h1

Australionauta, o relato – Parte 8

outubro, 13 - 2010

A Austrália tem menos de 22 milhões de habitantes em um território que é quase do tamanho do Brasil. Metrópoles mesmo são Sydney, Melbourne e Brisbane (quanto a Perth, não conheci), o resto são cidadezinhas de médias a ínfimas. Mas Sydney, em particular, não me pareceu menor em extensão do que São Paulo. O subúrbio de Sydney é imenso e povoado de casinhas do tipo que encontramos nos condomínios fechados do Brasil: bonitonas, com jardins generosos, e normalmente sem muros e sem cercas (o que não quer dizer que a criminalidade na Austrália seja zero; na casa de tia Júlia, onde me hospedei, já entrou ladrão). Uma coisa que chama a atenção na Austrália é a quase total ausência de prédios fora dos centros metropolitanos. Como resultado das imensidões suburbanas, o trânsito das rodovias radiais é denso, principalmente no horário do rush. Mas o transporte forte de Sydney é mesmo o trem. Sydney e redondezas tem uma malha ferroviária gigantesca, que, dizem, só não é mais complexa que os metrôs de Londres e Paris. E não é fácil se orientar: há dezenas de linhas, muitas plataformas, e em cada plataforma passam trens que fazem diferentes trajetos, o passageiro tem que ficar atento e conferir o trajeto do trem, ou corre o risco de ir parar do outro lado da cidade. Os trens são de dois andares e não costumam andar cheios, viaja-se tranquilamente sentado. O porém é que se paga muito caro pelo conforto: por uma viagenzinha do subúrbio até o centro eu não pagava menos que 4 dólares.  Eu caía no trem de Sydney e me perdia feliz: ia para Chinatown (o bairro da Liberdade sydnense), ia para Circular Quay ver a Opera House, ia para George Street (um análogo de Av. Paulista com Faria Lima), ia para Katoomba (a Campos do Jordão australiana), ia para o Kings Cross (uma espécie de Rua Augusta), e andava, e olhava, e seguia por Sydney me perdendo e me encontrando.

Me perdia no trem quase todos os dias. Às vezes me distraía com um livro e perdia a estação; quando atinava, estava sozinha dentro do trem, que fechava as portas e continuava parado, então via um guardinha passando do lado de fora e o anúncio no alto-falante pedindo para o “último passageiro sair, por favor, pois esta era a estação final”. Outras vezes, ia parar em estações improváveis como Emu Plains, rodeada de mato por todos os lados, ou saía de Sydney sem querer, pegando a linha errada…

Mas havia também o ferry boat. E nada mais charmoso a fazer na baía de Sydney do que andar de ferry. Num sábado de sol fui até Circular Quay, ao lado da Opera House, pegar o ferry para ir até o zoológico de Taronga, o zoo com a vista mais espetacular do mundo, pois fica de frente para  o cartão postal de Sydney.

Você faz a viagem de barquinho contornando a Opera House e atravessando a baía de Sydney até o outro lado, onde está o zoológico. Aí pega-se um bondinho para subir até a entrada e descer feliz vendo os bichos. Além dos animais must-have (elefante, girafa, zebra, gorila, etc), o Taronga Zoo é o lugar certo para conhecer toda a fauna australiana, andar no meio de cangurus, wallabies, emus, abraçar o coala, ver ornitorrinco, eqüidna, wombat, diabo da Tasmânia, lagarto de língua azul, crocodilo, as mais variadas aves, anfíbios, lagartos, cobras e insetos australianos.

O Taronga Zoo é atualmente a instituição que mais investe na preservação do diabo da Tasmânia, que está desaparecendo da natureza devido a um vírus que provoca um tumor no focinho e mata o diabo ainda jovem, antes mesmo de atingir a idade reprodutiva. Ainda não há uma cura, tratamento ou vacina e os exemplares mantidos saudáveis em cativeiro são atualmente a única esperança de sobrevivência da espécie.

Sydney também tem praias bonitas. Um dia minha prima aussie me levou para visitar as praias chiques do norte de Sydney, como Palm Beach, que fica em uma península, desembocando numa baía extraordinária, cheia de iates e casas de veraneio caríssimas. Fui também conhecer Bondi Beach, a praia mais badalada de Sydney, infestada de surfistas, charmosíssima, cool, cheia de bistrôs e restaurantes, bares e hotéis, e me lembrou bastante Viña del Mar, no Chile.

No meio do passeio, uma atração inusitada: um cemitério a beira mar. Um lugar calmo e bonito para se cair morto. Passeei por entre os túmulos, conhecendo celebridades mortas e tirando fotos de estátuas lindíssimas…

Conhecendo mais o centro de Sydney, me esgueirei para os lados de Chinatown, o bairro asiático, com restaurantes, cabelereiros, lojas de moda japonesa, lojas de souvenir e artigos made in China… Ali perto, no centro, passei por lojas de armamentos, que vendem espadas, capacetes, uniformes, carabinas, armaduras de cavaleiro templário a guerreiro mongol, e até uma loja de memorabilia militar (especialmente memorabilia nazista), com medalhas e uniformes legítimos do III Reich. Creepy.

Fui também andar pelos bairros de Paddington e Kings Cross. Paddington é o bairro gay, e o Kings Cross é o histórico bairro da luz vermelha de Sydney, mas baixo meretrício é coisa do passado, hoje ambos os bairros são familiares, trendy e cool. Em Kings Cross tem verdadeiras sex shoppings e clubes “for gentlemen” onde a prostituição é legal, e que ficam lado a lado com as lanchonetes, livrarias, lojas e mercados.

Em Sydney provei culinárias nunca dantes degustadas: fui levada por meus primos aussies a um restaurante tailandês maravilhoso em Paddington, e também a um restaurante austríaco de Schnitzel, e também provei a culinária tradicional lituana no clube da colônia. Descobri restaurantes japoneses ótimos e acessíveis, cafés italianos, e até cozinha vietnamita. Em Sydney cozinhei a melhor macarronada que fiz na vida. Em Sydney lavei roupa e pendurei naqueles varais circulares que se vê nos filmes estrangeiros. Em Sydney… em Sydney…

Um dia eu tive que fechar as malas, me despedir de uma tia Júlia segurando o choro, me despedir do bucólico bairro de Rhodes, me despedir daquela cidade que não cabe em um adjetivo, dar um último abraço na minha prima Reggie e partir de volta para Melbourne, onde teria pela frente o Worldcon e minha última semana na Austrália.

Anúncios

4 comentários

  1. […] This post was mentioned on Twitter by Fabiano Sampaio, crislasaitis. crislasaitis said: No blog: Australionauta, o relato – Parte 8: https://cristinalasaitis.wordpress.com/2010/10/13/australionauta-o-relato-parte-8/ […]


  2. O hipercarnívoro Sarcophilus harrisii. Adoraria ver um de perto. Pena que estes animais extraordinários estão seriamente ameaçados. Além da culpa do homem, recentemente foi identificado um vírus letal que afeta exclusivamente eles. Triste.


    • Pois é. O Zoo Taronga meio que se incumbiu da missão de salvar a espécie. Eles estão reproduzindo os espécimes livres da doença enquanto tentam achar uma vacina. Lá tinha dados sobre uns estudos epidemiológicos prevendo a extinção da espécie na natureza nos próximos anos.
      É misterioso. E gratificante ver o esforço dos caras.

      Beijos


  3. […] Australionauta, o relato – Parte 8 […]



Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: