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Mulheres, mulheres, mulheres…

março, 8 - 2014

Vou falar de mulher para mulheres (os rapazes não se sintam excluídos, falo também para a mulher dentro de cada um de vocês).

Outro dia uma amiga me presenteou uma palavra que eu desconhecia: sororidade. Segundo minha amiga, sororidade é o sentimento e a atitude de fraternidade feminina, ou seja, o sentimento de irmãs. Se você fizer uma pesquisa no vocabulário (VOLP) verá que é uma palavra que não existe oficialmente na língua portuguesa. Procurei no dicionário e encontrei “sororicídio” (assassinato de uma irmã), mas nem sinal da sororidade, pobre desconhecida. É uma palavra que faz muita falta, portanto a incorporei no meu vocabulário pessoal e pretendo mimetizá-la por aí, incluí-la nos livros que escrever. Aliás, a amiga que me deu essa palavra de presente eu considero uma irmã. Sou filha única, então tenho que adotar.

Sororidade é necessário porque o mundo estranho em que vivo sempre repetiu para mim que mulheres são criaturas não apenas fracas, mas desunidas.

Uma vida de filmes hollywoodianos, telenovelas, e inúmeras formas de convívio social cotidiano me plantaram (ou enfiaram goela abaixo, para ser mais técnica) a ideia de que mulheres competem entre si, de que se invejam e se esnobam mutuamente, de que amizades femininas são falsas ou frívolas, de que não são capazes de lealdade umas para com as outras, de que não se unem por lutas ou ideais comuns, de que não dão o devido reconhecimento às suas colegas, de que não arriscam a pele por uma companheira…

Essa ideia de desunião inata, não apenas é uma falácia, é extremamente desmoralizante.

No entanto, a propaganda funcionou em uma grande parte dos casos. Quantas mulheres com as quais convivo, algumas até bastante próximas, não julgam outras por ir e vir, por saírem com quem quiserem, por serem livres com seus corpos e cabeças? Quantas conheço não poupam desconfiança, e viciam os dados para sempre tecerem uma avaliação negativa da outra?

Minha resposta pessoal é a recusa total em agir, pensar desse modo, ou mesmo tolerar esse discurso.

Alguém há de argumentar que no meu caso é mais fácil, pois eu gosto de mulheres de todas as formas possíveis. Na verdade, eu me vejo corriqueiramente no complicado jogo da ausência de reciprocidade – gostar mais do que ser gostada, respeitar mais do que ser respeitada -, mas isso não importa realmente. Sinto que devo ser solidária mesmo para com mulheres que são elas mesmas machistas – preciso não ser machista por elas, sei que não há nada mais triste do que viver com um preconceito internalizado.

Em um mundo onde mulheres ainda vivem em clara desvantagem – são a maior parte das vítimas de estupro e de violência doméstica, são bombardeadas por padrões impossíveis de beleza, são objetificadas, têm sua sexualidade vigiada, não são completamente donas de seus corpos, nem sempre são estimuladas a desenvolver suas habilidades, não têm representação política proporcional, são minoria em muitas áreas de atuação etc. – uma das piores, a cereja do bolo, é a ideologia da autossabotagem recíproca.

Portanto, moças, meus pedidos mais sinceros é que sejam solidárias umas com as outras.

Sejam cordiais.

Reconheçam as capacidades e méritos de suas colegas.

Não estimulem a mentalidade de divisão, nem de competição onde ela não existe.

Não aceitem ser julgadas por serem mulheres, nem julguem às outras.

Estimulem as habilidades de meninas e meninos sem importar onde foram colar os rótulos azuis e os cor-de-rosa.

Ajudem outras mulheres a conquistarem seus próprios territórios, construírem suas próprias obras, escreverem suas próprias histórias.

Ponham a mão no fogo por suas amigas.

Ajudem outras mulheres a serem livres!

E mesmo se vocês não lembrarem mais dessa palavra rara, sororidade, levem consigo o significado.

10 comentários

  1. Parabéns Cris, excelente texto ! Mensagem forte passada com clareza, serenidade e aquela lucidez de sempre.


  2. Uma linda mensagem a ser propagada. Gostei🙂


  3. Cris, você deu voz (ou letras), a algo que tem me incomodado. Embora já conhecesse a palavra sororidade, essa coisa das “inimigas, as invejosas, a recalcadas” tem me dado nos nervos. Belo post.


    • É mesmo, tenho percebido que essas ideias das “inimigas” têm circulado demais, embora eu não soubesse situar a origem (funk, suponho?).
      Seu texto de hoje também deu voz a angústias entranhadas, Nikelen. Estamos juntas nessa luta. Obrigada!


  4. Solidariedade feminina. Por que não?🙂


  5. Olá Cris. Eu conhecia a palavra. E o preconceito também em relação às mulheres sobre suas “falsas amizades”, que eu mesmo alimentei por acreditar nisso muito tempo. Trabalho há alguns anos num ambiente que tem 75% de mulheres inclusive em todas as posições de chefia, num órgão público extremamente cheio de intrigas. Lá é um oásis neste mar de intrigas, desmentindo justamente este preconceito. Não há paredes. Há colaboração.


  6. […] a escritora Cristina Lasaitis nota que o VOLP registra sororicídio (o assassinato de uma irmã), mas não soror…. Emblemático. Resolve isso, […]



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