharam pelo mundo. Fui encontrar ramos da família nos EUA e também na Austrália. O mais curioso: buscando no Google acadêmico, encontrei uma suposta prima australiana que fazia pesquisa biomédica, a Regina. Ainda naquela época escrevi a ela – do modo convencional, por cartinha – me apresentando e pedindo informações sobre eles, anexando fotos da família, e… Vendo fotos, concluímos que meu tio australiano e meu pai são parecidíssimos, fazendo as continhas, chegamos à teoria de que meu avô devia ser primo do avô da Reggie, o que nos fazia primas em sétimo grau (eu acho). Mantivemos a partir de então um contato, de vez em quando mandando cartões de Natal para o respectivo outro lado do mundo.

Agora eu estava na Austrália, e iria conhecer os Lasaitis australianos, e que eram muito mais lituanos da gema do que eu.

Num sábado de sol meu primo australiano Andrew veio me buscar no hostel e me levou para o subúrbio de Sydney, a um bairro fofo chamado Rhodes, onde conheci a matriarca da família, tia Júlia, e também conheci pessoalmente a Reggie. Logo eles me botaram no carro e embarcamos num passeio rumo às Blue Mountains, na região de Katoomba. Antes de ver as montanhas azuis, uma parada para conhecer mais primos. Agora eu estava num daqueles bairros tranquilíssimos, de uma cidadezinha ínfima, com casas de boneca e jardins abertos, sem cercas. Era a casa do Anthony, onde ele vive com a esposa e os dois filhos. Me receberam com vinhos e quitutes maravilhosos (meudeus, como cozinham!). Um lanche rápido, Regina e eu caímos na estrada e vamos para as Blue Mountains.

Blue Mountains é um parque nacional, com montanhas, trilhas e pontos de obsevação. O que se vê? Um monumento de pedra que os aborígenes chamam de Três Irmãs, e ao fundo um tapete de floresta que se perde no horizonte com as montanhas… tão longínquas que parecem azuis. Um silêncio, uma paz indizível…

Na volta Reggie me sugeriu tirar um dia para voltar a Katoomba e conhecer a cidade, coisa que fiz mais tarde. Katoomba é uma Campos do Jordão australiana, cidadezinha charmosa que parece embalsamada numa verve colonial, o que mais tem são lojas de antiguidades, sebos de livros muito velhos, cafés onde os velhos vão tomar café, adegas de vinhos, e mais lojas de antiguidades. Katoomba é um dos lugares na Austrália onde neva no inverno, e eu não ligaria nem um pouco de me hospedar num daqueles chalés durante alguns meses para escrever um livro e morrer de tédio. Seria um tédio com graça, um tédio bastante charmoso.

Na semana seguinte eu ficaria hospedada na casa da tia Júlia, no subúrbio de Sydney, à beira do mesmo rio que banha a Opera House, e teria a estranha e gostosa sensação de ter casa e uma família nova. Mas isso merece um capítulo à parte.

Próximo episódio: Lavando roupa e cozinhando em Sydney.