Archive for outubro \08\UTC 2010

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Australionauta, o relato – Parte 7

outubro, 8 - 2010

A Austrália parece um pedaço da Europa (ou melhor, da Inglaterra) que se perdeu numa zona subtropical.  É a impressão que se tem quando você anda pelos subúrbios de Sydney e de Melbourne. Pela primeira vez na vida me senti longe da zona de influência norte-americana. Estava fazendo o câmbio em dólares americanos, verdade, mas com a recente desvalorização (o dólar australiano está valendo praticamente o mesmo que o americano) me parece que não teria perdido nada se tivesse optado por euros ou libras. Você liga a TV e não assiste à invasão de filmes, séries e programas americanos, em vez disso, muita programação britânica, juntamente com programas australianos e neozelandeses. Não que a qualidade seja melhor. Fazia muito sucesso o X Factor, que é uma versão australiana do American Idol, e tinha também o Dance With the Stars, uma versão melhorada da “dança dos famosos”. Tinha um reality show chamado “The World’s Strictest Parents”, que era uma espécie de troca de família em que os adolescentes iam passar um tempo na casa de pais substitutos bastante metódicos. Tudo muito forçado para ganhar dramatismo na TV, claro. Havia outro reality show que era uma competição entre candidatas a top model, igualmente forçado. O que achei mais interessante foi uma novela de ficção científica neozelandesa chamada “The Tribe”, que conta uma história onde todos os adultos desapareceram, e apenas restaram no mundo as crianças e os adolescentes. Estes, com toda a responsabilidade nas mãos, remodelaram toda a estrutura da sociedade e passaram a viver em tribos – cada tribo com sua moda, seu lifestyle, e seu comportamento próprio; e o que se desdobra daí são as disputas entre as tribos e seus membros. Um estudo antropológico muito bom dentro de uma novelinha adolescente, quem me dera ver um programa desses no lugar de “Malhação”!

Que mais? Na maior parte do tempo o jornalismo australiano falava sobre a política australiana, a primeira ministra Julia Gillard era uma figura onipresente na TV e eu ficava me perguntando de onde ela tirava tempo para governar (se é que governava). Quanto aos esportes, os aussies e kiwis são fanáticos por rugby (cujos heróis nacionais são, respectivamente, os jogadores do Qantas Wallabies e do All Blacks), tem também críquete e australian football (com regras muito próprias, não me perguntem), e o esporte feminino de maior popularidade é o netball, que é parente do basquete. Ainda na casa da tia Júlia, assistimos a um documentário da Discovery sobre o Brasil: mostrava uma piloto de helicóptero paulistana, uma menina participando da procissão em Ouro Preto, uma moça desfilando pela Mangueira no carnaval… Me ajudou a ter uma ideia da visão estrangeira sobre o Brasil. A pergunta que os gringos mais me faziam era: “vocês falam português ou espanhol?” Em geral, esse cartoon resume perfeitamente as coisas que perguntam a um brasileiro no exterior. Certa vez, falei que era brasileira para um sujeito, e ele mudou de expressão e começou a se mexer na cadeira com uma animação bizarra, meio carnavalesca e meio tarada. Muito séria, perguntei: “What is this?”, e ele parou, sem graça. Às vezes você é obrigado a se confrontar com o fato de que a imagem do Brasil lá fora não é das melhores…Encontrei poucos brasileiros na Austrália. Conversei apenas com três; duas que encontrei em Surfers Paradise mas moravam em Sydney e trabalhavam de nanny, e mais um em Melbourne, que estava tentando imigrar para a Austrália como eletricista. De vez em quando eu andava pelas ruas e, naquela Babel flutuante em que se ouve de tudo, distinguia um português do Brasil passando através de mim em efeito Doppler. Os brasileiros estão em todo lugar! Na Nova Zelândia somos mais onipresentes, mas eu ainda chego lá…

Calm down, take it easy!

