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Por onde vou

fevereiro, 9 - 2011

Dedico um post a esse poeta que me tirou as palavras da boca, que colocou em versos aquilo que me é tão difícil de articular: José Régio, um filósofo, um grande escritor – por que não dizer gênio? – português.

Cântico Negro

“Vem por aqui” – dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom se eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui”!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
– Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…

Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: “vem por aqui”?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis machados, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!

Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
– Sei que não vou por aí.

José Régio

 

4 comentários

  1. Bom ver poesia de volta as páginas de seu blog, Dona Moça, ainda que está seja mais uma coda para a sua Sinfonia de Narciso Inacabada…🙂.

    A poeta foi seqüestrada pela escritora que a mantém cativa em terras distante, mas algumas vezes a poeta manda uma notinha dizendo que se encontra bem e ainda está viva…

    Beijos


    • Agora estou mais pra prosa poética.

      Beijos


  2. Fazia MUITO que eu não lia nada tão impressionante em poesia.
    Obrigada por partilhar conosco, Cris. Nunca ouvi falar nesse poeta. Um nome para guardar.

    “Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
    Mas eu, que nunca principio nem acabo,
    Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.”

    Ah!!!


    • Pois é, Mi. Há muito tempo não me interesso por nada em poesia, mas de vez em quando surge uma que lhe cai como uma luva feita sob encomenda, aí não tem como não se apaixonar!



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