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Australionauta – Interlúdio

outubro, 5 - 2010
Como descrever a honra que foi passar uma semana na casa da tia Júlia? Uma senhora lituana que veio ainda criança para a Austrália e trabalhou a vida toda como professora primária. Ganhara o sobrenome Lasaitis do marido, também lituano e já falecido. Ela mora sozinha em um sobrado delicioso à beira do rio que corta Sydney, no bairro de Rhodes, longe do centro. Das janelas eu podia ver o rio e um parque maravilhoso, verde, construído em homenagem aos veteranos aussies da 1ª guerra. Tia Júlia pouco sai de casa, tem idade e um enfarte na conta. Com os problemas de saúde, não agüenta caminhar muito. Ainda assim, mora sozinha, cuida de si, da casa, das plantas, faz compras e é presidente de uma associação de mulheres da colônia lituana de Sydney.
Na casa da tia Júlia ocupei um quartinho de hóspedes daqueles que tem uma parede na diagonal por causa do telhado, com muito jeito de casa estrangeira. Uma foto (ou seria um daguerreótipo?) dos pais dela ainda jovens, em roupas de casamento, me vigiavam na cama, enquanto eu dormia. Casa fria: em cada cômodo que tia Júlia ia, ela ligava um aquecedor. Casa antiga, daquelas em que o vaso sanitário e a pia ficam em cômodos diferentes. Casa gringa, com paredes internas que parecem de papelão. Mas o mais importante: casa fofa, muito aconchegante e repleta de livros.
Eu acordava de manhã e descia as escadas para encontrar tia Júlia na sala de jantar, às vezes jogando paciência, às vezes fazendo cruzadinha, normalmente lendo, cercada de jornais. E os livros? A casa repleta de estantes –  casa de leitora compulsiva. Às vezes nos sentávamos na sala para ler e falávamos de autores, de livros… uma afinidade tão rara. Tomava café da manhã na cozinha, olhando para aquele rio e aquele parque. Café da manhã australiano: com café solúvel, torradas, manteiga, vegemite, mas eu sempre recusava o bacon com ovos. Não fiz questão de me acostumar com frituras no café da manhã (eu, que já havia engordado além da imaginação). No almoço, tia Júlia me apresentava pratos típicos lituanos deliciosos (e também pesados), fiz questão de anotar a receita de uma panqueca de batatas com creme azedo que pretendo replicar aqui em casa qualquer dia. E depois das refeições, geralmente ela brigava comigo pela minha obsessão, persistência e teimosia em lavar a louça, que não estou acostumada a deixar pra depois.
Enquanto hóspede na casa de tia Júlia, fiz 3 viagens simultâneas: uma por Sydney e região, outra pela literatura(com os livros que pegava emprestado), e outra pelo tempo, através das memórias de tia Júlia. Sentava-me numa das 3 salas daquele reino, perante a matriarca, e ia retrocedendo até uma antiga, talvez lendária, Lituânia. Detalhe: tanto eu quanto tia Júlia somos filhas únicas, imagine a empatia! Ela me contava da sua infância em uma cidade lituana: falou-me do seu aniversário de 6 anos, quando ganhara um escorregador colorido feito pelo pai, mas que só pudera usar uma vez, no seu aniversário, porque logo depois precisaram fugir da invasão russa.
Durante a 2ª guerra mundial, a Lituânia teve a sorte ingrata de estar no meio do fogo cruzado entre a Alemanha nazista e a Rússia.  Os russos, disse a tia Júlia, eram invasores terríveis: matavam, roubavam e estupravam como bem entendiam nos territórios conquistados. Quando os russos entraram e conquistaram a Lituânia, proibiram o lituano como língua oficial: não podia mais ser falado nas escolas, não podia mais ser ensinado. E então a Alemanha retaliava: invadia e tentava expulsar os russos. Entre a cruz e a espada, os lituanos preferiam o domínio dos nazistas, que eram mais civilizados. Terríveis com seus inimigos e com os judeus – verdade! – mas não tão maus senhores para os outros quanto os russos. Os alemães iriam colocar um alemão para chefiar os trabalhadores lituanos e a vida prosseguia.
*
Em 1944 os russos invadiram e os alemães ofereceram asilo aos lituanos. Tia Júlia (então com 6 anos) e seus pais embarcaram nos caminhões mandados pelos alemães, e que já estavam partindo, não tiveram tempo de pegar seus pertences – não sabiam que não voltariam! Eles pensavam que o exílio seria curto, que os russos logo seriam expulsos da Lituânia e eles poderiam voltar para casa. Mas não foi bem assim…
No abrigo alemão eles encontraram fileiras de camas dentro de um galpão, cada família costumava isolar uma área pendurando lençóis, improvisando “paredes”. Era uma forma – a única forma – de encontrar um pouco de privacidade naquele ambiente compartilhado por dezenas de famílias. Os pais da tia Júlia passaram a trabalhar para os alemães: sua mãe lavando banheiros e seu pai trabalhando com a manutenção das linhas de telefone.
No dia que eles chegaram ao abrigo, um soldado alemão que partia para a Lituânia perguntou ao pai da tia Júlia se eles queriam algo “de casa”, ao que ele respondeu, pedindo que trouxesse o ferro de passar roupas para sua mulher e uma boneca para a filha. Eles duvidavam que o soldado iria voltar, mas ele voltou: trazendo exatamente as coisas que pediram, inclusive a boneca – a única lembrança que restou da infância de tia Júlia na Lituânia – a mesma boneca que hoje mora sobre uma mesa na sala de TV, preservada por mais de 60 anos, e que desde então passei a olhar com uma certa reverência.
Certa vez a família tentou voltar para a Lituânia, e passaram por Dresden. Naquela noite, conseguiram chegar até uma vila lituana. Tia Júlia havia perdido um sapato no meio do caminho, que o pai dela voltou pela estrada para procurar. Foi no mesmo instante em que começaram a chegar os aviões para bombardear a cidade de Dresden, ali perto. Eles viram e ouviram tudo: a cidade devastada, queimando nos dois dias que se seguiram ao bombardeio (13 e 14 de fevereiro de 1945).
*
Ela passou os dias me contando “causos” vividos pelos refugiados do acampamento alemão. Contou que sua mãe começara a vender cigarros no mercado negro, e transportava o contrabando debaixo das roupas, improvisando uma barriga de grávida. Um dia, no trem, diante dos oficiais da SS ela ficou nervosa e começou a passar mal. Um dos guardas se preocupou, chegou perto e começou a acudi-la. A mãe de tia Júlia retomou o fôlego, agradeceu ao guarda da SS e foi embora; desde então ela desistiu de vender no mercado negro, com medo do que lhe aconteceria se fosse pega.
Já o pai de tia Júlia, que fazia a manutenção dos telefones dos nazistas, andava nas ruas de cabeça erguida, olhando para os postes e contando a todos que fiação ia para onde. Um dia os SS o viram fazendo isso e desconfiaram que ele estivesse tramando algo com as linhas de telefone nazistas. Pegaram o homem e mandaram para a cadeia para passar por interrogatório. O pai de tia Júlia passou uma noite nas mãos do SS e no dia seguinte voltou para o acampamento lívido, apavorado. Nunca mais andou pelas ruas decodificando o mapa telefônico da Alemanha.
A família da tia Júlia depois se mudaria para a parte americana da Alemanha, onde eles viveriam durante alguns anos. Terminada a 2ª Guerra, os rumores eram de que todos os não-alemães seriam deportados para os seus países de origem. A Lituânia havia sido anexada à União Soviética (e assim ficaria até 1990) e os lituanos fariam qualquer coisa para evitar viver sob o domínio dos russos. A mãe de tia Júlia estava desesperada para imigrar a qualquer país que os oferecesse refúgio. Primeiramente, tentaram imigrar para os Estados Unidos (como fizeram alguns lituanos), mas acabaram indo para a Austrália junto com alguns alemães, inicialmente com um contrato de trabalho de 2 anos, mas acabaram ficando pelo resto da vida.
*
Tia Júlia conta que em meados do século XX a truculência dos australianos para com os “novos australianos” (como ela) era imensa. Ao ver os imigrantes andando nas ruas, os australianos gritavam “go back home!”. Certa vez, uma senhora perguntara à tia Júlia, então uma criança de 10 anos, se ela gostava da Austrália, já emendando: “porque se não gosta, pode voltar para onde veio!” E assim foi a vida dos imigrantes: trabalhando, se naturalizando e despertando inveja nos australianos que não tinham o mesmo sucesso.
Durante dias fui vivendo e me alimentando desses relances da memória de tia Júlia. Às vezes eu tinha que procurar por entre as décadas e os países para achar a porta do quarto, deitar e rebobinar a fita até 2010, temporariamente me desligando da Alemanha nazista, da Lituânia pré-soviética, caindo de volta na Austrália, ouvindo o sussurro e o sotaque da televisão inda ligada na sala, onde fazia tricô aquela senhora – aquela garota – que fora testemunha do bombardeio a Dresden.
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4 comentários

  1. […] This post was mentioned on Twitter by Romeu Martins and Romeu Martins, crislasaitis. crislasaitis said: No blog, Australionauta, um interlúdio: https://cristinalasaitis.wordpress.com/2010/10/05/australionauta-interludio/ […]


  2. […] Australionauta – Interlúdio […]


  3. Pô, Cris… Chorei!

    Que história linda, diferente, tão cinematográfica quanto a vida real.

    Não fossem as muitas maravilhas dessa viagem, acho que só a temporada com Tia Júlia já teria valido tudo, não?

    Beijão.


    • É, Mila

      Quando a gente se despediu a tia Júlia estava se segurando para não chorar, e pairava no ar aquelas saudades antecipadas de “parece que nunca mais vamos nos ver”.
      Foi mágico. Foi foda!



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