Como eu ia dizendo, a Austrália é muito britânica. Mas a Austrália tem fama de ser um país “relax”, e por vezes os australianos são comparados aos brasileiros no quesito alegria e cordialidade. Eu diria que somos um tanto diferentes; eles sim são mais gentis e cordiais do que nós – na Austrália esses valores são endêmicos! É natural um desconhecido improvável chegar do nada e lhe cumprimentar: “how are you today?”, isso não quer dizer que ele está te cantando, que está interessado em você ou querendo roubar o seu relógio: ele só está sendo ele mesmo. É muito bom esse clima, as pessoas o recebem com um sorriso, são atenciosas, ficam felizes em ajudar. Senti uma grande diferença quanto a respeito e dignidade. Pra começar, não tem esse papo de cantar mulher na rua, ficou muito evidente o quanto esse hábito machista nojento é coisa dos brasileiros (ou dos latinos). Segundo: os moradores de rua não são indigentes nem párias, como são tratados os mendigos no Brasil. São humildes, mas não são miseráveis – existe um certo preconceito, sim, pois os aussies os consideram preguiçosos: “estão na rua porque não querem trabalhar” – mas ainda são tratados como seres humanos, as pessoas param para conversar com eles na rua, veja só a diferença. A triste exceção são mesmo os aborígenes, mais próximos à mendicância propriamente dita. Lembro ainda de ter visto travestis muito bem vestidas, inclusive uma executiva. Diante de tudo isso, fiquei meio deprimida em perceber como é gritante o jeito como tratamos mal nossos moradores de rua, travestis, mulheres, etc. E como somos desconfiados!

Vi muitos músicos de rua, e músicos bons! Gente tocando rock, reggae, country, clássica… Geralmente deixavam um cartaz falando por que pediam dinheiro, lembro de uma cantora que estava juntando para gravar o primeiro disco. O lado carnavalesco dos australianos fica evidente, talvez, pelo hábito de inventar desculpas pra sair pelado por aí. É um costume bastante europeu, também, cheios de fazer passeatas nudistas. Não vi ninguém saindo pelado na rua, mas em Brisbane vi um pessoal andando de bicicleta só de capacete e sunga laranja – o mais engraçado era que era uma manifestação de trabalhadores!

Os australianos também são famosos por se entupir de cerveja. Bebe-se muito. Ou melhor, entorna-se! E olhe que sai caro, pois não se paga menos de 4 dólares por uma garrafinha de cerveja na Austrália (isso se você for no mercado, no pub sai mais que o dobro). Mas o preço não surte muito efeito sobre eles. Lembro de ter visto muita gente fumando, e lá um maço de cigarro não sai por menos de 16 dólares. Pois é, bebidas e cigarros são sobretaxados, não poderia ser assim aqui também?

Em Melbourne achei engraçado como num sábado à noite as pessoas na rua pareciam todas vestidas para ir num casamento, é uma elegância provinciana… E o uniforme dos estudantes? Simplesmente charmosos: as meninas usam sainhas plissadas xadrez(muitas vezes com pernas de fora num frio de 0 grau), camisa social e blazer, os meninos sempre de terninho e gravata, às vezes chapéu ou boina. No horário de saída das escolas via-se um desfile de uniformes bonitinhos.Nas cidades australianas são muitos shoppings, teatros, galerias e museus. Toda cidade grande tem um cinema IMAX. É fascinante a quantidade de cafés e bistrôs, um do lado do outro! Os australianos e neozelandeses são muito outdoors: vivem para fora de casa, saem muito para bares, cafés e restaurantes; invadem praças e parques (que eles têm aos montes, e são maravilhosos) fazendo jogging, andando de bike, skate, patins… É uma qualidade de vida de fato invejável.

