Archive for fevereiro \26\UTC 2014

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Sobre as cartas de recusa

fevereiro, 26 - 2014

Hoje recebi a primeira recusa de um conto traduzido que enviei para uma revista no exterior. A negativa em si não me abalou – me ocorreu que essa é a primeira carta de recusa de um texto que recebo na minha vida! Até que demorou.

Há alguns anos eu recebi outra carta em inglês, e quando olhei o remetente, quase tive um piripaque. Bem, eu não tive um piripaque, mas fiquei com as pernas bambas e as mãos trêmulas de verdade.

Era uma carta da Ursula K. Le Guin! Minha escritora do coração, que me instilou a vontade de também ser escritora.

Ela não caiu do céu, na verdade eu tinha escrito uma cartinha para a Ursula, meses antes, que pus nas mãos de uma amiga que ia aos EUA para que ela a postasse de lá com um envelope selado para o retorno ao Brasil. Mas eu não estava com muitas esperanças de ter resposta, por isso foi uma surpresa quando aquele envelope chegou. Qualquer dia postarei a carta aqui.

Mas eu queria dizer que a Ursula divulgou no site dela uma carta de recusa que deve servir para animar qualquer escritor que acaba de receber uma – meu caso. A íntegra (tradução minha):

Cara Srta. Kidd (agente literária)

Ursula K. Le Guin escreve extremamente bem, mas lamento ter que dizer que, com base apenas nessa alta e distinta qualidade, eu não posso fazer uma oferta pelo romance. O livro é tão infinitamente complicado por detalhes de referências e informações, as lendas dos interlúdios se tornam um aborrecimento apesar de sua relevância, que a própria ação da história parece desesperadamente atravancada e o livro, enfim, ilegível. O conjunto é tão seco e sufocante, tão carente de ritmo, que qualquer drama ou emoção que o romance pode ter tido foi inteiramente dissipado pelo que parece ser, na maior parte do tempo, um material estranho. Meus agradecimentos, no entanto, por ter pensado em nós. O manuscrito de A Mão Esquerda da Escuridão é devolvido em anexo.

Cordialmente,

O editor.

Pois é. A Mão Esquerda da Escuridão, esse livro que o editor considerou seco, sem ritmo, complicado, estranho e ilegível (!), é o mesmo que ganhou mais tarde os prêmios Hugo e Nebula, se tornou um clássico indiscutível, uma das obras mais memoráveis da ficção científica e, não por acaso, meu livro de cabeceira. O editor que escreveu essa carta não se deu conta do material que ele tinha em mãos. O que espanta, contudo, não é a recusa, mas a justificativa.

Por isso cartas de recusa não significam que a obra é um fracasso total. Tampouco querem dizer que os editores são todos criaturas míopes e insensíveis como o exemplo supracitado. Uma carta de recusa simplesmente quer dizer que a obra não vai ser publicada naquela oportunidade, sejam quais forem os motivos alegados.

Receber cartas de recusa é um bom sinal – sinal de que estou tentando, de que estou buscando algo mais ambicioso. Pensando bem,  talvez esteja começando uma coleção delas!

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Literacast: feminismo e literatura

fevereiro, 26 - 2014

Participei de um papo bacaníssimo sobre feminismo e representatividade das mulheres na literatura, junto com os editores do site Cabine Literária, Danilo Leonardi e Gabriel Utiyama, e os escritores Cesar Sinicio, Renata Ventura e a blogueira Emannuele Najjar.

A conversa rendeu, adorei o resultado!

