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1964

março, 31 - 2014

O 31 de março que foi, na verdade, um duradouro primeiro de abril, hoje faz 50 anos do golpe de 1964, que deu início à ditadura militar no Brasil. Esse é um tempo que eu não vivi – *ainda bem* – mas que determina algo em minha vida. Posso dizer que sou filha da ditadura: meus pais viveram a adolescência, a juventude e a vida adulta ao longo de 21 absurdos anos do regime militar. Sinto que esse período esculpiu em partes a personalidade e o modo de pensar deles – nem autoritários, nem politizados, nem rancorosos, pelo contrário, senti que meus familiares atravessaram a ditadura como quem atravessa um longo sono, sem se dar muita conta do que acontece lá fora. Emergiram desse sono estranhos à ideia de status quo e liberdade de expressão.

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Eu nasci nesse período: em 1983 já havia sido promulgada a lei da anistia, mas ainda era ditadura. A democracia estava longe. Vivi uma lasquinha da ditadura que sequer foi registrada na minha memória. O primeiro presidente de que me lembro se chama Sarney (uso o tempo presente, por razões óbvias). Quando era criança, testemunhei a primeira eleição presidencial sem fazer ideia de que era a primeira em muitos anos. E venceu logo o Collor! Ainda lembro do dia, quando tinha 6 anos, em que meu pai foi me buscar após a saída da escola e, entrando no carro, ele me contou muito seriamente: “o presidente roubou nosso dinheiro”. Isso é triste e desmerecido: depois de um jejum tão prolongado de democracia e eleições diretas, colocar no poder um presidente desastroso!

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1964 foi o início do nosso 1984, bem ao modo do pesadelo distópico de George Orwell; se fizer um exercício comparativo, verá que os paralelos são fascinantes. Ironicamente, a ditadura termina ao passar do ano de 1984. Na minha cabeça, pelo menos, 1984 e 1964 se solapam e entrelaçam sinapticamente, como ficções-realidades arquivadas nos mesmos neurônios.

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Faz 24 anos que vivo na democracia – uma democracia pluripartidária em que pouquíssimos partidos “de verdade” (isto é, que fazem política para a sociedade) restaram. Uma democracia em crise de representação, frágil, meio bamba e zarolha, mas a parte boa é essa: uma democracia para se abraçar e tentar esculpir segundo a forma ideal.

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Quero viver para ver os cem anos do golpe militar. Espero despertar no dia 31 de março de 2064 e me lembrar do dia 31 de março de 2014 quando escrevi este texto. Espero fazer um exercício comparativo e verificar se os tempos não me decepcionaram, se cem anos depois, a ditadura que meu país viveu não se parecerá mais com o fóssil de um absurdo distante das eras pré-civilizadas. Talvez as crianças de 2064 olhem para esta velha e sintam o que senti perante os velhos da minha infância remota, que conheceram e conviveram com os ex-escravos do Brasil – “lamento por você ter vivido em tempos tão primitivos”.

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Esses são meus sentimentos. Geração que viveu na ditadura, lamento muito, ninguém merecia passar por isso. Honremos a memória, para que fique sempre assim, em forma de memória. Para que a realidade não nos sabote outra vez.

3 comentários

  1. Os anos iniciais da ditadura foram os anos da minha infância e os anos mais felizes de minha vida… Repressão política? Existiam eleições.. para vereadores e tínhamos dois partidos só, o partido do sim e o partido do sim, senhor. Repressão cultural? No cinema do meu bairro, que hoje virou igreja evangélica, “Nosferatu” do Herzog fazia as filas darem volta no quarteirão e Bertolucci, Truffaut estavam sempre em cartaz. Creio que para quem não era da militância política direta, o Brasil era, como diria o. Roose Bolton “uma terra calma com um povo tranquilo”.


  2. Duas historinhas de quando eu era moleque. No tempo que meu avo escondia comunistas, ele um dia contou uma historia engraçada. Ele havia escondido, com a ajuda do padre, um comunista ateu nos fundos de um seminario local, onde os futuros sacerdotes estudavam, que naturalmente foram conversar com o ” perigoso comunista ” que convenceu um deles a abandonar a religião e se tornar ateu. Foi um escandalo enorme para a paroquia, os bons-costumes, as pessoas de bem, a moral,etc.Dai meu avo alem de dar uma bronca no comuna, teve que arrumar as pressas outro esconderijo….


  3. Algum tempo depois tivemos que nos mudar pois alguns caras andaram perguntando do meu avo e do meu pai nos butecos que eles frequentavam, dai fomos para uma cidadezinha perdida no interior do Parana onde tinhamos alguns parentes. E meses depois, eu estava jogando bola no campinho ao lado da igreja quando um fusca branco parou no bar do pai do meu amigo Raul do outro lado da rua e um cara barbudo e cabeludo desceu do veiculo, olhou pra nós, coçou o saco, e entrou. Mas a bola estava vindo na minha direção e eu estava no gol, entao voltei a prestar atenção na partida, quando o Dero com uma boa jogada mandou a bola novamente para o campo adversario. Encostei novamente na sombra da trave relaxando e vi o carro sair acelerando e o Raul correndo atraz. Depois soube que o cara barbudo roubou umas bandejas de anéis de vidro e latao e fugiu, sem pagar a cerveja. Uma semana depois soubemos que era o Zé Dirceu em seu auto-exilio no interior. Filho da p…!! tanto lugar no Brazil e tinha que escolher justamente onde minha familia estava. Mas a dita-dura estava no fim e um ano depois voltamos para a cidade grande.



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