Archive for outubro \29\UTC 2010

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Relatos de Viagem

outubro, 29 - 2010

Encerrei, portanto, o ciclo australionauta e kiwinauta deste blogue. Quem quiser ler meu relato da viagem de dois meses e meio à Austrália e Nova Zelândia numa ordem coerente pode se servir dos links abaixo:

Australionauta, o relato – Parte 1

Australionauta, o relato – Parte 2

Australionauta, o relato – Parte 3

Australionauta, o relato – Parte 4

Australionauta, o relato – Parte 5

Australionauta, o relato – Parte 6

Australionauta – Interlúdio

Australionauta, o relato – Parte 7

Australionauta, o relato – Parte 8

Worldcon 2010/ Aussiecon 4 – o relato

Australionauta, a missão Kiwi – Parte 1

Australionauta, a missão Kiwi – Parte Final

E agora, com os pés bem fincados no Brasil e na rotina, com muito trabalho pela frente, voltamos à programação normal.

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Australionauta, a missão Kiwi – FINAL

outubro, 28 - 2010

A ilha sul da Nova Zelândia só tem um defeito: todo lugar para onde quer que você olhe é lindo. Eu ainda não tinha internalizado esse conceito, então tirava foto. Tirava foto, foto, foto até perceber que não tinha jeito, a paisagem iria me vencer.

Deve ser horrível morar num país tão lindo e tranqüilo, bate uma puta preguiça de trabalhar!

Por isso que os brasileiros estão ganhando espaço, me disse uma brasileira que encontrei no hostel. Ela tinha deixado um cargo de gerência no Brasil para ganhar 5 vezes mais trabalhando como garçonete na Nova Zelândia. Segundo ela, os empregadores gostavam, porque brasileiro trabalha pra valer. Para onde eu ia, ouvia português. A brasileirada invadiu a kiwilândia, estavam no mercado, nas lojas, nas agências, até no alto da torre de Auckland. Para quem tem vontade de fazer um curso de inglês no exterior, saiba que a Nova Zelândia é um país ótimo pra se falar português…

Embarcando no TranzAlpine, fiz a travessia da costa leste para a oeste através das montanhas, até a cidade Greymouth, de frente para o Mar da Tasmânia. Minha jornada seguia para Franz Josef, e eu não sabia direito qual a distância de uma cidade à outra (nessa aula de geografia eu faltei). Resultado: cheguei em Greymouth com 40 míseros dólares no bolso que foram para as mãos do motorista do shuttle que me levaria até o meu hostel em Franz Josef, e eu fiquei xingando pelo serviço caro. Caro? O ônibus deu a partida e seguiu em frente toda a vida, debaixo de chuva, atravessando montanhas, pontes, passando sobre os leitos pedregosos de rios onde Gandalf perdeu as meias, e florestas onde os hobbits perderam as cuecas, parando em cidadezinhas mínimas onde eu não conseguia fazer nenhum câmbio porque era um maldito domingo. E cadê Franz Josef? Franz Josef ficava numa curva atrás do fim do mundo!

Franz Josef não é uma cidade, é uma sujeirinha demográfica. Tem duas ruas, meia dúzia de hotéis e hostels, um mercado, um café, um pub, duas lojas de souvenir e uma agência de turismo de aventura.

E o que é que tem de tão atraente em Franz Josef?

Isso:

Franz Josef fica coladinha numa cadeia de montanhas enormes, que aninham um grande volume de neve, e a neve que vaza pela brecha das montanhas criou uma grande plataforma – um rio de gelo – o Franz Josef Glacier. Uma geleira permanente, em terra. É uma vista bonita, e atrai turistas que vão fazer trekking no gelo e até sobrevoar as montanhas de helicóptero.

Cheguei num dia chuvoso e frio, e achei Franz Josef um lugar maravilhoso pra se morrer de tédio, cercado de montanhas nevadas, selva exuberante (muitas, mas muitas samambaias) e aquela névoa misteriosa que parece acariciar perpetuamente os montes neozelandeses. Meu hostel, o Glow Worm Cottages, era uma espécie de chalézão alpino aconchegante. Me hospedei num quarto para 4 pessoas, junto a um trio de ingleses que viajavam a Nova Zelândia em Work & Holiday (seria tão bom se tivéssemos direito a essa mordomia estrangeira!).

No dia seguinte fui fazer caminhada na geleira. Me dirigi à agência e tive que trocar quase toda a minha roupa por roupas impermeáveis próprias para o frio. Me inseri no meio de dezenas de turistas e pegamos o ônibus até o parque da geleira, a cinco minutos de distância. Nossa guia era uma inglesinha loira, que nos conduziu por uma caminhada pela mata, até chegarmos ao leito do rio que escorre da geleira. Daí em diante é só subida num terreno pedregoso. Uma pausa para prender nas botas aquelas esporas de caminhada no gelo e seguir adiante, geleira acima, atravessando paredes brancas, crevassas, e todas aquelas formações glaciais que muito me lembraram o livro A Mão Esquerda da Escuridão da Ursula K. Le Guin.  Chegamos a uma plataforma de gelo e ficamos ali tirando fotos. Frio de verdade, minhas mãos congelavam ao vento. Dali a pouco, começamos a descida e o caminho de volta. O trekking de meio dia foi o bastante pra mim (eu, que sou bicho-preguiça).

Fui dormir cedinho para pegar o ônibus na manhã seguinte. Próxima parada: Queenstown!

O transporte na Nova Zelândia é muito caxias. Você marca com o motorista às 14:25, e quando é 14:24 ele vem virando a esquina. Cheguei a pegar shuttles antes da hora marcada, porque tanto eu quanto o motorista havíamos nos adiantado. Na Nova Zelândia o respeito aos horários é endêmico, boa lição deram esses ingleses! Os ônibus são metodicamente pontuais. Mas isso não é sinônimo de pressa, muito pelo contrário: o ônibus anda uma horinha e pára pra visitar uma cachoeira. Anda mais meia horinha e pára pra fazer xixi. Anda mais uma horinha e pára numa venda de frutas. Anda mais uma horinha e pára pro almoço. Anda mais meia horinha e pára pra ver a paisagem na beira da estrada… O transporte é indissociável do turismo, o que é muito compreensível. São montanhas, ovelhas, florestas, névoa, montanhas, rios, ovelhas e samambaias, e montanhas, névoa, ovelhas… E nesse ritmo eu levei o dia todo para ir de Franz Josef a Queenstown, passando por cenários que me davam vontade de virar uma pedrinha e me juntar pra sempre àquela paisagem.

