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Worldcon 2010/ Aussiecon 4 – o relato

outubro, 14 - 2010

A desvantagem de atravessar um país continente é que cada viagem é uma baita viagem. Na Austrália, para ir de uma cidade a outra, não costumava levar menos que 12 horas de ônibus. Depois de rodar a estrada noutra madrugada, voltei a Melbourne – o ponto de partida da minha viagem – para minha última e corrida semana na Austrália. Voltei para a mesma rua, o mesmo hostel, para acompanhar o Worldcon, que aconteceria no mesmíssimo lugar onde eu havia participado do congresso de psicologia, 2 meses antes. Nesses dias a câmera fotográfica ficou praticamente esquecida, eu estava mais preocupada em curtir do que em registrar. Cheguei em Melbourne dois dias antes do Worldcon e fui logo revisitar os pontos turísticos que mais havia gostado. Fiz minha última visita ao Queen Victoria Market, que é uma espécie de 25 de Março com Mercado Municipal, onde comprei souvenires e frutas e me deliciei com as comidas análogas ao nosso pastel de feira.

 

Melbourne Convention and Exhibition Centre

Essa foi minha última folga, porque dali em diante, entre os dias 02 e 06 de setembro, estaria mergulhada de cabeça na maratona do 68th World Science Fiction Convention – Aussiecon 4! E foi que na quinta feira, dia 2, cedinho, me arrumei e fui para o Melbourne Convention and Exhibition Centre buscar meu crachá, minha bolsa e minha inscrição como panelista, com o coração saltando e o espírito dividido entre a alegria de fã e a responsabilidade de representante.

 

A abertura do evento foi curta e simples: este era o quarto Worldcon a acontecer na Austrália e em homenagem fizeram um clipe com uma colagem de filmes de SF & F misturado com clássicos do cinema aussie, como o Crocodilo Dundee e as drag queens de Priscilla, a rainha do deserto. Não sei quantas pessoas estavam presentes no evento, mas sei que era um número de quatro dígitos: o evento era enorme, e me disseram que os Worldcons dos EUA costumam ser ainda maiores.Logo depois da abertura eu estava escalada para participar do meu primeiro panel: “Queer representations in speculative fiction” ao lado de Erika Lacey e Andrew M. Butler. E veja só, logo nos meus primeiros minutos do meu primeiro Worldcon, eu estava sentada atrás de uma mesa para falar de improviso em inglês a um público nativo em língua inglesa. Claro que logo de cara bateu uma insegurança, mas respirei fundo e fui em frente. Andrew e Erika citaram obras que trabalham com sexualidade, personagens gays e lésbicas. Falamos do quanto os autores clássicos não contribuíram para a questão, e como era difícil para os mesmos ousar quando se propunham a tal. Citando as obras da Ursula Le Guin (especialmente A Mão Esquerda da Escuridão, Os Despossuídos e The Telling), destaquei a diferença que há entre produzir uma obra que discuta sobre sexualidade ou simplesmente escrever uma obra que inclua personagens gays e lésbicas, inserindo a orientação sexual como uma mera característica – coisa que só passou a acontecer com mais naturalidade no território da ficção especulativa nas últimas décadas. Pra terminar, ainda mandei uma pergunta para os outros panelistas e o público sobre como trabalhar a empatia de um personagem gay ou lésbica para o público geral. Terminado o panel, houve quem viesse comentar que querer emplacar personagens gays e lésbicas para o público geral era utopia minha.

Sem tempo para respirar, saí do primeiro panel e já fui para a sala seguinte para a primeira das minhas apresentações acadêmicas. Esclarecendo: no Worldcon há uma programação acadêmica que ocorre em esquema de simpósio, e eu estava representando o grupo do Prof. Luís Paulo Piassi da USP, que estuda obras de FC. Fui escalada para apresentar o trabalho do Emerson Gomes e da Sônia Montone: “An historiographic view about HG Wells’ The Time Machine” em um bloco de pesquisas sobre a obra do Wells. A sala estava lotada e o feedback do público na apresentação foi excelente. Ao final algumas pessoas vieram cumprimentar os autores do trabalho e dar dicas de referências bibliográficas, outras vieram curiosas me perguntar do Brasil, e acabei até conversando em português com um tasmaniano que morou um ano no Mato Grosso do Sul.

No dia seguinte, sexta feira, panel acadêmico: “These are not the people you are looking for: race in SF/F”, com Sheldon Gill (malaio naturalizado australiano), Ika Nurain (malaia, escritora em língua inglesa), Alaya Johnson (americana, escritora de fantasia), Anita Harris Satkunananthan (indo-australiana estudiosa de literatura), China Miéville (escritor britânico muitíssimo bem cotado no momento) e eu, que era a única latinoamericana presente na convenção. Sala bastante cheia, começamos a mesa nos apresentando. Alaya Johnson, que é uma mulata novaiorquina lindíssima, denunciou o racismo no mercado literário e nas editoras norte-americanas, e no quanto foi difícil convencê-las a colocar mulheres não brancas/caucasianas na capa dos seus livros. Já Anita falou de algumas obras de ficção científica e fantasia que estudou, analisando a questão de gênero e etnia, e até se emocionou falando das desigualdades implícitas dentro das mesmas. Na minha vez, falei sobre a representação dos brasileiros e outros latinos na literatura de ficção científica, citando como exemplo o livro Brazyl, do Ian McDonald (que concorreu ao prêmio Hugo em 2009). Comentei, aludindo em partes a um artigo publicado pelo Fábio Fernandes, que poucos foram os brasileiros que leram a obra, porque Brazyl não foi publicado no Brasil, mas entre quem leu existe a opinião de que Ian McDonald fez um trabalho tão bom que um brasileiro poderia tê-lo escrito, acrescentando um porém: se um brasileiro o tivesse feito, dificilmente teria o livro traduzido e publicado em língua inglesa. Falei sobre a barreira que a língua é para nós escritores não anglófonos. Comentei que o fato de nós, brasileiros, sermos cada vez mais visíveis no plano internacional não nos dá uma voz própria: continuamos sendo descritos a partir de um ponto de vista externo, e com muitas dificuldades de representarmos a nós mesmos nesse mercado literário dominante, que é o da língua inglesa. Já o China Miéville, que é, entre outras coisas, PhD em relações internacionais, fez uma ótima análise sobre a hipocrisia dentro do meio editorial, mas que eu não conseguiria parafrasear aqui com palavras tão afiadas. Foi uma mesa excelente e saí de lá dando uma entrevista para uma rádio de Melbourne.

No sábado, dia 4, um panel de muito, muito peso: “Fred Hoyle: Scientists and Science Fiction”, ao lado de dinossauros da FC como Gregory Benford, Jeff Harris e Alastair Reynolds. Sala lotada e 3 escritores-cientistas com muito mais experiência do que eu nas costas. Gregory Benford foi amigo de Fred Hoyle durante muitos anos e, por isso mesmo, acabou falando quase o tempo todo sobre a vida e obra de Fred Hoyle. A mim coube fazer algumas perguntas no final sobre as ideias polêmicas de Hoyle, que recusava a teoria do big-bang em favor do design inteligente (mesmo quando a teoria foi considerada provada pela medição da radiação cósmica de fundo), negava a origem espontânea da vida em favor da panspermia, e negava a origem fóssil do petróleo.

Já no domingo, enfrentei uma maratona de 3 panels. Comecei com uma apresentação acadêmica do grupo da USP, dessa vez a autora era a Rhamyra Toledo e o trabalho era: “The relations between science and social representations in Orson Scott Card’s Speaker for the Dead”. Na sequência, entrei em outro panel: Make Room! Make Room! , ao lado de Gord Sellar, Sam Scheiner (que acabou de publicar um livro de ecologia no Brasil) e Jonathan Cowie. Baseados em “Make Room! Make Room!”, a obra do Harri Harrison que inspirou o filme Soylent Green, falamos sobre o impacto da superpopulação na Terra. A discussão girou em torno de teorias neomalthusianas, aquecimento global e devastação ambiental. Falei sobre o desmatamento da Amazônia (equivalente a um estado do Rio de Janeiro por ano), sobre nossa recente euforia econômica com a entrada do Brasil no BRIC, e como é injusto para as nações em desenvolvimento terem que desacelerar o crescimento em virtude dos acordos sobre as emissões de carbono. Me senti muito a vontade e  foi o panel que mais curti em toda a convenção. Por último, eu e Erika Lacey dividimos a mesa no panel “The future of gender and sexuality”. Erika é uma leitora voraz, e citou dezenas de obras que tratam da questão gênero e sexualidade em ficção especulativa. Eu falei sobre pós-generismo e sobre a evolução das técnicas de reprodução assistida. O público era pequeno, e logo abrimos para perguntas e comentários da platéia. Discutiu-se longamente sobre homofobia, sexismo e política.

Finalmente, na segunda feira me dei ao direito de me fantasiar de fã e caçar autógrafos. Dos panels que assisti, achei particularmente interessantes um sobre as consequências da imortalidade, um workshop sobre como escrever cenas de luta, e as palestras do escritor e convidado de honra Kim Stanley Robinson, todas ótimas!

 

Robert Silverberg e Kim Stanley Robinson

 

Autografei livros com o George R.R. Martin (que acabou de publicar “Guerra dos Tronos” no Brasil pela Leya), com o China Miéville (que vai ser publicado no Brasil pela Tarja Editorial), com o Kim Stanley Robinson (que ainda não tem livro publicado por aqui, alô editoras!) e com a Alaya Johnson (que já veio ao Brasil e com quem deixei um exemplar do meu livro Fábulas).

 

Eu e George R.R. Martin

 

Mas eu tenho que falar do Green Room! Os participantes dos panels têm o direito de usar o Green Room, que é uma salinha preparada para matar a fome, a sede, as dúvidas e onde os panelistas podem se reunir, conversar e preparar os panels. O Green Room tinha uma cafeteira de ficção científica, um buffet delicioso de frutas, queijos e doces, refrigerantes, chocolates, e até coalinhas de brinde para pendurar na lapela, tudo de graça e à vontade. Tinha dias que eu trocava o café da manhã no hostel pelo café da manhã no Green Room, que além de ter a vista belíssima do panorama de Melbourne, estava quase sempre povoada de escritores nos mais variados níveis de fama e reconhecimento, incluindo Robert Silverberg, Charles Stross, John Scalzi, George R.R. Martin, Kim Stanley Robinson… Quando eu descobri o Green Room, não queria mais sair do Green Room!

 

Green Room

 

Também não poderia deixar de falar da cerimônia do Hugo Awards! Para quem não conhece, o prêmio Hugo é o prêmio máximo da literatura de ficção científica e fantasia, atendendo diversas modalidades em diferentes mídias: literatura, fanzines, revistas especializadas, quadrinhos, artistas gráficos, filmes e seriados. Quem apóia ou participa do Worldcon tem o direito de votar para o Hugo Awards, e esta foi a primeira vez que eu votei.

O Hugo Awards é um evento de gala, o mais glamoroso do tipo. O mestre de cerimônias deste ano foi o escritor de ficção científica Garth Nix, que segundo ele mesmo, estava usando as botas de caubói do Isaac Asimov, a gravata do Robert Heinlein, os óculos do Cory Doctorow, só não teve dinheiro para comprar as cuecas do Neil Gaiman. Logo no início houve uma retrospectiva do ano de 2009 com os candidatos ao prêmio Hugo – é exatamente este vídeo que você pode assistir clicando abaixo.

Depois foi apresentado o troféu Hugo de 2010. O troféu Hugo é um foguete, e só a base é mudada de ano a ano. A base deste ano, de inspiração australiana, foi criação de Nick Stathopoulos. E então passou-se às premiações.

Melhores momentos:

Uma das partes mais interessantes foi quando Robert Silverberg foi receber o prêmio de best fan writer que saiu para o escritor Frederick Pohl (que tem 90 anos e já ganhou outros Hugos).  Sobre essa premiação inusitada, Silverberg simplesmente comentou: “that’s weird!”

O escritor Robert Silverberg daria um ótimo comediante stand up. Quando subiu ao palco para apresentar o prêmio de melhor editor, Silverberg fez a platéia cair na gargalhada analisando a dificuldade de ser engraçado apresentando um prêmio tão sem charme e sem graça como o de “melhor editor”.

Quando o prêmio de best semiprozine saiu para Clarkesworld, Cheryl Morgan veio ao palco muito concentrada no iPhone, tropeçou nos degraus e quase se esborrachou na escada. Veio ao microfone e pediu desculpas: estava fazendo live-blogging.

Enquanto todos os seus colegas estavam na estica e engravatados, um embasbacado Peter Watts subiu ao palco de calça jeans e camiseta confessando que não contava receber o prêmio de best novelette e nem tinha preparado discurso. Logo depois, Charles Stross subiu ao palco para receber o prêmio de best novela no mesmo embasbacamento, dizendo: “estava tão certo de que não iria ganhar que nem preparei discurso. Obrigado!”

Finalmente, o momento que todos esperavam. Kim Stanley Robinson veio apresentar o  vencedor de best novel, melhor romance, o prêmio mais esperado, concorrido e almejado. Abriu o envelope e então começou a divagar longamente sobre a natureza das estatísticas: coisas muito improváveis acontecem, somos todos improváveis, e aconteceu uma coisa improvável: um empate no primeiro lugar! Havia dois vencedores: The City & The City, do China Miéville e Windup Girl do Paolo Bacigalupi. China estava presente e subiu ao palco para agradecer. Disse que era véspera do seu aniversário de 38 anos e que este havia sido o melhor presente que poderia ganhar. Paolo não estava presente. Não entendo bem como são calculados os votos para o prêmio Hugo, mas levando em conta que deu empate na votação, é legal pensar que dei um Hugo Award de aniversário para o China Miéville.

Segue a lista de premiados do Hugo de 2010:

Best Novel: TIE: The City & The City, China Miéville (Del Rey; Macmillan UK); The Windup Girl, Paolo Bacigalupi (Night Shade)

Best Novella: “Palimpsest”, Charles Stross (Wireless; Ace, Orbit)

Best Novelette: “The Island”, Peter Watts (The New Space Opera 2; Eos)

Best Short Story: “Bridesicle”, Will McIntosh (Asimov’s 1/09)

Best Related Work: This is Me, Jack Vance! (Or, More Properly, This is “I”), Jack Vance (Subterranean)

Best Graphic Story: Girl Genius, Volume 9: Agatha Heterodyne and the Heirs of the Storm Written by Kaja and Phil Foglio; Art by Phil Foglio; Colours by Cheyenne Wright (Airship Entertainment)

Best Dramatic Presentation, Long Form: Moon Screenplay by Nathan Parker; Story by Duncan Jones; Directed by Duncan Jones (Liberty Films)

Best Dramatic Presentation, Short Form: Doctor Who: “The Waters of Mars” Written by Russell T Davies & Phil Ford; Directed by Graeme Harper (BBC Wales)

Best Editor Long Form: Patrick Nielsen Hayden

Best Editor Short Form: Ellen Datlow

Best Professional Artist: Shaun Tan

Best Semiprozine: Clarkesworld edited by Neil Clarke, Sean Wallace, & Cheryl Morgan

Best Fan Writer: Frederik PohlBest Fanzine: StarShipSofa edited by Tony C. Smith

Best Fan Artist: Brad W. Foster

Como comentei, o Worldcon é enorme, e aparentemente metade dos hóspedes do meu hostel estavam participando do evento. Nos corredores do hostel, a toda hora esbarrava com minha colega de panel Anita Satkunananthan, com quem conversei bastante. Na rua encontrava outros colegas panelistas, vivia esbarrando com o Sheldon Gill, encontrava a Ika Nurain na pizzaria… Conheci também um casal de steamers (fãs e cosplayers de steampunk) australianos que moram na Nova Zelândia, que elogiaram a organização do Conselho Steampunk brasileiro, um dos mais atuantes do mundo. Infelizmente eu perdi a maior parte das festas e baladas do Worldcon porque tinha que voltar cedo para o hostel para preparar os panels do dia seguinte. Na segunda feira, dia 6 de setembro, eu estava tendo meu dia de fã, feliz mas num danado clima de despedida. Lembro de estar no Green Room tomando meu último café, com a Alaya Johnson perguntando se ainda me veria depois da cerimônia de encerramento – bem que eu gostaria… Mas foi tudo tão rápido! Naquela tarde o Worldcon terminou, eu fui direto para o hostel para lavar as roupas e arrumar a bagagem, e logo depois, durante a madrugada, estaria puxando minha mala pelas ruas de uma Melbourne vazia, chuvosa, adormecida. Peguei um ônibus e segui para o aeroporto sozinha, vendo a cidade sumir na garoa e na escuridão. Antes do sol nascer, meu avião decolou, e eu dei adeus à Austrália.

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3 comentários

  1. […] This post was mentioned on Twitter by Romeu Martins, Emerson Gomes and crislasaitis, crislasaitis. crislasaitis said: E finalmente meu relato do Worldcon 2010/ Aussiecon 4 e Hugo Awards: http://bit.ly/d28a5N […]


  2. […] Worldcon 2010/ Aussiecon 4 – o relato […]


  3. […] sonhos de longa data: conheci a Austrália e a Nova Zelândia, participei pela 1ª vez do World Science Fiction Convention; e embora ainda não tenha conseguido publicar o meu romance, escrevi meu primeiro roteiro de […]



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