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Australionauta, a missão Kiwi – Parte 1

outubro, 21 - 2010

No caminho entre a Austrália e o Brasil encontrei a Terra Média, e não quis simplesmente passar passando. Quis parar para ver, para sentir, para descobrir se aqueles cenários que eu via no Senhor dos Anéis eram mesmo feitos de papelão pintado.

Claro né!

Mas aventura que é aventura de verdade tem que ter emoção. Na manhã do dia 4 de setembro, estava eu tomando meu breakfast no green room do Worldcon, relaxando com a vista fascinante de Melbourne, observando o movimentação de escritores mais e menos famosos, quando entra na sala uma mulher mandando avisar a todos os kiwis presentes que um terremoto de 7,5 graus havia atingido a Nova Zelândia!

E eu, boquiaberta, babei pedacinhos de muffin.  Havia decidido minha viagem pela Nova Zelândia na semana anterior, e estava para embarcar para Christchurch, o epicentro do terremoto, dentro de 4 dias!! Eu não conseguia parar de pensar que o terremoto por muito pouco não havia me pegado. Mas e agora que já paguei a viagem? – pensei – E agora?

Eu estava às cegas, sem saber qual era a situação na Nova Zelândia, se ainda existia possibilidade de visitar a ilha sul, se ainda existia gente na ilha sul, isto é, se ainda existia a ilha sul!!

Será que eu iria desembarcar e me encontrar na Ilha de Lost?

Sem informação suficiente e com todas essas angústias existenciais, eu fiz as malas e fui embora da Austrália naquela despedida lúgubre do capítulo anterior. Vi o dia amanhecer em alto mar, voando. Ansiosa no meu devaneio de Ícaro, e distraída com as aeromoças da Qantas desfilando os vestidinhos de estampa aborígene.

O feitiço me pegou ainda no avião. Quando, debaixo do meu ser aéreo, naquelas eternidades de mar azul-cinzento rebrilhando ao sol, vi surgir o primeiro braço de terra de Aotearoa. Uma península de montanhas sinuosas com verdes prados cravejados de ovelhinhas e abençoados por uma névoa misteriosa. Aquela terra, queixo-caível mesmo num dia cinzento, aquela terra era a Nova Zelândia!

E eu estava pousando nela.

Só, deixei o aeroporto. Peguei um shuttle para o centro da cidade e uma hora depois estava entregue ao Base Backpacker de Auckland, onde podia levantar minha cabeça loira e ver o vulto daquela torre magnífica, aquele totem pós-modernista que vigia a cidade nas noites iluminadas.

Eu devia estar eufórica, mas não tinha energia pra isso. Estava morta de cansaço, sem dormir havia dois dias. A primeira coisa que fiz quando cheguei ao backpacker foi tomar um banho e desmaiar. Não lembro se acordei e fui jantar. Não lembro se fui jantar desacordada. Talvez alguém tenha visto uma loira sonâmbula entrar no Burger King e pedir um whooper com batatas fritas e um refrigerante pink e depois fazer o caminho inverso para a cama. Talvez a sonâmbula ainda tenha tirado umas fotos à toa na noite. Talvez ainda tenha entrado no McDonalds para tentar acessar a internet gratuita. Ou não.

Mas no dia seguinte estava bem acordada para tomar meu café da manhã no Dukin’ Donuts, eu já tinha engordado um monte mesmo, não tinha peso para manter.  E ah… agora sim: Nova Zelândia!

Andei por Auckland feito uma barata tonta feliz. Entrei em centenas de lojas de souvenir, conheci o shopping center, as docas, almocei sushi barato, andei pela praça florida, pelas vielas charmosas, fui conhecer a torre de aço, de marfim, de sonho.

A torre de Auckland.

Peguei um elevador, subi, e lá no alto – eu, que adoro altura – fiquei rondando o deque principal. Meu cérebro entrando em parafuso enquanto tentava caminhar no chão de vidro, com centenas de metros de nada embaixo. 360 graus, e descobre-se que Auckland é uma cidade grande, a maior da Nova Zelândia, esse país com menos de 5 milhões de habitantes.

Me perdi na torre e fui parar em diferentes restaurantes que ficavam girando dentro do cilindro. Será que a comida era feita lá em cima ou subia?

Fui para o deque superior e vi as coisas mais alto. Mas tá bom né? Chega.

Saí da torre para passear e fui tropeçar em uma galeria repleta de lojinhas de moda japonesa, com vendedoras japonesas e aquelas roupinhas de rendas e frufrus! Estava eu, o cartão de crédito e o desespero de nunca mais voltar a ver lojinhas como aquelas. Não agüentei. Não dava. Minha drag queen interior não deixou! Voltei para o hostel cheia de pacotes.

Mas e o terremoto hein?

