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Australionauta, o relato – Parte 7

outubro, 8 - 2010

A Austrália parece um pedaço da Europa (ou melhor, da Inglaterra) que se perdeu numa zona subtropical.  É a impressão que se tem quando você anda pelos subúrbios de Sydney e de Melbourne. Pela primeira vez na vida me senti longe da zona de influência norte-americana. Estava fazendo o câmbio em dólares americanos, verdade, mas com a recente desvalorização (o dólar australiano está valendo praticamente o mesmo que o americano) me parece que não teria perdido nada se tivesse optado por euros ou libras. Você liga a TV e não assiste à invasão de filmes, séries e programas americanos, em vez disso, muita programação britânica, juntamente com programas australianos e neozelandeses. Não que a qualidade seja melhor. Fazia muito sucesso o X Factor, que é uma versão australiana do American Idol, e tinha também o Dance With the Stars, uma versão melhorada da “dança dos famosos”. Tinha um reality show chamado “The World’s Strictest Parents”, que era uma espécie de troca de família em que os adolescentes iam passar um tempo na casa de pais substitutos bastante metódicos. Tudo muito forçado para ganhar dramatismo na TV, claro. Havia outro reality show que era uma competição entre candidatas a top model, igualmente forçado. O que achei mais interessante foi uma novela de ficção científica neozelandesa chamada “The Tribe”, que conta uma história onde todos os adultos desapareceram, e apenas restaram no mundo as crianças e os adolescentes. Estes, com toda a responsabilidade nas mãos, remodelaram toda a estrutura da sociedade e passaram a viver em tribos – cada tribo com sua moda, seu lifestyle, e seu comportamento próprio; e o que se desdobra daí são as disputas entre as tribos e seus membros. Um estudo antropológico muito bom dentro de uma novelinha adolescente, quem me dera ver um programa desses no lugar de “Malhação”!

Que mais? Na maior parte do tempo o jornalismo australiano falava sobre a política australiana, a primeira ministra Julia Gillard era uma figura onipresente na TV e eu ficava me perguntando de onde ela tirava tempo para governar (se é que governava). Quanto aos esportes, os aussies e kiwis são fanáticos por rugby (cujos heróis nacionais são, respectivamente, os jogadores do Qantas Wallabies e do All Blacks), tem também críquete e australian football (com regras muito próprias, não me perguntem), e o esporte feminino de maior popularidade é o netball, que é parente do basquete. Ainda na casa da tia Júlia, assistimos a um documentário da Discovery sobre o Brasil: mostrava uma piloto de helicóptero paulistana, uma menina participando da procissão em Ouro Preto, uma moça desfilando pela Mangueira no carnaval… Me ajudou a ter uma ideia da visão estrangeira sobre o Brasil. A pergunta que os gringos mais me faziam era: “vocês falam português ou espanhol?” Em geral, esse cartoon resume perfeitamente as coisas que perguntam a um brasileiro no exterior. Certa vez, falei que era brasileira para um sujeito, e ele mudou de expressão e começou a se mexer na cadeira com uma animação bizarra, meio carnavalesca e meio tarada. Muito séria, perguntei: “What is this?”, e ele parou, sem graça. Às vezes você é obrigado a se confrontar com o fato de que a imagem do Brasil lá fora não é das melhores…Encontrei poucos brasileiros na Austrália. Conversei apenas com três; duas que encontrei em Surfers Paradise mas moravam em Sydney e trabalhavam de nanny, e mais um em Melbourne, que estava tentando imigrar para a Austrália como eletricista. De vez em quando eu andava pelas ruas e, naquela Babel flutuante em que se ouve de tudo, distinguia um português do Brasil passando através de mim em efeito Doppler. Os brasileiros estão em todo lugar! Na Nova Zelândia somos mais onipresentes, mas eu ainda chego lá…

Calm down, take it easy!

Como eu ia dizendo, a Austrália é muito britânica. Mas a Austrália tem fama de ser um país “relax”, e por vezes os australianos são comparados aos brasileiros no quesito alegria e cordialidade. Eu diria que somos um tanto diferentes; eles sim são mais gentis e cordiais do que nós – na Austrália esses valores são endêmicos! É natural um desconhecido improvável chegar do nada e lhe cumprimentar: “how are you today?”, isso não quer dizer que ele está te cantando, que está interessado em você ou querendo roubar o seu relógio: ele só está sendo ele mesmo. É muito bom esse clima, as pessoas o recebem com um sorriso, são atenciosas, ficam felizes em ajudar. Senti uma grande diferença quanto a respeito e dignidade. Pra começar, não tem esse papo de cantar mulher na rua, ficou muito evidente o quanto esse hábito machista nojento é coisa dos brasileiros (ou dos latinos). Segundo: os moradores de rua não são indigentes nem párias, como são tratados os mendigos no Brasil. São humildes, mas não são miseráveis – existe um certo preconceito, sim, pois os aussies os consideram preguiçosos: “estão na rua porque não querem trabalhar” – mas ainda são tratados como seres humanos, as pessoas param para conversar com eles na rua, veja só a diferença. A triste exceção são mesmo os aborígenes, mais próximos à mendicância propriamente dita. Lembro ainda de ter visto travestis muito bem vestidas, inclusive uma executiva. Diante de tudo isso, fiquei meio deprimida em perceber como é gritante o jeito como tratamos mal nossos moradores de rua, travestis, mulheres, etc. E como somos desconfiados!

