h1

Australionauta, a missão Kiwi – FINAL

outubro, 28 - 2010

A ilha sul da Nova Zelândia só tem um defeito: todo lugar para onde quer que você olhe é lindo. Eu ainda não tinha internalizado esse conceito, então tirava foto. Tirava foto, foto, foto até perceber que não tinha jeito, a paisagem iria me vencer.

Deve ser horrível morar num país tão lindo e tranqüilo, bate uma puta preguiça de trabalhar!

Por isso que os brasileiros estão ganhando espaço, me disse uma brasileira que encontrei no hostel. Ela tinha deixado um cargo de gerência no Brasil para ganhar 5 vezes mais trabalhando como garçonete na Nova Zelândia. Segundo ela, os empregadores gostavam, porque brasileiro trabalha pra valer. Para onde eu ia, ouvia português. A brasileirada invadiu a kiwilândia, estavam no mercado, nas lojas, nas agências, até no alto da torre de Auckland. Para quem tem vontade de fazer um curso de inglês no exterior, saiba que a Nova Zelândia é um país ótimo pra se falar português…

Embarcando no TranzAlpine, fiz a travessia da costa leste para a oeste através das montanhas, até a cidade Greymouth, de frente para o Mar da Tasmânia. Minha jornada seguia para Franz Josef, e eu não sabia direito qual a distância de uma cidade à outra (nessa aula de geografia eu faltei). Resultado: cheguei em Greymouth com 40 míseros dólares no bolso que foram para as mãos do motorista do shuttle que me levaria até o meu hostel em Franz Josef, e eu fiquei xingando pelo serviço caro. Caro? O ônibus deu a partida e seguiu em frente toda a vida, debaixo de chuva, atravessando montanhas, pontes, passando sobre os leitos pedregosos de rios onde Gandalf perdeu as meias, e florestas onde os hobbits perderam as cuecas, parando em cidadezinhas mínimas onde eu não conseguia fazer nenhum câmbio porque era um maldito domingo. E cadê Franz Josef? Franz Josef ficava numa curva atrás do fim do mundo!

Franz Josef não é uma cidade, é uma sujeirinha demográfica. Tem duas ruas, meia dúzia de hotéis e hostels, um mercado, um café, um pub, duas lojas de souvenir e uma agência de turismo de aventura.

E o que é que tem de tão atraente em Franz Josef?

Isso:

Franz Josef fica coladinha numa cadeia de montanhas enormes, que aninham um grande volume de neve, e a neve que vaza pela brecha das montanhas criou uma grande plataforma – um rio de gelo – o Franz Josef Glacier. Uma geleira permanente, em terra. É uma vista bonita, e atrai turistas que vão fazer trekking no gelo e até sobrevoar as montanhas de helicóptero.

Cheguei num dia chuvoso e frio, e achei Franz Josef um lugar maravilhoso pra se morrer de tédio, cercado de montanhas nevadas, selva exuberante (muitas, mas muitas samambaias) e aquela névoa misteriosa que parece acariciar perpetuamente os montes neozelandeses. Meu hostel, o Glow Worm Cottages, era uma espécie de chalézão alpino aconchegante. Me hospedei num quarto para 4 pessoas, junto a um trio de ingleses que viajavam a Nova Zelândia em Work & Holiday (seria tão bom se tivéssemos direito a essa mordomia estrangeira!).

No dia seguinte fui fazer caminhada na geleira. Me dirigi à agência e tive que trocar quase toda a minha roupa por roupas impermeáveis próprias para o frio. Me inseri no meio de dezenas de turistas e pegamos o ônibus até o parque da geleira, a cinco minutos de distância. Nossa guia era uma inglesinha loira, que nos conduziu por uma caminhada pela mata, até chegarmos ao leito do rio que escorre da geleira. Daí em diante é só subida num terreno pedregoso. Uma pausa para prender nas botas aquelas esporas de caminhada no gelo e seguir adiante, geleira acima, atravessando paredes brancas, crevassas, e todas aquelas formações glaciais que muito me lembraram o livro A Mão Esquerda da Escuridão da Ursula K. Le Guin.  Chegamos a uma plataforma de gelo e ficamos ali tirando fotos. Frio de verdade, minhas mãos congelavam ao vento. Dali a pouco, começamos a descida e o caminho de volta. O trekking de meio dia foi o bastante pra mim (eu, que sou bicho-preguiça).

Fui dormir cedinho para pegar o ônibus na manhã seguinte. Próxima parada: Queenstown!