E Queenstown?

Queenstown é uma cidade deprimente: você vai ficar deprimido pra sempre por não morar lá! Não é simplesmente uma cidade linda, é uma cidade que dói nos olhos, que enfeitiça a alma. Queenstown é insuportavelmente bela!

Uma cidade construída à beira de um lago de águas turquesa, cristalinas – água do derretimento da neve. Ao redor, por todos os lados, uma cadeia de montanhas nevadas faz parceria com as nuvens, abriga uma floresta de coníferas. O lago é recortado por penínsulas e morrinhos verdejantes, que ostentam parques floridos e povoados de árvores de muita personalidade, de folhas secas outonais, de flores exuberantes primaveris, de folhagens em cascata como os chorões inumeráveis… Gaivotas e patinhos de cabeça verde nadam distraídos no lago e nas lagoas. E a cidade, à beira do lago e dos parques, fervilha com calma e elegância. São prédios de arquitetura vitoriana, bulevares cosmopolitas, banheiros de ficção científica, comércio forte e organizado, charme, charme, charme em tudo. Turistas por todos os lados, vê-se muita gente carregando esquis e pranchas de snowboard debaixo do braço. Para os padrões neozelandeses é uma cidade grande, para os padrões brasileiros é uma cidadezinha, mas para o padrão geral é a cidade onde todos querem estar! De todos os lugares do mundo que conheci, Queenstown é o melhor para esquecer de tudo e curtir a paisagem.

Fiquei no Pinewood, uma rede de chalés-hostel. Dormi noites muito frias na minha casinha vermelha ao sopé da montanha, para acordar de manhã e descobrir que a neve dos picos tinha se renovado. Andar por Queenstown era uma delícia a qualquer momento, a vista me anestesiava as bolhas do pé.

No meu segundo dia em Queenstown fui fazer o famoso cruzeiro por Milford Sound, na terra dos fiordes. Peguei a van da agência de turismo cedinho e fomos naquele ritmo pára-aqui-pára-ali, pra ver os cenários mais mágicos que não couberam no trailer da Terra Média. Uma parada no Mirror Lakes, outra parada para andar na floresta até uma cachoeira furiosa, e mais uma parada para tirar fotos da nevasca que nos pegou pelo caminho.

Horas depois, chegamos ao cais de Milford Sound, onde subimos a bordo de um barco de passeio repleto de turistas asiáticos.

O que é Milford Sound? Para quem não está habituado com o conceito de fiordes, imagine um rio ladeado em toda sua extensão por montanhas altíssimas, nevadas, revestidas de uma mata verde exuberante, que terminam abruptamente criando desfiladeiros e corredeiras, dando origem a um belíssimo corredor de água ornado de cachoeiras e picos fabulosos, visitado por focas e pingüins, e mais: embalsamado naquela sonhadora névoa que paira sobre a Nova Zelândia.

É um ponto bastante meridional e peguei um clima muito frio, debaixo de vento gelado e chuva. Mesmo assim, deu pra tirar montes de fotos e curtir aquele cenário inóspito de outro mundo. O barco seguiu através de Milford Sound até o Mar da Tasmânia, onde deu meia volta e navegou contornando as montanhas, até voltar ao cais, três horas depois. Uma viagem curta para memórias tão duradouras.

A partir de Queenstown, leva-se o dia inteiro para ir e voltar de Milford Sound – 12 horas. Voltei para a cidade numa noite congelante.

E no dia seguinte, fui passear de gondola! Minha agente de turismo, a Mary, tinha me reservado um passeio de gondola e eu fiquei pensando: “puxa, que romântico! Pena que eu não tenho ninguém pra levar comigo”. Eu estava pensando que ia passear de barquinho no lago, do lado de um gondoleiro de terno listrado. Mas na verdade, “gôndola” são os bondinhos que sobem a montanha! O que não deixa de ter seu romantismo…

Em Queenstown tem um parque no pico da montanha mais próxima ao centro da cidade. Você sobe até lá de bondinho – ou gôndola – e lá no alto tem restaurante, loja de souvenir, teleférico, bungee-jumping, observatório e a pista de luge. O que é luge? Uma espécie de carrinho de rolemã. A vista, meudeus, a vista! A vista lá de cima é incrível! O alto da montanha estava coberto de neve – o que é um artigo que eu, como habitante dos trópicos, aprecio muito. Neve fresca e fofa, que pegava aos punhados e ficava olhando bem de pertinho para ver os cristais. E aí eu completei meu dia de criança feliz descendo a pista de luge, sentindo aquele ventinho gelado refrescante…

E quatro dias depois de ter chegado, parti de Queenstown em mais uma daquelas viagens pára-aqui-pára-ali através das paisagens de sonho, cheias de ovelhas, florestas, montanhas, lagoas turquesa, e ovelhas, névoa, montanhas… até Christchurch, meu ponto de partida na ilha sul.

Passei por uma cidadezinha chamada Wanaka, que lamentei não poder ficar. Parei por uma hora às margens do Lago Tekapo, de águas turquesas, aos pés do Mount Cook, o pico mais alto da Nova Zelândia. Pelo caminho comi lanchinhos deliciosos de salmão defumado. Passei por cidadezinhas fofas e pacatíssimas. Cheguei a Christchurch naquela mesma tarde para me hospedar no mesmo hostel – o Jailhouse – a cadeia, onde reencontrei minha colega brasileira, a Léia, e dividi o quarto com um batalhão de outras brasileiras que estavam por ali. Seria só uma noite, pois no dia seguinte – meu 11º dia na Nova Zelândia – eu estaria partindo.

No dia 17 de setembro de 2010 eu acordei às 6 da matina, tomei meu último café da manhã no Subway ao lado do hostel, fechei a mala, me despedi das brasileiras, peguei o shuttle para o aeroporto de Christchurch e embarquei num vôo da Air New Zealand para Auckland. Voei na névoa, aquela névoa kiwi que eu adorava. Duas horas depois, pousando em Auckland, comecei minha maratona para ir até a cidade, recolher a bagagem que tinha deixado no hostel, voltar para o aeroporto, fazer o check-in e embarcar no vôo internacional num intervalo de menos de 4 horas. A chuva e o congestionamento em Auckland não me ajudaram muito, é claro. Cheguei no aeroporto uma hora e meia antes do meu vôo partir, fiz o check in e fui almoçar achando que estava tranqüila. Entrei no embarque meia hora antes da partida do avião e – surpresa! – tinha fila na aduana. Meus últimos 15 minutos na Nova Zelândia foram uma correria louca e desesperada pelo saguão gigantesco do aeroporto de Auckland (leis de Murphy: meu avião tinha que partir do último portão, o mais distante), na qual quebrei todos os meus recordes de resistência física. Chegando vermelha, descabelada e espavorida no balcão da Lan Chile, o aeromoço me acalmou: afinal, eu não era a última passageira a embarcar – devia ser só a penúltima!

Me afundei no banco ao lado da janelinha onde teria 13 horas de oceano até Santiago, e de lá, mais 4 horas até São Paulo.

 

São Paulo - 11452Km

 

Decolei cansada e feliz, deixando sonhos realizados por terra – em terras distantes. Deixando um pedaço meu ali – talvez um braço – que junto com o outro que trago, me dão a sensação de poder abraçar o mundo. Saudade vai além do clichê, e “casa” é um estado de espírito. Perdida no subúrbio improvável de Sydney, mergulhando no Pacífico meridional, caminhando sobre as trilhas de formigas do outback ou sobre a geleira encravada nos picos neozelandeses, por todo esse tempo eu me senti em casa. Minha casa é enorme… Mas precisei vasculhá-la por inteiro para descobrir o lugar onde estava guardada a minha liberdade.

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Australionauta, a missão Kiwi – Parte 1

outubro, 21 - 2010

No caminho entre a Austrália e o Brasil encontrei a Terra Média, e não quis simplesmente passar passando. Quis parar para ver, para sentir, para descobrir se aqueles cenários que eu via no Senhor dos Anéis eram mesmo feitos de papelão pintado.

Claro né!

Mas aventura que é aventura de verdade tem que ter emoção. Na manhã do dia 4 de setembro, estava eu tomando meu breakfast no green room do Worldcon, relaxando com a vista fascinante de Melbourne, observando o movimentação de escritores mais e menos famosos, quando entra na sala uma mulher mandando avisar a todos os kiwis presentes que um terremoto de 7,5 graus havia atingido a Nova Zelândia!

E eu, boquiaberta, babei pedacinhos de muffin.  Havia decidido minha viagem pela Nova Zelândia na semana anterior, e estava para embarcar para Christchurch, o epicentro do terremoto, dentro de 4 dias!! Eu não conseguia parar de pensar que o terremoto por muito pouco não havia me pegado. Mas e agora que já paguei a viagem? – pensei – E agora?

Eu estava às cegas, sem saber qual era a situação na Nova Zelândia, se ainda existia possibilidade de visitar a ilha sul, se ainda existia gente na ilha sul, isto é, se ainda existia a ilha sul!!

Será que eu iria desembarcar e me encontrar na Ilha de Lost?

Sem informação suficiente e com todas essas angústias existenciais, eu fiz as malas e fui embora da Austrália naquela despedida lúgubre do capítulo anterior. Vi o dia amanhecer em alto mar, voando. Ansiosa no meu devaneio de Ícaro, e distraída com as aeromoças da Qantas desfilando os vestidinhos de estampa aborígene.

O feitiço me pegou ainda no avião. Quando, debaixo do meu ser aéreo, naquelas eternidades de mar azul-cinzento rebrilhando ao sol, vi surgir o primeiro braço de terra de Aotearoa. Uma península de montanhas sinuosas com verdes prados cravejados de ovelhinhas e abençoados por uma névoa misteriosa. Aquela terra, queixo-caível mesmo num dia cinzento, aquela terra era a Nova Zelândia!

E eu estava pousando nela.

Só, deixei o aeroporto. Peguei um shuttle para o centro da cidade e uma hora depois estava entregue ao Base Backpacker de Auckland, onde podia levantar minha cabeça loira e ver o vulto daquela torre magnífica, aquele totem pós-modernista que vigia a cidade nas noites iluminadas.

Eu devia estar eufórica, mas não tinha energia pra isso. Estava morta de cansaço, sem dormir havia dois dias. A primeira coisa que fiz quando cheguei ao backpacker foi tomar um banho e desmaiar. Não lembro se acordei e fui jantar. Não lembro se fui jantar desacordada. Talvez alguém tenha visto uma loira sonâmbula entrar no Burger King e pedir um whooper com batatas fritas e um refrigerante pink e depois fazer o caminho inverso para a cama. Talvez a sonâmbula ainda tenha tirado umas fotos à toa na noite. Talvez ainda tenha entrado no McDonalds para tentar acessar a internet gratuita. Ou não.

Mas no dia seguinte estava bem acordada para tomar meu café da manhã no Dukin’ Donuts, eu já tinha engordado um monte mesmo, não tinha peso para manter.  E ah… agora sim: Nova Zelândia!

Andei por Auckland feito uma barata tonta feliz. Entrei em centenas de lojas de souvenir, conheci o shopping center, as docas, almocei sushi barato, andei pela praça florida, pelas vielas charmosas, fui conhecer a torre de aço, de marfim, de sonho.

A torre de Auckland.

Peguei um elevador, subi, e lá no alto – eu, que adoro altura – fiquei rondando o deque principal. Meu cérebro entrando em parafuso enquanto tentava caminhar no chão de vidro, com centenas de metros de nada embaixo. 360 graus, e descobre-se que Auckland é uma cidade grande, a maior da Nova Zelândia, esse país com menos de 5 milhões de habitantes.

Me perdi na torre e fui parar em diferentes restaurantes que ficavam girando dentro do cilindro. Será que a comida era feita lá em cima ou subia?

Fui para o deque superior e vi as coisas mais alto. Mas tá bom né? Chega.

Saí da torre para passear e fui tropeçar em uma galeria repleta de lojinhas de moda japonesa, com vendedoras japonesas e aquelas roupinhas de rendas e frufrus! Estava eu, o cartão de crédito e o desespero de nunca mais voltar a ver lojinhas como aquelas. Não agüentei. Não dava. Minha drag queen interior não deixou! Voltei para o hostel cheia de pacotes.

Mas e o terremoto hein?

Chegando em Auckaland as notícias eram incertas. No meu quarto havia uma garota que também tinha acabado de chegar e estava pensando em cancelar seus estudos em Christchurch. Encontrava com pessoas que me diziam: “você vai para Christchurch? Mas estão todos fugindo de lá!”. O Base Backpacker onde iria me hospedar na cidade estava fechado por conta dos estragos do terremoto. Na internet via notícias do tipo: 70% da cidade sem luz, tantos por cento sem água… e pensava meudeus! Cheguei a pensar em cancelar todinha minha viagem pela ilha sul – o detalhe era que eu já havia pago.

O fato é que eu não tinha tempo a perder, teria apenas 10 dias na Nova Zelândia. Havia contratado uma agência de intercâmbio brasileira sediada em Christchurch, a NZEGA , e a grande vantagem era que em casos de desespero como aquele eu podia ligar para a moça da agência e me desesperar em português. E fazia exatamente isso: ligava e ela me contava que o centro da cidade estava paralisado por conta dos estragos do terremoto, mas que seria besteira cancelar minha viagem pela ilha sul só por conta disso.

Pensei bem e, com a cara e a coragem, no meu terceiro dia no país embarquei para a cidade do terremoto. Eu carregava uma mala maior do que o mundo, e resolvi deixar parte das minhas coisas no hostel de Auckland, que pegaria na volta, antes de partir. Fui num seja-o-que-deus-quiser. Fui!

Saí de Auckland debaixo de chuva. Voei duas horas sobre o mar e Aotearoa. Pousei sem saber se podia confiar no solo em que estava pisando. Andarilhei sozinha pelo aeroporto de Christchurch, me indagando sobre a brasileira da agência com quem havia combinado de me encontrar. Mas eis que duas moças me chamam pelo meu nome, sim, sou eu! Eram a Mary, a dona da agência, e a Léia, uma brasileira que também havia acabado de chegar. Elas dizem que tinham me chamado umas três vezes e eu havia passado como se não fosse comigo, sem ver nem ouvir… Que vergonha, sou distraída mesmo!

Entramos na picape da NZEGA e no caminho Mary vai nos contando sobre o terremoto. O centro de Christchurch ainda estava intransitável, mas fomos transferidas para um hostel próximo, onde o terremoto não havia feito grandes estragos. Mesmo com terremoto, eu já ia me apaixonando por aquela cidade bucólica, cheia de casinhas fofas com jardins incríveis, parques lindos e monumentos que remetiam à Inglaterra vitoriana. Chegamos no hostel e eu já gostei logo de cara: Jailhouse, fora uma cadeia até 1999, que coisinha meiga! O charme do lugar era, claro, preservar o espírito de cadeia. Fui fichada na recepção, e dispunha de pijamas listrados, canecas listradas, cobertores listrados – moda xilindró outono/inverno 2010!

A Nova Zelândia é um país tão pacato, mas tão pacato, que para não morrer de tédio e de falta do que fazer os kiwis prolongam ao máximo a tarefa mais simples. Foram uns 20 minutos para cadastrar duas hóspedes na recepção.

Alocadas, saímos com a Mary para conhecer o centro da cidade, onde o trânsito de veículos estava na maior parte fechado. Se o terremoto nos provocara contratempos, pelo menos iríamos fazer turismo do terremoto. Andávamos na rua e, de trecho em trecho, havia casas antigas ruídas, vários prédios embargados, vidros quebrados, tijolos espalhados, uma ou outra calçada desalinhada. Mas não, não era o caos. Apesar de tudo, o clima em Christchurch era muito tranqüilo, e os habitantes até faziam piada – e o faziam porque o terremoto terminara sem vítimas fatais.

Almoçamos num restaurante chinês e andamos um pouco pelo centro. Eu já nem dava bola para os detalhes do terremoto, a cidade ainda assim, naquele dia cinzento e de vento frio, era tão linda, tão fofa e européia, que nem me preocupava. Estava encantada. Mary nos devolveu ao hostel, ou melhor, à cadeia, junto com um convite para o chá de bebê de sua filha (pois ela estava grávida), na noite seguinte.

Entramos. E enquanto eu deitava para um cochilo, uma chuva fria desceu para envolver aquele bairro industrial silencioso numa atmosfera triste de exílio. Acordei já de noite e com fissura de internet. A internet na Nova Zelândia é mais barata que na Austrália, mas ainda bem mais cara que no Brasil. Fui até a recepção e paguei dez dólares por quatro horas de acesso, e passei a noite navegando, twittando, subindo fotos…

 

"Eu sobrevivi ao terremoto de Christchurch - Setembro/2010"

 

Meu corpo inteiro estava atento para o chão. Eu ainda não confiava no chão. Juro em uma vez ou outra tê-lo sentido se mover por menos de um segundo, e é uma sensação bastante desagradável.

No dia seguinte eu e Léia acordamos e passeamos pela cidade. Fomos andar pelo rio, e aí… e aí foi paixão, cara! Pelo rio, quero dizer. Pelos parques que correm nas suas duas margens, com um gramado delicioso, árvores de chorão, flores. Esse riacho povoado de patinhos, cortado por pontezinhas, sob as quais passam gondoleiros muito empenhados no seu romântico trabalho de levar casais apaixonados para passear.

Tomamos o breakfast num café à beira do rio do qual eu vou sentir sempre dolorosas saudades, porque era lindo, lindo, lindo… e gostoso! Se um dia você for à Christchurch, por favor, vá a esse café!

Depois andamos, andamos… Visitamos a praça central com aquela igreja emblemática, visitamos lojas de souvenirs, visitamos a imensa biblioteca da cidade, fiz compras num brechó danado de legal, tomamos cerveja num pub e, ao anoitecer, seguimos para o chá de bebê na casa da Mary. Visitando aquela casinha fofa no subúrbio de Christchurch, só pude ficar imaginando a vida maravilhosamente tranqüila naquele lugar. O chá de bebê foi invadido por um batalhão de brasileiros. Brasileiros que moram e trabalham na Nova Zelândia, imigrados, casados com kiwis e outros gringos. Olha que tem MUITO brasileiro ali! Mas no chá tinha especialmente brasileiras e eu conversei com várias, elas me contando como é a vida na kiwilândia e como foi passar pelos 40 segundos de um terremoto de 7,5 graus. Estavam ainda traumatizadas.

Mas eu tinha que ir, porque no dia seguinte pegaria o trem. Deixei a festa que prosseguia noite adentro, dei um último abraço na Mary e parti para a minha cadeia.

Acordei cedinho, me despedi da minha amiga brasileira e parti com meu malão para a estação de trem. O TranzAlpine, o trem que cruza os Alpes neozelandeses. Sentei numa cadeirinha solitária, e arrisquei várias peregrinações ao primeiro vagão para comprar café. Na janela, montanhas, montanhas, montanhas. Neve. E o leito pedregoso de largos rios. Eu estava esperando que fosse mais ou menos como no Senhor dos Anéis, quando o grupo está cruzando as montanhas em busca dos portões de Moria. Mas não, não é bem assim. Mas sim, vale a pena do mesmo jeito.

O que eu não sabia era que logo quando parti, houve um aftershock em Christchurch. A Terra Média tremia…

Sim senhores, o próximo episódio é o capítulo FINAL!

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Eu vejo vampiros

outubro, 19 - 2010

Más lembranças de outras eleições…

Comento? Melhor não…

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FCKH8

outubro, 18 - 2010

Para esses dias de pasmaceira, uma contra-argumentação cai bem:

Em homenagem a esses caras.

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Worldcon 2010/ Aussiecon 4 – o relato

outubro, 14 - 2010

A desvantagem de atravessar um país continente é que cada viagem é uma baita viagem. Na Austrália, para ir de uma cidade a outra, não costumava levar menos que 12 horas de ônibus. Depois de rodar a estrada noutra madrugada, voltei a Melbourne – o ponto de partida da minha viagem – para minha última e corrida semana na Austrália. Voltei para a mesma rua, o mesmo hostel, para acompanhar o Worldcon, que aconteceria no mesmíssimo lugar onde eu havia participado do congresso de psicologia, 2 meses antes. Nesses dias a câmera fotográfica ficou praticamente esquecida, eu estava mais preocupada em curtir do que em registrar. Cheguei em Melbourne dois dias antes do Worldcon e fui logo revisitar os pontos turísticos que mais havia gostado. Fiz minha última visita ao Queen Victoria Market, que é uma espécie de 25 de Março com Mercado Municipal, onde comprei souvenires e frutas e me deliciei com as comidas análogas ao nosso pastel de feira.

 

Melbourne Convention and Exhibition Centre

Essa foi minha última folga, porque dali em diante, entre os dias 02 e 06 de setembro, estaria mergulhada de cabeça na maratona do 68th World Science Fiction Convention – Aussiecon 4! E foi que na quinta feira, dia 2, cedinho, me arrumei e fui para o Melbourne Convention and Exhibition Centre buscar meu crachá, minha bolsa e minha inscrição como panelista, com o coração saltando e o espírito dividido entre a alegria de fã e a responsabilidade de representante.

 

A abertura do evento foi curta e simples: este era o quarto Worldcon a acontecer na Austrália e em homenagem fizeram um clipe com uma colagem de filmes de SF & F misturado com clássicos do cinema aussie, como o Crocodilo Dundee e as drag queens de Priscilla, a rainha do deserto. Não sei quantas pessoas estavam presentes no evento, mas sei que era um número de quatro dígitos: o evento era enorme, e me disseram que os Worldcons dos EUA costumam ser ainda maiores.Logo depois da abertura eu estava escalada para participar do meu primeiro panel: “Queer representations in speculative fiction” ao lado de Erika Lacey e Andrew M. Butler. E veja só, logo nos meus primeiros minutos do meu primeiro Worldcon, eu estava sentada atrás de uma mesa para falar de improviso em inglês a um público nativo em língua inglesa. Claro que logo de cara bateu uma insegurança, mas respirei fundo e fui em frente. Andrew e Erika citaram obras que trabalham com sexualidade, personagens gays e lésbicas. Falamos do quanto os autores clássicos não contribuíram para a questão, e como era difícil para os mesmos ousar quando se propunham a tal. Citando as obras da Ursula Le Guin (especialmente A Mão Esquerda da Escuridão, Os Despossuídos e The Telling), destaquei a diferença que há entre produzir uma obra que discuta sobre sexualidade ou simplesmente escrever uma obra que inclua personagens gays e lésbicas, inserindo a orientação sexual como uma mera característica – coisa que só passou a acontecer com mais naturalidade no território da ficção especulativa nas últimas décadas. Pra terminar, ainda mandei uma pergunta para os outros panelistas e o público sobre como trabalhar a empatia de um personagem gay ou lésbica para o público geral. Terminado o panel, houve quem viesse comentar que querer emplacar personagens gays e lésbicas para o público geral era utopia minha.

Sem tempo para respirar, saí do primeiro panel e já fui para a sala seguinte para a primeira das minhas apresentações acadêmicas. Esclarecendo: no Worldcon há uma programação acadêmica que ocorre em esquema de simpósio, e eu estava representando o grupo do Prof. Luís Paulo Piassi da USP, que estuda obras de FC. Fui escalada para apresentar o trabalho do Emerson Gomes e da Sônia Montone: “An historiographic view about HG Wells’ The Time Machine” em um bloco de pesquisas sobre a obra do Wells. A sala estava lotada e o feedback do público na apresentação foi excelente. Ao final algumas pessoas vieram cumprimentar os autores do trabalho e dar dicas de referências bibliográficas, outras vieram curiosas me perguntar do Brasil, e acabei até conversando em português com um tasmaniano que morou um ano no Mato Grosso do Sul.

