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Meu corpo, meu território, minha lei.

outubro, 24 - 2015

Nenhum artigo, inciso ou portaria pode alterar minha atitude de soberania sobre o que me pertence por natureza. Não sou especialista em direito, mas sei que nem tudo o que é legal é legítimo. E não existe outra lei sobre o corpo a não ser aquela que vigora nas fronteiras das minhas entranhas.

Percebo que é egoísta falar por mim com tanta segurança, enquanto a maioria das mulheres deste país detêm menos poder sobre suas vidas e menor autonomia sobre si mesmas. Gostaria de transferir-lhes minha convicção, mas só posso oferecer minha intransigente e sincera sororidade: serei sempre irmã e parceira de outras mulheres na guerra pela defesa desse território objeto de tão raivosas disputas e regulações – os nossos corpos. (É claro que a defesa é de todos que têm um corpo em litígio. Por isso falo sobre as mulheres, para as mulheres e pelas mulheres principalmente).

O direito total sobre sua reprodução.
O direito de modificar o corpo como bem entender.
O direito de não submetê-lo a terapias e procedimentos forçados.
O direito de decidir quando não se quer mais viver.

O corpo é laço para as futuras gerações ou ponto final na história. Meu corpo delimita a vida e a morte, extremamente minhas, para que eu as experimente e as consuma sozinha.

Meu corpo não está isolado, mas encadeado numa rede de ações para dar a outros corpos sua carta de alforria. Meu corpo é o meu manifesto de desobediência civil a toda lei que pretende regulá-lo, porque no meu território tais leis não apitam nem fazem eco. São vazias.

Suponha que esta é uma resposta rebelde, mas não há nada mais tranquilo do que uma verdade interior. No fundo, não interessa o que é legal ou ilegal quando vigora no nosso íntimo o conhecimento do que é legítimo. E quando sabemos o que é legítimo, nos autolegislamos.

E, ainda assim, não há nada mais subversivo do que dizer: “Meu corpo me pertence. Deito, rolo, faço com ele o que quiser.”
E nada mais criminoso do que pactuar: “Tens a minha ajuda para que no teu corpo seja feita a tua vontade.”

Assim colocado, desfilo meu samba nos gabinetes de vossas excelências e anuncio:
– Meu corpo me pertence, sabiam ?

Sou livre. E agora venham me prender se forem capazes.

6 comentários

  1. Bom ver essa famosa assertividade de volta em um texto seu. Abraços.


  2. parabéns!


  3. Havia tempos não lia um texto tão inspirado e LEGÍTIMO.


  4. Republicou isso em Camila Fernandese comentado:
    Um texto inspirado, inspirador e LEGÍTIMO.


  5. […] Autora: Cris Lasaitis. […]


  6. E segundo você isso te dar o direito de destruir o corpo de outro que, por pura desgraça, está ligado ao seu. A pura e asquerosa hipocrisia de uma defensora do assassinato de inocentes.



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