O transporte na Nova Zelândia é muito caxias. Você marca com o motorista às 14:25, e quando é 14:24 ele vem virando a esquina. Cheguei a pegar shuttles antes da hora marcada, porque tanto eu quanto o motorista havíamos nos adiantado. Na Nova Zelândia o respeito aos horários é endêmico, boa lição deram esses ingleses! Os ônibus são metodicamente pontuais. Mas isso não é sinônimo de pressa, muito pelo contrário: o ônibus anda uma horinha e pára pra visitar uma cachoeira. Anda mais meia horinha e pára pra fazer xixi. Anda mais uma horinha e pára numa venda de frutas. Anda mais uma horinha e pára pro almoço. Anda mais meia horinha e pára pra ver a paisagem na beira da estrada… O transporte é indissociável do turismo, o que é muito compreensível. São montanhas, ovelhas, florestas, névoa, montanhas, rios, ovelhas e samambaias, e montanhas, névoa, ovelhas… E nesse ritmo eu levei o dia todo para ir de Franz Josef a Queenstown, passando por cenários que me davam vontade de virar uma pedrinha e me juntar pra sempre àquela paisagem.

E Queenstown?

Queenstown é uma cidade deprimente: você vai ficar deprimido pra sempre por não morar lá! Não é simplesmente uma cidade linda, é uma cidade que dói nos olhos, que enfeitiça a alma. Queenstown é insuportavelmente bela!

Uma cidade construída à beira de um lago de águas turquesa, cristalinas – água do derretimento da neve. Ao redor, por todos os lados, uma cadeia de montanhas nevadas faz parceria com as nuvens, abriga uma floresta de coníferas. O lago é recortado por penínsulas e morrinhos verdejantes, que ostentam parques floridos e povoados de árvores de muita personalidade, de folhas secas outonais, de flores exuberantes primaveris, de folhagens em cascata como os chorões inumeráveis… Gaivotas e patinhos de cabeça verde nadam distraídos no lago e nas lagoas. E a cidade, à beira do lago e dos parques, fervilha com calma e elegância. São prédios de arquitetura vitoriana, bulevares cosmopolitas, banheiros de ficção científica, comércio forte e organizado, charme, charme, charme em tudo. Turistas por todos os lados, vê-se muita gente carregando esquis e pranchas de snowboard debaixo do braço. Para os padrões neozelandeses é uma cidade grande, para os padrões brasileiros é uma cidadezinha, mas para o padrão geral é a cidade onde todos querem estar! De todos os lugares do mundo que conheci, Queenstown é o melhor para esquecer de tudo e curtir a paisagem.

Fiquei no Pinewood, uma rede de chalés-hostel. Dormi noites muito frias na minha casinha vermelha ao sopé da montanha, para acordar de manhã e descobrir que a neve dos picos tinha se renovado. Andar por Queenstown era uma delícia a qualquer momento, a vista me anestesiava as bolhas do pé.

No meu segundo dia em Queenstown fui fazer o famoso cruzeiro por Milford Sound, na terra dos fiordes. Peguei a van da agência de turismo cedinho e fomos naquele ritmo pára-aqui-pára-ali, pra ver os cenários mais mágicos que não couberam no trailer da Terra Média. Uma parada no Mirror Lakes, outra parada para andar na floresta até uma cachoeira furiosa, e mais uma parada para tirar fotos da nevasca que nos pegou pelo caminho.

Horas depois, chegamos ao cais de Milford Sound, onde subimos a bordo de um barco de passeio repleto de turistas asiáticos.

O que é Milford Sound? Para quem não está habituado com o conceito de fiordes, imagine um rio ladeado em toda sua extensão por montanhas altíssimas, nevadas, revestidas de uma mata verde exuberante, que terminam abruptamente criando desfiladeiros e corredeiras, dando origem a um belíssimo corredor de água ornado de cachoeiras e picos fabulosos, visitado por focas e pingüins, e mais: embalsamado naquela sonhadora névoa que paira sobre a Nova Zelândia.

É um ponto bastante meridional e peguei um clima muito frio, debaixo de vento gelado e chuva. Mesmo assim, deu pra tirar montes de fotos e curtir aquele cenário inóspito de outro mundo. O barco seguiu através de Milford Sound até o Mar da Tasmânia, onde deu meia volta e navegou contornando as montanhas, até voltar ao cais, três horas depois. Uma viagem curta para memórias tão duradouras.

A partir de Queenstown, leva-se o dia inteiro para ir e voltar de Milford Sound – 12 horas. Voltei para a cidade numa noite congelante.