No dia seguinte, sexta feira, panel acadêmico: “These are not the people you are looking for: race in SF/F”, com Sheldon Gill (malaio naturalizado australiano), Ika Nurain (malaia, escritora em língua inglesa), Alaya Johnson (americana, escritora de fantasia), Anita Harris Satkunananthan (indo-australiana estudiosa de literatura), China Miéville (escritor britânico muitíssimo bem cotado no momento) e eu, que era a única latinoamericana presente na convenção. Sala bastante cheia, começamos a mesa nos apresentando. Alaya Johnson, que é uma mulata novaiorquina lindíssima, denunciou o racismo no mercado literário e nas editoras norte-americanas, e no quanto foi difícil convencê-las a colocar mulheres não brancas/caucasianas na capa dos seus livros. Já Anita falou de algumas obras de ficção científica e fantasia que estudou, analisando a questão de gênero e etnia, e até se emocionou falando das desigualdades implícitas dentro das mesmas. Na minha vez, falei sobre a representação dos brasileiros e outros latinos na literatura de ficção científica, citando como exemplo o livro Brazyl, do Ian McDonald (que concorreu ao prêmio Hugo em 2009). Comentei, aludindo em partes a um artigo publicado pelo Fábio Fernandes, que poucos foram os brasileiros que leram a obra, porque Brazyl não foi publicado no Brasil, mas entre quem leu existe a opinião de que Ian McDonald fez um trabalho tão bom que um brasileiro poderia tê-lo escrito, acrescentando um porém: se um brasileiro o tivesse feito, dificilmente teria o livro traduzido e publicado em língua inglesa. Falei sobre a barreira que a língua é para nós escritores não anglófonos. Comentei que o fato de nós, brasileiros, sermos cada vez mais visíveis no plano internacional não nos dá uma voz própria: continuamos sendo descritos a partir de um ponto de vista externo, e com muitas dificuldades de representarmos a nós mesmos nesse mercado literário dominante, que é o da língua inglesa. Já o China Miéville, que é, entre outras coisas, PhD em relações internacionais, fez uma ótima análise sobre a hipocrisia dentro do meio editorial, mas que eu não conseguiria parafrasear aqui com palavras tão afiadas. Foi uma mesa excelente e saí de lá dando uma entrevista para uma rádio de Melbourne.

No sábado, dia 4, um panel de muito, muito peso: “Fred Hoyle: Scientists and Science Fiction”, ao lado de dinossauros da FC como Gregory Benford, Jeff Harris e Alastair Reynolds. Sala lotada e 3 escritores-cientistas com muito mais experiência do que eu nas costas. Gregory Benford foi amigo de Fred Hoyle durante muitos anos e, por isso mesmo, acabou falando quase o tempo todo sobre a vida e obra de Fred Hoyle. A mim coube fazer algumas perguntas no final sobre as ideias polêmicas de Hoyle, que recusava a teoria do big-bang em favor do design inteligente (mesmo quando a teoria foi considerada provada pela medição da radiação cósmica de fundo), negava a origem espontânea da vida em favor da panspermia, e negava a origem fóssil do petróleo.

Já no domingo, enfrentei uma maratona de 3 panels. Comecei com uma apresentação acadêmica do grupo da USP, dessa vez a autora era a Rhamyra Toledo e o trabalho era: “The relations between science and social representations in Orson Scott Card’s Speaker for the Dead”. Na sequência, entrei em outro panel: Make Room! Make Room! , ao lado de Gord Sellar, Sam Scheiner (que acabou de publicar um livro de ecologia no Brasil) e Jonathan Cowie. Baseados em “Make Room! Make Room!”, a obra do Harri Harrison que inspirou o filme Soylent Green, falamos sobre o impacto da superpopulação na Terra. A discussão girou em torno de teorias neomalthusianas, aquecimento global e devastação ambiental. Falei sobre o desmatamento da Amazônia (equivalente a um estado do Rio de Janeiro por ano), sobre nossa recente euforia econômica com a entrada do Brasil no BRIC, e como é injusto para as nações em desenvolvimento terem que desacelerar o crescimento em virtude dos acordos sobre as emissões de carbono. Me senti muito a vontade e  foi o panel que mais curti em toda a convenção. Por último, eu e Erika Lacey dividimos a mesa no panel “The future of gender and sexuality”. Erika é uma leitora voraz, e citou dezenas de obras que tratam da questão gênero e sexualidade em ficção especulativa. Eu falei sobre pós-generismo e sobre a evolução das técnicas de reprodução assistida. O público era pequeno, e logo abrimos para perguntas e comentários da platéia. Discutiu-se longamente sobre homofobia, sexismo e política.

Finalmente, na segunda feira me dei ao direito de me fantasiar de fã e caçar autógrafos. Dos panels que assisti, achei particularmente interessantes um sobre as consequências da imortalidade, um workshop sobre como escrever cenas de luta, e as palestras do escritor e convidado de honra Kim Stanley Robinson, todas ótimas!

 

Robert Silverberg e Kim Stanley Robinson

 

Autografei livros com o George R.R. Martin (que acabou de publicar “Guerra dos Tronos” no Brasil pela Leya), com o China Miéville (que vai ser publicado no Brasil pela Tarja Editorial), com o Kim Stanley Robinson (que ainda não tem livro publicado por aqui, alô editoras!) e com a Alaya Johnson (que já veio ao Brasil e com quem deixei um exemplar do meu livro Fábulas).

 

Eu e George R.R. Martin

 

Mas eu tenho que falar do Green Room! Os participantes dos panels têm o direito de usar o Green Room, que é uma salinha preparada para matar a fome, a sede, as dúvidas e onde os panelistas podem se reunir, conversar e preparar os panels. O Green Room tinha uma cafeteira de ficção científica, um buffet delicioso de frutas, queijos e doces, refrigerantes, chocolates, e até coalinhas de brinde para pendurar na lapela, tudo de graça e à vontade. Tinha dias que eu trocava o café da manhã no hostel pelo café da manhã no Green Room, que além de ter a vista belíssima do panorama de Melbourne, estava quase sempre povoada de escritores nos mais variados níveis de fama e reconhecimento, incluindo Robert Silverberg, Charles Stross, John Scalzi, George R.R. Martin, Kim Stanley Robinson… Quando eu descobri o Green Room, não queria mais sair do Green Room!

 

Green Room

 

Também não poderia deixar de falar da cerimônia do Hugo Awards! Para quem não conhece, o prêmio Hugo é o prêmio máximo da literatura de ficção científica e fantasia, atendendo diversas modalidades em diferentes mídias: literatura, fanzines, revistas especializadas, quadrinhos, artistas gráficos, filmes e seriados. Quem apóia ou participa do Worldcon tem o direito de votar para o Hugo Awards, e esta foi a primeira vez que eu votei.

