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Hoje é um dia estranho

abril, 8 - 2013

Pois descubro que perdi dois amigos. Não exatamente próximos, cada um deles apenas encontrei pessoalmente em uma ocasião, mas eram assim: virtualmente presentes. E quando os amigos, os colegas, os familiares, os conhecidos partem deste mundo, sente-se o choque de uma realidade a se fragmentar. Natural, a gente nasce, cresce, desdobra-se, vive, insiste… e morre – e a humanidade se renova. E as lembranças vão se enterrando sob uma pilha de poeira e camadas de esquecimento crescente.

Este post eu escrevo em memória dessas duas pessoas, que embora não fossem próximas, eram-me certamente muito queridas.

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Em 2008 eu fiz (na verdade, ganhei) uma viagem ao Rio de Janeiro. Uma semana vibrante, de muitos encontros, descobertas, quando eu havia recentemente publicado meu (ainda único) livro. Naqueles dias uma escritora carioca que eu conhecia de textos e conversas pela internet me convidou para uma visita à sua casa, e eu fiquei honradíssima. Era a Maria Helena Bandeira, escritora, poetisa, sobrinha de Manuel Bandeira, uma mulher divertida e talentosa, de chamativos cabelos loiros platinados. Lembro do meu espanto ao conhecer o lugar onde ela morava: um apartamento que era uma relíquia histórica, em um prédio bastante antigo no Leme – lugar de onde ela nunca saía, senão para ir a um restaurante próximo, de frente à praia. Entrei timidamente, sentei ao sofá, conversamos… Ela tinha pedido um exemplar do meu livro e eu errei na hora de autografar (atrapalhada, sempre). Fui apresentada à mãe da Maria Helena, conheci seu cachorrinho. Não lembro exatamente do que conversamos, mas nunca vou me esquecer de uma frase solta que ela me disse: “sou agnóstica, graças a Deus!”. Não vou recuperar os detalhes que me escapam, uma pena que não tiramos nem uma foto, mas foi uma visita agradável, meio surreal, essa vez em que conheci a Maria Helena.

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Hoje soube que ela faleceu… já faz 4 meses. Não sei por que não vim a saber da notícia em janeiro, quando aconteceu. Às vezes me assusto com minha própria distração. Soube disso hoje, depois de saber de outra morte, pois uma notícia levou à outra, e ainda estou digerindo essa ausência estranha.

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Anos atrás, creio que em 2007, fui convidada para um jantar numa panquecaria na Vila Clementino, perto da minha antiga faculdade. Na roda, um grupo de colegas escritores, leitores e fãs de ficção científica. Essa reunião regada a panquecas foi na verdade uma desculpa para conhecermos o Saint-Clair Stockler, que tinha vindo do Rio com o namorado da época.
Esse era o nome dele mesmo – Saint-Clair. Um personagem difícil de definir: escritor de uma sensibilidade estética sutilíssima, falante de francês, dono de um humor ácido, questionador e petulante, que sacudia as discussões nas rodas de escritores/leitores/fãs de literatura fantástica, nem sempre amado por todos, mas jamais passava sem ser notado. Por acaso, eu e Saint-Clair nos dávamos bem. Comigo ele sempre foi simpático e divertido. Apreciávamos os mesmos livros, eu gostava do que ele escrevia – ele nunca foi um escritor prolífico, mas sempre achei seus contos de uma delicadeza impressionante. Ele também gostava dos meus contos e em uma ocasião quis apresentar meus escritos para uns professores de letras que ele conhecia.

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Meses atrás postei no Facebook um momento de alegria por ter passado no vestibular para psicologia (que acabei não cursando, pois essa era minha segunda opção). Nessa ocasião Saint-Clair me disse que nem que ele tivesse 90 anos e fosse a última coisa que fizesse na vida cursaria uma faculdade de psicologia. Falando assim, podíamos estar distraídos, crentes de que sempre temos todo o tempo do mundo adiante.

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Nas últimas semanas meu amigo Saint-Clair postou recados nas redes sociais, feliz da vida, dizendo que tinha se casado e estava montando um apartamento novo. Dias depois, comentou que estava doente, uma gripe a princípio, mas com o passar dos dias seu estado se complicou e ele foi hospitalizado. Infelizmente não foi coisa passageira, e no começo desta noite a notícia veio como um baque. Sim, ele se foi.

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E me vi a um só momento triste, mas também boquiaberta com a última postagem que ele tinha publicado em seu blog, datada de fevereiro:

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Sonhei com o fim do mundo e o fim do mundo era uma imensa e transparente onda verde-azulada num dia ensolarado, mais ou menos da cor de uma água-marinha, que vinha muito alta e muito lenta cobrindo o horizonte, cobrindo as nossas cabeças, tal e qual uma cúpula ou o teto de uma catedral, e quando ela estava toda em cima de mim, luminosa como uma joia, por um instante na minha angústia rebrilhou um momento de paz e eu me disse: “Que bom, finalmente vou morrer”, e a certeza de que a aniquilação era inevitável estranhamente encheu meu coração de paz.

Saint-Clair Stockler

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Lamento por tantos outros escritos, assim delicados, que ele não vai produzir; pela felicidade de sua vida nova, que não durou muito tempo; pela faculdade de psicologia que não terá oportunidade de fazer. Lamento porque o acaso nos pega desprevenidos.

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Saint-Clair e Maria Helena eram bons amigos entre si, moravam ambos no Rio de Janeiro, mas nunca se encontraram (ironia desse mundo maravilhoso e solitário que nos liga por uma rede). Eu os vi uma vez e sempre alimentei a expectativa de vê-los novamente, nesses anos vindouros invisíveis que sonhamos estar sempre à disposição.

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Acho que essa é uma reflexão sobre oportunidades de uma única vez, planos interrompidos, imagens fadadas à saudade, ou simplesmente a síntese de um luto que eu não quis manter no silêncio. Talvez seja um chamado para eu voltar aos meus planos primeiros, os sonhos caros que me prometi realizar em vida. Porque a gente de repente se descobre distraído da incerteza das horas. E aqui deixo esta tentativa de articular a perplexidade desta noite estranha.

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Fiquem em paz, meus amigos.

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