Você ouve aqui:

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Ajude a fazer o novo Guia de Primeiros Socorros Para o Escritor Iniciante

fevereiro, 24 - 2014

São 3h da manhã e eu poderia estar dormindo, mas estou aqui batendo um papo com a insônia e ela acabou de me dar uma sugestão genial:
– Aí Cris, por que você não faz uma versão mais profissa, mais sexy e mais completa do Guia de Primeiros Socorros para o Escritor Iniciante?
Achei a ideia ótima! Então resolvi que vou fazer uma brincadeira interativa e receber perguntas de autores iniciantes para responder no guia.
Se você tem alguma pergunta sobre a arte de escrever, publicar ou fazer malabarismos para pagar as contas no final do mês sendo escritor, poste aqui nos comentários!
Se você tem alguma sugestão para melhorar o Guia de Primeiros Socorros para o Escritor Iniciante, poste aqui também!
O guia sempre será disponibilizado gratuitamente a quem quiser acessá-lo, é justo que além de gratuito seja de qualidade e ofereça real alento às angústias existenciais dos jovens autores.
Dê sua contribuição. Em breve devo postar uma enquete para escolher o muso ou musa da capa do novo guia.

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O formato das histórias segundo Kurt Vonnegut

fevereiro, 19 - 2014

Você já leu Kurt Vonnegut?

Se não leu, é uma das experiências literárias que valem a pena na vida. Procure Matadouro 5, Café da Manhã dos Campeões, ou qualquer outra obra dele e você descobrirá o que é um autor que sabe trabalhar com sarcasmo a ponto de fazer você se deliciar de rir na cara da tragédia. Eu adoro.

Vonnegut propôs uma tese em antropologia segundo a qual se você plotar em um gráfico os altos e baixos da trajetória de um personagem, obterá o formato de uma história, ou seja, um perfil visual do arco da trama. Isso é útil para entender e analisar as histórias, compará-las, estudá-las. E eu diria que, para um escritor, entender esse perfil é utilíssimo.

Como funciona?

Imagine um plano cartesiano. Há um eixo vertical, que chamaremos de “medidor de felicidade” onde situamos dois extremos: Ventura no polo positivo (+) e Danação no polo negativo (-). Do meio desse eixo parte uma reta perpendicular que vamos chamar de CF, ou  Começo -> Fim (mas poderia ser Farofa, o nome não importa).

Partindo do eixo Medidor de Felicidade, vamos traçar a trajetória do protagonista de uma história, de acordo com os altos e baixos de sua jornada. Na média dos filmes sessão-da-tarde, o protagonista começa sua história um pouquinho acima do zero, digamos, levemente feliz. Então, em algum momento, ele se depara com um problema – perdeu o emprego, a falta de dinheiro o faz dar calote no aluguel, então ele precisa deixar a casa e ir morar de favor nos fundos de um armazém insalubre, é obrigado a fazer bicos horríveis para sobreviver… – veja a linha de felicidade do protagonista seguir uma curva descendente, cruzar do eixo positivo para o negativo.

As coisas podem ficar pior? Claro que podem! – A mãe dele está gravemente doente e precisando de uma cirurgia que a família não tem dinheiro para pagar, ele precisa esconder da família sua situação miserável e ao mesmo tempo ajudar a pagar as despesas do hospital. Quando ele acha que tem o montante de dinheiro suficiente para resolver sua situação, é assaltado no caminho do banco, sem testemunhas. Quando vai reclamar com os policiais, os tiras não acreditam que aquele cara desmazelado tinha dinheiro, acham que está tentando dar um golpe e resolvem dar nele um chá de canseira na cadeira da delegacia. Mas eis que uma mulher desconhecida começa a gritar no corredor apontando em sua direção: “foi ele! eu reconheço, foi ele!”. E assim, identificado como o autor de um crime que ele não sabe que cometeu, nosso protagonista acaba o dia atrás das grades. – Você consegue ver a linha de felicidade despencar até o fundo do poço? Dali em diante nosso protagonista terá de se virar, contar com a sorte ou a cooperação de amigos para fazer seu inferno astral se reverter e sua linha de felicidade escalar rumo a uma vida melhor – e nada disso é garantia de que ele não sofrerá outras turbulências em sua trajetória até um final feliz, em algum lugar do polo positivo, ou danar-se de vez, terminar como um indigente ou morto, no polo negativo (se bem que nesse caso não seria roteiro de um filme sessão-da-tarde).

Esse caminho de montanha-russa pode ser traçado para estudarmos o perfil de várias histórias. Se você fizer o exercício, verá que é possível identificar perfis típicos de cada gênero de obras: comédias românticas, filmes de terror, sessão-da-tarde, tragédias gregas, novela mexicana, contos de fadas antigos, contos de fadas modernos etc. etc. Há histórias que têm muitos altos e baixos (gênero telenovela, por exemplo, pela própria extensão do roteiro), há histórias que vão do mal ao pior, há histórias sem-saída nas quais todos os esforços do personagem redundam em fracasso… São muitos exemplos:

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Você pode acessar a íntegra do infográfico neste site: http://visual.ly/kurt-vonnegut-shapes-stories-0?utm_source=visually_embed

Podemos dizer, no entanto, que de certo modo todas as histórias que fazem sucesso na nossa cultura têm uma passagem pelo polo negativo: convencionamos que o tipo de história em que o personagem está sempre feliz e não encontra problemas não é uma história no estrito senso. Porque para as histórias só-felizes falta um combustível essencial para a nossa emoção: o conflito.

A partir da ideia do Vonnegut, extrapolo que é o conflito que esculpe o formato de uma história. E saber administrar o conflito é essencial para se conseguir escrever uma história emocionante. Você entende de música? Já ouviu falar em tensão e resolução? Eu não entendo porcaria nenhuma de música, mas gosto da comparação. A música trabalha com nossas emoções, conduzindo-nos em direção a um acúmulo das tensões que desembocam em resolução, e esse movimento nos dá uma sensação de gozo musical. O mesmo serve para o conjunto de situações que mobilizam nossa emoção durante a fruição de uma história. Não digo que a metáfora musical é perfeita, pois no caso da literatura nem toda complicação precisa ter solução, nem todo conflito se resolve. Mas o conflito está ali, gerando tensão, recrutando nossas angústias, prazeres e revoltas em um movimento harmônico de tensões emocionais que o escritor precisa saber orquestrar.

Um dos problemas mais comuns que encontro nas histórias dos clientes que contratam meu serviço de leitura crítica é o potencial inexplorado do conflito ou da tensão emocional.

Emoção é chocolate, é orgasmo, é catnip, é cocaína – não importa qual sua droga preferida – é essencial para uma história viciante. O ingrediente chave é tensão emocional: talhar picos de tensão e resoluções, complicações e relaxamentos, viradas, surpresas. Cabe ao autor examinar atentamente cada uma de suas cenas – estudá-las – e descobrir de que modo pode extrair o máximo de emoção, ou injetar emoções novas e inesperadas. Quando não faz isso, a história fica aquele café-com-leite, não chove nem molha, não cativa nem dá repulsa, nem-nem.

Repare que conflito não é sinônimo de briga ou ação externa. Conflitos podem ser dramas internos e sutis, podem ser dilemas e emoções desencontradas revolvendo o íntimo de um personagem que se mantém estoico enquanto finge que nada está lhe acontecendo. Tensão emocional é o poder do conflito gerar emoção no leitor.

Além dos picos e resoluções, tem esse elemento diferente que eu citei: surpresa. O que faz uma história surpreendente?

Esse é outro problema que aponto em um grande número de leituras críticas que faço: o enredo que não quebra com expectativas, que não surpreende.

A vida cotidiana é uma imersão na cultura do clichê. Clichês são ideias batidas que reverberam um estado de coisas presente, sem ameaçar o status quo, sem chocar ou simplesmente sem quebrar as expectativas. As telenovelas brasileiras, os filmes sessão-da-tarde, a maior parte das comédias românticas e dos filmes de aventura são sustentados por clichês. Você sabe que o herói vai vencer no final, que o casal de mocinhos vai ficar junto, que o vilão vai ter que se ferrar de algum modo. Na novela, você sabe que a protagonista não pode morrer (e se morrer ela vai deixar uma filha que é a cara dela para dar continuidade à sua trajetória), você sabe que o viciado em drogas vai ter que se reabilitar para deixar uma mensagem educativa… Você sabe exatamente quem vai ser punido, quem vai ser premiado e quem vai ficar bem depois de passar por um purgatório. Porque quebrar essas expectativas vai resultar num enorme bafafá que irá estremecer as revistas de fofoca e as conversas na fila do supermercado, e alimentar uma onda de ressentimentos contra o autor da novela, pobre criatura.

A presença ou não de clichês diz muito sobre o tipo de obra que o autor produz: se é uma que vai alimentar uma cultura de rotina e ser passageira, ou se será uma obra realmente original, de vanguarda, que surpreende expectativas, faz pensar, projeta um novo ponto de vista sobre a vida, o universo e tudo mais.

Na minha opinião pessoal, os clichês são úteis como placa de advertência do que não fazer. Ou, pelo contrário, algo para abraçar e brincar e se fazer uma bonita paródia.

Há formas sutis de trabalhar com as expectativas do leitor no enredo: criar uma circunstância (nosso protagonista está fugindo do matador, entra num túnel correndo, ofegando, arrastando uma perna e… ei! há uma luz no fim do túnel…) que gera expectativa por uma solução x (ele alcança a luz no fim do túnel e sai), mas que o autor pode trabalhar para se resolver de formas mais inesperadas – pode ser também uma solução y (ele para no meio do túnel, procura e descobre ali uma porta escondida que leva a outra saída: o esgoto!), pode ser a saída “criativa fácil” (de repente ele acorda e descobre que era tudo um sonho) ou uma saída tipo chute astronômico (correndo pelo túnel, ele tropeça num artefato desconhecido que é, na verdade, uma sonda alienígena que o projeta imediatamente para um planeta na galáxia de Andrômeda). Não é necessário dizer que um escritor que tende a empregar soluções do tipo x não está exercendo um trabalho que possamos chamar de criativo.

E o que seria abraçar o clichê para produzir uma paródia?

Vou citar um dos melhores exemplos que me ocorrem. No filme A Dama na Água (assista!) existe um personagem secundário muito intrigante: um crítico de cinema. O próprio protagonista chega a consultá-lo em algumas ocasiões para entender melhor o desenrolar da história. Em determinado momento, lá para o meio do filme, no clímax de um suspense, o crítico de cinema se vê num corredor escuro e ele compartilha com o espectador a sua cadeia de raciocínio: – “sou um personagem secundário em uma cena de perigo, droga, estou ferrado!” – e nesse momento um monstro surge e o devora.

No fundo, todo mundo espera que os personagens secundários sejam sacrificados pelo progresso de um enredo de aventura, suspense ou terror, até porque se nenhum personagem morrer será difícil acreditar que o risco apresentado é verdadeiro. O cinema convencionou que personagens secundários foram feitos para morrer! No exemplo que eu citei, a norma não foi quebrada, os papéis não foram subvertidos e o personagem secundário foi sacrificado pela trama. A graça é que isso foi feito de forma escancarada, analítica, o personagem obrigou o espectador a pensar sobre o destino triste dos personagens secundários. Existiu uma crítica na adoção do clichê: paródia.

Se vale um resumo de tudo isso para o escritor interessado: repare no formato das histórias, explore os conflitos no seu enredo, estude a tensão emocional das cenas, desenhe a narrativa de modo a evitar clichês ou então encontre um modo de usá-los de maneira inteligente.

Acabo de perceber que me alonguei demais naquilo que pretendia ser uma simples postagem (já sinto que começa aqui uma segunda edição do Guia de Primeiros Socorros para o Escritor Iniciante).

Que mais posso dizer?

Se você tiver interesse em estudar mais a fundo (e digo realmente a fundo)  a construção de cenas e enredos emocionantes, uma dica boa é o livro do Robert Mckee – STORY: Substância, Estrutura, Estilo e Os Princípios da Escrita de Roteiro. É um livro que trabalha sobre roteiros de cinema, mas cujas lições podem facilmente ser extrapoladas para a literatura. Não é uma leitura rápida, é um livro exigente e bastante aprofundado, mas maravilhoso para quem se interessa pelo assunto.

E tem o vídeo do Kurt Vonnegut explicando sua tese sobre o formato das histórias, que você pode youtubizar aqui. Vejam! É divertido.

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A rotina de 13 grandes escritores

fevereiro, 18 - 2014

Mais uma postagem comentando outra postagem em dias seguidos (pra não dizer que o esforço de ressuscitar meu blog não é legítimo): Junior Silva do blog Papo de Homem fez o grande favor de traduzir um dos posts mais bacanas feitos no BrainPickings, sobre a rotina e a produtividade de grandes escritores – Ray Bradbury, Susan Sontag, Simone de Beauvoir, William Gibson, Kurt Vonnegut, Ernest Hemingway, Anaïs Nin, entre outras feras.

Em primeiro lugar, vou convidar você para clicar neste link e ler, porque esse texto é bacana e estou com preguiça de pedir permissão para colá-lo integralmente aqui.

Cada escritor dá sua própria resposta a essa questão super capciosa: COMO CRIAR UMA ROTINA DE ESCRITA?

Coloquei em caixa-alta porque essa é uma pergunta muito grande, principalmente para mim. A maior dificuldade no exercício da escrita é conseguir criar o hábito de escrever todos os dias. Analisando as respostas dos 13 escritores, posso resumir que, para Ray Bradbury e Ernest Hemingway, a PAIXÃO pela narrativa é a chave para o hábito. Já o Haruki Murakami parece ser o mais radical na manutenção de uma rotina de repetição, como um teste de resistência. Para Susan Sontag e William Gibson, escrever tem mais a ver com um “estado alterado de consciência” (acho que estou com eles) que os vai “sugando” conforme o livro se aproxima da conclusão. Curiosamente, a maioria dos escritores citados são matutinos, escrevem ou editam suas melhores partes durante as manhãs. Além disso, uma parte deles escreve ou escrevia diários – que sinal mais contundente de uma escrita de rotina?

Eu estou tentando criar uma rotina de escrita… digo isso há anos. É engraçado que no Guia de Primeiros Socorros Para o Escritor Iniciante eu saiba entoar tão bem um conselho que eu mesma não consigo seguir. Pois é!

Voltar a movimentar este blog é uma pálida tentativa de me forçar a escrever com maior regularidade – o blog é a versão contemporânea do diário, então parece bem válido. As pessoas fazem confissões para si mesmas nos diários, e hoje as pessoas fazem confissões para si mesmas e toda a rede nos blogs – eles são, por isso mesmo, uma forma muito eficiente de guardar segredos entre milhões de usuários.

Na minha aventura para tentar criar um hábito de escrita tenho percebido algumas coisas que funcionam e outras nem tanto, por exemplo:

– Tenho déficit de atenção (e já fugi de um médico que queria medicá-lo) e talvez isso explique a dificuldade de me concentrar na presença de distratores, especialmente vozes e coisas que brilham: televisão, rádio, gente conversando. Silêncio, solidão e tranquilidade são compulsórios para conseguir encadear os pensamentos. Felizmente estou conseguindo me isolar o bastante (acho que algumas pessoas entrariam em pânico com essa afirmação).

– Tenho hiperfoco e uma dificuldade incrível de dividir tarefas. Quando preciso pausar o processo de escrita para fazer outro trabalho, a retomada é quase sempre sofrida, perco muito tempo relendo e editando, e acabo recomeçando tudo de novo. É extremamente contraproducente e ainda não encontrei uma solução para isso.

– Não dá simplesmente para sentar e escrever, é preciso organizar as ideias primeiro, entrar no clima da narrativa… Difícil encaixar as preliminares quando só se dispõe de uma hora por dia. Nesses casos faço anotações, edito, mas sei que não vai ser produtivo tentar escrever com pouco tempo disponível.

– Prazos funcionam! Alguns dos textos mais complicados que produzi saíram a fórceps por conta de deadlines impostos por editores, organizadores, concursos… Reconheço que um editor-capataz estalando o chicote poderia aumentar muito minha produtividade. Apesar disso, não gosto muito de trabalhar com prazos. Nem de chicotes.

– Luminosidade: não há nada que me deprima mais do que ver o sol alto na minha janela, mas a noite é perfeita, serena, silenciosa, dá uma sensação confortável de tempo ampliado, e há aquele ligeiro cansaço que torna a cadeira mais confortável de sentar. Escrever demanda muito do cérebro, obviamente, mas pouca gente considera que exige muito da bunda também.

– Praticar exercícios (corrida ou natação) horas antes de escrever ajuda bastante a manter corpo e mente relaxados, mas se exagerar eu fico cansada e com sono. E o pior de tudo: continuo com o físico de escritora.

– Criatividade tem a ver com tesão. Não sei explicar – ou até sei, mas não me pergunte – sinto que o exercício de criar está bastante vinculado à libido. Tá bom, tá bom, eu explico… É mais gostoso mergulhar numa narrativa quando você se apaixona pelo personagem. Fácil de entender.

A verdade é que sou bastante indisciplinada enquanto escritora, e vou ter que dar um jeito de me encontrar dentro do meu próprio caos se quiser produzir. Acho que vou conseguir em algum momento, e gente me cobrando não falta… Para quem está na aventura de tentar criar um hábito de escrita, minha solidariedade. E apesar de toda a autoindulgência, pelo menos considere o conselho do E.B. White:

O escritor que espera por condições ideais para trabalhar vai morrer sem colocar uma palavra no papel.

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Dicas do George R.R. Martin para escrever

fevereiro, 17 - 2014

Eu ainda não havia lido nem sequer uma linha escrita pelo George R.R. Martin quando o conheci no Worldcon de 2010, na Austrália. Naquela ocasião, a série Game of Thrones da HBO estava para ser lançada, e a sua divulgação era provavelmente a notícia mais importante do evento.

Como palestrante caída de paraquedas, passei várias horas no chamado “green room”, uma salinha onde os escritores se encontravam para conversar e tomar café, geralmente antes das mesas redondas e apresentações. A maior atração do green room para mim, claro, era a oportunidade de observar e interagir com uma fauna de escritores muito mais experientes do que eu… tipo o George R.R. Martin. Vendo-o por lá, pensei “se eu não comprar um livro para ele autografar agora, sei que vou me arrepender um dia”. Então corri para comprar uma edição de bolso de Game of Thrones e voltei para pedir um autógrafo, meio assim, na cara de pau, e ele foi super gentil.

Três anos e cinco livros devorados depois, sou fã do Martin e acho-o um grande exemplo de que quantidade e qualidade podem sim vir acompanhadas. Reconheço que há muita gente talentosa escrevendo fantasia, hoje existem mais bons escritores do que é possível um leitor voraz acompanhar. Em meio a toneladas de obras dignas de nota, a série A Song of Ice and Fire se destaca por muitos motivos: a grandiosidade de seu universo, a variedade, a verossimilhança, a ausência de clichês e de maniqueísmo, a trama ambiciosa, personagens interessantes…

São muitos motivos que justificam que – se você também é um escritor de início de carreira – ouça essas dicas do Martin. Algumas delas explorei no meu Guia de Primeiros Socorros para o Escritor Iniciante, como “comece com contos, não vá querer escrever logo uma trilogia…” Outras me pareceram menos óbvias como “não exagere na dose de dor” (ainda vou refletir sobre isso!)… E todas são valiosas, leia!

A íntegra está no blog Game of Thrones BR.

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Entrevista saindo do forno

fevereiro, 11 - 2014

Concedi uma entrevista ao Davi Paiva, do blog Espada Arco e Machado falando sobre meu livro, Fábulas do Tempo e da Eternidade. Em 2014 fará 6 anos do lançamento! O que é uma notícia que – eu sei, eu sei – pode cair meio esquisita porque eu não lancei mais nenhum livro de autoria exclusiva nesse tempo todo, nem tenho data prevista para quebrar esse jejum prolongado de publicações.

Mas a entrevista!

O interessante em falar de um livro que você escreveu 6 anos depois é que, nesse tempo, sinto que já existe um distanciamento da obra que escrevi. É quando você começa a achar que teria feito algumas coisas diferentes (acho que poderíamos cunhar um termo: “síndrome de J.K. Rowling?).

Enfim, aqui está o link para a entrevista. Agradeço ao Davi pela oportunidade 😉