O Hugo Awards é um evento de gala, o mais glamoroso do tipo. O mestre de cerimônias deste ano foi o escritor de ficção científica Garth Nix, que segundo ele mesmo, estava usando as botas de caubói do Isaac Asimov, a gravata do Robert Heinlein, os óculos do Cory Doctorow, só não teve dinheiro para comprar as cuecas do Neil Gaiman. Logo no início houve uma retrospectiva do ano de 2009 com os candidatos ao prêmio Hugo – é exatamente este vídeo que você pode assistir clicando abaixo.

Depois foi apresentado o troféu Hugo de 2010. O troféu Hugo é um foguete, e só a base é mudada de ano a ano. A base deste ano, de inspiração australiana, foi criação de Nick Stathopoulos. E então passou-se às premiações.

Melhores momentos:

Uma das partes mais interessantes foi quando Robert Silverberg foi receber o prêmio de best fan writer que saiu para o escritor Frederick Pohl (que tem 90 anos e já ganhou outros Hugos).  Sobre essa premiação inusitada, Silverberg simplesmente comentou: “that’s weird!”

O escritor Robert Silverberg daria um ótimo comediante stand up. Quando subiu ao palco para apresentar o prêmio de melhor editor, Silverberg fez a platéia cair na gargalhada analisando a dificuldade de ser engraçado apresentando um prêmio tão sem charme e sem graça como o de “melhor editor”.

Quando o prêmio de best semiprozine saiu para Clarkesworld, Cheryl Morgan veio ao palco muito concentrada no iPhone, tropeçou nos degraus e quase se esborrachou na escada. Veio ao microfone e pediu desculpas: estava fazendo live-blogging.

Enquanto todos os seus colegas estavam na estica e engravatados, um embasbacado Peter Watts subiu ao palco de calça jeans e camiseta confessando que não contava receber o prêmio de best novelette e nem tinha preparado discurso. Logo depois, Charles Stross subiu ao palco para receber o prêmio de best novela no mesmo embasbacamento, dizendo: “estava tão certo de que não iria ganhar que nem preparei discurso. Obrigado!”

Finalmente, o momento que todos esperavam. Kim Stanley Robinson veio apresentar o  vencedor de best novel, melhor romance, o prêmio mais esperado, concorrido e almejado. Abriu o envelope e então começou a divagar longamente sobre a natureza das estatísticas: coisas muito improváveis acontecem, somos todos improváveis, e aconteceu uma coisa improvável: um empate no primeiro lugar! Havia dois vencedores: The City & The City, do China Miéville e Windup Girl do Paolo Bacigalupi. China estava presente e subiu ao palco para agradecer. Disse que era véspera do seu aniversário de 38 anos e que este havia sido o melhor presente que poderia ganhar. Paolo não estava presente. Não entendo bem como são calculados os votos para o prêmio Hugo, mas levando em conta que deu empate na votação, é legal pensar que dei um Hugo Award de aniversário para o China Miéville.

Segue a lista de premiados do Hugo de 2010:

Best Novel: TIE: The City & The City, China Miéville (Del Rey; Macmillan UK); The Windup Girl, Paolo Bacigalupi (Night Shade)

Best Novella: “Palimpsest”, Charles Stross (Wireless; Ace, Orbit)

Best Novelette: “The Island”, Peter Watts (The New Space Opera 2; Eos)

Best Short Story: “Bridesicle”, Will McIntosh (Asimov’s 1/09)

Best Related Work: This is Me, Jack Vance! (Or, More Properly, This is “I”), Jack Vance (Subterranean)

Best Graphic Story: Girl Genius, Volume 9: Agatha Heterodyne and the Heirs of the Storm Written by Kaja and Phil Foglio; Art by Phil Foglio; Colours by Cheyenne Wright (Airship Entertainment)

Best Dramatic Presentation, Long Form: Moon Screenplay by Nathan Parker; Story by Duncan Jones; Directed by Duncan Jones (Liberty Films)

Best Dramatic Presentation, Short Form: Doctor Who: “The Waters of Mars” Written by Russell T Davies & Phil Ford; Directed by Graeme Harper (BBC Wales)

Best Editor Long Form: Patrick Nielsen Hayden

Best Editor Short Form: Ellen Datlow

Best Professional Artist: Shaun Tan

Best Semiprozine: Clarkesworld edited by Neil Clarke, Sean Wallace, & Cheryl Morgan

Best Fan Writer: Frederik PohlBest Fanzine: StarShipSofa edited by Tony C. Smith

Best Fan Artist: Brad W. Foster

Como comentei, o Worldcon é enorme, e aparentemente metade dos hóspedes do meu hostel estavam participando do evento. Nos corredores do hostel, a toda hora esbarrava com minha colega de panel Anita Satkunananthan, com quem conversei bastante. Na rua encontrava outros colegas panelistas, vivia esbarrando com o Sheldon Gill, encontrava a Ika Nurain na pizzaria… Conheci também um casal de steamers (fãs e cosplayers de steampunk) australianos que moram na Nova Zelândia, que elogiaram a organização do Conselho Steampunk brasileiro, um dos mais atuantes do mundo. Infelizmente eu perdi a maior parte das festas e baladas do Worldcon porque tinha que voltar cedo para o hostel para preparar os panels do dia seguinte. Na segunda feira, dia 6 de setembro, eu estava tendo meu dia de fã, feliz mas num danado clima de despedida. Lembro de estar no Green Room tomando meu último café, com a Alaya Johnson perguntando se ainda me veria depois da cerimônia de encerramento – bem que eu gostaria… Mas foi tudo tão rápido! Naquela tarde o Worldcon terminou, eu fui direto para o hostel para lavar as roupas e arrumar a bagagem, e logo depois, durante a madrugada, estaria puxando minha mala pelas ruas de uma Melbourne vazia, chuvosa, adormecida. Peguei um ônibus e segui para o aeroporto sozinha, vendo a cidade sumir na garoa e na escuridão. Antes do sol nascer, meu avião decolou, e eu dei adeus à Austrália.

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Australionauta, o relato – Parte 8

outubro, 13 - 2010

A Austrália tem menos de 22 milhões de habitantes em um território que é quase do tamanho do Brasil. Metrópoles mesmo são Sydney, Melbourne e Brisbane (quanto a Perth, não conheci), o resto são cidadezinhas de médias a ínfimas. Mas Sydney, em particular, não me pareceu menor em extensão do que São Paulo. O subúrbio de Sydney é imenso e povoado de casinhas do tipo que encontramos nos condomínios fechados do Brasil: bonitonas, com jardins generosos, e normalmente sem muros e sem cercas (o que não quer dizer que a criminalidade na Austrália seja zero; na casa de tia Júlia, onde me hospedei, já entrou ladrão). Uma coisa que chama a atenção na Austrália é a quase total ausência de prédios fora dos centros metropolitanos. Como resultado das imensidões suburbanas, o trânsito das rodovias radiais é denso, principalmente no horário do rush. Mas o transporte forte de Sydney é mesmo o trem. Sydney e redondezas tem uma malha ferroviária gigantesca, que, dizem, só não é mais complexa que os metrôs de Londres e Paris. E não é fácil se orientar: há dezenas de linhas, muitas plataformas, e em cada plataforma passam trens que fazem diferentes trajetos, o passageiro tem que ficar atento e conferir o trajeto do trem, ou corre o risco de ir parar do outro lado da cidade. Os trens são de dois andares e não costumam andar cheios, viaja-se tranquilamente sentado. O porém é que se paga muito caro pelo conforto: por uma viagenzinha do subúrbio até o centro eu não pagava menos que 4 dólares.  Eu caía no trem de Sydney e me perdia feliz: ia para Chinatown (o bairro da Liberdade sydnense), ia para Circular Quay ver a Opera House, ia para George Street (um análogo de Av. Paulista com Faria Lima), ia para Katoomba (a Campos do Jordão australiana), ia para o Kings Cross (uma espécie de Rua Augusta), e andava, e olhava, e seguia por Sydney me perdendo e me encontrando.

Me perdia no trem quase todos os dias. Às vezes me distraía com um livro e perdia a estação; quando atinava, estava sozinha dentro do trem, que fechava as portas e continuava parado, então via um guardinha passando do lado de fora e o anúncio no alto-falante pedindo para o “último passageiro sair, por favor, pois esta era a estação final”. Outras vezes, ia parar em estações improváveis como Emu Plains, rodeada de mato por todos os lados, ou saía de Sydney sem querer, pegando a linha errada…

Mas havia também o ferry boat. E nada mais charmoso a fazer na baía de Sydney do que andar de ferry. Num sábado de sol fui até Circular Quay, ao lado da Opera House, pegar o ferry para ir até o zoológico de Taronga, o zoo com a vista mais espetacular do mundo, pois fica de frente para  o cartão postal de Sydney.

Você faz a viagem de barquinho contornando a Opera House e atravessando a baía de Sydney até o outro lado, onde está o zoológico. Aí pega-se um bondinho para subir até a entrada e descer feliz vendo os bichos. Além dos animais must-have (elefante, girafa, zebra, gorila, etc), o Taronga Zoo é o lugar certo para conhecer toda a fauna australiana, andar no meio de cangurus, wallabies, emus, abraçar o coala, ver ornitorrinco, eqüidna, wombat, diabo da Tasmânia, lagarto de língua azul, crocodilo, as mais variadas aves, anfíbios, lagartos, cobras e insetos australianos.

O Taronga Zoo é atualmente a instituição que mais investe na preservação do diabo da Tasmânia, que está desaparecendo da natureza devido a um vírus que provoca um tumor no focinho e mata o diabo ainda jovem, antes mesmo de atingir a idade reprodutiva. Ainda não há uma cura, tratamento ou vacina e os exemplares mantidos saudáveis em cativeiro são atualmente a única esperança de sobrevivência da espécie.

Sydney também tem praias bonitas. Um dia minha prima aussie me levou para visitar as praias chiques do norte de Sydney, como Palm Beach, que fica em uma península, desembocando numa baía extraordinária, cheia de iates e casas de veraneio caríssimas. Fui também conhecer Bondi Beach, a praia mais badalada de Sydney, infestada de surfistas, charmosíssima, cool, cheia de bistrôs e restaurantes, bares e hotéis, e me lembrou bastante Viña del Mar, no Chile.

No meio do passeio, uma atração inusitada: um cemitério a beira mar. Um lugar calmo e bonito para se cair morto. Passeei por entre os túmulos, conhecendo celebridades mortas e tirando fotos de estátuas lindíssimas…

Conhecendo mais o centro de Sydney, me esgueirei para os lados de Chinatown, o bairro asiático, com restaurantes, cabelereiros, lojas de moda japonesa, lojas de souvenir e artigos made in China… Ali perto, no centro, passei por lojas de armamentos, que vendem espadas, capacetes, uniformes, carabinas, armaduras de cavaleiro templário a guerreiro mongol, e até uma loja de memorabilia militar (especialmente memorabilia nazista), com medalhas e uniformes legítimos do III Reich. Creepy.

Fui também andar pelos bairros de Paddington e Kings Cross. Paddington é o bairro gay, e o Kings Cross é o histórico bairro da luz vermelha de Sydney, mas baixo meretrício é coisa do passado, hoje ambos os bairros são familiares, trendy e cool. Em Kings Cross tem verdadeiras sex shoppings e clubes “for gentlemen” onde a prostituição é legal, e que ficam lado a lado com as lanchonetes, livrarias, lojas e mercados.

Em Sydney provei culinárias nunca dantes degustadas: fui levada por meus primos aussies a um restaurante tailandês maravilhoso em Paddington, e também a um restaurante austríaco de Schnitzel, e também provei a culinária tradicional lituana no clube da colônia. Descobri restaurantes japoneses ótimos e acessíveis, cafés italianos, e até cozinha vietnamita. Em Sydney cozinhei a melhor macarronada que fiz na vida. Em Sydney lavei roupa e pendurei naqueles varais circulares que se vê nos filmes estrangeiros. Em Sydney… em Sydney…

Um dia eu tive que fechar as malas, me despedir de uma tia Júlia segurando o choro, me despedir do bucólico bairro de Rhodes, me despedir daquela cidade que não cabe em um adjetivo, dar um último abraço na minha prima Reggie e partir de volta para Melbourne, onde teria pela frente o Worldcon e minha última semana na Austrália.