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Australionauta – Interlúdio

outubro, 5 - 2010
Como descrever a honra que foi passar uma semana na casa da tia Júlia? Uma senhora lituana que veio ainda criança para a Austrália e trabalhou a vida toda como professora primária. Ganhara o sobrenome Lasaitis do marido, também lituano e já falecido. Ela mora sozinha em um sobrado delicioso à beira do rio que corta Sydney, no bairro de Rhodes, longe do centro. Das janelas eu podia ver o rio e um parque maravilhoso, verde, construído em homenagem aos veteranos aussies da 1ª guerra. Tia Júlia pouco sai de casa, tem idade e um enfarte na conta. Com os problemas de saúde, não agüenta caminhar muito. Ainda assim, mora sozinha, cuida de si, da casa, das plantas, faz compras e é presidente de uma associação de mulheres da colônia lituana de Sydney.
Na casa da tia Júlia ocupei um quartinho de hóspedes daqueles que tem uma parede na diagonal por causa do telhado, com muito jeito de casa estrangeira. Uma foto (ou seria um daguerreótipo?) dos pais dela ainda jovens, em roupas de casamento, me vigiavam na cama, enquanto eu dormia. Casa fria: em cada cômodo que tia Júlia ia, ela ligava um aquecedor. Casa antiga, daquelas em que o vaso sanitário e a pia ficam em cômodos diferentes. Casa gringa, com paredes internas que parecem de papelão. Mas o mais importante: casa fofa, muito aconchegante e repleta de livros.
Eu acordava de manhã e descia as escadas para encontrar tia Júlia na sala de jantar, às vezes jogando paciência, às vezes fazendo cruzadinha, normalmente lendo, cercada de jornais. E os livros? A casa repleta de estantes –  casa de leitora compulsiva. Às vezes nos sentávamos na sala para ler e falávamos de autores, de livros… uma afinidade tão rara. Tomava café da manhã na cozinha, olhando para aquele rio e aquele parque. Café da manhã australiano: com café solúvel, torradas, manteiga, vegemite, mas eu sempre recusava o bacon com ovos. Não fiz questão de me acostumar com frituras no café da manhã (eu, que já havia engordado além da imaginação). No almoço, tia Júlia me apresentava pratos típicos lituanos deliciosos (e também pesados), fiz questão de anotar a receita de uma panqueca de batatas com creme azedo que pretendo replicar aqui em casa qualquer dia. E depois das refeições, geralmente ela brigava comigo pela minha obsessão, persistência e teimosia em lavar a louça, que não estou acostumada a deixar pra depois.
Enquanto hóspede na casa de tia Júlia, fiz 3 viagens simultâneas: uma por Sydney e região, outra pela literatura(com os livros que pegava emprestado), e outra pelo tempo, através das memórias de tia Júlia. Sentava-me numa das 3 salas daquele reino, perante a matriarca, e ia retrocedendo até uma antiga, talvez lendária, Lituânia. Detalhe: tanto eu quanto tia Júlia somos filhas únicas, imagine a empatia! Ela me contava da sua infância em uma cidade lituana: falou-me do seu aniversário de 6 anos, quando ganhara um escorregador colorido feito pelo pai, mas que só pudera usar uma vez, no seu aniversário, porque logo depois precisaram fugir da invasão russa.
Durante a 2ª guerra mundial, a Lituânia teve a sorte ingrata de estar no meio do fogo cruzado entre a Alemanha nazista e a Rússia.  Os russos, disse a tia Júlia, eram invasores terríveis: matavam, roubavam e estupravam como bem entendiam nos territórios conquistados. Quando os russos entraram e conquistaram a Lituânia, proibiram o lituano como língua oficial: não podia mais ser falado nas escolas, não podia mais ser ensinado. E então a Alemanha retaliava: invadia e tentava expulsar os russos. Entre a cruz e a espada, os lituanos preferiam o domínio dos nazistas, que eram mais civilizados. Terríveis com seus inimigos e com os judeus – verdade! – mas não tão maus senhores para os outros quanto os russos. Os alemães iriam colocar um alemão para chefiar os trabalhadores lituanos e a vida prosseguia.
*
Em 1944 os russos invadiram e os alemães ofereceram asilo aos lituanos. Tia Júlia (então com 6 anos) e seus pais embarcaram nos caminhões mandados pelos alemães, e que já estavam partindo, não tiveram tempo de pegar seus pertences – não sabiam que não voltariam! Eles pensavam que o exílio seria curto, que os russos logo seriam expulsos da Lituânia e eles poderiam voltar para casa. Mas não foi bem assim…
No abrigo alemão eles encontraram fileiras de camas dentro de um galpão, cada família costumava isolar uma área pendurando lençóis, improvisando “paredes”. Era uma forma – a única forma – de encontrar um pouco de privacidade naquele ambiente compartilhado por dezenas de famílias. Os pais da tia Júlia passaram a trabalhar para os alemães: sua mãe lavando banheiros e seu pai trabalhando com a manutenção das linhas de telefone.
No dia que eles chegaram ao abrigo, um soldado alemão que partia para a Lituânia perguntou ao pai da tia Júlia se eles queriam algo “de casa”, ao que ele respondeu, pedindo que trouxesse o ferro de passar roupas para sua mulher e uma boneca para a filha. Eles duvidavam que o soldado iria voltar, mas ele voltou: trazendo exatamente as coisas que pediram, inclusive a boneca – a única lembrança que restou da infância de tia Júlia na Lituânia – a mesma boneca que hoje mora sobre uma mesa na sala de TV, preservada por mais de 60 anos, e que desde então passei a olhar com uma certa reverência.
Certa vez a família tentou voltar para a Lituânia, e passaram por Dresden. Naquela noite, conseguiram chegar até uma vila lituana. Tia Júlia havia perdido um sapato no meio do caminho, que o pai dela voltou pela estrada para procurar. Foi no mesmo instante em que começaram a chegar os aviões para bombardear a cidade de Dresden, ali perto. Eles viram e ouviram tudo: a cidade devastada, queimando nos dois dias que se seguiram ao bombardeio (13 e 14 de fevereiro de 1945).
*
Ela passou os dias me contando “causos” vividos pelos refugiados do acampamento alemão. Contou que sua mãe começara a vender cigarros no mercado negro, e transportava o contrabando debaixo das roupas, improvisando uma barriga de grávida. Um dia, no trem, diante dos oficiais da SS ela ficou nervosa e começou a passar mal. Um dos guardas se preocupou, chegou perto e começou a acudi-la. A mãe de tia Júlia retomou o fôlego, agradeceu ao guarda da SS e foi embora; desde então ela desistiu de vender no mercado negro, com medo do que lhe aconteceria se fosse pega.
Já o pai de tia Júlia, que fazia a manutenção dos telefones dos nazistas, andava nas ruas de cabeça erguida, olhando para os postes e contando a todos que fiação ia para onde. Um dia os SS o viram fazendo isso e desconfiaram que ele estivesse tramando algo com as linhas de telefone nazistas. Pegaram o homem e mandaram para a cadeia para passar por interrogatório. O pai de tia Júlia passou uma noite nas mãos do SS e no dia seguinte voltou para o acampamento lívido, apavorado. Nunca mais andou pelas ruas decodificando o mapa telefônico da Alemanha.
A família da tia Júlia depois se mudaria para a parte americana da Alemanha, onde eles viveriam durante alguns anos. Terminada a 2ª Guerra, os rumores eram de que todos os não-alemães seriam deportados para os seus países de origem. A Lituânia havia sido anexada à União Soviética (e assim ficaria até 1990) e os lituanos fariam qualquer coisa para evitar viver sob o domínio dos russos. A mãe de tia Júlia estava desesperada para imigrar a qualquer país que os oferecesse refúgio. Primeiramente, tentaram imigrar para os Estados Unidos (como fizeram alguns lituanos), mas acabaram indo para a Austrália junto com alguns alemães, inicialmente com um contrato de trabalho de 2 anos, mas acabaram ficando pelo resto da vida.
*
Tia Júlia conta que em meados do século XX a truculência dos australianos para com os “novos australianos” (como ela) era imensa. Ao ver os imigrantes andando nas ruas, os australianos gritavam “go back home!”. Certa vez, uma senhora perguntara à tia Júlia, então uma criança de 10 anos, se ela gostava da Austrália, já emendando: “porque se não gosta, pode voltar para onde veio!” E assim foi a vida dos imigrantes: trabalhando, se naturalizando e despertando inveja nos australianos que não tinham o mesmo sucesso.
Durante dias fui vivendo e me alimentando desses relances da memória de tia Júlia. Às vezes eu tinha que procurar por entre as décadas e os países para achar a porta do quarto, deitar e rebobinar a fita até 2010, temporariamente me desligando da Alemanha nazista, da Lituânia pré-soviética, caindo de volta na Austrália, ouvindo o sussurro e o sotaque da televisão inda ligada na sala, onde fazia tricô aquela senhora – aquela garota – que fora testemunha do bombardeio a Dresden.
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Em quem vou votar no 2º turno

outubro, 4 - 2010

Ainda é cedo, e até dia 31 tudo pode acontecer. Mas acho que já sei qual vai ser minha decisão. Neste 2º turno acabou-se minha pseudoneutralidade suíça. Queria muito eleger uma mulher presidente do Brasil, que parece durona e capaz, o problema? O problema é que você compra o cachorro e leva de brinde os carrapatos!

O problema é o partido, velho!

Eu não vou votar em nenhum candidato. Vou votar é contra o Zé Dirceu, contra o Palocci, contra o Genoíno. Vou votar contra os mensaleiros. Vou votar contra “o cara” que, apesar da maior aprovação popular da história (e dada a volatilidade dos números nas pesquisas desta eleição, até disso tenho dúvidas), faz média com ditadores como o Hugo Chávez e o Ahmadinejad!

No mais, comportem-se no próximo dia 31 de outubro, crianças. Quem se vestir de bruxa neste Halloween pode ser acusado de fazer boca de urna pra Dilma. E quem se vestir de vampiro ou zumbi, de fazer boca de urna pro Serra! Guardem as fantasias pra de noite, depois da votação.

E boa ressaca eleitoral pra todos nós!

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O elefante que carregamos nas costas

outubro, 4 - 2010

Bom dia pra você, em ressaca eleitoral. O Brasil é a maior democracia do mundo e, para não perder a mania de grandeza, é também recordista na modalidade custo ao contribuinte. Votamos ontem para deputados e senadores. Pergunto: você sabe quanto nos custa para manter o Senado? Você sabe quanto nos custa manter as câmaras federal e estaduais? Qual o preço que pagamos por cada deputado e senador? E mais: você sabe qual tem sido a importância do poder legislativo (Senado e Câmara dos Deputados) na governabilidade do Brasil?

Um estudo realizado pela ONG Transparência Brasil comparou os custos da Congresso Nacional brasileiro com o de outros 11 países. Em custos absolutos, o poder legislativo do Brasil só não custa mais caro que o dos Estados Unidos. Entretanto, se colocar na equação o custo em relação à renda per capita no Brasil, só não vê o escândalo quem não quiser: a máquina de governar brasileira é a que mais onera o contribuinte NO MUNDO!

Peço licença à ONG Transparência Brasil para colar aqui parte do texto do relatório de 2007, cujas conclusões continuam atualíssimas.  O relatório completo você baixa no site da ONG ou diretamente clicando aqui.

Congresso brasileiro é o que mais pesa no bolso da população na comparação com os Parlamentos de onze países
A Transparência Brasil comparou o orçamento do Congresso Nacional brasileiro com os da Alemanha, Argentina, Canadá, Chile, Espanha, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Itália, México e Portugal.
Com um orçamento de R$ 6.068.072.181,00 para 2007, o Congresso brasileiro (compreendendo Câmara dos Deputados e Senado Federal) gasta R$ 11.545,04 por minuto. Só é superado pelo dos Estados Unidos, sendo quase o triplo do orçamento da Assembléia Nacional francesa. O mandato de cada um dos 513 deputados federais custa R$6,6 milhões por ano. No Senado, o mandato de cada um de seus 81 integrantes custa quase cinco vezes mais, R$ 33,1 milhões por ano.
Da comparação entre os países resulta que, levando-se em conta os seus diferentes níveis de riqueza, tanto em termos da renda per capita quanto do nível do salário mínimo o Brasil é, entre os
estudados, aquele em que o Congresso mais onera o cidadão.
De modo a avaliar como o Brasil se situaria na comparação com outros países caso a representação parlamentar fosse unicameral, os cálculos deste estudo incluíram a hipótese de o Senado não existir. Ainda assim, o custo da Câmara ainda pesa mais sobre o cidadão do que os Parlamentos de outros países.
A média do custo por parlamentar dos Legislativos europeus mais o Canadá é de cerca de R$ 2,4 milhões por ano. No Brasil, são R$ 10 milhões. Imaginando-se que o Congresso Nacional mantivesse o mesmo orçamento que tem hoje, mas distribuído por uma quantidade de parlamentares tal que o custo de cada mandato fosse compatível com o europeu, a instituição teria 2556 integrantes. Número semelhante é atingido a partir da população média representada pelos parlamentares de cada país. A média Europa-Canadá é de 82 mil pessoas por parlamentar. A do Brasil é de pouco mais de 314 mil.
Aplicando a média Europa-Canadá à população brasileira, chega-se a 2276 parlamentares. Isso significa que, à parte desproporções relativas à renda da população, o orçamento atual do Congresso Nacional deveria ser capaz de suportar mais de 2000 parlamentares, cada qual representando uma parcela da população semelhante à que representam os integrantes das Casas legislativas dos países desenvolvidos.
Não apenas as estruturas de apoio ao Parlamento brasileiro são excessivamente onerosas como também é descabido o montante que cada parlamentar consome diretamente. Embora o presente estudo não tenha chegado ao nível dos custos diretos incorridos pelos integrantes dos Legislativos dos países incluídos no levantamento, uma comparação basta para ilustrar o enorme descompasso do Parlamento brasileiro no confronto com outros países: antes do aumento de cerca de 28% que os parlamentares brasileiros recentemente se autoconferiram, cada integrante da Câmara dos Deputados gastava R$ 101 mil por mês, entre salário, auxílios diversos, salários de “assessores de gabinete” (na verdade cabos eleitorais, que podem chegar ao número de 18 por deputado) e verba indenizatória (um estipêndio fixo que o parlamentar pode usar para pagar gasolina, aluguel de comitê em seu estado e outras despesas).
Para comparação, o custo direto de cada membro da Câmara dos Comuns britânica (incluindo, como na Câmara brasileira, salário, auxílios diversos e estipêndios pagos a assessores de gabinete) é de 168 mil libras por ano.3 Ao câmbio de 3,78 reais por libra, isso corresponde a pouco mais de R$ 600 mil por ano. Ou seja, cada deputado federal brasileiro consome mais do que o dobro de um parlamentar britânico – o qual vive num país em que a renda per capita e o custo de vida são muito superiores aos do Brasil.
Como, no Brasil, os salários pagos a deputados estaduais são calculados à base de 75% dos salários dos deputados federais, como os salários de vereadores de localidades populosas por sua vez obedecem à mesma proporção em relação aos deputados estaduais, e como tanto no nível estadual quanto no municipal os integrantes do Legislativo gozam de privilégios financeiros semelhantes aos da Câmara dos Deputados (não raro ainda mais generosos), pode-se concluir que um vereador de capital estadual custa mais do que um integrante da Casa dos Comuns britânica.
Estudo anterior4 da Transparência Brasil exibiu as inexplicáveis
disparidades entre os orçamentos legislativos nos estados e municípios. O presente levantamento reforça a percepção de que os integrantes das Casas legislativas brasileiras perderam a noção de proporção entre o que fazem e o país em que vivem.
De fato, não só os números do Congresso Nacional superam os de quase todos os Parlamentos constantes deste estudo, como de 27 parlamentos estaduais brasileiros (contando o do Distrito Federal), nada menos de 15 apresentam um custo por mandato superior ao da Itália, que com quase R$ 4 milhões é o terceiro país mais caro sob esse prisma, abaixo apenas do próprio Brasil e dos EUA. Sete estados têm orçamentos por deputado superiores a R$ 3 milhões por ano, o que os coloca acima da França. No estado brasileiro mais barato, Tocantins, o custo por deputado, de pouco mais de R$ 2 milhões, é maior do que os dos Parlamentos de Espanha e Portugal, os quais contam com menos de metade disso.
O mandato de um único vereador do Rio de Janeiro ou de São Paulo sai por mais de R$ 5 milhões por ano. Em 16 Câmaras Municipais de capitais o custo por mandato fica entre R$ 1 milhão e R$ 2,2 milhões – faixa em que se situam a Grã-Bretanha, o México, o Chile e a Argentina. O mandato municipal de capital mais barato do Brasil é identificado em Rio Branco (Acre), onde custa por volta de R$ 715 mil reais. Ainda assim, para pagar pelo funcionamento da Câmara Municipal, cada um dos 314 mil habitante da cidade contribui anualmente com R$ 31,88, quase o quinhão que cabe a cada francês – que tem uma renda per capita mais de três vezes superior à brasileira – para manter o seu Parlamento.
Tudo isso só colabora para o desgaste da representatividade política, ao que se soma a perda de prestígio da atividade parlamentar derivada do repetido envolvimento de políticos em escândalos de corrupção. Estatísticas levantadas no âmbito do projeto Excelências, da Transparência Brasil,5 dão conta de que nada menos de 165 deputados federais (32% do total de 513 membros da Casa) e de 30 senadores (37% dos 81 senadores) respondem na Justiça (em segunda instância ou nos Tribunais Superiores, portanto já condenados em primeira instância) por crimes contra a administração pública ou o processo eleitoral6 ou foram multados por Tribunais de Contas por infrações diversas quando no exercício de funções executivas. Na Assembléia Legislativa de São Paulo eles são 39% (37 entre 94 deputados) e na de Minas Gerais, 19% (15 entre 77).
A responsabilidade por esse estado de coisas cabe em primeiro lugar aos partidos políticos, que poderiam simplesmente recusar legenda a indivíduos condenados por crimes, mesmo que ainda não transitado em julgado. Os partidos, porém, eximem-se de exercer esse dever.
A tal permissividade une-se a relutância dos políticos em agir decisivamente para combater a invasão do espaço parlamentar por interesses escusos – como se tem demonstrado na forma como o Senado Federal insiste em manter em sua Presidência um senador contra o qual pesa a acusação de se ter beneficiado dos favores de uma empresa privada.
Os números
Só nos Estados Unidos o custo anual por membro do Congresso supera o do Brasil. Nos EUA, cada congressista custa em média R$ 15,3 milhões por ano, enquanto no Brasil o custo médio dos parlamentares é de R$10,2 milhões. Esse montante é 12 vezes maior do que os R$ 850 mil que o mandato de cada parlamentar custa na Espanha.
A elevada média brasileira resulta principalmente da contribuição do Senado. O mandato de cada um dos 81 senadores custa aos cofres públicos R$ 33,1 milhões por ano, enquanto o número correspondente para os 513 deputados federais é de R$ 6,6 milhões. Contudo, mesmo se o Senado deixasse de existir e se considerasse apenas a Câmara dos Deputados, o custo de cada mandato ainda seria o segundo maior da lista.
O elevado custo por mandato no Legislativo brasileiro não se limita ao Congresso Nacional. A tabela seguinte exibe os custos por parlamentar dos doze países juntamente com os das Assembléias Legislativas e Câmaras de Vereadores de capitais. Como se pode verificar, a Assembléia Legislativa cujo custo por mandato é o mais baixo (Tocantins) chega perto do custo na Grã-Bretanha. Quinze delas estão no topo da escala. No mesmo patamar de custos elevadíssimos estão duas Câmaras de Vereadores (Rio de Janeiro e São Paulo). As demais Câmaras Municipais também apresentam custos de manutenção dos mandatos que superam os de diversos países.
Cada membro do Congresso brasileiro custa em média o equivalente a 2068 salários mínimos anuais, mais do que o dobro do México, segundo colocado segundo esse critério, cerca de 37 vezes superior ao da Espanha e 34 vezes maior do que o do Reino Unido. Fechando a atenção sobre o Senado brasileiro, o custo anual de cada mandato corresponde a 6699 salários mínimos.
Em termos do custo absoluto por habitante, o Congresso brasileiro, com R$ 32,49 por ano, ocupa o terceiro lugar da lista, atrás apenas da Itália (R$ 64,46) e da França (R$ 34,00). O custo por habitante no Brasil é 3 vezes maior do que a Argentina, país em que esse número é o menor da lista. Se o Congresso fosse unicameral (sem o Senado), o custo de mantê-lo seria de R$ 18,14 por habitante e o Brasil ficaria situado na oitava posição, acima de Chile, Espanha, México e Argentina.
Na verdade, o custo por habitante não é a melhor forma de avaliar o peso do Parlamento no orçamento dos cidadãos, porque não leva em conta os diferentes níveis de riqueza dos países. Um modo melhor de determinar esse peso é calcular a parcela que o custo por habitante representa em relação ao salário mínimo anual. Atingindo 0,66%, essa porcentagem é a mais alta entre os doze países estudados. O número é 10 vezes superior ao observado no Reino Unido ou na Alemanha, vezes superior ao dos Estados Unidos, 3 vezes maior do que o da Argentina. Se o Senado não existisse, a porcentagem seria de 0,37%, mas o país cairia apenas para o segundo lugar, superado só pelo México, no qual a relação com o salário mínimo anual é de 0,54%. Em relação a britânicos e alemães, a desproporção ainda seria de quase seis vezes.
Outra forma de avaliar o peso que o Parlamento significa para os cidadãos é usando o PIB per capita. Expresso como porcentagem do PIBpc, o montante com que cada brasileiro arca para manter o Congresso é também o mais alto da lista, correspondendo a 0,18%, ou 8,4 vezes superior ao da Espanha, o país mais “barato” conforme esse critério, e no qual o porcentual é de 0,02%. Sem o Senado, o peso cai para 0,10% do PIBpc, logo abaixo da Itália (0,11%), mas ainda assim 4,7 vezes maior do que o da Espanha, 3 vezes superior ao da Argentina ou 3,2 maior do que o dos Estados Unidos.

* * *

Olhar esses números faz com que eu me sinta a cidadã mais trouxa do mundo.

Estamos indo para o 2º turno das eleições. Por onde esses candidatos passarem façam-nos um grande favor e gritem: REFORMA POLÍTICA!!! E gritem até eles não poderem mais ignorar que nos ouviram. Se nós não cobrarmos, vamos continuar carregando o elefante branco para onde ele bem entender!