Chegando em Auckaland as notícias eram incertas. No meu quarto havia uma garota que também tinha acabado de chegar e estava pensando em cancelar seus estudos em Christchurch. Encontrava com pessoas que me diziam: “você vai para Christchurch? Mas estão todos fugindo de lá!”. O Base Backpacker onde iria me hospedar na cidade estava fechado por conta dos estragos do terremoto. Na internet via notícias do tipo: 70% da cidade sem luz, tantos por cento sem água… e pensava meudeus! Cheguei a pensar em cancelar todinha minha viagem pela ilha sul – o detalhe era que eu já havia pago.

O fato é que eu não tinha tempo a perder, teria apenas 10 dias na Nova Zelândia. Havia contratado uma agência de intercâmbio brasileira sediada em Christchurch, a NZEGA , e a grande vantagem era que em casos de desespero como aquele eu podia ligar para a moça da agência e me desesperar em português. E fazia exatamente isso: ligava e ela me contava que o centro da cidade estava paralisado por conta dos estragos do terremoto, mas que seria besteira cancelar minha viagem pela ilha sul só por conta disso.

Pensei bem e, com a cara e a coragem, no meu terceiro dia no país embarquei para a cidade do terremoto. Eu carregava uma mala maior do que o mundo, e resolvi deixar parte das minhas coisas no hostel de Auckland, que pegaria na volta, antes de partir. Fui num seja-o-que-deus-quiser. Fui!

Saí de Auckland debaixo de chuva. Voei duas horas sobre o mar e Aotearoa. Pousei sem saber se podia confiar no solo em que estava pisando. Andarilhei sozinha pelo aeroporto de Christchurch, me indagando sobre a brasileira da agência com quem havia combinado de me encontrar. Mas eis que duas moças me chamam pelo meu nome, sim, sou eu! Eram a Mary, a dona da agência, e a Léia, uma brasileira que também havia acabado de chegar. Elas dizem que tinham me chamado umas três vezes e eu havia passado como se não fosse comigo, sem ver nem ouvir… Que vergonha, sou distraída mesmo!

Entramos na picape da NZEGA e no caminho Mary vai nos contando sobre o terremoto. O centro de Christchurch ainda estava intransitável, mas fomos transferidas para um hostel próximo, onde o terremoto não havia feito grandes estragos. Mesmo com terremoto, eu já ia me apaixonando por aquela cidade bucólica, cheia de casinhas fofas com jardins incríveis, parques lindos e monumentos que remetiam à Inglaterra vitoriana. Chegamos no hostel e eu já gostei logo de cara: Jailhouse, fora uma cadeia até 1999, que coisinha meiga! O charme do lugar era, claro, preservar o espírito de cadeia. Fui fichada na recepção, e dispunha de pijamas listrados, canecas listradas, cobertores listrados – moda xilindró outono/inverno 2010!

A Nova Zelândia é um país tão pacato, mas tão pacato, que para não morrer de tédio e de falta do que fazer os kiwis prolongam ao máximo a tarefa mais simples. Foram uns 20 minutos para cadastrar duas hóspedes na recepção.

Alocadas, saímos com a Mary para conhecer o centro da cidade, onde o trânsito de veículos estava na maior parte fechado. Se o terremoto nos provocara contratempos, pelo menos iríamos fazer turismo do terremoto. Andávamos na rua e, de trecho em trecho, havia casas antigas ruídas, vários prédios embargados, vidros quebrados, tijolos espalhados, uma ou outra calçada desalinhada. Mas não, não era o caos. Apesar de tudo, o clima em Christchurch era muito tranqüilo, e os habitantes até faziam piada – e o faziam porque o terremoto terminara sem vítimas fatais.

Almoçamos num restaurante chinês e andamos um pouco pelo centro. Eu já nem dava bola para os detalhes do terremoto, a cidade ainda assim, naquele dia cinzento e de vento frio, era tão linda, tão fofa e européia, que nem me preocupava. Estava encantada. Mary nos devolveu ao hostel, ou melhor, à cadeia, junto com um convite para o chá de bebê de sua filha (pois ela estava grávida), na noite seguinte.

Entramos. E enquanto eu deitava para um cochilo, uma chuva fria desceu para envolver aquele bairro industrial silencioso numa atmosfera triste de exílio. Acordei já de noite e com fissura de internet. A internet na Nova Zelândia é mais barata que na Austrália, mas ainda bem mais cara que no Brasil. Fui até a recepção e paguei dez dólares por quatro horas de acesso, e passei a noite navegando, twittando, subindo fotos…

 

"Eu sobrevivi ao terremoto de Christchurch - Setembro/2010"

 

Meu corpo inteiro estava atento para o chão. Eu ainda não confiava no chão. Juro em uma vez ou outra tê-lo sentido se mover por menos de um segundo, e é uma sensação bastante desagradável.

No dia seguinte eu e Léia acordamos e passeamos pela cidade. Fomos andar pelo rio, e aí… e aí foi paixão, cara! Pelo rio, quero dizer. Pelos parques que correm nas suas duas margens, com um gramado delicioso, árvores de chorão, flores. Esse riacho povoado de patinhos, cortado por pontezinhas, sob as quais passam gondoleiros muito empenhados no seu romântico trabalho de levar casais apaixonados para passear.

Tomamos o breakfast num café à beira do rio do qual eu vou sentir sempre dolorosas saudades, porque era lindo, lindo, lindo… e gostoso! Se um dia você for à Christchurch, por favor, vá a esse café!

Depois andamos, andamos… Visitamos a praça central com aquela igreja emblemática, visitamos lojas de souvenirs, visitamos a imensa biblioteca da cidade, fiz compras num brechó danado de legal, tomamos cerveja num pub e, ao anoitecer, seguimos para o chá de bebê na casa da Mary. Visitando aquela casinha fofa no subúrbio de Christchurch, só pude ficar imaginando a vida maravilhosamente tranqüila naquele lugar. O chá de bebê foi invadido por um batalhão de brasileiros. Brasileiros que moram e trabalham na Nova Zelândia, imigrados, casados com kiwis e outros gringos. Olha que tem MUITO brasileiro ali! Mas no chá tinha especialmente brasileiras e eu conversei com várias, elas me contando como é a vida na kiwilândia e como foi passar pelos 40 segundos de um terremoto de 7,5 graus. Estavam ainda traumatizadas.

Mas eu tinha que ir, porque no dia seguinte pegaria o trem. Deixei a festa que prosseguia noite adentro, dei um último abraço na Mary e parti para a minha cadeia.

Acordei cedinho, me despedi da minha amiga brasileira e parti com meu malão para a estação de trem. O TranzAlpine, o trem que cruza os Alpes neozelandeses. Sentei numa cadeirinha solitária, e arrisquei várias peregrinações ao primeiro vagão para comprar café. Na janela, montanhas, montanhas, montanhas. Neve. E o leito pedregoso de largos rios. Eu estava esperando que fosse mais ou menos como no Senhor dos Anéis, quando o grupo está cruzando as montanhas em busca dos portões de Moria. Mas não, não é bem assim. Mas sim, vale a pena do mesmo jeito.

O que eu não sabia era que logo quando parti, houve um aftershock em Christchurch. A Terra Média tremia…

Sim senhores, o próximo episódio é o capítulo FINAL!

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14 comentários

  1. […] This post was mentioned on Twitter by Romeu Martins, crislasaitis. crislasaitis said: EXTRA! EXTRA! Aconteceu na Nova Zelândia! Australionauta, a missão Kiwi – Parte 1: http://bit.ly/9BFP6V […]


  2. No alto daquela torre não tinha um olhão flamejante que a tudo queria dominar?


    • Se eu disser que tinha, cê acredita?


  3. […] Australionauta, a missão Kiwi – Parte 1 […]


  4. Li e reli. E deu vontade de ouvir mais, digo, ler mais. Belíssima viagem. E claro, parabéns pela coragem e ousadia!


    • Valeu, Ronaldo!


  5. Acho que quero morar na Nova Zelândia.


    • E um dia eu quero voltar no verão, e percorrer as ilhas de carro. Vamos?


      • VAMOS!

        Antes ou depois de nos tornarmos escritoras ricas? ;-D


      • Sua viagem de formatura, que tal?


  6. Se bem que terremoto… sei não. Já tive minha dose de efeitos colaterais de erupção vulcânica, e olha que eu estava longe.

    Achei curioso saber que há muitos brasileiros na NZ. Um primo do David foi simplesmente BARRADO na alfândega. Depois desse episódio, ficamos com a impressão de que se tratava de um país muito difícil de entrar.

    Mas parece tão legal! 😀


    • Se a finalidade é só visitar, ultimamente a Nova Zelândia está menos burocrática que a Austrália. Precisei tirar visto pra Austrália e não precisei pra NZ.
      Já ouvi falar de outros brasileiros que foram barrados. Mas de todas as histórias que ouvi, fiquei com a impressão de que eles facilitaram: ou não falavam inglês, ou não provaram que tinham reservas, dinheiro, passagem de volta…
      Não enfrentei nenhum problema na alfândega em Auckland, e não sei se o fato de ter descido de um avião que vinha da Austrália (e não da América do Sul) fez diferença.


  7. Ah, só pra ser chata: os cenários do Senhor dos Anéis não foram pintados em papelão eheh, hoje em dia o “matte painting” é todo digital. E lindo! O dessa trilogia foi feito pelo idolatrado-salve-salve Dylan Cole. Clique e babe: http://www.dylancolestudio.com/


  8. […] concluir que meu 2010 foi incrível!  Realizei sonhos de longa data: conheci a Austrália e a Nova Zelândia, participei pela 1ª vez do World Science Fiction Convention; e embora ainda não tenha conseguido […]



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