Vi muitos músicos de rua, e músicos bons! Gente tocando rock, reggae, country, clássica… Geralmente deixavam um cartaz falando por que pediam dinheiro, lembro de uma cantora que estava juntando para gravar o primeiro disco. O lado carnavalesco dos australianos fica evidente, talvez, pelo hábito de inventar desculpas pra sair pelado por aí. É um costume bastante europeu, também, cheios de fazer passeatas nudistas. Não vi ninguém saindo pelado na rua, mas em Brisbane vi um pessoal andando de bicicleta só de capacete e sunga laranja – o mais engraçado era que era uma manifestação de trabalhadores!

Os australianos também são famosos por se entupir de cerveja. Bebe-se muito. Ou melhor, entorna-se! E olhe que sai caro, pois não se paga menos de 4 dólares por uma garrafinha de cerveja na Austrália (isso se você for no mercado, no pub sai mais que o dobro). Mas o preço não surte muito efeito sobre eles. Lembro de ter visto muita gente fumando, e lá um maço de cigarro não sai por menos de 16 dólares. Pois é, bebidas e cigarros são sobretaxados, não poderia ser assim aqui também?

Em Melbourne achei engraçado como num sábado à noite as pessoas na rua pareciam todas vestidas para ir num casamento, é uma elegância provinciana… E o uniforme dos estudantes? Simplesmente charmosos: as meninas usam sainhas plissadas xadrez(muitas vezes com pernas de fora num frio de 0 grau), camisa social e blazer, os meninos sempre de terninho e gravata, às vezes chapéu ou boina. No horário de saída das escolas via-se um desfile de uniformes bonitinhos.Nas cidades australianas são muitos shoppings, teatros, galerias e museus. Toda cidade grande tem um cinema IMAX. É fascinante a quantidade de cafés e bistrôs, um do lado do outro! Os australianos e neozelandeses são muito outdoors: vivem para fora de casa, saem muito para bares, cafés e restaurantes; invadem praças e parques (que eles têm aos montes, e são maravilhosos) fazendo jogging, andando de bike, skate, patins… É uma qualidade de vida de fato invejável.

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5 comentários

  1. Não sei bem porque somos assim, porque tratamos os mendigos como sub-humanos… Talvez sejam muitos os motivos, mas acho que um deles é a nossa enorme desigualdade social. Não é apenas os mendigos, em geral trata-se com desprezo e indiferença as pessoas de classe social inferior a sua. Essa foi uma das diferenças mais evidentes que notei logo que coloquei os pés nos EUA pela primeira vez. Nosso racismo não é tão evidente, mas nosso preconceito social talvez seja nossa maior chaga.


    • Pra mim ficou evidente que somos desconfiados porque sabemos que corremos perigo, que podemos ser assaltados, sequestrados, baleados por causa de um celular. Já na Austrália se respira um ar de segurança e bem estar social que possibilita essa prática da cordialidade. Não existe um abismo social tão grande quanto o nosso, e eles não têm medo de serem assaltados, sequestrados, baleados por causa de um iphone. Isso faz TODA a diferença.


  2. […] Australionauta, o relato – Parte 7 […]


  3. Parece uma sociedade muito diferente da nossa, Cris – para melhor. Mas rememorando seus comentários sobre as sacanagens históricas contra os aborígenes e até contra os imigrantes no Pós-Guerra, tenho a impressão de que a utopia australiana é algo bem recente.

    Dizem que o Brasil não é um país preconceituoso… MENTIRA, mentira deslavada! O preconceito apenas não é institucionalizado, mas está vivinho da silva e come pelas beiradas do comportamento da grande maioria da população (eu inclusa). Na época em que a Globo estava transmitindo a novela Caminho das Índias, o pessoal da empresa onde trabalho estava sempre comentando, meio abismado, a loucura que era o sistema indiano de castas, aquela coisa de não tocar, não falar, não cruzar o caminho de um pobre. Até que eu comentei; “Vocês não repararam que aqui é a mesma coisa?”

    :-S


    • Falou tudo.
      O Brasil é também um país de castas, também têm uma pirâmide social agudíssima, e abismos cavernosos separando quem pode mais e quem pode menos.



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