E no dia seguinte, fui passear de gondola! Minha agente de turismo, a Mary, tinha me reservado um passeio de gondola e eu fiquei pensando: “puxa, que romântico! Pena que eu não tenho ninguém pra levar comigo”. Eu estava pensando que ia passear de barquinho no lago, do lado de um gondoleiro de terno listrado. Mas na verdade, “gôndola” são os bondinhos que sobem a montanha! O que não deixa de ter seu romantismo…

Em Queenstown tem um parque no pico da montanha mais próxima ao centro da cidade. Você sobe até lá de bondinho – ou gôndola – e lá no alto tem restaurante, loja de souvenir, teleférico, bungee-jumping, observatório e a pista de luge. O que é luge? Uma espécie de carrinho de rolemã. A vista, meudeus, a vista! A vista lá de cima é incrível! O alto da montanha estava coberto de neve – o que é um artigo que eu, como habitante dos trópicos, aprecio muito. Neve fresca e fofa, que pegava aos punhados e ficava olhando bem de pertinho para ver os cristais. E aí eu completei meu dia de criança feliz descendo a pista de luge, sentindo aquele ventinho gelado refrescante…

E quatro dias depois de ter chegado, parti de Queenstown em mais uma daquelas viagens pára-aqui-pára-ali através das paisagens de sonho, cheias de ovelhas, florestas, montanhas, lagoas turquesa, e ovelhas, névoa, montanhas… até Christchurch, meu ponto de partida na ilha sul.

Passei por uma cidadezinha chamada Wanaka, que lamentei não poder ficar. Parei por uma hora às margens do Lago Tekapo, de águas turquesas, aos pés do Mount Cook, o pico mais alto da Nova Zelândia. Pelo caminho comi lanchinhos deliciosos de salmão defumado. Passei por cidadezinhas fofas e pacatíssimas. Cheguei a Christchurch naquela mesma tarde para me hospedar no mesmo hostel – o Jailhouse – a cadeia, onde reencontrei minha colega brasileira, a Léia, e dividi o quarto com um batalhão de outras brasileiras que estavam por ali. Seria só uma noite, pois no dia seguinte – meu 11º dia na Nova Zelândia – eu estaria partindo.

No dia 17 de setembro de 2010 eu acordei às 6 da matina, tomei meu último café da manhã no Subway ao lado do hostel, fechei a mala, me despedi das brasileiras, peguei o shuttle para o aeroporto de Christchurch e embarquei num vôo da Air New Zealand para Auckland. Voei na névoa, aquela névoa kiwi que eu adorava. Duas horas depois, pousando em Auckland, comecei minha maratona para ir até a cidade, recolher a bagagem que tinha deixado no hostel, voltar para o aeroporto, fazer o check-in e embarcar no vôo internacional num intervalo de menos de 4 horas. A chuva e o congestionamento em Auckland não me ajudaram muito, é claro. Cheguei no aeroporto uma hora e meia antes do meu vôo partir, fiz o check in e fui almoçar achando que estava tranqüila. Entrei no embarque meia hora antes da partida do avião e – surpresa! – tinha fila na aduana. Meus últimos 15 minutos na Nova Zelândia foram uma correria louca e desesperada pelo saguão gigantesco do aeroporto de Auckland (leis de Murphy: meu avião tinha que partir do último portão, o mais distante), na qual quebrei todos os meus recordes de resistência física. Chegando vermelha, descabelada e espavorida no balcão da Lan Chile, o aeromoço me acalmou: afinal, eu não era a última passageira a embarcar – devia ser só a penúltima!

Me afundei no banco ao lado da janelinha onde teria 13 horas de oceano até Santiago, e de lá, mais 4 horas até São Paulo.

 

São Paulo - 11452Km

 

Decolei cansada e feliz, deixando sonhos realizados por terra – em terras distantes. Deixando um pedaço meu ali – talvez um braço – que junto com o outro que trago, me dão a sensação de poder abraçar o mundo. Saudade vai além do clichê, e “casa” é um estado de espírito. Perdida no subúrbio improvável de Sydney, mergulhando no Pacífico meridional, caminhando sobre as trilhas de formigas do outback ou sobre a geleira encravada nos picos neozelandeses, por todo esse tempo eu me senti em casa. Minha casa é enorme… Mas precisei vasculhá-la por inteiro para descobrir o lugar onde estava guardada a minha liberdade.

Anúncios

6 comentários

  1. […] This post was mentioned on Twitter by Carlos Felippe, crislasaitis. crislasaitis said: Concluída a última parte do meu relato de viagem: Australionauta, a missão Kiwi – Parte Final: http://bit.ly/9ow6g4 […]


  2. […] Lasaitis Anatomia da Vertigem « Australionauta, a missão Kiwi – FINAL Relatos de Viagem outubro, 29 – […]


  3. Chave de ouro. 😀

    Foi muito legal acompanhar a epopéia de longe. Valeu, Cris!


    • 😉


  4. Muito legal seu relato… vc me fez recordar algumas passagens que fiz qdo fui à Sydney… Caramba, que lugar gostoso…


    • Obrigada, Andrezza!! Sinta-se encorajada a conhecer!! A Nova Zelândia é um lugar que eu faço questão de voltar assim que puder!



Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: