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5 Coisas para não se arrepender antes de morrer

agosto, 11 - 2011

Ouvi dizer que na Idade Média os monges tinham o hábito de se saudarem com a frase “lembre-se de que vai morrer”. Essa é uma versão do próprio mote carpe diem (colha o dia), que gosto tanto de utilizar nos meus contos e, na medida do possível, na minha vida. Posso adiantar que é difícil ser uma pessoa exemplarmente eficiente no modo “carpe diem”, pois mortais não são máquinas. Mortais não são simplesmente movidos a dinheiro, promoções, comida, sexo, compras e contas a pagar. Mortais são movidos a felicidade. E às vezes, para lembrar-se da importância de ser feliz, é necessário lembrar-se daquilo que torna a felicidade inadiável: a morte.

Ouvi dizer também que uma das formas de melhorar suas relações com a morte é fazer o exercício de pensar nela conscientemente, e se possível todos os dias, prestando atenção em como os seus sentimentos para com ela mudam ao longo do tempo. De tanto mentalizá-la, talvez consiga evoluir emocionalmente do terror abissal para os termos de paz. Ainda, segundo o filósofo estoico Epíteto, um dos segredos para melhor aceitar da perda dos entes queridos é, sempre ao abraçar aqueles que você ama, lembrar-se de que são mortais.

Desculpe o papo mórbido, mas é que falar de morte é falar de vida, e a morte levanta questionamentos importantes e mostra soluções para os vivos. Seguindo a mesma linha do post 10 Coisas para fazer antes de morrer, me inspirei a escrever este depois de visitar o blog da Bronnie Ware, mais especificamente o seu tópico Regrets of the Dying.

A Bronnie Ware, apesar da juventude, é uma daquelas pessoas que já viajaram o mundo, moraram em todos os lugares e tiveram mil empregos diferentes – praticamente uma beta-tester de vidas possíveis. E numa dessas passagens da vida da Bronnie, ela trabalhou com cuidados paliativos (que são abordagens não terapêuticas para dar conforto e atenuar a dor de pacientes terminais). No post, a Bronnie relata que acompanhou alguns pacientes terminais durante suas últimas semanas de vida, nos conta um pouco do teor de suas conversas e, sobretudo, como a visão de toda a existência muda a partir da perspectiva da morte.

Que a morte nos confronta com os débitos e uma vida inteira, isso não é novidade. Quantos livros não foram escritos, quantos filmes não foram produzidos tendo como premissa as mudanças que uma morte anunciada traz à vida de uma pessoa? Nisso a morte é um clichê terrivelmente monótono. Ironicamente, conclusões óbvias custam a inspirar nas pessoas qualquer iniciativa de efetiva transformação.

Seguindo com a história da Bronnie, ela perguntou para os pacientes se tinham arrependimentos em suas vidas e tomou nota dos seus relatos. Eis que dessas conversas ela elaborou uma lista com os 5 mais recorrentes arrependimentos dos moribundos. O mais instigante é que os 5 fatos são muito simples, não são surpreendentes, não podemos nem dizer que não sabíamos. Eles estão em muitos filmes, em muitos textos motivacionais e livros de autoajuda. Ainda assim, ignoramos. Talvez voluntariamente.

Irei traduzir os 5 arrependimentos e parafrasear os comentários, com os devidos créditos à Bronnie Ware (a íntegra está em inglês no blog dela):

1 – Eu gostaria de ter tido a coragem de viver uma vida verdadeiramente minha, e não a vida que esperavam que eu tivesse.

Acho que dispensa explicações.

2- Eu não deveria ter trabalhado tanto.

A Bronnie cita este como um arrependimento recorrente nos homens, que investiram demais na carreira e abdicaram de acompanhar o crescimento dos filhos, ter mais tempo de convivência com as companheiras.

3- Eu gostaria de ter tido coragem de expressar meus sentimentos.

Muitas pessoas suprimem os próprios sentimentos para possibilitar o convívio com os outros. No entanto, ao buscar uma atitude assertiva (honesta, mas não agressiva), expressando-se com sinceridade, é possível libertar-se de vínculos doentis e elevar as relações a um patamar mais saudável.

4- Eu deveria ter mantido contato com os meus amigos.

Porque com as atribulações da rotina muitos deixam esfriar os vínculos de amizade até que estes se perdem. No final das contas, tudo o que se estava tentando assegurar com a rotina atribulada (dinheiro, contas a pagar, casa, bens) é o que menos importa, o que interessa no leito de morte é o amor e os relacionamentos. Os moribundos sentem falta dos amigos que perderam.

5- Eu deveria ter me permitido ser mais feliz.

Pois muitos não percebem, até o leito de morte, que a felicidade é uma escolha. É comum as pessoas se deixarem levar por hábitos, tradições e conveniências sociais, iludindo-se com as noções de felicidade do senso comum e bastando-se com um contentamento morno. Na verdade, as pessoas não costumam perceber a liberdade imensa que a saúde permite, e passam a se lamentar quando as possibilidades de felicidade são sabotadas pela doença.

*

Ser “você mesmo”, expressar-se com sinceridade, ser fiel aos sonhos, praticar a autoindulgência, desfrutar a liberdade, investir em amizades são atitudes que exigem algum nível de rebeldia, pois implicam no rompimento de certas conveniências e normas sociais.

Essa é uma boa lista de coisas para NÃO se arrepender antes de morrer, então não custa anotar no rodapé da agenda, colar no mural, afixar nos pensamentos de longo prazo. Seja um pouco rebelde você também! Afinal, não custa lembrar que eu e você iremos morrer.

7 comentários

  1. MEMENTO MORI


  2. Já leu Carlos Castañeda? Em “Viagem a Ixtlan” ele relata a morte como um ser único para cada pessoa, que acompanha sua vida olhando a um braço de distância. É bem interessante a relação que ele diz ser necessário desenvolver com ela.


    • Gosto muito desta imagem de Cataneda. Eu prefiro contudo, dançar uma valsa com ela.


  3. Estes cinco arrependimentos são muito sentidos por muitas pessoas. O primeiro eu creio ser o mais importante e o mais difícil de perceber: muitas vezes nos acostumamos tanto a responder a expectativas dos outros que não conseguimos mais separar o que é nosso daquilo que assimilamos das expectativas sobre nós mesmos. Às vezes é preciso um grande acontecimento (em geral, ruim) que nos tire da zona de conforto. Num relacionamento interpessoal é muito comum uma pessoa tentar se ajustar à imagem QUE ELA ACHA que o outro faz dela.


  4. Drauzio Varella escreveu um livro( por um fio) onde conversou com pessoas que escaparam por pouco da “indesejada das gentes”, e elas começaram a prestar atenção no canto dos passarinhos, tomar cha com biscoito a tarde,viver mais em familia, cuidar do jardim, etc.E um critico que leu o livro perguntou – Mas é só isso? Pelo jeito, era.


  5. É verdade, eu li o Por Um Fio há muito tempo atrás e não me recordo de muitos detalhes. Lembro que no Bilhões e Bilhões o Carl Sagan também faz uma digressão sobre como ter visto a morte de perto algumas vezes transformou a vida dele, inclusive dizendo que recomenda uma “quase-morte” a todos.


  6. Felicitari pentru site. Ati castigat un cititor.



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